Notas iniciais
Hey hey hey! Aqui está finalmente o último capítulo do arco (que também é o maior de toda a fanfiction). Apesar de seu clima, eu gostei de escrevê-lo por já estar ansiosa para chegar até. Queria muito mesmo ter dado foco a outros personagens, mas aí o capítulo ficaria gigante e isso não é legal. Quando eu vi 5.000 no contador pensei "Wow! Não cabe mais ninguém nessa bagunça", então fui direto pro final. O próximo será a OVA, e logo depois começará o penúltimo arco antes do time-skip (e depois deste ainda terá mais um arco, então, sim, vocês não vão se ver livres de mim tão cedo). Mas tem um aviso: como eu estarei participando do Desafio desse mês, eu me focarei mais nele. O que quer dizer que a OVA pode demorar pra sair. Sorry. Enfim, fiquem com o capítulo!

Diego estava tão triste com a morte de Hayato que quase perdeu o show de luzes que veio logo depois de sua mãe levar a alma do garoto para o Mundo Celestial.

O chão tremeu e várias luzes começaram a subir para o céu: as almas boas que estavam injustamente aprisionadas no Submundo. Milhares delas subiram ao mesmo tempo, criando um efeito espetacular. Em algum momento, Luke gritou “Cate!”, mas todos estavam tão fascinados que quase ninguém percebeu. Diego acabou se sentindo feliz por todas aquelas almas. Estariam sob os cuidados do ser mais gentil e carinhoso que ele já conhecera: sua mãe.

Quando todas as almas boas chegaram ao Mundo Celestial, o grupo continuou parado no mesmo lugar por um instante. Kazuo tomou a iniciativa de tirar o corpo de Hayato dali. Eriol ajudou Gabriel e Diego a se levantarem. Yume consolou Nadeshiko, e Deivid não saiu do lado dela em momento algum.

Kouji já estava consciente quando voltaram a Cait Shelter. Kazuo se encarregou de dar a notícia da morte Hayato e repetir suas últimas palavras aos irmãos. Kouji pareceu ficar mais com raiva do que triste, e pediu para ficar sozinho. Diego teve a sensação de que ele só estava se fazendo de forte na frente de todos.

Gabriel contou ao irmão o que havia acontecido no Submundo. Ao fim da narração, Nadeshiko pareceu ter percebido alguma coisa, mas não falou nada. Os membros da Cait Shelter se ofereceram a levar o corpo de Hayato para o cemitério de Magnólia com sua carroça. Ninguém recusou a oferta.

Todos descansaram nos dormitórios da guilda, principalmente os que haviam desmaiado no Submundo. Após terem repousado o suficiente e enfaixado as feridas, pegaram carona em uma das carroças e voltaram para Magnólia.

E ali estavam agora, no enterro de Hayato.

Ninguém ouvia nada a não ser as várias gotas de chuva se colidindo com o chão ao mesmo tempo. A maioria dos Aliados estavam presentes. Os mestres das guildas também forma para prestar homenagem. Mestre Kevin, da Pegasus, sofria com a perda de uma de suas crianças. Kazuo e Kouji estavam mudos e com os rostos inexpressivos, mas não precisava ser um gênio para saber como se sentiam por dentro. Nadeshiko ainda deixava algumas lágrimas finas escaparem. Gabriel secava os olhos sempre que eles começavam a marejar. Diego não tirava os olhos do túmulo e das flores ali deixadas. Mas Ethan nem se dera ao trabalho de comparecer. Talvez fosse melhor assim.

Em certo momento, Gabriel perguntou a Diego se ele queria dizer algo. Ele negou com a cabeça. Kouji foi o único a aceitar.

Posicionando-se de frente para o grupo, ele demorou um pouco para começar a falar. Ninguém o apressou.

– Minha relação com Kenta... Eu sempre vou me lembrar dele com esse nome... Ficou complicada com o passar dos anos. Nós nunca conseguíamos nos entender, sempre acabávamos discutindo por algo. Nunca mais voltamos a ser aqueles irmãos que brincavam todos os dias que éramos quando pequenos. Simplesmente nos afastamos. Eu sempre o chamava de bastardo, de idiota... E no fim, vi que estava errado. Kenta foi o mais esperto de nós ao deixar de confiar em Ethan e se voltar contra Rector. E agora, somente agora que eu o perdi, consigo vê-lo como um irmão de verdade. – Ele fez uma pausa, olhando fixamente para o túmulo. – Kazuo disse que ele pediu perdão antes de morrer. Mas quem deve um pedido de desculpas a ele sou eu. – Kouji piscou para afastar as lágrimas que ameaçavam escapar. – Vou sentir sua falta, irmão.

. . .

Nick notou que Hearther se afastara depois do discurso de Kouji e a seguiu.

Ele também havia sentido com a morte de Kenta – ou melhor, Hayato. Eles foram colegas de guilda por alguns anos antes do loiro ir para a Fairy Tail. Mesmo que os irmãos Nakamoto nunca o tivessem aceitado como um membro da Pegasus simplesmente pelas roupas que ele usava, Nick não guardava mágoas. Além do mais, se Hayato não o tivesse alertado sobre Kouji, Nick não teria chegado a tempo de impedir o mesmo de ativar o Level 3, e talvez os membros do Grupo 4 nem estivessem mais ali. E era graças a ele que o mundo mortal continuava inteiro e as almas boas podiam finalmente repousar no Mundo Celestial. Hayato foi um herói.

Mas ele se preocupou com a irmã e não pôde deixar de ir ver onde ela estava indo.

Hearther parou diante de três túmulos e colocou uma flor em cada um. Já havia outras flores murchas neles. Nick os reconhecia; ele mesmo tinha colocado flores em dois daqueles túmulos. Ali estavam enterrados Joshua e Emily Evans. Mas nunca reparara no terceiro. De quem seria?

O mago de gelo não precisou se aproximar muito da irmã para que ela o notasse.

– E aí, irmãozinho?

– O que faz aqui?

– Só vim colocar flores novas para nossos pais. – Hearther o encarou com uma sobrancelha arqueada. – São nossos, certo?

Nick sorriu.

– Certo.

– Que bom.

O loiro se posicionou ao lado de Hearther e fez uma rápida oração aos seus pais. Após isso, virou-se para a irmã.

– E esse terceiro túmulo é de quem?

A moça olhou para a lápide com um olhar melancólico.

– É por causa dele que você foi aceito tão facilmente lá em casa.

Nick não entendeu. Ela fez um gesto para que ele se aproximasse para ler o que estava escrito na lápide.

Aqui jaz Harley Evans

X835 – X836

– Harley? Quem é esse?

– Meu outro irmão – respondeu Hearther.

Nick surpreendeu. A irmã nunca lhe falara sobre Harley. Não sabia que seus pais tiveram outro filho biológico depois dela. Mas a data da morte dele...

– Ele só viveu um ano?

Hearther assentiu.

– Eu tinha seis anos quando ele nasceu, mas me lembro tão bem... Os olhos eram verdes como os seus, que brilhavam sempre que ele olhava pra mim. Ele sempre mexia as mãozinhas como se quisesse brincar com todas as coisas a sua volta. Tinha bochechas tão fofas que dava vontade de apertar o tempo todo...

Ela respirou fundo. Nick ouvia atentamente.

– Ele era muito lindo e estava sempre sorrindo. Não dava pra perceber que tinha uma doença no coração.

Hearther baixou a cabeça. O rapaz apressou-se em segurar sua mão no intuito de confortá-la. A moça esboçou um breve sorriso.

– Quando tinha um ano, a doença se agravou e ele teve que ser internado. O tratamento era muito caro, e nossos pais não tinham o dinheiro necessário. Então eles aceitaram um trabalho difícil, com uma recompensa ótima. O dinheiro que receberiam era o necessário para pagar o tratamento. E eles iam conseguir: nossos pais formavam uma dupla perfeita.

– E o que aconteceu?

Hearther pareceu precisar de muito esforçar para conseguir responder à pergunta.

– No dia em que eles sairiam para realizar a missão, eu peguei um resfriado muito forte. Eles não podiam deixar de fazer o trabalho, então mamãe ficou em casa para cuidar de mim enquanto papai ia para a missão. Mas foi difícil demais, tinha inimigos demais para papai vencer sozinho... Ele voltou pra casa sem o dinheiro da recompensa. Havia falhado.

Uma lágrima escorreu de seu rosto. Hearther não se preocupou em enxugá-la.

– Eles não conseguiram juntar o dinheiro dos outros trabalhos a tempo. Harley não resistiu.

Nick sentia a irmã tremer de leve. Mesmo se passando tanto anos, era óbvio que ela não havia conseguido superar a perda do irmão biológico.

– Papai e mamãe nunca conseguiram aceitar sua morte. Mamãe passava horas no quarto de Harley. Papai se culpava por não ter conseguido completar aquela missão e conseguir o dinheiro. Então, quando você apareceu, foi como se eles tivessem conseguido uma segunda chance. Dava para ver que eles sentiam isso, sabe? Sua chegada foi como uma benção. Uma pena eles não estarem aqui para ver como você cresceu.

Hearther sorriu para o irmão, mas foi por apenas um breve momento. Ela soluçou e voltou a olhar para o túmulo.

– Se eu não tivesse ficado resfriada...

– Ei, Harley não morreu por sua causa. Você não podia fazer nada para evitar aquilo, podia?

– Bem, eu podia parar de brincar na chuva.

Na tentativa de dar uma risada forçada, ela acabou soluçando ainda mais.

– Eu já ouvi isso antes. Mas simplesmente não dá pra evitar o sentimento de culpa. É forte demais.

Nick se calou. Imaginou que era assim que Diego se sentia com a morte de Hayato. Seria inútil tentar convencer Hearther que a culpa não tinha sido nem dela nem de ninguém.

– Desculpe, maninho, mas eu preciso ficar sozinha um pouco.

O loiro assentiu. Beijou a bochecha da irmã e foi ao encontro do resto do grupo.

. . .

Aiko também se afastara do enterro. Queria visitar os túmulos de Gray, Juvia e Lyon; as três pessoas que ela mais amara estavam enterradas lado a lado.

Ela deixou uma flor para cada um e orou pelos três. E então, Isaac surgiu em seus pensamentos.

A garota não conseguia perdoá-lo por ter matado seu avô – o que levou à morte de Juvia –, mas podia entendê-lo. Isaac tivera uma infância difícil; Aiko também. A morte dos avós a fez crescer prematuramente. Lyon às vezes dizia que ela era madura demais para a idade, e estava certo. Quando ele morreu, Aiko mal chorou. Às vezes achava que tinha algo de errado com ela.

– Quer companhia?

Não era preciso se virar para saber que era Koichi quem estava ali.

– Está me seguindo agora?

– Você saiu de repente. Fiquei preocupado.

– Nada contra esse Hayato, mas tenho pessoas mais importantes para visitar.

– Eu entendo isso.

Koichi aproximou-se mais de Aiko e ficou de frente para os túmulos e fechou os olhos, fazendo uma rápida oração. A garota achou o gesto bonito, mas não falou nada.

Afinal, o rapaz abriu os olhos e olhou para o céu nublado. Uma chuva poderia cair a qualquer instante.

– Já imaginou se eles pudessem voltar?

Aiko já imaginara, sim. Milhares de vezes. Seria maravilhoso se seus avós voltassem à vida de uma hora para a outra, se ela pudesse voltar a ganhar aqueles abraços calorosos sem nenhum motivo aparente, se pudesse se divertir com eles novamente... Mas, claro, as imagens de como seria sua vida se eles estivessem vivos ficariam eternamente apenas em sua mente e em seu coração. Não era possível trazer os mortos de volta.

Mais uma vez ela quis socar Isaac até seus punhos se quebrarem.

– Você já perdeu alguém que amava? Um parente ou algo assim? – Perguntou a garota.

– Bem, meus pais meio que me rejeitaram, então acho que posso dizer que os perdi – respondeu Koichi.

– É sério isso?

Ele assentiu.

– Bem que eu gostaria que fosse brincadeira. Eles não gostaram da ideia de eu entrar para uma guilda; achavam que magia era perda de tempo e que era mais importante se dedicar ao máximo aos estudos. Então fugi de casa. Prefiro aprender na prática a aprender na teoria.

– Mas não acha que eles estão preocupados com você?

– Acho que não. Eles nunca foram pais exemplares. Não têm o direito de dar uma de responsáveis e amorosos logo agora.

– Koichi... São seus pais. Sua família.

O rapaz olhou para a amiga com um sorriso.

– Aiko, vocês são minha família agora. E sei que vocês não vão me rejeitar pelo que eu sou, então estou bem.

Ela retribuiu o sorriso. A Eletro Magic podia ser a guilda mais nova de Fiore, mas seus membros já compartilhavam laços tão fortes como se fossem amigos há anos. E entre Aiko e Koichi não era diferente.

– É claro que não vamos rejeitá-lo.

O rapaz colocou o braço em torno de seu pescoço. Os dois ficaram parados ali, diante dos túmulos de Gray, Juvia e Lyon, sem se importar com a chuva que começava a cair.

. . .

Não importava quanto tempo se passasse; o sentimento de culpa não sairia do peito de Dante.

Em um só dia, matara quatro pessoas, contando com os membros da Oracion Seis. Sabia que deveria se sentir mal por ter matado companheiros de sua antiga guilda, mas nunca se importou de verdade com isso. Mas a morte de Midori...

Ele sabia que Yume e Ammy não o culpavam por ter assassinado sua mestra. Quem o culpava era ele mesmo. Dante matara uma pessoa importante para duas de suas amigas. Como poderia se perdoar por isso?

Duas flores foram colocadas ao lado da que o rapaz colocara antes. As Dragon Slayer do Ar e da Terra.

– Sabia que estaria aqui – disse Ammy.

– Eu não podia deixar de vir.

Yume acabou de rezar e se virou para Dante.

– Não foi culpa sua.

O rapaz baixou a cabeça.

– O fato de ter sido em legítima defesa não nega que eu a matei.

– Mas você não pode se torturar por causa disso – retrucou Ammy.

– Eu não me torturo. Só não consigo esquecer.

Ammy tocou seu ombro e começou a rezar também. Dante esperou ela terminar para perguntar às duas:

– Como era a Midori?

As garotas se entreolharam e sorriram. A Dragon Slayer da Terra começou:

– Ela era bondosa e fiel. Do tipo que nunca deixa ninguém na mão e que sempre ajudar a todos.

– E tinha muito bom humor – continuou a Knightwalker. – Não dava pra ficar magoado perto dela.

– Mas também era sabia ser séria e severa nos treinos. Jamais pegou leve com a gente, a menos quando ficávamos muito cansadas.

– Também tinha um senso de justiça enorme. Odiava quando via alguma injustiça, mesmo que não tivesse nada a ver com ela.

– E tinha um ódio profundo pelas Dark Guilds e por pessoas que manipulavam as outras. Queria melhorar o mundo, acabar com as pessoas más. Por isso foi até a Orácion Seis naquele dia.

Dante sorriu imaginando a pessoa que elas descreviam. Se ela estivesse viva, ou se houvesse qualquer forma de se comunicar com espíritos, ele a agradeceria por ter se arriscado tanto para tirá-lo das garras de Klodoa.

– Parece que ela era uma ótima pessoa.

– Sem dúvidas – disse Yume.

Mesmo com a chuva ficando cada vez mais forte, o garoto teve certeza de que seus olhos estavam marejados. Os de Ammy, percebeu, estavam do mesmo jeito.

Pelo visto, não era só a culpa de Dante que seria permanente. A saudade que as garotas sentiam pela mestra também. Porque algumas pessoas simplesmente não saíam da memória daqueles por quem passava. E não importava se ela estava presentes todos os dias na vida de uma pessoa ou se só a conhecesse em seu fim.

Yume secou os olhos.

– E ela também detestava ver alguém chorando, então não podemos fazer isso aqui.

Ammy fez o mesmo. Pensando bem, Dante nunca a vira naquele estado.

– Tem razão. Vamos contar piadas e dar umas boas gargalhadas. Isso a deixaria feliz.

. . .

Satoshi e Ruby não compareceram ao enterro de Hayato.Queriam deixar flores para outras pessoas.

Após passarem na cidade próxima ao vilarejo de Satoshi para ele visitar Kagura, seus pais e os outros no hospital, eles foram até o canteiro de flores onde Leonard Casterwill havia sido morto e enterrado ao lado de Mathias. A ideia de deixar os dois lado a lado em um lugar tão importante para Leon fora de Ruby. Ela e Saphire se encarregaram de fazer isso enquanto Satoshi e Ankamy descansavam

Assim que chegaram, o de cabelos azuis ajoelhou-se diante da lápide improvisada de Mathias e deixou sua flor sobre o túmulo. Ruby se abaixou ao seu lado para deixar a flor para Leon. E então ficou olhando fixamente para seu nome gravado na pedra, alheia a tudo ao seu redor, como se estivesse se lembrando de cada momento que passara com o irmão até o momento de sua morte. Satoshi desviou o olhar e voltou a atenção para o que estava a sua frente. Desembainhou sua espada e a colocou diante da lápide. A alma de Mathias vibrou.

Ainda dá pra sentir meu corpo. Que estranho.

É mesmo?”, pensou o mago. Havia aprendido que era possível se comunicar com a alma guardada em sua espada telepaticamente. Ou seja, só ele ouvia Mathias falando, e Ruby poderia se deixar levar pelas memórias em paz.

Sério. É como se ele tentasse me atrair, só que não tem forças para isso.

“Você está se referindo ao seu velho corpo como outra pessoa”.

É. Acho que é mais ou menos isso. Satoshi, pode me virar para o lado de Leon?

O garoto obedeceu. Moveu rapidamente a espada para que o pomo ficasse de frente para o túmulo de Leonard. Mathias ficou quieto por algum tempo, e então disse:

Ambos sabíamos que isso aconteceria naquele dia. Leon estava pronto para morrer. Eu pensei que também estaria pronto para ver isso, mas não estava.

“É totalmente compreensível.”

Não, não é. Eu já tinha visto outras pessoas morrerem, já havia matado antes. Como podia não estar preparado para mais uma morte?

“É porque, dessa vez, era a morte de seu amigo.”

Outro silêncio.

Você tem razão.

Então, Ruby virou-se bruscamente, olhando para a alma de Mathias. Depois olhou para Satoshi.

– Ele pode me ouvir?

Ele assentiu. Ruby olhou novamente para o pomo da espada e sorriu.

– Obrigada por cuidar de meu irmão por tanto tempo. Ele me disse que você era como um anjo da guarda pra ele.

Mathias não respondeu. Nem para Ruby, nem para Satoshi. O mago sorriu para a amiga.

– Ele deve estar procurando algum comentário arrogante que deixe seu orgulho intacto, mas é só esperar um pouco para ele perceber que não existe nenhum.

Vá se danar, Tajiri, respondeu Mathias. Um breve momento depois, disse a Ruby: Seu irmão era meu melhor amigo. Meu único amigo. Protegê-lo era meu dever. E acredite, ele também me protegeu muitas vezes.

A garota sorriu, confirmando a Satoshi que ouvira a mensagem do antigo mercenário. Então ela colocou mais uma flor sobre o túmulo de Mathias e se levantou.

– Vamos pegar um resfriado se continuarmos embaixo dessa chuva.

Seu amigo a acompanhou. Quando se virou para ir embora, percebeu que Ruby continuava no mesmo lugar.

– Ruby, vamos ou não?

Ela não respondeu. Apenas fechou os olhos e começou a assoviar.

A alma no pomo da espada se agitou novamente.

É a mesma música que Leon tocava na flauta quando não tinha nada pra fazer.

Satoshi apenas a observou, ouvindo atentamente à música: bonita, mas um tanto triste. Causava uma leve pontada no peito, mas não era dor nem nada parecido. Não dava para identificar o sentimento.

Ao terminar, Ruby respirou fundo e se virou.

– Ainda vou aprender a tocar isso numa flauta.

E eles partiram rumo a Magnolia, sem perceber que as flores deixadas para os dois amigos mortos haviam ganhado mais cor.

. . .

Quanto tempo fazia desde a última vez que Yui estivera lá? Talvez uns sete anos. É, com certeza a última vez que ela havia visitado o local onde seus pais enterrados foi quando tinha dez anos, no dia de seu enterro.

Não era falta de consideração nem nada do tipo. Yui apenas não gostava de se lembrar que seus pais foram tirados delas de forma tão brutal: assassinados por membros de uma Dark Guild. Ela se lembrava bem daquelas semanas. Tinha sido deixada com o Mestre Taylor enquanto os dois partiam numa missão e estava na Fairy Tail quando recebeu a notícia. O Mestre tentou consolá-la, mas a garota ficou arrasada durante semanas. Enfim, a raiva venceu a tristeza, e com ela veio o desejo de eliminar todas as Dark Guilds. E não era algo que vinha num momento de raiva e desaparecia depois; aquilo se tornou um dos maiores objetivos de Yui.

E quando ela soube que a guilda mais cruel de todos os tempos, Realm of Darkness, estava de volta à ativa, não pôde deixar de procurar algum jeito de derrubá-la. Claro que não faria isso sozinha. Ela não era a única a querer o fim desses que faziam o mal.

A chuva já estava parando, mas mesmo assim alguém apareceu com um guarda-chuva para protegê-la das últimas gotas. Elijah.

Yo.

Yui sorriu para ele. A presença do amigo era, de certa forma, confortante.

– São seus pais? – Perguntou Elijah.

– Sim – respondeu a garota. – Senti que deveria visitá-los dessa vez. Já faz muito tempo que eles não recebem flores.

– Que tal comprarmos vários buquês para compensar todos esses anos de afastamento? – Sugeriu o usuário de Lightning Magic.

Elijah fora umas das únicas pessoas com quem Yui havia conversado sobre seus pais e o motivo de nunca mais ter ido vê-los no cemitério. Além dele, contara apenas para Felicity e Mortis, suas companheiras do Time Demon Angels e melhores amigas. Ele era um ótimo ouvinte. Elijah sempre teve a habilidade de tornar assuntos tristes menos pesados para a pessoa que os conta, sem fazer o uso de uma piadinha qualquer. Foi por isso que Yui se sentiu tão leve depois de contar para ele.

– Não é uma má ideia.

Elijah se virou para a amiga.

– Sabe, Yui, se você ainda estiver pensando nesse lance de destruir das Dark Guilds...

– Eu estou.

–... Ótimo. Eu quero ajudá-la. Quero derrubar a Phantom Lord.

– É onde seu irmão está, não é?

Ele assentiu.

– Eles mataram meus pais. Fizeram meu irmão ficar... Daquele jeito.

– E o que pretende fazer com eles?

Elijah se calou. Seu silêncio e sua expressão foram o bastante para Yui entender seu desejo.

– Você quer matá-los – ela concluiu.

– Isso aí.

– Elijah, como você pode querer matar alguém?

– Yui, não é como se eu fosse matar um inocente. Esses caras fizeram muito mal a mim, a Nadeshiko, e a muitas outras pessoas. Eles destruíram minha família!

– Mas matar é errado!

– Não. O que eles fizeram é errado – ele retrucou. A encarou em silêncio por um momento e disse: – E o que você acha que vai fazer com as Dark Guilds? Deixar todos vivos e esperar que o Conselho faça algo? E se eles fugirem da prisão?

Yui baixou a cabeça. Realmente, já houve muitos casos de criminosos que fugiram da prisão do Conselho. Mesmo assim...

– Não. – Ela balançou a cabeça. – Eu não posso sujar minhas mãos. Se fizer isso, estarei me rebaixando ao nível deles.

Elijah relaxou um pouco.

– Certo, você realmente não é o tipo de pessoa que mata as outras. Hum... Se bem que você também não parece ser do tipo vingativa.

– Eu não quero vingança. Só quero proteger o orgulho dos meus pais.

O mago arqueou as sobrancelhas. A moça riu.

– Ok, é vingança.

– Eu sei.

A chuva cessou de vez. Elijah recolheu o guarda-chuva. Alguns raios de sol começavam a surgir no céu.

– Então, vamos comprar as flores? – Ele perguntou.

– Vamos. Espero que esteja com dinheiro para me ajudar a comprar sete anos de buquês.

. . .

Felicity colocou a milésima flor sobre os túmulos de seus pais adotivos e começou a orar.

Quando ela fugiu de seu país natal, Veronica, pensou que não aguentaria muito tempo. Sabia que Fiore a aceitaria como uma maga, só não sabia como chegar até lá. Foi quando Gajeel e Levy a acharam.

Eles a adotaram depois da menina explicar sua situação. Por um tempo, eles foram uma família feliz... E então eles se foram, deixando-a sobre os cuidados de Mestre Taylor.

Felicity sentia muita falta deles, embora não tivessem passado tantos anos juntos quanto gostaria. Já perdera a conta de quantas vezes os visitou no cemitério ao longo desses anos. Sentia como se eles estivessem ao seu lado novamente.

A usuária da Nature Magic estava prestes a mergulhar mais uma vez nas memórias que tinha de seus queridos pais adotivos quando sentiu um toque no ombro. Deu um gritinho de susto.

– Te assustei, Fel?

Era Luke.

O cemitério geralmente era um ambiente absolutamente triste. Não só por ser o lugar que guarda corpos de tantas pessoas mortas, mas também por ser onde várias pessoas choram pela perda de seus entes queridos. Mas isso não afetava Luke. Ele continuava com seu sorriso charmoso de sempre.

– Claro que assustou! Você não tinha ido até os restos da sua vila?

– Eu fui, e já voltei. Vi que você não estava com o pessoal e comecei a te procurar.

– Por que você queria me achar?

O ruivo não respondeu. Apenas esticou a cabeça para ler os nomes nas lápides.

– Gajeel-san e Levy-san... Ah. Eles te adotaram, não é? Como eles eram?

– Ótimos. Papa era um pouco rabugento, mas muito protetor. Mama era muito carinhosa e gentil, além de ser muito inteligente.

– E seus pais biológicos?

Felicity olhou para Luke, depois baixou a cabeça.

– Não me lembro.

– Como pode não se lembrar de seus verdadeiros pais?

– Meus verdadeiros pais são eles – disse a garota de cabelos prateados, apontando para onde Levy e Gajeel estavam enterrados. – Os biológicos devem ter ficado mais aliviados por se livrarem da “maguinha maldita”, como o povo de lá me chamava. Sem eu, talvez eles tenham sido mais aceitos. Foi melhor para mim e para eles, afinal.

– Não fale assim, Fel. E se tiver acontecido algo com eles? Você não gostaria de saber?

A maga ergueu a cabeça novamente, encarando o amigo com um olhar sério.

– E se tivesse acontecido algo comigo? Acha que eles pensaram nisso? Luke, já faz sete anos desde que saí de Verônica. E até hoje eles não me procuraram, mandaram algum sinal, uma carta, nada. Eles não se preocupam comigo; por que deveria me preocupar com eles?

– Porque foram eles que te trouxeram ao mundo. E porque você deveria pensar na situação deles: talvez eles não tenham conseguido te encontrar. Talvez... Pensem que você já está morta.

Felicity respirou fundo, enxugando os olhos marejados. Claro que ela já tinha pensado nisso. Mas achava que por serem seus pais eles se esforçariam mais na busca. Pais de verdade não aceitariam alguém dizendo que era quase certeza que a filha estivesse morta, certo? Deveriam procurar por todos os cantos até ter total certeza de seu paradeiro, certo?

Ela suspirou. Alguns pais também não tinham recursos para rodar o mundo em busca de uma pessoa, por mais que fosse a filha desaparecida. E seus pais nunca foram muito ricos.

– Me sinto tão idiota quando você tem razão.

– Ei, o que você quer dizer com isso?

Fel riu da cara de Luke, que também acabou caindo na risada. O garoto estendeu os braços para acolher a amiga num abraço.

– Sabe, Fel... – Começou o ruivo.

– O que foi?

– Eu nunca fui realmente apaixonado por Cate.

– Você já disse isso.

– Por um tempo, eu pensei que o que sentia por ela era mesmo amor – ele continuou. – Mas aí eu te conheci melhor.

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes. Depois, Luke se afastou, beijou a testa de Felicity e segurou sua mão.

– Luke...

– Posso ficar aqui com você, conversando com seus pais?

Ela sorriu e apertou um pouco mais a mão do mago de fogo. Virou-se para os túmulos dos pais adotivos.

– É claro.

. . .

Apesar de Neko insistir em acompanhá-la, Nadeshiko quis ficar sozinha um pouco.

Ela não parava de se lembrar do dia em que conhecera Hayato – que para ela também sempre seria Kenta – e seus irmãos, quando tinha apenas cinco anos. Achara os três tão engraçados e tão unidos que acabou lhes dando o apelido de “Três Mosqueteiros”. Então, um dos mosqueteiros se foi e o trio se desfez. Para sempre.

Nadeshiko ainda se lembrava de como era Kenta naquela época: sorridente e brincalhão, a alegria brilhando em seus olhos. Como ele foi acabar daquele jeito, cheio de amargura e tristeza?

Ela deixou uma fina lágrima cair. “Ele simplesmente apagou da minha memória uma das pessoas que mais me feliz na minha vida toda”, Kenta lhe dissera em seus minutos finais. Nadeshiko não imaginava que tivesse tamanha importância na vida dele. E agora se perguntava se havia conseguido mostrar a ele o quanto o adorava.

Mas não era só isso que a deixava pensativa. Seu onii-chan tinha sido assassinado quando a Phantom Lord os encontrou e levou Nadeshiko com eles. Mas como? Até onde sabia, não houvera nenhum Dragon Slayer na Phantom desde Gajeel Redfox. Então... Como podiam ter matado Killua?

“Matar”. Seus pensamentos se desviaram imediatamente para Issei. Ele estava livre, pesquisando sobre a origem do DNA de Nadeshiko. Ela tinha quase certeza de que era mesmo de Natsu. Se Issei descobrisse que isso era verdade... Começou a tremer só de pensar na possibilidade.

Nesse momento, sentiu alguém depositar a mão carinhosamente em seu ombro, o que parou a tremedeira. Era Deivid.

– Não precisa ter medo do Issei – ele disse.

– Como sabe que estou pensando nisso?

– O que mais te faria tremer? Não está nem frio.

Nadeshiko o encarou por uns instantes e sorriu.

– Quem é você e o que fez com Deivid?

– Bem, eu tive que aprender algumas coisas com você.

– Que bom.

A garota sentia o rosto arder com a proximidade do Deivid. Felizmente – ou infelizmente –, ele se deu conta do que estava fazendo e se afastou um pouco, escondendo as mãos nos bolsos.

– Enfim... Você não precisa ter medo do Issei porque eu darei um jeito nele antes que ele possa fazer qualquer coisa – disse ele.

– Você precisa tomar cuidado com ele, Deivid. Issei é um monstro.

– Isso não me assusta. Já tenho meus próprios monstros.

Nadeshiko o encarou com uma sobrancelha erguida. Deivid percebeu e baixou a cabeça.

– Quando eu era pequeno, era como você. Gentil, meigo... Feliz. Amava meus pais, minha escola, minha cidade, tudo. Mas então...

Ele olhou de relance para a maga. A mesma assentiu com um singelo sorriso, indicando que podia confiar nela. Deivid pareceu relaxar um pouco.

– Quando eu tinha quinze anos, meu pai saiu numa missão de classe SS: procurar um dragão negro. E ele simplesmente sumiu. Se passaram cinco meses e nada dele aparecer. Eu já estava quase fazendo dezesseis anos quando ele voltou. – O garoto fez uma pausa. – Mas não era mais meu pai.

– Como assim?

– Digo, era meu pai. Mas ele não estava normal. Estava com o olhar vidrado, o corpo enrijecido. Nem me reconheceu quando passou por mim na rua. Ele foi direto lá pra casa, e eu o segui. Assim que viu minha mãe... A matou. – Outra pausa. Nadeshiko percebeu que ele estava fazendo um esforço enorme para não chorar. Imediatamente teve vontade de segurar sua mão, mas se conteve; ele não era o tipo de pessoa que gostava desse tipo de gesto. – E antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele se matou também. Foi aí que eu fugi. Comecei a odiar a tudo e a todos. Minha vida era perfeita e bastou alguns minutos para ela desmoronar. Mais tarde eu conheci Issei e me identifiquei com seu ódio... E o resto você sabe.

Nadeshiko o encarou por uns instantes. Não sabia o que dizer depois de ouvir tudo aquilo. Nunca passaria por sua cabeça que Deivid sofrera de tal forma.

– Eu quero achar a pessoa que fez isso com meu pai. E acabou com tudo o que eu amava.

Dessa vez, não hesitou. Estendeu a mão e segurou a dele. Deivid levou um susto, porém, não reclamou.

– Sei que vai achar essa pessoa e descobrir por que ela fez isso. Mas você ainda pode amar outras coisas tão intensamente quanto amava tudo o que perdeu.

– Não tenho tanta certeza disso.

– Pois eu tenho. Passei por algo parecido, lembra? Eu sempre amei muito meu onii-chan, e quando o perdi, pensei que não seria feliz de novo. Passei horrores nas mãos da Phantom. Mas quando conheci Nick-kun e os outros, aprendi a amar de novo. A Fairy Tail é minha família agora, e amo cada membro dela.

– Com você foi diferente. Nunca deixou de ser você mesma. Eu...

– Você, Deivid, ainda tem aquela criança meiga e gentil aí dentro. – Ela apontou para seu coração. – Só precisa fazer com que ela volte.

– E como espera que eu faça isso?

– É só se divertir, ser feliz.

– De novo: e como espera que eu faça isso?

Nadeshiko riu e começou a puxá-lo.

– Vem, deixa que eu te ajudo com isso.

. . .

Diego foi um dos últimos a sair do cemitério. Gabriel e Sasha saíram com ele, deixando lá apenas os Nakamoto.

O irmão mais novo voltou para o prédio da Eletro Magic minutos depois de eles se sentarem num dos bancos do South Gate Park. O mais velho não havia pronunciado sequer uma palavra o dia inteiro, o que fazia Sasha lhe lançar olhares preocupados toda a hora.

– Você precisa dar a volta por cima, Diego – ela enfim disse.

– Não é tão simples assim.

– É, sim. Eu sei que você está sofrendo pela morte de Hayato e que ainda acha que podia ter impedido isso, mas não pode ficar pensando nessa história para sempre. Tem que se recompor.

– Você não entende, Sasha. Hayato era meu melhor amigo na infância. Eu pensei que ele estava morto. Mas quando o reencontro, não consigo nem reconhecê-lo, e quando consigo já é tarde demais. E eu sabia que isso ia acabar acontecendo na luta. Eu permiti que uma das pessoas mais importantes da minha vida morresse. Como você pode entender isso?

Sasha lhe deu um tapa no rosto. Diego não entendeu. A encarou com uma sobrancelha arqueada, enquanto esfregava a região do rosto atingida com a mão.

– É claro que entendo. Eu passei exatamente pela mesma coisa. Meus pais morreram num incêndio quando eu tinha seis anos, e só eu e meu irmão sobreviveram. Nós sobrevivemos nas ruas por algum tempo até que alguns bandidos apareceram e nos atacaram. Eu fugi e deixei meu irmão sozinho. Ele morreu lá. Eu nunca deixei de pensar que, se eu tivesse ficado, isso não teria acontecido.

Eles ficaram em silêncio por um tempo. Afinal, Diego se pronunciou:

– Desculpe. Mas você está errada. Você não poderia ter feito nada. Se ficasse, só acabaria morrendo como seu irmão.

– Berry já me disse isso antes. E eu concordo com vocês. Só não consigo tirar isso da minha cabeça.

– Eu sei. Provavelmente também nunca me esquecer da morte de Hayato.

Outro silêncio. Diego precisava esfriar a cabeça, parar de pensar naquela história antes que acabasse se esquecendo do mundo a sua volta, chegando até a magoar Sasha. Sua amiga estava certa: precisava virar essa página.

– Certo. Você tem razão. Vou tentar dar a volta por cima. É só que...

– O que foi?

Sem hesitar, o rapaz estendeu a mão e segurou a de Sasha. A garota não pareceu se importar muito com gesto.

– Eu não quero perder mais ninguém que seja importante na minha vida. Então por favor, Sasha, me prometa que não vai morrer.

– Diego...

– Por favor.

Ela apertou um pouco mais a mão do mago.

– Tudo bem. Eu prometo.

Notas finais
Soreha, sayounará!