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16 Capítulo 16 — Cacos.
Notas iniciais
Capítulo 16 — Cacos.
Theodore correu desolado pelos corredores vazios da escola, seu coração estava partido, e sua visão embaçada. Seus olhos ardiam de tanto chorar, se arrependia amargamente do que tinha feito, queria poder de alguma maneira voltar no tempo e recomeçar tudo.
Ele andou até sua casa mesmo não sendo muito longe, mas oito quadras pareciam nunca acabar quando não se tinha mais chão, nem forças para se apoiar. O garoto sentia como se nada mais restasse dentro de seu corpo, sua vida não tinha mais sentido.
As pernas de Theo vacilaram, sua casa já estava próxima, então aguentou firme. Assim que ele chegou, passou pela porta da frente, trancou-a com pressa e se dirigiu ao seu quarto. Se jogou em sua cama com força, sem medo de que fossem ouvir seu choro, pois sua mãe demoraria a voltar do trabalho.
Os soluços escapavam de sua garganta, o seu peito oprimia, seus pulmões buscavam por ar, estava ficando sem fôlego. Theodore agarrou os lençóis, molhando-os com as gotas que caíam. Ele não conseguia pensar em mais nada, queria somente os braços de Christopher para envolvê-lo com força, e nunca mais soltar, mas ele sabia que nunca mais o teria por perto.
Apertou os dentes com força, segurando um grito de raiva. Pegou sua mochila, e tirou seu celular de dentro dela, só havia uma única pessoa no mundo que o ajudaria naquele momento, e que nunca o deixaria na mão.
—Alô?
—Susannah... —A voz do garoto saiu trêmula.
—Theo! Meu Deus, o que foi?!
—O Chris...
—O que aconteceu?!
—Ele descobriu tudo, Su, ele terminou comigo...
...♕...
Christopher olhou para suas coisas espalhadas pelo chão da sala de aula. Era difícil digerir tudo aquilo, ainda não acreditava no que estava acontecendo. Saiu dali deixando a sua mesa no mesmo estado, não queria saber de mais nada naquele momento. Foi para o estacionamento dos professores, e adentrou em seu carro, indo diretamente ao seu apartamento.
Assim que chegou, bateu a porta com força, sem ao menos trancá-la, e guiou-se ao armário da sala, abrindo-o e pegando duas garrafas de dentro dele. Tomou ambas pelo gargalo sem nenhum pudor. Virou o uísque garganta abaixo, sentindo a ardência em seu esôfago, e deu algumas goladas antes de finalizar seu conteúdo por completo. A outra garrafa ainda estava pela metade quando tomou posse com sua boca, bebendo com pressa.
Queria saciar sua raiva, se livrar de pensamentos inoportunos, esquecer-se de Theodore de uma vez por todas. Sentiu seu celular tocando, por um momento não quis atender, tinha quase certeza de que era o garoto sardento. Tirou o aparelho do bolso, mas no visor constava o nome do amigo.
—O que é?! —Atendeu.
—Eita! O que houve? —Emmet assustou-se.
—Espero que seja importante... —Murmurou, entornando a garrafa de vodca.
—Queria saber se já chegou do trabalho, estou aqui no bar com o Michael...
—Estou muito bem aqui em casa! —Gritou, jogando a garrafa vazia contra a parede.
—Chris?! O que foi?! Tá tudo bem aí?! —O amigo vociferou, ouvindo o estilhaço.
—Me deixa em paz!
Christopher desligou a chamada, e deu dois passos, se apoiando no braço do sofá.
Emmet estava atônito, sem saber o que pensar, sabia apenas que alguma coisa tinha acontecido com o amigo, e que tinha que descobrir imediatamente o quê. Ele avisou Michael de que tinham que ir no mesmo instante para o apartamento de Christopher, e que durante o caminho explicaria.
Não demorou muito para correrem até o carro, ambos preocupados com Chris, sabia que ele não era de se alterar, e aquilo ainda era confuso para os dois. Conversaram sobre o que poderia ter acontecido, e cogitaram a possibilidade de Theodore estar envolvido.
Quando chegaram, estacionaram com pressa e passaram correndo pelo hall de entrada. No corredor, várias pessoas estavam fora de seus apartamentos, tumultuadas, conversando sobre os barulhos que vinham do quarto número sete.
Os amigos forçaram a maçaneta, e ela estava aberta.
Avistaram Chris deitado no chão, e assustados andaram até o amigo. Emmet agachou, olhando os cacos em volta dele, observou ferimentos pequenos em sua testa e em seus braços.
—Meu Deus, Christopher! O que você fez?!
—Aquele infeliz... —Balbuciou.
—O que aconteceu?! —Michael bradou, preocupado.
—Theodore... Aquele moleque!
—Vocês brigaram? O que houve?! —Exclamou Emmet.
—Preciso ir lá fora Emm, você dá conta aqui? —Perguntou Michael. —Aquele pessoal todo está alvoroçado querendo saber o que está se passando aqui.
—Vai lá, mas volte logo! —Emmet olhou novamente para Christopher. —Vem cá, se levanta, segura meu braço...
Chris continuou largado sobre o chão, arranhado e machucado pelos pedaços de vidro ao seu redor. Seus olhos fechavam, seus lábios murmuravam o nome do garoto, mas nada conseguia dizer.
—O que esse menino te fez de tão ruim?!
Não obteve resposta, mas tentaria cuidar do grande teimoso que Christopher se tornava quando bebia. Quando conseguiu fazer com que ele se sentasse, tentou puxá-lo do chão, e ao apoiá-lo em seu ombro, o levou até o sofá.
—Onde guarda seus band-aids?
Chris rolou os olhos e tombou a cabeça para trás, grunhindo.
Emmet bufou, andou pela casa para procurar, e logo voltou com uma caixa branca em mãos, que encontrou no armário do banheiro. Retirou os antissépticos e os curativos de dentro. Ao se aproximar do rosto de Christopher para limpar o sangue que escorria, pode sentir o cheiro forte de álcool.
—Cruzes! O que andou tomando?! —Reclamou.
Chris mexia o rosto para os lados, não deixava o amigo ajudá-lo, agindo como uma criança manhosa com medo da ardência do antisséptico.
Michael chegou, trancando a porta e respirando aliviado.
—Nunca vi gente mais curiosa... —Guiou-se até os dois que estavam no sofá.
—O que aconteceu lá? —Emmet perguntou, segurando com força no rosto de Christopher.
—Eles juravam que alguém havia invadido o apartamento e estava o assaltando, foi difícil convencê-los de que estava tudo bem...
—Chamaram o síndico?
—Por sorte, não...
Emmet limpava o rosto do amigo com cuidado, e Michael o ajudou com os curativos. A cada minuto ficavam mais curiosos para saber o que tinha acontecido com ele.
Quando terminaram de tratar todos os cortes de Christopher, Emmet procurou o celular dele por todos os cantos, e logo encontrou-o ao chão. Não foi difícil descobrir a senha, e logo invadiu sua agenda de contatos, tentou ligar para Theodore, mas infelizmente o garoto não atendia, o celular dele estava ocupado.
Salvou o número, tentaria esclarecer tudo com o garoto no dia seguinte, queriam saber por conta própria o motivo de terem brigado. Ouviram um gemido de Chris, que levou suas mãos até a boca e cambaleou até o banheiro.
—Chris? —Emmet o chamou.
—Deixa Emm, acho que ele vai vomitar...
—Ah... —Suspirou. —Mikey, tenho certeza de que ele e o Theodore terminaram...
...♕...
Na manhã seguinte, Theodore acordava indisposto, não queria ir para a escola e também não queria levantar, mas sabia que veria Christopher e precisava mais do que tudo conversar com ele novamente. Tinha muitas coisas para falar, coisas que ficaram presas em sua garganta, que não teve coragem de dizer e queria terminar tudo aquilo com dignidade.
As palavras não foram as mais belas, estava triste por tudo o que ouviu, mas mesmo assim, ainda o amava e muito.
Na noite anterior, passou horas com Susannah no celular, a garota ouviu tudo o que Theo tinha para falar, e de início, não acreditou na história do professor; quando viu que não se tratava de uma brincadeira, ficou chocada, pois sabia que o amigo era ímã para esse tipo de encrenca.
Nenhum dos dois tinha uma solução para a situação, mas a menina acreditava fielmente que Theo nunca mais teria a oportunidade de se aproximar de Chris, mesmo sendo positiva na maior parte das vezes. Theodore sabia que suas chances eram mínimas, apesar disso, faria de tudo para ter Christopher de volta. Ele se arrumou para o impressionar, e assim saiu de casa, ansioso, sem nem ao menos tomar o café da manhã.
O garoto decidiu ir a pé aquela manhã, pois assim se sentia mais seguro, mesmo o frio incomodando um pouco. Ele teria aula de matemática antes do almoço, e se animou, porque não demoraria a ver Christopher. As horas foram passando, Theodore contava cada minuto, formulava frases em sua cabeça e diálogos possíveis. Sabia que Chris não aceitaria os seus pedidos de desculpas, mas tentaria convencê-lo a repensar, insistiria até que ele dissesse sim.
O plano não era lá dos melhores, mas se animou quando a hora chegou. O garoto se apressou, não queria se atrasar para a aula de matemática, e queria tomar o melhor lugar, na primeira carteira, bem de frente ao professor.
Ficou feliz em ver que ninguém ainda havia chegado, mas ao olhar para o homem sentado na mesa, assustou-se.
—Com licença? —Chamou Theodore, pensando ter entrado na sala errada.
—Hoje estou substituindo o professor de matemática, Christopher... —Falou o senhor de meia idade.
Quando a ficha do garoto caiu, desanimou-se totalmente, não acreditava que ele havia faltado somente pela briga em que tiveram no dia anterior.
—Mas por que ele não veio? Você sabe o que aconteceu?
—Me contaram que ele foi para o hospital...
Theodore arregalou os olhos.
—Hospital?!
A angústia apertou o coração do garoto.
—Mas eu sei bem o que houve de verdade... —Riu torto. —Fui atrás para ver o que realmente tinha acontecido, e descobri que ele tomou o maior porre ontem e vomitou até as tripas...
O coração de Theodore acelerou, não crendo no que ouvia.
—Ei garoto, eu não te contei nada, ok?
Os alunos, aos poucos, começaram a adentrar o local, mas Theodore não se movia, ainda estava em choque, não queria acreditar que Christopher tinha feito aquilo. Deu poucos passos adiante, sentando-se e abrindo o caderno. Estava aflito, perguntava-se o tempo todo se ele estaria bem, e queria mais do que tudo, saber onde ele se encontrava nesse momento.
Na noite anterior não mandou mensagem, nem ligou para Chris, seguindo os conselhos de Susannah, pois a menina tinha a certeza absoluta de que ele estaria uma fera e não responderia. Mesmo assim, o garoto era teimoso, queria ligar e implorar pelo perdão de Christopher, e sabia que rastejar aos seus pés não era nada certo, mas o desespero era tão grande que faria de tudo para ter o seu amor de volta.
Narrado por Theodore
Fiquei aliviado quando o sinal para o fim da última aula tocou, porque as aulas demoraram a passar, e para ajudar, tinha esquecido meu celular em casa.
Durante o caminho, pensava no que faria dali em diante, meu mundo estava desmoronando. Eu esperava profundamente que aquilo fosse somente um pesadelo do qual eu acordaria ao lado de Christopher.
Assim que cheguei, procurei meu celular pelo quarto, quando o liguei, percebi que haviam várias chamadas perdidas de hoje de um número desconhecido. Mas uma única ligação de ontem me chamou a atenção, pois era de Christopher.
Ele havia tentado me ligar? O que isso significava? Ele queria conversar comigo? A minha agonia só aumentava, minha cabeça estava girando, sentei-me na cama e pensei no que fazer. A minha maior dúvida era de quem estava me ligando tantas vezes hoje, pensei até que poderia ser minha mãe, de um telefone emprestado de alguém, mas isso não era a cara dela.
Retornei a ligação, curioso para ver quem seria.
—Alô? Theodore?
—É ele mesmo. —Levantei uma das sobrancelhas. —Quem é?
—É o Emmet, amigo do Chris, se lembra de mim?
—Ah, eu me lembro...
Meu coração disparou.
—Eu tentei te ligar do celular dele ontem, mas seu telefone estava ocupado, então esperei até hoje...
Senti uma pontada no peito, eu estava tão feliz por pensar que Christopher tinha me ligado, mas tinha me decepcionado de novo...
—Sabe, eu e Michael estamos preocupados com ele, porque ele não disse o que aconteceu entre vocês dois, só sabemos que vocês brigaram...
—Sim, é verdade. —Murmurei.
—Sem querer ser enxerido, o que aconteceu?
—É uma longa história Emmet e não sei se Christopher gostaria que eu te contasse...
—Ele não pode continuar escondendo isso dos amigos dele, me diga Theo, vocês terminaram?
—Sim... —Senti meus olhos lacrimejarem.
—Theodore, por favor, me diga o que houve entre vocês, eu quero ajudar...
—Não sei, Emmet, é melhor não...
—Você me disse que era uma longa história, certo? Então por que não combinamos um dia para nos encontrarmos?
—Tudo bem. —Respirei fundo. —Quando?
—Que tal amanhã? Nesse mesmo horário?
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