Fade Out Lines

37 Capítulo 37 — Refúgio.


Notas iniciais
Beijos & Boa leitura! ♕

Capítulo 37 — Refúgio.

— O que você quer tanto falar? — Theodore perguntou, receoso, assim que chegou ao seu quarto.

Sentou-se sobre a cama, enquanto Alba dava passos lentos em sua direção.

— Você anda distante de mim, Theo, quero saber o porquê.

— Distante?! — Riu, incrédulo. — Olha só, devemos chamar o Sidney para participar dessa conversa também?

— Não muda de assunto, Theodore.

— Fala sério... — Massageou as têmporas. — Você já sabe o que vou dizer.

— Se eu soubesse, não estaria aqui.

— Você sabe que eu não quero que você se case com esse cara, mas veja só, você vai, sem nem mesmo dar importância para o que eu penso.

— É claro que eu dou, Theodore! Mas e você? Por acaso já parou para pensar em mim?

— Eu me preocupo com você e é por isso que você não deve se casar.

— Filho... — Suspirou, sentando ao lado do garoto. — Você se lembra de alguns meses atrás, quando você veio ao meu quarto, e eu te perguntei se você sentia falta do seu pai? Você pareceu me apoiar, dizendo que eu precisava de alguém...

— Sim, eu me lembro.

— Então por que continua a ser contra a minha união com ele?

— Você está cansada de saber, o Sidney está te escondendo coisas que você nem sequer imagina.

— Filho, por favor, não começa com isso agora...

— Tá vendo?! Depois você ainda pergunta porque eu não converso com você! Você nem se esforça para acreditar em mim!

— Tudo bem, Theo. — Esfregou o rosto. — Digamos que ele esteja escondendo algo, o que você sabe sobre ele que eu deveria saber?

— Você não vai desdenhar se eu disser?

— Não vou, prometo.

— Ele quer tirar o seu emprego, eu não sei o porquê, só sei que ele está planejando alguma coisa contra você, mãe.

— Theodore...

— Não precisa acreditar, só precisa ficar de olhos abertos, você está completamente cega.

— Assim fica difícil dialogar com você, Theo.

O garoto bufou, encarando a expressão mal-humorada de sua mãe.

— Cancele a sua academia, Theo, você começará a ir ao psicólogo.

— Você só pode estar brincando...

— Não estou.

— Eu não preciso de um psicólogo.

— Todos precisamos, principalmente quando começamos a imaginar coisas que não existem...

— Por favor, me deixa dormir, vai.

— Me escuta, Theo.

— Huh?

— Agora falando sério, deixando tudo isso de lado, me responde, filho... — Segurou-o em seu rosto, o forçando a encará-la. — Eu estou preocupada, de verdade, o que acontece com você? Me fala, pode se abrir comigo... Me fale da sua vida pessoal, não acha que tem coisas a me dizer?

Theodore retirou a mão de Alba de seu rosto, sinalizando negativamente com a cabeça.

— Não, não tenho nada a falar.

— Tá bom, tá certo. — Levantou-se. — Não precisa cancelar a academia, mas você vai ir ao menos uma vez por semana ao psicólogo, não adianta dizer que não.

Não esperou que o garoto respondesse e assim se retirou.

Theo levantou e bateu a porta com força, trancando-a.

Se jogou em sua cama, bufando, com raiva de nunca conseguir terminar uma conversa séria com sua mãe. Sentia como se os seus miolos fervessem toda vez que pensava em como Sidney havia arruinado a sua vida, queria exterminar aquele homem de sua casa, proteger sua mãe, mas nunca encontrava a maneira correta.

Esmagou sua cabeça contra o travesseiro, segurando um grito de nervosismo.

— Infeliz... — Murmurou.

Seu coração estava descompassado, sentia os batimentos pulsarem em seus ouvidos. Desconfortável, virou-se, procurando uma posição agradável na cama. Olhou para o teto fixamente, procurando nele algo interessante, algo para lhe distrair dos inoportunos pensamentos.

Sentiu o peito oprimir, então para tentar conter a dor, o garoto sentou-se na cama. Respirou fundo, a casa estava terrivelmente silenciosa.

Levantou-se e após abrir a porta, deu passos vagarosos e silenciosos.

Na sala, sua mãe dormia no sofá, com a televisão ligada em volume baixo, então rodou o calcanhar e retornou ao corredor, mas ao invés de entrar em seu quarto, subitamente, entrou no quarto de sua mãe, onde, em um dos lados da cama, Sidney dormia.

Sentiu um enorme desgosto ao olhar para aquele homem detestável, que roncava, um nojo profundo o dominou quando pensou no que ele e sua mãe faziam ali.

Coisas ruins lhe vieram em mente quando o viu tão vulnerável, a mão do garoto agarrou o travesseiro que sobrava no outro lado da cama, e assim, Theodore criou forças para em seguida, afundar o rosto de Sidney no acolchoado travesseiro.

Notou que aquele homem havia acordado pelo movimento de seu corpo, que se remexia, desesperado. Theo gargalhou com a sensação que queimava em seu peito, queria que cada mísero oxigênio se extinguisse dos pulmões de Sidney.

Teve que jogar toda a força de seu corpo sobre o travesseiro, enquanto o homem tentava gritar, mas os sons saíam abafados. O garoto riu, ainda mais alto, soltando um palavrão, apreciando cada vez mais a aflição do corpo abaixo do seu.

— Morra! Desgraçado! Morra! — Sua garganta flamejava, rasgada pelas palavras que sempre sonhou que se concretizassem.

Suas mãos ficaram fracas, mas sua determinação não diminuiu, pensava que dali poucos segundos, nada mais restaria, adoraria ver a cara de sua mãe quando ela acordasse e visse que Sidney estaria gelado, sem pulsações.

Um sorriso sádico dominou seu rosto, no entanto, por poucos segundos, o homem arrastou uma das pernas para o lado, para tentar acertar o garoto, que cambaleou, dando brecha para que Sidney se levantasse.

Theodore se apoiou na parede, impedindo seu corpo de cair no chão, no mesmo instante que pensou em correr rumo à porta, pois se não saísse dali, sabia que seria seu último dia de vida.

O homem agarrou o garoto pela roupa, que forçou-se contra ele, lutando para escapar de seus braços.

— Me larga! — Theo sentiu como se sua voz não saísse, embora ainda sentia a garganta arder, pelo grito. — Socorro!

— Vai chamar a mamãezinha agora, é? — Tampou a boca do garoto com sua mão, que não tardou em mordê-la, com toda sua força. — Filho da puta!

Theodore movimentou suas pernas para trás, chutando Sidney em suas partes baixas, fazendo com que o homem o soltasse, enquanto gemia de dor. O garoto escapou, correndo até a porta novamente, entretanto, no meio de seu caminho, tropeçou.

Olhou para o que o havia derrubado, logo notando que era uma calça que Sidney havia abandonado sobre o chão; engatinhou, enquanto tentava se levantar, quando notou algo precioso em um dos bolsos dela.

— Pensa que vai escapar? — O homem o puxou por uma das pernas, fazendo o corpo de Theo deslizar até ele.

As mãos do garoto firmaram-se no metal da pistola que havia encontrado, quando Sidney segurou em seus cabelos, fazendo Theodore o olhar em seus olhos. Sem pensar duas vezes, Theo pressionou a arma contra o abdômen daquele demônio em pessoa.

Apertou o gatilho.

Ensurdecido e com o corpo ensopado pelo suor, sentou-se, recuperando o fôlego. Apalpou tudo ao seu lado, procurando o despertador.

5hrs45min.

Suas mãos ainda estavam trêmulas pelo terrível pesadelo, sua cama estava molhada pela transpiração, não conseguiria mais dormir.

...♕...

— Su, você não tem ideia do pesadelo horrível que eu tive ontem... — O garoto falou, ao telefone.

— Sério?! Me conta!

— Começava comigo tentando sufocar o Sidney com o travesseiro, enquanto ele dormia, mas não dando certo, eu acabei o matando com um tiro na barriga... — Resumiu.

— Como você é maléfico! — Gargalhou. — Mas é só isso? O que tem de tão ruim?

— Susannah! — Repreendeu, enquanto ria.

— Tô brincando! Mas bem que você sabe, né?! Não seria nada mal se misteriosamente ele amanhecesse morto, talvez um infarto, ou quem sabe...

— Você é pior do que eu!

— É claro que sou, ninguém toca em você, ouviu?! Ainda quero me vingar desse homem à la manière¹ de Poe².

— Ah! Eu estou com saudade das suas loucuras... — Theodore revelou, após cansar-se de rir.

— E eu estou com saudade de te encher o saco. — Brincou. — Adivinha quem vai passar a ação de graças com você...

— Hã? Quem? — Coçou a nuca. — Espera, tá brincando?! Você vai vir?!

— Vou! — A garota riu, dando um grito histérico. — Ou achou que estaria livre de mim?

— Su! Eu não acredito! Como seus pais deixaram?

— Até que foi fácil, pelo jeito eles sairão em uma viagem romântica, já os detalhes eu fiz questão de não ouvir, senão eu vomitaria...

— Então você vai passar uns dias aqui?

— Sim, eles vão ligar para a sua mãe mais tarde, mas já está combinado que vou ficar do dia de ação de graças, que é na quinta, no dia vinte e seis, até o fim de semana!

— É a melhor coisa que eu poderia ouvir, sério!

— E eu estou ansiosa, não aguento mais ficar aqui, você sabe que aqui não tem nada de bom para fazer, principalmente quando não tenho você para irritar...

— Ah, Susannah, me lembrei de uma coisa, você vai ficar maluca quando eu te contar.

— Eita! Que coisa?! O que é?!

— Nesse sábado agora, à noite, o Christopher fez um jantar para nós no apartamento dele, mas você precisava ver! Pétalas de rosas espalhadas por todas as partes, velas, tudo tão... Tão lindo, é sério! E como se já não fosse surpresa o bastante, ele ainda enrolou em uma flor, um par de alianças e...

— O quê?! — Gritou, o interrompendo. — Não acredito! Eu não acredito! Que coisa mais linda, Theo, meu Deus! Meu Deus! Você tirou foto?!

— Tirei! — Riu alto. — Sua maluca, com você gritando desse jeito, até minha mãe vai ouvir e olha que não está na viva voz!

— Bobo! Eu quero ver todas as fotos, pode me mandar agora mesmo!

— Vou mandar sim, mas agora eu tenho que desligar, tenho que arrumar minhas coisas para ir à academia com o Chris.

— Tá certo, mas não esquece de me mandar, tá?

— Vou mandar antes de sair de casa... — Afirmou. — Beijo, Su, até mais tarde...

— Até!

O garoto levantou-se da cama, onde estava jogado, quando conversava com Susannah sua pose nunca era fixa, sempre levantava as pernas, colocava-as na cabeceira ou até mesmo ficava de ponta cabeça, se distraindo enquanto falava ao telefone.

Caminhou até a cozinha, onde abriu o armário para vasculhar o que havia dentro, quando ouviu sua mãe se aproximar.

— Theo, preciso que você me ajude com algo.

— O quê? — Virou-se em sua direção.

— Você poderia levar umas caixas que eu empilhei no meu quarto, para o porão? Não há muitas, mas o Sid não está em casa para me ajudar e eu preciso disso pra ontem!

— Eita, qual é a pressa?

— Estou abrindo espaço no meu closet.

— Deixa eu adivinhar, para as coisas do Sidney?

— Isso mesmo, agora faça isso pra mim, por favor. — Pediu. — E sem fazer essa cara feia, se você soubesse como minha coluna está, daria graças à Deus pela a sua idade! Agora, anda!

Theodore bufou quando sua mãe saiu de vista, dando meia volta e rumando ao quarto de Alba. Encontrou cinco caixas de papelão, vedadas com fita adesiva por fora, escritas em seu exterior o que continha no interior de cada uma.

Pegou a primeira e assim andou até a última porta do extenso corredor, da qual ninguém nunca utilizava, ela estava somente encostada, quando abriu-a, olhou para a escada que dava ao subterrâneo da casa; ligou o interruptor e assim desceu degrau por degrau, com cuidado.

Fazendo o mesmo trajeto, levou todas as caixas para baixo, então quando deixou a última sobre uma prateleira velha, parou para analisar o local, do qual nunca havia passado muito tempo antes.

Era um porão grande, mas com várias paredes, como se fizessem pequenos cômodos. Andando por ele, percebeu que dentro de um dos quartos dele, haviam alguns objetos cobertos por lençol.

Se aproximou e assim os descobriu, revelando equipamentos de academia antigos, mas não ultrapassados, dentre eles: um conjunto de halteres, uma esteira grande e jogado num canto, um colchonete para exercícios. Pensou no porquê do antigo dono não ter ficado com eles, seria falta de espaço?

No entanto, se alegrou, pois imaginou que mesmo podendo treinar com Christopher na academia, também podia ter sua mini estação de treino em casa.

Ainda andando pelo porão, notou que se fizesse uma pequena faxina, daria um belo “refúgio”, um local somente seu. Talvez Alba não se importasse em ceder o subterrâneo para ele, se animou com a ideia de levar alguma de suas coisas para lá e tentaria conversar com sua mãe no mesmo instante.

Deu uma última olhada no porão e assim subiu as escadas.

Ouviu uma notificação em seu celular, era uma mensagem de Susannah, ainda exigindo que ele enviasse as fotos. Riu com o desespero da amiga e no mesmo instante mandou todas as fotos de sábado.

...♕...

Naquela noite, após Theodore voltar da academia, estacionou em frente de casa e retirou as chaves da entrada do bolso.

— Boa noite. — Sidney o cumprimentou, assim que o garoto passou pela porta.

— Vai cagar. — Theo retirou as alças da mochila das costas.

— Ei moleque, eu preciso falar com você.

— Minha mãe não está aqui para você ir encher o saco dela?

— Presta atenção. — Segurou em ambos os ombros de Theodore. — Eu sei o que você está fazendo, não pensa que vai conseguir se livrar de mim tão cedo...

— Hã?! — Empurrou-o, sem sucesso. — Do que você tá falando?

— Pensa que eu nasci ontem, viadinho? — Encarou-o, se aproximando ainda mais. — Sei que está enchendo a cabeça da sua mãe! Vai, me conta, o que você anda falando pra ela?!

— O quê?!

— Não se faça de idiota! — Chacoalhou-o.

— Eu não falei nada, é sério!

— Ou você abre a boca por bem, ou vai abrir por mal!

Notas finais
♕ à la manière¹: Do frânces, à maneira de... Poe²: Edgar Allan Poe, escritor conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro.