Notas iniciais
Como dito no disclaimer, cada capítulo terá o nome do personagem que o narra, neste caso, nossa querida (ou nem tanto) Lorrey.
Boa leitura, amores.

Mais um dia amanhecia. Mais uma manhã fria de inverno, onde eu teria que caçar. Caçar minha própria comida e claro, a de minhas tias.

Bom, eu não poderia reclamar da vida que eu tinha. Minha vida era ótima comparada a de outras fadas. Fui criada pelas minhas tias, que me amam e fariam de tudo para me ver segura. Sempre tive o que precisava para ser feliz, e apesar de não ter meus pais, eu tenho elas. Elas são minha família. E aliás, sei caçar, diferente de outras fadas. Não podia desperdiçar esse "dom", segundo minha tia.

A maioria das fadas de meu reino, precisam caçar para sobreviver, pois são pobres ou perderam suas famílias para os ataques de Monstros da Noite, que temos quase que semanalmente.

Como a Floresta Negra dá diretamente aos campos de nosso reino, não conseguimos evitar que alguns monstros acabem entrando, e, destarte, nos atacando. Eu mesma já cacei alguns dentro de nosso reino e, é claro, já fui caçada.

Muitas fadas de minha espécie, precisam se alimentar da energia de Monstros da Noite. Nomeamos eles assim pois estes são tão escuros e sombrios quanto a própria noite. E, nós, Fadas da Noite, temos esse nome, pois somos quase tão obscuras quanto eles.

Nem todas as fadas que precisam, conseguem se alimentar, e acabam morrendo, tendo como maior motivo de suas mortes a pouca sabedoria com a caça.

A maioria de nós, são diferentes das Fadas da Luz, que tem sua própria energia. Nossos reinos são separados pela Floresta Negra, habitat dos monstros, e todos sabem que Fadas da Luz não passam por ela, tanto por medo quanto por proibição.

Outrora, no início dos tempos, existiram quatro reinos, eram estes separados pelos elementos que seus habitantes controlavam: Fogo, Água, Ar e Terra. Eles viviam em harmonia entre si, no entanto, era estritamente proibido que fadas de reinos diferentes tivessem relações amorosas.

Foram séculos – exatamente nove – de respeito à esta única regra. No ano 900, uma Fada do Fogo e uma Fada da Água se apaixonaram. Todos conhecem a história de Ignis e Matsu, os jovens destemidos e corajosos que originaram a primeira fada híbrida. Os jovens ingênuos e inconsequentes que colocaram o nosso mundo no que parecia uma interminável guerra.

É claro que, por um tempo, eles esconderam o pequeno híbrido, mas uma hora ele escapou das garras dos pais, saiu para viver sua própria vida e continuou alimentando o começo de uma guerra. Ele se apaixonou por uma Fada da Terra, e eles criaram outro híbrido.

No momento em que Ignis e Matsu se apaixonaram, um ciclo começara. 300 anos depois, um terço da população de fadas era híbrida de alguma forma. Muitos puros se achavam superiores, e, com esse pensamento, a guerra começou.

Durou 15 anos. Neste período houve muitas mortes, tendo perda de 30% dos que tinham sangue puro e 12% da parte híbrida.

Com o fim da guerra, houve então a divisão dos reinos em os que se diziam puros e as "aberrações".

Por mais que vários puros alegassem odiar os mestiços, havia aqueles que invejavam o poder de seus diferentes. Muitos destes faziam experiências a fim de terem os mesmos poderes. Nenhuma experiência deu certo, e a ganância dessas fadas acabou por transformá-las em Monstros. Os Monstros da Noite. Elas foram banidas para a floresta que separava agora os dois Reinos.

Anos se passaram, e, com o tempo, o preconceito diminuiu, no entanto, não acabou. Por culpa da discriminação ainda existente, tanto por parte das Fadas da Luz – as fadas puras – quanto por parte das Fadas da Noite – as híbridas –, não ousamos nos envolver novamente...

As fadas que mesclam genes de elementos opostos — fogo e água ou água e ar -, são as que precisam de energia extra. Por algum azar do destino, quase metade de nosso reino é assim, a maioria sendo, também, pobre...

Encerrei meus pensamentos e voltei a planejar as armadilhas para meu guaxinim, ou como eu preferia chamar, meu almoço.

Estava nevando. Era difícil caçar em um dia de nevasca, mas mesmo assim eu adorava a neve.

Tiro a bolsa de minhas costas e a ponho encostada em uma árvore.

Eu havia adentrado um pouco mais do que o normal a Floresta Negra. Já teria passado da metade há muito tempo.

Geralmente eu andava cerca de duas horas e não chegava nem á metade. Mas hoje me perdi em meus pensamentos, e acabei andando de mais.

Abro a bolsa, e tiro de dentro algumas ferramentas e utensílios para formar a primeira armadilha.

Sento-me na neve, já cansada de ficar agachada, e aprumo com cuidado o vestido que um dia fora de minha tia.

Meus dedos finos e já congelados manuseiam com rapidez e cuidado os apetrechos até formar a armadilha.

Assim que a termino e me viro para pegar outros utensílios dentro de minha bolsa, dou de cara com Lobo. Não qualquer lobo, mas sim, o Lobo. Meu lobo. Não escolhi ter ele como aliado ou algo do tipo, apenas encontrei-o, ou melhor, ele me encontrou.

Lobo era grande, quando se equilibrava em suas patas traseiras ficava de meu tamanho. Tinha uma pelagem escura, bem preta, algumas partes estavam cobertas pela neve. E tinha olhos azuis tão escuros que eram quase preto.

Concentrei-me em seus olhos, encostei meu nariz em seu focinho gelado.

— Pelo jeito não é hoje que eu pego nossa comida.

Assim que falei isso voltei a vagar em meus pensamentos, e logo me vi no dia em que Lobo me encontrou.

Estava quase anoitecendo. Eu tinha apenas doze anos e não sabia caçar muito bem.

Eu estava fraca e minhas tias também. Precisávamos caçar algum monstro se não quiséssemos morrer. Não que precisássemos nos alimentar deles, mas por outro motivo...

Naquela época, fazíamos negócio com o "Sr. Noite", assim chamado pelas outras fadas. Ele traficava energia, digamos assim. Que coisa mais estranha de se falar e fazer. Mas ele o fazia.

Uma de minhas tias, a mais velha, vendia a pouca energia que conseguíamos caçar para ele. Ela conseguia extrair a energia de monstros e colocá-la em objetos. Ela vendia o objeto para o Sr. Noite e assim conseguíamos comprar nossa comida.

Eu, geralmente, só caçava na companhia delas. Se não em sua companhia, eu apenas caçava alimento.

Era outono. Não estava tão frio. Já era fim de tarde, estava escurecendo, e eu estava decidida que iria caçar um monstro.

Eu ainda não havia entrado na Floresta. Esperei mais alguns minutos, e, vendo que o sol já estava desaparecendo, entrei.

Dei dois passos adentro e parei subitamente quando vi um lobo parado em minha frente. De começo achei que fosse um dos monstros, mas quando vi o brilho de seus olhos percebi que não era.

Ele não era muito grande. Parecia inofensivo. Vendo que eu estava em posição de ataque e apontando a adaga para ele, me ajeitei e continuei caminhando, passando longe do mesmo e olhando apenas pelo canto dos olhos.

Desviei o olhar por alguns segundos apenas para pular um galho maior, que estava em meu caminho, e, quando volto a olhar, ele estava vindo em minha direção. Eu estava em choque. Apenas comecei a gritar quando o animal começou a puxar minha capa e me derrubou no chão.

Não parecia querer me machucar. "Você quer brincar, é?" "Vá brincar com outro!", falando isso, levantei-me e continuei meu caminho.

Ele tentou me parar mais algumas vezes. Vendo que eu não iria desistir, acabou se rendendo, mas continuou me seguindo.

Um fato interessante, e que eu não sabia na época, é que Monstros da Noite surgem das sombras, da escuridão. Eles aparecem de repente, e muitas vezes você não é rápido o suficiente para se defender.

—Se não fosse por você, eu não estaria aqui. — disse à Lobo.

Ele havia me salvado de vários monstros naquele dia. Ele apareceu de repente. E tão de repente quanto ele apareceu, veio a nossa amizade.

Meus pensamentos foram interrompidos por um barulho. Lobo também percebeu, pois levantou as orelhas e estreitou os olhos.

Levanto-me rapidamente e olho em volta, a fim de saber de onde viera o barulho. Não vejo nada. Tudo estava em silencio outra vez.

Ouço novamente o barulho. Lobo solta um uivo alto e ensurdecedor.

Tateio o sinto que sempre levo amarrado em minha cintura, para me certificar de que minha adaga ainda estava ali.

Agacho-me novamente, sem fazer barulho algum. Abro minha bolsa, e tiro de dentro meu machado.

— Saia de onde estiver ou arranco sua cabeça de uma vez só. — grito.

Apuro meus ouvidos, mas não ouço nada. Um clarão cega meus olhos, e, de repente, também não vejo mais nada.

Era uma bomba. Uma bomba de luz.

Ouço passos apressados. Em poucos segundos recupero minha visão e vejo alguém correndo. Era um garoto.

Levanto-me rapidamente, já podendo enxergar com clareza. Levanto meu machado e o jogo na direção do garoto, fazendo com que ele passe por cima e a poucos centímetros de sua cabeça.

O machado para quando fica preso em uma árvore. Uma árvore que apareceu como mágica. Um dos truques que minhas tias me ensinaram serviram para algo.

O garoto não consegue parar a tempo, e acaba batendo na mesma árvore. Acho que por causa da adrenalina do momento, este não desmaia. Rapidamente se levanta, olha pra trás e continua a correr.

Vendo que nada o faria parar, corro atrás dele, com Lobo em meus calcanhares. Paro na árvore em que meu machado estava enterrado e o tiro dali com um puxão.

Continuo correndo. Estava em seu alcanço, mas então me lembro de algo. Eu tinha um plano.

— Lobo, meu chicote. — grito — Está dentro de minha bolsa. Pegue-o para mim.

Concentro-me em correr mais rápido. Teria que chegar mais perto se quisesse fazer com que meu plano funcionasse, porém, estava um pouco desajeitada por culpa do comprimento do vestido, vez ou outra quase tropeçava no longo tecido.

Depois de alguns minutos correndo, ele parecia estar sem fôlego. Eu poderia continuar até chegar ao outro lado.

Lobo logo chega ao meu lado, com o chicote na boca. Passei o machado da mão direita para a esquerda, e peguei o chicote com a mão livre.

Eu já estava perto o suficiente dele. Lanço o chicote, que pega em seus pés e o faz cair. Ele acaba rolando um pequeno barranco, caindo encostado em uma árvore de tronco grosso.

Observo ele se sentar. Ele puxa para si seu pé machucado, levanta a barra de sua calça e o examina.

Observei um pouco mais.

Ele tinha cabelos vermelhos alaranjados, provavelmente, possuía o gene do fogo. Tinha olhos amarelos como o sol e seus lábios eram finos. Seu corpo... Bem, ele era do tipo que tinha músculos. Mas nada muito exagerado. Sua camisa era velha, estava desbotada, e deixava transparecer seu abdômen. Usava também uma capa branca, mas apenas. Não vestia suspensórios ou terno, e suas botas já estavam velhas. Não deveria ser de uma classe muito alta.

Ele levanta o olhar para mim, não chega a me encarar.

— O que você quer? — perguntou.

— Observar. — respondo.

Notas finais
Então, o que acharam? Comentem, deem suas opiniões e sintam-se a vontade para questionar sobre qualquer coisa ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.