Fadas - A Maldição
3 Capítulo 1 - O 1º Contato
Capitulo 1
O 1º Contato
Era outono, estava frio e eu corria floresta adentro, tentando fugir das pessoas da vila que me perseguiam, minha a mão estava dormente e não conseguia movimentá-la muito bem, meu braço latejava, estava inchado e parecia quente. Provavelmente tinha quebrado. Ao longe, enxerguei uma fissura na terra, entre moitas e galhos secos. Segui para o lugar e deslizei pelo buraco (as asas, nesses momentos perigosos, ficavam rígidas e não eram machucadas, pelo menos isso eu conseguia fazer), parei sentada sobre folhas secas.
O lugar que eu estava era pequeno, o teto era baixo e de terra firme, parecia ter sido escavado. Pedras num canto serviriam como um ótimo banco. Eu estava próxima às montanhas, o inverno estava para começar, e ali dentro já teria nevado se não fosse tão bem protegido. Três pequenos filhotes de leopardo das neves dormiam na luz do fraco sol que vinha de uma pequena fissura no teto.
Ouvia-se correria e gravetos se partindo na superfície. Sombras tampavam o sol dos leopardos por instantes. Depois que tudo se acalmou, eu respirei fundo e tombei para o lado, cansada. Uma explosão de dor veio de meu braço quebrado, sob a pressão do corpo. Eu levantei gemendo, puxei a manga da blusa e olhei o estado do ferimento, além de ter quebrado, um corte longo encharcava minhas roupas com sangue. Rezei para que um pano grosso pudesse resolver.
Depois de meia hora, costurando, limpando e colocando minha pasta cicatrizante no ferimento, envolvi-o com um pano, firmemente para que o osso não saísse do lugar. Eu não vi o tempo passar, mas a fome, a dor e o sono me dominaram completamente.
Devo ter dormido dez horas seguidas e acordei com o estômago virado do avesso, fazia quase um dia que eu tivera uma refeição descente. Olhei em volta, peles e ossos se espalhavam pelo chão, o que me deixava um pouco receosa, os filhotes brincavam, então uma enorme felina apareceu pelo buraco, a mãe. Respirei fundo e prendi o ar, me mantendo quieta, ela tinha uma caça entre os dentes e olhou pra mim como alguém que dizia “Caramba, só porque estou com comida na boca, você fica assim?”, então seguiu para o lado de seus filhotes e deitou-se esperando eles virem mamar, enquanto devorava o coelho.
Eu saí, deixando os felinos se alimentarem como bem entendessem. Observei a redondeza, não seria legal achar um morador de guarda. Segui mais para dentro da floresta, tentando achar algo pra comer ou madeira seca para fogo, obvio que não os acenderia no refugio do leopardos, seria chamar muita atenção, mas não seria ruim para quando eu partisse.
Depois de encontrar maças e algumas ervas, segui para o abrigo, com a mochila cheia de gravetos. Recolhi as peles e tentei uni-las com cola, me abriguei, esperando o dia passar. A noite caiu silenciosa e repentinamente. Resolvi espiar a superfície, escolher a rota mais segura e afastada de alguém querendo me matar. Depois de um tempo caminhando, escolhi a rota. Voltei ao refugio, organizei minhas coisas e dormi.
Quando levantei, o sol acabava de nascer, fiz um novo curativo, vi se todas as minhas coisas estavam no lugar e segui viajem. Andei por horas, indo pro sul, com alguns minutos para descansar e filar um pão. Eu mantinha minha nova pele sobre a cabeça, para proteger da neve que caia fina. Até ouvir um barulho familiar, buzinas.
Eu odiava aquilo, rodovias e ainda mais no meio de uma mata fechada. Subi num calho alto para observar a distância, (mesmo com um braço incapaz ainda tinha facilidade para esse tipo de coisa). Os carros, (acho que é esse o nome) corriam de um lado pro outro, e eu teria dificuldade de passar despercebida. Seguindo o olhar da pista, a oeste, um túnel se estendia por alguns quilômetros.
Para nenhum dos lados da pista me avistar, teria que atravessar por cima do túnel, mais ou menos no meio. Basicamente, eu teria que perder duas horas de viajem para desviar dos humanos, a não ser que eu quisesse matá-los quando alçasse vôo.
Segui na direção do túnel, ficando afastada da rodovia, até que o barulho diminuir, para segui novamente para o sul, escalando o túnel. Quando cheguei ao topo da construção, sentei para comer e calculei que teria mais três horas de sol, depois de descansar, vi se a descida seria fácil e se teria humanos fazendo reparos ou sei lá. No outro lado da pista, uma cerca alta seguia a estrada, separando a mesma da selva.
Deslizei pela lateral, o mais devagar possível. Grama nascia nas frestas, o que dificultava o percurso. Então aconteceu, um humano veio do meio das arvores, seus olhos perceberam movimentação, mas eu me estatelei no chão, rezando para ele não me ver
Ele observou mais uma vez. Parece que, a distancia entre nós tenha sido suficiente para ele acreditar que não tinha nada lá, ainda receoso, subiu em sua bicicleta, que estava apoiada num tronco e começou a se afastar. Eu suspirei e deslizei até a cerca, tendo um pouco de dificuldade para pulá-la.
Entrei novamente na floresta, correndo à oeste do lugar que o humano saiu, queria compensar o tempo perdido, além do fato que precisava rapidamente de um abrigo, eu estava calma, mas por pouco tempo.
Naquele dia, eu estava especialmente azarada. Um imã de humanos devia ter grudado em mim, porque a alguns metros de distância havia uma grande clareira, sinal de pessoas na área.
Tinha medo de me aproximar, nós fadas temos uma lei suprema: o segredo. Não podemos revelar para qualquer humano da existência de nossa espécie e se por algum acidente nosso segredo for revelado, nós devemos matar quem descobriu.
Eu detesto esse segredo. Eu não gosto de matar, apesar de já ter feito isto várias vezes. Ninguém entre as fadas gosta de matar e, quando o fazem, passam por um árduo processo de... digamos, re-ligação. Porque re-ligação? Por que quando as fadas matam, o “elo” que nos liga à Kensy é cortado, pois foi cometido um ato criminoso. Então, para nos re-ligarmos à Kensy, as fadas se refugiam nos locais mais selvagens da natureza para se ligar novamente a ela.
Eu perdi o foco. Não gosto quando isto acontece.
Quando eu percebi a clareira e a possibilidade de humanos estarem por perto, eu alcei vôo e pousei sobre um galho oculto da visão de qualquer um que estivesse no chão.
Entenda, apesar de ter asas fortes, eu não as uso com freqüência. Por não ter treinado nem dominado meus poderes, gasto muita energia voando. É difícil ter que se controlar em velocidade de vôo; direção; angulação de descida, subida e curva; nos obstáculos à sua volta; vento; e sem falar na porcaria dos poderes fora de controle. É, quando eu vôo, ou seja, utilizo mais profundamente das minhas habilidades de fada, meus poderes se afloram. Vários acidentes aconteceram assim, quando eu voava para me esconder ou fugir.
Então, sobre o galho da árvore, eu tive uma visão mais ampla do que existia à frente. Parecia ser um grupo grande de árvores frutíferas com um espaço razoável de gramado entre elas. Havia um cercado de madeira e arame separando a floresta do pomar. Eu pulei para um galho de uma árvore mais a frente e para outra até chegar à última.
Eu escondi o meu corpo atrás do tronco e inclinei a cabeça para ver melhor. Subindo por uma leve inclinação, a cerca de cinqüenta metros, existia uma casa simples e rústica. Consegui distinguir uma forma humana se movendo em torno da casa, andando até uma máquina que eu não sabia o nome.
O cheiro das frutas da árvore mais próxima foi carregado pela brisa fresca até mim. Eu fui anestesiada. O aroma era tão bom, doce e apetitoso, que minha boca se encheu de água e todo o meu corpo começou a desejar aquele alimento.
Lancei um olhar na direção da casa, receosa. O humano estava longe, lidando com a tal máquina. Eu não vi mal nenhum em descer e pegar algumas frutas. Depois de voltar ao chão e pular o cercado, eu me aproximei da árvore e tomei um fruto em minhas mãos, apreciando o cheiro.
Eu abri um saco de pano que trazia na mochila e comecei a guardar algumas frutas, com outra entre os dentes. Eu estava exultante, quase dançando, mas ao olhar para o lado o homem, dono do lugar, se mantinha raivoso, olhando em minha direção.
Fale com o autor