Fadas - A Maldição

4 Capítulo 2 - Uma pequena mudança em minha vida.


Capitulo 2

Uma pequena mudança em minha vida.

- O que faz aqui seu filho de michaga? (michaga é uma expressão que usamos, de um animal que, segundo os contos, era descendentes do caos e viviam na dimensão dos elfos).

- Eu... eu... Cara, você não percebeu que sou garota não?! — eu nem me incomodei com as asas, como se não houvesse necessidade de escondê-las e, ou pelo fato de retrucar com um humano que provavelmente queria me matar. Estava mais preocupada em defender meu real sexo, depois, pensando nisso, vejo o quanto era estranha naquela época.

Algo passou do meu lado com uma velocidade inacreditavelmente alta. Olhei para frente, e vi um bumerangue que quase me acertara. Ele começou a fazer o contorno e tive que abaixar para não ser pega.

Virei para trás e descobri o homem que havia arremessado o objeto. O fazendeiro agarrou meu braço nesse período de descontração. Olhou pra mim com o rosto vermelho, não era raiva, mas não podia explicar do que se tratava.

- Corra! – seguimos para trás de uma rocha e ele começou a falar apressadamente – Siga a trilha do pomar, você vai chegar à minha casa, não lhe farei nenhum mal. Aquele cara quer me roubar, provavelmente está à espera de cúmplices. – achei estranho, ele era estranho, não me achando estranha.

Saí em disparada para a trilha e cheguei a tal casa, parecia simples. Uma vassoura estava encostada à porta, alguns itens de poda e de plantio se espalhavam pela mesa. Utensílios humanos se estendiam pela parede da varanda, armas, coisas que eu não colocaria na lista de “itens mais desejados”. Depois de alguns minutos olhando o lugar, ouvi passos próximos. Era o homem.

Peguei uma espingarda, com a gravação winchester na cronha. Apontei para o peito do homem e puxei devagar o gatilho, minha mão tremia, eu já matava pessoas, por causa de meu poder descontrolado. Mas precisar de uma arma, totalmente humana, algo “grosseiro”, era repugnante.

Antes de eu disparar a bala, ele correu, sem eu ter tempo de pensar ele estava atrás de mim. Bateu fortemente em meu ombro, me emburrando ao chão. Depois de caída, eu me virei, e vi o fazendeiro, ele possuía um par de asas enormes, eram bem definidas. Ele era um fada homem, no jeito certo de dizer, um Dicns. Eu sorri levemente, afinal, não precisaria mais matá-lo.

Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar. Tirei a sujeira do corpo.

- Oi... desculpe por isso – olhei a arma no chão. Ele recolheu-a e colocou no lugar. – Prazer – estendi a mão – me chamo Lila... Linten. – ele apertou, receoso.

- Diga-me Lila, você tem pais?

- Não... Fui criada por minha parteira. Porque minha mãe morreu e meu pai a abandonou grávida. – Disse indiferentemente, balançando os ombros enquanto falava, era comum as pessoas quererem me despachar, tentar encontra logos meus pais para se ver livre de mim. Sua expressão mudou por um tempo, mas logo sorriu.

- Venha, você parece faminta. – Ele me deu um pedaço de pão com ovo e sentamos no degrau da varanda. – Você me parece familiar Lila. Já te vi antes?

- Não me lembro do senhor, desculpe. A propósito, qual seu nome? – disse mordendo o pão

- Sean.

- Obrigada Sean… agora vou indo. Tenho muito a andar. Posso ficar com algumas frutas?

- Pode sim.

Comecei a andar devagar na direção do porteira, recolhi minha sacola com as frutas nas raízes de uma figueira.

- Lila – ele chamou – se você quiser ficar... tenho as portas abertas, você parece ser legal, e eu já cuido de outras crianças sem pais.

- Sinto muito, mas... – hesitei por um momento, então mostrei minha segunda marca. – Sou amaldiçoada. Não tenho controle e nem ao menos sei meu poder, mas eu mato e você nunca ia me querer como companhia – eu esperava uma expressão terror e que ele tentasse me matar, mas em vez disso, olhou pra mim com indiferença.

- Não se preocupe, nos daremos bem, há um jeito de você aprender? – disse apontando o desenho em meu ombro que representa um poder além do inicial.

- …Mas ... — ele sorriu, e fez sinal para eu entrar. A cozinha tinha uma mesa central com um banco rústico em cada ponta. Um armário à ponta, uma pia abaixo da janela e um fogão a lenha que traria conforto no inverno. Um corredor levava a três outros aposentos.

- Ali é o quarto de Septimus, e ali – Sean foi apontando cada porta enquanto falava– é o quarto de Duda, a irmã de Sete. Você vai dormir com ela, ok? – Eu acenei com a cabeça, concordando. – a outra porta é o meu quarto, venha. – Ele abriu a porta do ultimo quarto e eu o segui. Lá dentro, uma cama simples estava encostada à parede, logo ao lado, uma cômoda e na parede oposta um baú enorme se aconchegava junto de um espelho. De dentro do baú, ele tirou e me jogou um sobretudo preto, longo e de couro artificial.

- Isso é para você esconder a marca, você deve fugir muito, se não souber controlá-la e… – puxou de dentro do armário – uma calça jeans. – fiquei maravilhada, os primeiros presentes da minha vida. Não sei o que deu em mim, mas o abracei, dizendo obrigada.

À tarde, improvisamos uma cama de palha, num quarto vazio. Fendas foram criadas, para “ encaixar” as asas, já que eu não conseguia recolhe-las e passamos o tempo todo conversando. O que fiquei sabendo dele: ele cuidava de gêmeos, era o guardião, e ele era um dicns banido das vilas Fairy ( fada ). Ele era muito legal comigo, parecia me entender. No finalzinho da tarde, bateram na porta. Eu estava olhando uma coleção de penas na sala, e Sean foi até a cozinha ver quem era. Logo depois ele voltou acompanhado por dois adolescentes. Uma garota veio até mim e apertou minha mão

- Olá, sou Duda. Duda, não Eduarda. – Ela tinha olhos rosas chocantes, os cabelos negros e escondia as asas. – Meu poder é descobrir a memória dos outros, com o toque. Mas não se preocupe, eu não bisbilhotei sua mente, ainda.

Atrás dela, saiu um garoto. Meu coração deu um salto estranho. Nunca tinha sentido algo daquele modo.

- Olá, sou Septimus, me chama de Set mesmo. – Ele apertou minha mão. – Meu poder é anular o poder dos outros. – Eu sorri feliz. Anular poder? Estava salva. Ele escondia as asas. Tinha os olhos azuis e cabelos loiros, quase brancos.

- Prazer, sou Lila Linten – sorri e ele retribuiu – infelizmente não sei qual o meu poder. – soltei a mão dele, agora séria – Tenho... um pequeno problema – eles pareciam curiosos. Olharam com expectativa para Sean, que lhes retribuiu com a resposta

- Ela é amaldiçoada, nós ajudaremos ela.

- Você não tem nenhuma noção, do que poderia ser? – Duda perguntou se aproximando lentamente, receosa.

- Eu firo as pessoas, e às vezes faço elas ficarem bem. – ela estendeu a mão e eu a segurei. Nossos braços ficaram brancos e ela me soltou rapidamente aterrorizada.

- Você matou, uma pessoa?

- Sim mas, por favor, não pense mal, eu… eu não fiz por querer, veja o resto. – estava começando a me desesperar, ela pegou minha mão. Fechou os olhos e de novo ficamos com os braços brancos. Ela começou a sorrir, criando covinhas nas bochechas. Abriu os olhos

- Desculpe… você é gente boa. – ela se aproximou do meu ouvido e sussurrou – Perdão, mas acabei descobrindo o que acha de meu irmão. – ela se afastou e eu corei imediatamente.

- Certo…

- Hum, vamos fazer alguma coisa? Já escureceu, mas, acho que sua lanterna ajuda Sean. – Set propos

- Vou pega-la. – Sean se afastou.

- Então, quantos anos você tem Lila? – perguntou Duda

- 14 e vocês?

- Temos 15. – respondeu seguindo para fora. Sean nos levou até um estábulo, onde eu conheci alguns animais. Os cavalos, no total cinco, e um cachorro fila Luck. Uma égua chamada Gen, toda preta, chamou minha atenção. Fiz um leve carinho em sua cabeça.

- Ela estava doente até pouco tempo, está prenha, nasce em poucos dias – disse Sean iluminando o lugar. – Pode usar ela às vezes, se quiser. Ela é bem forte.

- Adoraria. – Já estava quase na metade da noite quando voltamos para casa, eu tropeçava em tudo, mas consegui chegar inteira na minha cama. Era uma sensação maravilhosa ter um lugar quente e macio para descansar depois de tantos anos dormindo em pedras.

Dois rios cortavam a fazenda, o Rossi e o Durb, um de cada lado da fazenda, o Durb tinha sua nascente em um dos morros do lugar e o Rossi desaguava num lago.

Passei aquele dia disposta a conhecer mais a história de Duda e Sete. Nós nos encontramos de manha para ajudar Sean a colher os frutos. Depois, fomos aos estábulos, preparamos os cavalos e cavalgamos por toda a extensão da fazenda rindo de piadas e fatos de nossas vidas. Depois, seguimos para casa de Sean, amaramos os animais nas árvores e corremos para o almoço, que estava já estava posto na mesa.

Para você ter uma noção melhor, era mais ou menos, como o almoço em família na casa da vovó, que os humanos tanto se gabam. Onde as crianças se divertem a manhã e a tarde inteira.

Depois do almoço cuidamos das árvores. Podamos, colocamos água e tiramos as pragas dali. Depois nos divertimos a tarde toda.

Eu estava deitada sobre a grama, Duda do meu lado e Set sentado com os braços cruzados sobre o joelho, na nossa frente.

- Quando tínhamos oito anos – ele começou — Duda teimou em subir em uma árvore para vigiar o sitio vinte e quatro horas por dia e tentar capturar um elfo. Não passou duas horas e ela desceu de lá dizendo que estava com fome...

- Ei, não implique com minha fome, estava e estou em fase de crescimento!

- Aham – ele se virou pra mim – ela sempre esta em fase de crescimento, é impressionante, porque eu juro, ela tem praticamente a mesma altura faz uns dois anos. – eu ri.

Aquele já era meu terceiro dia ali, estava me sentindo bem, aceita, e feliz. Duda sempre ria de tudo e eu pegava Set olhando para mim ás vezes. Aquela foi a primeira vez que eu me senti em casa, como se tivesse uma família.

No quarto dia ali, Duda me contou o que havia acontecido com eles:

- Tínhamos nove anos de idade, era nosso aniversário… alguns homens apareceram, para roubá-los, eu tinha ficado em casa, mas depois decidi segui-los e ouvi o que aconteceu, meus pais tentaram lutar mas… ouve um problema e eles foram mortos. Eu fugi e sabia que Set estava logo atrás de mim. Por favor, não converse sobre isso com ele, ele sempre se isola do mundo quando alguém comenta. Além disso, ele acha que eu não vi o que aconteceu, eu não contei, ou ele fugiria de mim.

- Ok... Você está bem quanto a isso?

- Sim! Claro, eu fico triste mas, não posso lamentar o que aconteceu pro resto da vida, agora Sean é como um pai e eu também tenho Set e agora você, não preciso me sentir sozinha cada vez que converso sobre isso… -apesar disso, ela parecia se sentir assim

Os dias começaram a passar como luz para mim, tanto na rapidez como na luminosidade, que me fazia sentir viva.

Eu queria entender a dor de Set, a dor dele, me fazia sentir a dor e o sofrimento que tive depois da morte de Lia, minha parteira. Eu ainda me lembrava daquele dia…

“Um homem chegou em minha casa, eu era pequena e olhava pela janela do segundo andar. Não consegui ver seu rosto, estava chovendo e o guarda-chuva tampava-o. Minha madrinha, discutia com ele. Eu desci correndo as escadas e peguei uma pequena parte da conversa.

- DEPOIS DE TODOS ESSE ANOS, VOCÊ QUER LEVÁ-LA? NÃO, NÃO E NÃO. Eu amo a Lila, você não vai levá-la de mim. – gritou ela

- Você não pode impedir isso Lia... ela é minha... – ele foi interrompido por um golpe forte, caindo no chão a alguns metros.

- Como você pode fazer mal à alguém? Somos pacíficos, você é uma criminosa. – Eu acusei-a, àquela foi a primeira vez que vi meu poder em ação. Ele saiu verde de meu ombro direito, seguindo direto a ela. Envolveu sua pele e entrou pelos poros, causando morte instantânea. Eu fiquei aterrorizada com aquilo, recolhi minha boneca do chão e saí correndo chuva afora.

- Lila! – gritou o homem. Eu me virei e ele estava se sentando

- Como sabe meu nome? – eu chorava fortemente – você é um estranho, eu te odeio, você matou ela, não quero você. – Ele correu até mim e segurou meu braço antes que eu fugisse. Só consegui ver seu olhos verdes, desesperada bati fortemente em sua mão, ele me soltou por um momento, mas quando percebeu eu tinha corrido e me escondido longe.”

Eu acordei, com a lembrança daqueles olhos esmeraldas em minha mente, Duda me balançava, mandando eu me levantar para mais um dia divertido, mas para mim, depois daquele sonho, eu observava as nuvens não como formas de sombra para o calor, mas como algo que me guiaria para o frio.

Nos dias que se seguiram não falei sobre os pais de Duda e Set. Em vez disso, conversávamos sobre nossas longas viagens e o que pretendíamos fazer no nosso futuro.

Set e eu adorávamos andar pela fazenda, vendo os bichinhos que ali habitavam… ele era bom pra mim, com ele me sentia protegida, ele conseguia anular meus poderes e desde então nunca nenhum mal havia acontecido e a cada dia, que eu o conhecia mais… mais gostava dele.

Chegou domingo, e completou três semanas que eu estava na fazenda, eu não cavalgava mais com Gen, ela estava muito gorda e era preciso que descansasse. Eu fui fazer minha visita de rotina à ela, levando uma maçã. Entreguei à ela e fui ver se os outros tinham água e feno suficientes. A égua emitiu um ruído diferente e logo soube que ia parir. Corri chamar Sean no pomar, ele à ajudaria.

- Certo Lila, chame Set, ele precisa me ajudar aqui... preciso que você colha algumas frutas para depois que Gen der a luz.

Eu fiz o que ele mandou, disparei na direção da casa de Set. Entrei correndo e fui direto ao quarto dele. Bati na porta e ninguém respondeu. Entreabri-a e observei ele dormindo calmamente. Delicadamente mexi seu ombro e sussurrei

- Set, acorda, Sean está te chamando, é Gen. – ele se espreguiçou e abriu os olhos com sonolência. Quando me viu, seu olhos se arregalaram e ele levantou rapidamente. Usava uma calça de flanela solta e o peito estava nu.

- Hãn... Lila – ele parecia embaraçado – você aqui... o que ouve?

- Gen... está nascendo. – ele se apressou e saiu correndo descalço pelo gramado na direção do estábulo. Eu fui atrás.

- Não devemos acordar Duda?

- Não... ela foi dormir às dez ontem, muito tarde para ela. O poder dela exigi muita energia, mesmo se ela não usá-lo. Uma boa noite de sono, variando entre nove e onze horas dormindo é o suficiente para passar o dia. Agora deve ser que horas? Seis? Muito pouco. – explicou ele arfando enquanto corria.

Chegamos a tempo de ajudar Sean. Tudo correu bem. Enquanto eles trabalhavam, fui buscar os frutos. A cria era preta como a mãe, mas possuía algumas poucas manchas brancas espalhadas pelo corpo.

- Ele é saudável? – perguntei

- Sim – respondeu Sean. – As frutas? — entreguei-lhe.

A égua estava bem, se alimentou bem e deu de mamar à sua cria. Eu observei aquilo feliz, decidi que ela merecia espaço, então saí de perto e encostei no batente da porta.

Set se aproximou e segurou minha mão livre, um choque de emoção percorreu meu corpo. Eu olhei para ele... devo ter corado e acho que estava sorrindo, mas não prestei atenção nisso, estava ocupada olhando seus intensos olhos azuis…

Ele começou a andar, passamos pelo pomar e Set entrou em casa, pedindo para que eu esperasse na sala. Quando voltou estava vestido e Duda estava de pé.

- Vamos ao morro? – eu confirmei com um aceno — Duda quer nos acompanhar? – ela olhou com cara de “fala sério”

- Eu não… quero tomar café e mexer com as árvores. Do jeito que acordei hoje, nem andar tenho vontade. – eu ri – é sério Lila, tenho vontade de sentar em qualquer lugar pra dormir… Ok, vão logo, não quero prender vocês aqui.

Eu me levantei e Set me acompanhou.

- Vamos a pé mesmo?

- Pode ser, sei lá – tentei ser indiferentemente – caminhar é um pouco bom às vezes. — Seguimos o rio, para ir ao topo do morro. Depois de uma hora de caminhada chegamos no destino.

- Nunca me canso de olhar daqui… — contemplei a paisagem à minha volta, as construções lá em baixo, as árvores, tudo era lindo de se ver.

- Vem – ele me chamou

- Já vamos embora?

- Não, quero te mostrar um lugar lindo. – ele correu para a direção oposta à nossa casa, descendo o morro, eu o segui rindo. Então um paredão bloqueou nossa passagem. – Por aqui. – ele pegou minha mão e correu pela lateral do abismo. Abriu as asas e se jogou, já segurando meus dois pulsos. Ele desceu veloz, eu não via o chão, só via o paredão, Set e ouvia um barulho forte de água. Então ele diminuiu drasticamente a velocidade e caímos fundo num rio.

Quando voltei à superfície da água, uma cachoeira enorme despencava pelas pedras. Arco-íris se formavam em três lugares. A água era deliciosa e Set me ajudava a ficar na superfície, já que não sabia nadar.

- Gostou? – ele sorriu pra mim

- Sim – virei de frente pra ele – acho melhor irmos à margem, eu não sei nadar.

- Não se preocupe, eu te ensino. – ele segurou minha mão e disse como eu deveria fazer para me manter parada na água. Eu aprendi rapidamente os princípios do nado. E, nossa, não pude deixar de sorrir. Vocês devem até pensar que eu estava sendo infantil, mas não. No nosso mundo, costumamos ser maduros depois dos 13 anos. Somos bem adiantados mentalmente. Eu estava feliz mesmo.

Já devia ser meio-dia, quando saímos da água. Nós riamos das minhas trapalhadas e das brincadeiras no rio. Eu estava com muita fome, mas precisaríamos contornar o moro. No meio do caminho, criei coragem e perguntei:

- Set… porque você fica tão fechado quando falo de seus pais? – seu sorriso desapareceu, e ele abaixou o rosto. Pude ver que escondeu uma pequena lágrima que escorria por seu rosto.

- Não quero falar disso – disse secamente

- Ok

Ele ficou calado o resto do caminho, respondia apenas sim ou não. Eu me odiei por aquilo. Chegamos tarde, e Sean estava preocupadíssimo. Logo que me viu, me abraçou.

- O que foi Sean? Eu estou bem, eu e Set fomos andar. – ele tremia, e eu não entendia seu nervosismo.

- Tudo bem – ele se afastou – Você está com fome não é? Temos Cattimóri na mesa. Set, você também. – Cattimóri é uma comida só feito pelas fadas, já que os humanos arrancam diversas plantas do quintal dizendo ser mato. Mais aqui é diferente tudo deixamos onde nasce, se não foi o lugar ideal para fazer bem a ela e as criaturas da redondeza ela não iria nascer naquele local.

A semana teimou a passar, Gen estava saudável, como o filhote. Set estava fechado, desde a minha pergunta, Sean parecia receoso e Duda… bem, Duda passava a maior parte do tempo com no pomar ou dormindo.

Eu passei os dias todos no morro. Sentava na pequena ponte do rio e observava todo o vale. Comia pouco e estava deprimida. E eu estava com raiva disso, porque eu não sabia com o que estava triste.

Era uma tarde quente de segunda, quando Set finalmente veio falar comigo. Eu estava na ponte sobre o rio e ele chegou quieto, se deitou ao meu lado, cruzando os braços atrás do pescoço. Como eu estava sentada, só olhei pro lado e o encarei, ele olhava o céu.

- Lila… à oito dias você me perguntou algo. Eu fui rude com você e depois me fechei. Desculpe por isso. É difícil para mim admitir – ele se sentou e olhou para mim, continuando:

– Quando eu tinha nove anos, um grupo terrorista atacou meus pais, eu estava junto, Duda tinha ficado em casa. Meus pais conseguiriam dar conta do recado, mas eu, apavorado, anulei seus poderes. O grupo não usava de poderes e os mataram, eu fugi. Eles não me seguiram, mas eu tenho remorso até hoje. – eles estava a ponto de chorar — Sabe, não foi fácil pra Duda, ela perguntava todo dia deles, eu falava que eles tinham ido viajar e pediram para eu cuidar dela. Mas eles não voltavam – eu me angustiei – um dia, ela não perguntou mais. Não sei o que pensa, mas eu a amo, e ela retribui, o que me deixa melhor. Acho que esqueceu os rostos, e apavorada, decidiu fingir que nunca existiram.

Ele fez uma pequena pausa

- Então, eu não conseguia mais encontrar comida, segurava a mão dela o tempo todo, saber que ela estava ali, era bom pra mim. Decidimos ir para uma vila, Sean percebeu nosso estado imediatamente, e no acolheu. Não sei por que, ele nos recebeu tão bem. Crianças estranhas, pobres e sem controle nos poderes. Mas ai ele nos alimentou e cuidou de nós. Treinou-nos e ensinou a viver por conta própria. Até hoje ele é um grande amigo para mim. Acho que Duda o trata mais como um pai, mas eu a entendo bem. – ele falava pausadamente e com a voz embargada — Consegue me entender Lila? – Eu o abracei

- Sim… você é como eu. – uma lágrima escorreu pela minha face. Segurei sua mão e me levantei, puxando-o para cima. Ele se levantou e seguimos para casa.