Facínora.

1 Capítulo único.


Foi com essa faca que o matei.

Segurei-a com a mão direita e afundei-a logo abaixo de suas costelas do lado esquerdo do corpo. Para ela entrar mais fundo, apoiei meu próprio peso na mesma. Até o talo. Até o cabo barrar a entrada. Até não ter mais o que colocar.

Depois eu tirei a faca.

E repeti o processo na barriga.

Entrou mais fácil. Deslizou.

Sangue e lágrimas jorravam de seu corpo magro e aparentemente dócil.

Não pude evitar sorrir.

Sangue bonito. Vermelho.

Lágrimas espessas e puramente desesperadas. Em seu olhar, não havia confusão. Ele sabia o motivo de eu estar fazendo o que estava fazendo.

Ele compreendia.

Eu estava cobrando o que ele me devia. Não queria seu corpo — como ele outrora quisera o meu.

Queria apenas saber que ele não mais existia. A incerteza de sua localização geográfica, a ansiedade constante e o pavor de saber que a qualquer momento ele poderia entrar pela porta e me possuir como bem entendesse... nunca mais.

Acabou.

Matei-o.

Esfaqueei-o doze vezes. Pelos doze anos que ele me roubou.

Confesso.

Julgo-me culpada.

Prisão nenhuma será tão ruim quanto a que vivi na última década.

Obrigada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!