Fact

1 Um fato sempre muda a realidade


E então eu não era mais a Liesel que eu sempre fora. Eu agora era uma mulher madura, amargurada pelos fatos passados, pela ida de todos aqueles que eu achava que viveriam para sempre. Ledo engano.

Eu agora tinha filhos e era casada, mas o amor de Rudy ainda deslizava vivo pelas minhas veias, como labaredas de fogo que lambem a lenha na lareira. Todas as cenas que eu vivera quando pequena ainda me fustigavam e faziam-me escrava do passado. O beijo com gosto de arrependimento de Rudy.

O beijo que me fizera sentir mil emoções ao mesmo tempo, acentuando toda a tristeza e a raiva que eu sentia. Eu vira a morte deslizar como um agouro pelo o que um dia fora a rua Himmel. Uma rua com nome de céu. Quem, em sã consciência, destruiria uma rua com nome de céu?

E hoje ainda eu lembro de papai, seus olhos de prata derretida, como um acordeão oco naquele dia. E mamãe, com seus cabelos elásticos e o rosto de papelão sem vida. Eu ainda me pego querendo ser chamada de saumensch. Eu estou presa ao passado, como nunca antes fora.

Tudo o que me restara de vivo do passado era Max. Mas nunca me fora o suficiente saber que eu o tinha. Era uma coisa que escorria pelos meus dedos, como uma sombra que lentamente se aproximava. E eu sabia que Alex Steiner era tão preso ao passado quanto eu. Ele sabia de toda a cumplicidade que eu tinha com seu filho.

Eu podia já não ser tão nova agora, mas toda a minha vivacidade de roubadora de livros ainda ardia, como uma chama. Gosto de comparar-me com o fogo, pois o fogo nunca fica vivo por muito tempo.

Quando a morte bateu à minha porta, eu logo me sentei. Havia feito como papai, uma alma pura que sabia quando a hora chegava. Eu sabia que a minha hora chegava e que poderia até rever quem eu daria tudo para ter perto de mim. Eu seria apenas a menina que roubava livros. Eu agora dançaria com a morte.

EIS UM PEQUENO FATO

Você vai morrer.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!