Faceless - O Monstro de Hillstone
1 Oneshot
Notas iniciais
Não me lembrava exatamente de quem havia surgido a brilhante ideia de acampar na floresta de Hillstone, mas eu não recomendo a ninguém que refaça meus passos daquela noite.
Éramos três: Rodger, Clar e eu, Mike. Esses dois primeiros caras eram os meus melhores amigos. Havíamos passado duas semanas combinando tudo até a data programada. Eu sabia que Hillstone era conhecida pelas histórias de terror que contavam sobre ela, mas não tinha conhecimento das mesmas. Quem se encarregou de se informar sobre elas foi Clar. A que mais lhe chamou atenção foi sobre uma criatura misteriosa irracional e terrível, esta que eu estou contando para você que está lendo. A nossa própria experiência de ficção.
No final das contas, de tanto Clar pesquisar por historinhas malditas, ele se esqueceu de imprimir um mapa da floresta. E o pior era que os três inúteis aqui só se deram conta disso depois de várias horas perdidos no meio das árvores. E a noite seguiu, silenciosa salvo os ruídos de animais, o silvo do vento e os nossos passos esmagando as folhas secas no chão.
Eu e Rodger estávamos até que pacientes, considerando a burrada de Clar, mas talvez ele estivesse suficientemente afetado pelo medo para não trocar uma palavra sequer durante as horas seguintes. A insegurança começava a nos dominar conforme andávamos em círculos naquele pedaço de mato ridiculamente extenso, e a madrugada veio.
Durante as poucas paradas para reabastecer os estoques alimentícios, vulgo comer, decidimos esperar o sol nascer para continuarmos a caminhada, e Clar estava claramente tenso com relação a essa ideia. Talvez tivesse algo a ver com a história que ele pesquisou, ele se recusou a nos contar o problema.
Depois de aproximadamente meia hora, Clar finalmente abriu o bico. Nos disse que não devíamos nos preocupar, que tudo ficaria bem, mas a sensação de que havia algo muito errado com o seu tom de voz não me abandonava de jeito nenhum.
— Mike, tudo bem? — Rodger finalmente quebrou o silêncio ao ver minha cara de preocupação, me trazendo um alívio interno tão forte por haver mais alguem ali que eu tive que conter um suspiro.
— Sim, claro, eu só estava... pensando um pouco.
— É bom não pensar demais, ou seus miolos irão fritar. — Clar brincou.
E mais um cansativo instante de silêncio e caminhada se fez entre nós.
Depois de tanto tempo caminhando inutilmente, não víamos mais esperança de encontrar um refúgio, quando um grito agudo de congelar a alma nos fez estancar.
— O que foi isso? — Como sempre, Rodger iniciando os diálogos.
Permanecemos calados tentando identificar a origem daquele som horripilante. O ruído agudo ainda tinia em meus tímpanos, todos os meus pêlos se eriçaram.
— Clar... Vamos andando. — Toquei suas costas na esperança de que ele continuasse a caminhada, mas nem menção de levantar o pé ele fez.
Eu e Rodger nos entreolhamos, preocupados. Ele tomou um passo á frente, recomeçando a caminhada exaustiva, mas Clar o segurou pelo pulso.
— Vocês não estão ouvindo? — Clar sussurrou, levantando uma mão indicando que fizéssemos silêncio.
E como se fosse um sinal, o silvo se repetiu, dessa vez mais alto, mais próximo, vindo logo de trás. Instintivamente nos viramos naquela direção. Em pleno breu matinal, nada ainda era visível, mas, se meus olhos não estivessem me pregando uma peça, podia jurar ter visto uma silhueta se movendo entre as árvores a uma distância imensurável.
Ouvi Rodger murmurar um palavrão antes de começar a puxar desesperadamente minha camiseta. Eu estava de costas para os dois, eles deviam estar querendo correr, mas não pude desviar meus olhos daquela criatura horrenda.
O monstro terrível se movia com a fluidez digna de um peixe fisgado numa pesca, frenético. Não parecia estar se aproximando, mas meus olhos, ainda que cansados, tiveram um vislumbre de distância diminuida tão rapidamente quanto eu não pude reparar. Quanto mais perto do feixe fraco de luz produzido pela lanterna, mais fácil me era para distinguir suas formas, e mais enjoativo se tornava pensar nelas.
Ele tinha uma forma vagamente humanóide, braços pendiam moles ao lado do corpo em convulsão, as pernas tortas mais davam passos em vão do que andavam, vacilando a cada pisada cadenciada. A pele enrugada e pegajosa o fazia parecer saído de um lago radioativo, ainda com umas manchas enegrecidas e podres espalhadas pelo corpo nu e avermelhado. Os dedos retorcidos em garras inquietas arranhavam constantemente o que deveriam ser as coxas. Seu peito revelava as costelas salientes e palpitava numa velocidade antinatural e num ritmo desconcertante, como se respirar lhe fosse a tarefa mais complicada de todas. E deveria ser, considerando a visão aterradora que vinha logo acima. Onde deveria haver um rosto, era uma caixa encefálica apodrecida. Não havia olhos, nariz, boca, nada que o deixasse mais humano. Parecia um boneco de cera derretido, a pele enrrugada da cabeça lhe caindo como se houvesse sofrido ação de um sol escaldante. A ausência de um rosto era o mais inquietante de tudo, até ouvirmos seu ruído gutural. Aquele som agudo e irritante novamente soou, ainda mais perto do que da última vez, fazendo meus ouvidos arderem. A pior cacofonia já ouvida em sua vida, caro leitor, nunca se compararia àquele estrondoso barulho, como se uma lixa fosse esfregada nos seus tímpanos enquanto tocavam-se milhares de sinos e dedilhavam-se taças de cristal com diferentes níveis agudos de água, tendo-o num ambiente propenso a ecos. Tão rápido como surgiu, o som cessou, ainda me deixando uma agoniante dúvida de como diabos aquela criatura havia produzido tão hediondo ruído, mas o tilintar ainda ressoava em minha cabeça, uma dor cáustica martelava minhas têmporas. Mais um pouco daquilo e eu tinha quase certeza que meus olhos explodiriam.
Mesmo com o eco daquela manifestação de crueldade auditiva ainda me ensurdecendo temporariamente, pude ouvir passos apressados atrás de mim se distanciando, e eu não precisava me virar de costas para constatar o óbvio: Rodger e Clar haviam corrido para salvar seus malditos traseiros moles.
Se bem que o meu estado psicológico não era lá um dos melhores. O medo incondicional era tamanho que espalhou uma paralisia dolorosa por cada centímetro de músculo e aticulação que eu tinha, tamanha era a força imposta na rigidez mórbida do meu instinto de defesa. Não conseguia desviar minha atenção daquilo à minha frente, em estado de choque e total alerta.
Então, como se fosse chamado pelos passos, aquela criatura começou a correr, ou o que deveria ser o ato de correr para a sua espécie. As pernas se entortavam numa direção estranha, hora para os lados hora para trás, nunca para frente, conforme suas passadas eram impulsionadas pelos movimentos enjoativos daqueles membros. O corpo se inclinou para frente, e aquela sensação agoniante de não conseguir ver uma face naquela cabeça continuava me dando arrepios. Em uma velocidade maior, a criatura avançou em minha direção, mas meu estado de choque não me fez sequer gritar. Ela levantou as mãos e começou a arranhar o próprio rosto, abrindo um buraco de carne viva onde poderia estar uma boca. Estava a menos de seis metros de distância, e era bem maior do que eu havia imaginado ser. Meu coração parecia querer explodir no peito, eu sentia o suor gelado escorrendo pela minha pele exposta e grudando minhas roupas ao corpo, mas ainda não conseguia sair do lugar. Minha mente trabalhava, forçando a tirar minhas pernas da paralisia, mas nenhum músculo meu se moveu.
Aberto o rasgo grotesco e ridiculamente vazio — eu esperava ver dentes pontiagudos ali, mas aquilo não passava de um maldito buraco — em seu rosto, um chiado decadente começou a ser ouvido, e ele diminuiu significativamente a velocidade até parar exatamente a meio metro de mim. A lanterna ainda o iluminava, deixando sua pele viscosa brilhante, o que não era nada bonito de se ver. Mas o pior era o cheiro. O odor de decomposição inconfundível se alastrou em meus pulmões, se impregnou em minhas roupas, me fazendo lacrimejar. Seu corpo em pura carniça bambeou levemente, e o terror e o nojo se equilibraram no nível de sentimentos mais fortes no momento. Aquele ruído constante era mais chato ao ser ouvido de perto, como um cego estalando a língua para se orientar pela audição. E talvez fosse isso mesmo que ele estivesse fazendo, se localizando.
Em um movimento rápido demais para meu cérebro processar, aquela criatura contornou a minha presença insignificante e correu daquele jeito esquisito para longe. Escutar seus ganidos se distanciando não foi a coisa mais agradável do mundo, mas certamente me trouxe um alívio repentino, que foi dissipado quando me ocorreu a direção que ele estava tomando: a de Rodger e Clar.
Um pânico ainda mais inquietante que antes tomou conta do meu ser assim que outro grito, longo e distante, ecoou por entre as árvores daquela maldita floresta. Mas esse grito não era aquele mesmo som agudo e ensurdecedor de antes, era a voz de Rodger. Um ganido sôfrego e arrepiante que fez todo meu corpo congelar, meus membros começaram a tremer com a rigidez que me firmava paralizado no chão na mesma posição de antes. Rodger gritava incessantemente, longe o suficiente para eu não poder enxergar a horrenda morte que ele deveria estar tendo. A voz já chegava a soar rouca, estrangulada pelo próprio lamento. Depois, e eu não queria nem imaginar o motivo, Rodger parou de gritar. A floresta ficou silenciosa novamente, nem os animais ousavam se manifestar agora. Um tuim se fez em minha cabeça, tão quieto estava tudo à minha volta, e o pavor começou a forçar lágrimas a escorrerem pelo meu rosto.
Mas eu não tive tempo de absorver todas aquelas informações antes do segundo grito me atingir em cheio a ponto de eu finalmente me mover e cair de joelhos na terra macia. Clar gritava e suplicava pela vida, vez ou outra seus urros se tornavam mais graves, talvez ele estivesse conseguindo lutar contra aquela criatura, mas em vão. O ruído pareceu um pouco inundado, como se sua boca cuspisse sangue e ainda tentasse gritar. Era mais fácil para mim não imaginar. Enfim seus gritos cessaram, trazendo novamente aquela sensação de vácuo.
Os meus dois melhores amigos haviam acabado de serem mutilados por uma criatura monstruosa. Instintivamente, eu queria me levantar e correr até onde eles jaziam inertes, mas não faria diferença alguma a não ser a possibilidade daquela criatura me atacar.
Passei horas parado no mesmo lugar, chorando até cair no sono. Por sorte ou ironia do destino, nenhum pesadelo me perturbou mais do que eu havia sido perturbado naquela madrugada. Enfim o sol se levantou e eu pude retornar à civilização, certo de que nunca mais iria tirar aquele maldito acampamento da minha cabeça.
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