Faceless

4 Capítulo 4


Annabeth abriu os olhos e se deparou com o teto cheio de estrelinhas do quarto de Thalia. Sentia a amiga ao seu lado, se remexendo constantemente e dando-lhe cotoveladas, o que estava sinceramente lhe tirando a paciência. Tentou sentar-se, porém uma forte tontura a fez ir de encontro à cama novamente, resmungando. Sabia que, mesmo estando com uma dor de cabeça terrível, teria que se levantar e voltar para sua casa, afinal já dormira na casa da amiga dois dias seguidos. Ou seriam três? A garota não conseguia se lembrar qual era o dia da semana e, olhando ao redor, reparou que o celular de Thalia estava no criado-mudo do seu lado da cama. Torcendo para que não derrubasse nada, esticou o braço e pegou o objeto, remexendo em suas teclas, procurando um calendário decente. Quando encontrou, arregalou os olhos pelo susto. Já era segunda-feira.

– Ai meu Deus! – exclamou um pouco alto demais, fazendo Thalia abrir seus olhos arregalados.

– O que aconteceu? – perguntou ela, bocejando logo em seguida. – Estamos atrasadas para a aula?

– Não. – disse Annabeth depois de olhar o horário. Ainda tinham uma hora para se arrumar. – Porém, iremos se não nos arrumarmos logo. Ei, que dia foi a festa da Rachel?

– No sábado à noite. Por quê?

– Dormimos domingo inteirinho? – indagou Annie, boquiaberta. Arfou quando sentiu uma pontada extremamente irritante em sua cabeça, avisando-a que o dia não seria nada bom.

– Me tire dessa história, mocinha! Eu não dormi nada no domingo. Já você... O dia inteirinho, sem pausas para levantar, escovar os dentes, tomar um banho... Não, você ficou nessa cama parecendo estar no meio de um estado vegetativo, minha cara. Sério, aquela festa acabou com você, Annie. – explicou Thalia, elevando a voz no final da fala. Parecia repreender Annabeth, mas ela não conseguia entender o por quê. Fizera algo ruim durante a festa? Ou seria apenas sua imaginação?

– Mas eu... Eu nunca dormi tanto assim! – comentou Annabeth, franzindo o cenho.

– É... Deve ter sido aquela bebida esquisita que você tomou na festa.

– Que bebida? Do que você está falando?

– Você não se lembra? – perguntou Thalia, colocando um sorriso cínico no rosto. – Não brinque comigo, Annabeth! Você não pode ter esquecido!

– Esquecido do quê?

– De tudo. Do garoto, da bebida, da dança, da multidão... Como? Quero dizer, aquilo foi inesquecível até para mim que nem cheguei aos seus pés no quesito de “abalar em festas”. – A amiga de Annabeth parou de sorrir quando viu que a expressão de desentendimento de Annie não era falsa. De modo algum. – Ai meu Deus! Você esqueceu! Hun... Do que você se lembra exatamente?

Annabeth fechou os olhos e voltou àquela noite em sua mente. Lembrou-se de quantas vezes queria quebrar o pescoço de Thalia e de quantas vezes queria dizer a Percy o quão lindo ele estava, mas não fez nada em nenhuma das situações. Recordava do local da festa, de um garoto bonito que não lembrava o nome e... Da bebida! Sim, ela se lembrava da bebida verde, mas... Nada mais.

– Me lembro da bebida, de um garoto, mas... Nada além disso. Thalia... O que aconteceu nessa festa, afinal?

– Bem... Você tomou todas e mais algumas, além de ter dançado muito com aquele menino que não quis se identificar e que te trouxe até mim. A beleza dele quase me fez esquecer de você, desfalecida nos braços musculosos do Deus Grego das festas. Sinceramente, de todos aqueles meninos, ele era o mais bonito, Annie. Pelo menos, nisso você acertou. Ah, e em deixar Rachel brava, com certeza.

– Brava? Por quê? – Annabeth riu baixinho ao imaginar Rachel vermelha como seu cabelo, soltando fogo pelas ventas. Thalia a acompanhou quando a garota soltou tal comentário cheio de sua imaginação fértil.

– Ora, você ofuscou todo o brilho que ela queria. Obviamente, já que você dançou que nem uma condenada dançaria se isso dependesse da sua liberdade! Onde você aprendeu a fazer aquilo?

Annabeth nada mais fez além de balançar a cabeça e dar de ombros. Não sabia exatamente do que Thalia estava falando, portanto não poderia dar qualquer explicação sobre aquela noite. E falava sério. Afinal, ela não sabia por que não fora embora quando começou a falar com Dean, não sabia por que tomara aquela bebida... E, principalmente, não sabia por que fora à festa se sabia que algo ia acontecer entre Rachel e Percy. Masoquismo era a única explicação coerente. Para mim, não. Talvez ela só quisesse ter certeza de que Percy queria aquilo, ter certeza de que ela não poderia fazer mais nada. Em suas fantasias alopradas, ela sonhara com um Percy corajoso que deixaria Rachel com uma carranca enorme, porque ele escolhera Annabeth ao invés da ruiva. Sonhava com um beijo e um pouco mais além disso. Para mim, Annabeth foi àquela festa esperando que alguma de suas fantasias se realizasse. A vida é feita de decepções, no entanto. Algumas que marcam e deixam cicatrizes. Annabeth poderia afirmar que tinha uma coleção.

–--*-*---

Inferno era um tipo de elogio para aquela segunda-feira, na verdade. Palavras não eram suficientes para caracterizar aqueles primeiros minutos de Annabeth no colégio. Olhares tortos, comentários maldosos, sorrisos maléficos e alguns “piranha” no caminho até o corredor. Foi quando ela e Thalia encontraram Percy. Annie simplesmente gelou. Quero dizer, todos haviam sido maldosos, inclusive Thalia em certo ponto, mas... Será que Percy seria assim com ela também?

– Bom dia, Percy! – cumprimentou Thalia, colocando um grande sorriso no rosto.

– Bom dia, Thalia. Annabeth. – a loira instintivamente olhou para o chão. Aquela havia a pior demonstração de frieza que ela poderia ter recebido. Ainda mais, dele.

– E aí, gente? – gritou Grover, se intrometendo no grupinho. – Annie! Oi! E aí? Bebeu muito do seu elixir verde? – perguntou o garoto, imitando uma garrafa de bebida com suas mãos e colocando perto da boca, sinalizando que Annie realmente ultrapassara do ponto. A garota continuou olhando para o chão, sentindo as lágrimas se formarem em seus olhos.

– Eu... Eu vou tomar uma água. Com licença. – disse Annabeth pela primeira vez, comemorando internamente por sua voz não parecer embargada. Avistou o banheiro feminino pelo canto do olho e deu um pequeno sorriso. Trocando de direção, entrou no cômodo e entrou em dos boxes, pegando seu celular em seguida. Franzindo o cenho, verificou que tinha uma mensagem vinda de um número cujo nome da identificação era “Dean-maravilha”. Só poderia estar bêbada quando escrever algo assim em seu telefone. Rindo baixinho, leu a mensagem lentamente. Nela, Dean dizia que a noite de sábado fora realmente ótima e que estava extremamente feliz em ter conhecido Annabeth. Além disso, pedira que ligasse para ele assim que Annie pudesse. Bom, ela podia naquele momento. Apertou o botão verde, discando o número.

– Alô? – uma voz grossa que ela logo reconheceu falou do outro lado da linha.

– Hun... Oi, Dean. Sou eu, Annabeth. – respondeu Annie, sentindo-se um pouco insegura. Talvez ele só estivesse sendo sarcástico na mensagem ou algo assim, afinal ela estava completamente bêbada e horrível naquela festa.

– Oi, Annabeth! Como vai?

– Bem. Você?

– Igualmente. – Dean parou de falar por alguns segundos até que tomou coragem e continuou – Hun... Annabeth?

– Annie, por favor.

– Certo, Annie... – Annabeth sorriu ao ouvi-lo dizer seu apelido. Parecia muito mais bonito quando ele o dizia. – Bem... Sei que nos conhecemos há dois dias apenas, porém... Queria te fazer um convite. Meu amigo vai dar uma festa quinta à noite e queria saber se quer ir junto...

Annabeth estava boquiaberta. Dean a estava convidando para uma festa? Isso estava realmente acontecendo? A garota ficou calada por alguns longos segundos, imaginando se sua imaginação estaria lhe pregando uma peça ou algo parecido. Só então percebeu que ele ainda esperava uma resposta.

– Olha, se você não quiser, não tem p...

– Com certeza! Obrigada pelo convite, Dean. – disse Annie, calando-o. Dean riu do outro lado da linha. – Hun... O sinal do meu colégio acabou de tocar, na verdade. Então, será que podemos conversar mais tarde para decidir os detalhes?

– Claro. Bom dia para você. – desejou Dean, ainda rindo.

– Igualmente. Até mais tarde. – despediu-se Annabeth, pegando suas coisas e correndo para a sala de aula, não querendo perder um minuto sequer da próxima aula. Naquele momento, ela se esqueceu de Percy, de Thalia, dos olhares maldosos e dos comentários. Esqueceu-se de tudo. Por apenas um motivo. Mordendo o lábio inferior, fechou os olhos e colocou seu maior sorriso antes de entrar na sala que, na verdade, não parecia um Inferno tão ruim assim, de repente.

–--*-*---

O intervalo, no entanto, foi um pouco sufocante. Annabeth realmente não sabia se sair da sala seria uma boa idéia, afinal Percy mal a olharia nos olhos e Thalia poderia fazer uma piadinha de mau gosto que acabaria com o restante do dia. Portanto, ficar na sala de aula foi sua última e melhor opção.

As últimas aulas do dia passaram rapidamente e, logo, Annabeth estava arrumando seus pertences para ir para casa. Piscou os olhos com força ao perceber que teria que ir para casa com um dos dois de quem fugia. Tremendo um pouco de nervosismo, saiu da sala e foi em direção ao pátio do lado de fora do colégio, segurando a alça da sua mochila com força. Olhava para os lados constantemente, procurando por Percy ou por sua melhor amiga, sem sucesso, é claro. Parecia um tipo de complô contra a garota nenhum dos dois aparecer. E foi então que Annabeth sentiu algo molhado descer por seus ombros e um forte impacto em suas costas. E gritos. Muitos gritos. Pegou um pouco da gosma e percebeu que jogavam ovo podre com algo branco em si. Farinha, talvez. A garota tentou correr, porém de nada adiantou. Quando finalmente olhou para trás, percebeu o sorriso cínico e completamente demoníaco que Rachel lançava em sua direção.

– Isso foi por acabar com a minha festa, sua porca bêbada e drogada! – dita tais palavras, Annabeth sentiu seu corpo ser jogado contra os ladrilhos da calçada e seu rosto ferver pela temperatura da superfície. Sentindo seu corpo inteiro doer, a garota levantou-se e começou a caminhar para casa, quase bufando de tanta raiva que sentia. Só queria be... Não, ela não queria beber. De onde tirara essa idéia? Não, ela queria bater em Rachel e naqueles amiguinhos feios e nojentos que ela colecionava. Quando já havia andado mais de dois quarteirões, ouviu uma buzina familiar, porém não parou. Percy poderia muito bem andar mais alguns metros para alcançá-la. Ou talvez fosse muito pão-duro para se importar com ela. Tudo bem, Annabeth já estava acostumada.

– Annabeth! Annie, pelo amor de Deus, pare!

– Não tenho tempo agora, Percy. Tenho que chegar em casa e me lavar! – exclamou, sem olhar para cima. Ouviu Percy bufar.

– É, eu percebi. O que aconteceu? – perguntou inocentemente. Annabeth congelou no lugar. Como ele tinha coragem de fazer uma pergunta como aquela?

– Quer saber o que aconteceu?! Pois bem... Sua amiga puta chamada Rachel resolveu pregar uma peça na pinguça aqui! – gritou Annabeth, apontando para si mesma – Não percebe?! Eu estraguei a festa dela, sabe? Eu tive mais fãs que ela, portanto eu tive que pagar. Feliz agora?

– Você não é pinguça.

– Ah não?! Então, sou o quê? Prefiro ser pinguça a puta, pelo amor de Deus! O que você ainda está fazendo aqui? Vai voltar pra rodadora de bolsinha, vai! – Annabeth apontou para trás e mandou o dedo do meio para o melhor amigo. Raiva era pouco para o que estava sentindo, com certeza.

– Entre no carro, vamos! – ordenou Percy, colocando uma carranca no rosto. Annabeth podia ver uma veia saltando em sua testa. E tudo aquilo só tornou a situação cada vez mais irresistível para ela, tomada pela ira.

– Nem morta, Percy! Prefiro andar até a Rússia a entrar no seu carro nesse momento. Afinal, vai feder a bebida alcoólica, seu pai iria brigar, com certeza. E, além do mais, minha casa é só daqui uma quadra. Pode ir embora, ficarei bem.

– Duvido muito. Sempre arruma problemas. – comentou Percy, rindo baixinho. Não foi um comentário feito com o objetivo de ofendê-la, porém Annie o tomou como tal, sentindo um desejo enlouquecedor de acabar com aquela conversa.

– Então, vai enfiar meus problemas lá na casa da Dona Joana, pelo amor de Deus! E vai se fuder junto, vai! Adeus, Percy! – gritou Annabeth, mandando o dedo do meio novamente.

– Só não faça nenhuma besteira, tudo bem?

– Te conhecer foi a pior de todas. Não se preocupe, só fiz uma vez na vida. E não dá pra fazer de novo! – gritou a garota antes de Percy pisar fundo no acelerador, virando a esquina rapidamente. – Merda!

Annabeth tirou a mochila das costas e os sapatos quando chegou em casa. Ouviu barulhos estranhos novamente no quarto e decidiu não atrapalhar. Aaron a chamou quando a garota tentava entrar em seu quarto.

– Oi! – cumprimentou ele, franzindo o cenho logo em seguida – O que aconteceu com você?

– Chuva de ovos. Como vai? Melhor?

– É, acho que sim. Por que levou uma chuva de ovos?

– Rivalidades mal-resolvidas. Vou tomar um banho, ok?

– Certo. – respondeu o irmão de Annie, sorrindo. Aquele sorriso, ela sabia, era o único que nunca a deixaria zangada. Por motivo algum.

–--*-*---

Depois de tomar um banho demorado, Annie sentou-se em sua cama e respirou fundo. A raiva então voltou a se instalar em seu corpo e a garota teve que se segurar para não quebrar alguma coisa, preferindo deixar cair, por acidente, seu cofrinho. Agachou-se e pegou todo o dinheiro que tinha lá dentro, decidindo fazer uma caminhada rápida até um mercado próximo. Avisou a Aaron aonde ia e saiu, trancando a porta de casa e escondendo a chave classicamente embaixo do gnomo de jardim. Ouvindo uma música alta, andou calmamente até o local mais próximo onde poderia comprar o que queria. Olhando as prateleiras, sorriu e pegou uma garrafa com um líquido transparente. Isso bastaria.

Annabeth sabia que, em qualquer outro estabelecimento, ela não poderia comprar aquela garrafa. De jeito nenhum. Porém, o dono dali era um dos “amigos” de sua mãe, portanto idade não era exatamente um problema para a garota.

– Hey, Joe! – cumprimentou Annie, sorrindo.

– Olá, Annie. Como vai? – Annabeth sabia que Joe era o melhor partido de todos que sua mãe tinha, por isso o tratava muito bem, cumprimentando-o sempre que o via. Em qualquer lugar.

– Bem. Você?

– Melhor agora. — respondeu, rindo. – Sua mãe estará desocupada amanhã?

– À tarde. Passe lá!

– Claro. – disse, pegando o dinheiro da mão da garota. – Diga que mandei lembranças.

– Direi. Até. – despediu-se, sorrindo ainda. – Hun... Esqueci! Acabaram os copos de drink lá de casa. Cobre um, ok?

– Sim, senhorita. Aqui. – disse, devolvendo o troco e o copo.

– Obrigada. Minha mãe adorará vê-lo amanhã.

–--*-*---

O parque estava um pouco vazio pelo que Annabeth pôde perceber. Avistou ao longe um menino correndo com seu cachorro e uma mãe brincando com sua pequena filha. Porém, nada além disso. Um local perfeito para o que estava prestes a fazer. Usando toda a sua força, abriu a garrafa com o líquido branco e colocou um pouco no pequeno copo, levando-o até a boca. Um só gole foi o que bastou para que a bebida desaparecesse do copo, fazendo com que Annabeth o enchesse de novo. E de novo. De novo. Até que a garrafa se encontrava pela metade.

Colocando o copo no topo do objeto, Annabeth começou a caminhar até sua casa, colocando um enorme sorriso no rosto. Na verdade, a garota não conseguia parar de rir e de tropeçar nos próprios pés, caindo várias vezes durante o trajeto. Recolheu a chave de sua casa e, abrindo-a, correu escada acima levando a garrafa junto. Trancando-se em seu quarto, derramou mais um pouco no recipiente e engoliu de uma vez só, sentindo uma forte pontada em sua cabeça. Sentou-se em sua cama e fechou os olhos, na esperança de que aquilo passasse. Porém, a fantasia não se concretizou e a última coisa que a garota viu antes de ir de encontro ao chão frio foi seu reflexo embaçado em seu espelho cor-de-rosa. E eu não conseguia acreditar que aquela garota era a mesma de duas semanas atrás. Nem em um milhão de anos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.