Havia algo intenso. Algo que não consegui explicar por um bom tempo. No entanto, estava lá. Sempre esteve. Desde a primeira vez que vi o azul celeste de seus olhos, os quais tantos sonhos tive, e também pesadelos.

Por um largo tempo, confundi essa intensidade com ódio, não que isso não seja de fato verdade, mas seria só mais um dos grandes sentimentos presentes, e que tornava nossa relação tão complexa a ponto de nenhum dos dois realmente entender o que se passava.

Outros sentimentos causavam tamanha intensidade, sentimentos opostos, como o próprio ódio junto com a paixão, e também essa mistura de admiração com desprezo que sentíamos um pelo outro.

Nos fazia mal e nos fazia bem.

Tanto que nos fez ignorar tudo isso, até que enfim, estivéssemos prontos para compreendê-lo.

O ponto é que, fingir nunca foi meu forte. Contudo, a necessidade de me proteger daquela bola de neve que crescia dentro de mim, que eu não compreendia e não conseguia controlar, me fez recuar. Fingir, era isso que eu precisava. Talvez a partir disso, eu conseguiria um pouco de controle sobre mim mesma, algo que sempre tive por certo, mas que se abalou a partir do momento em que o conheci.

Na época, eu realmente não o suportava. Toda aquela arrogância, e pinta de galã, e aquela necessidade de se apoiar nas asas do pai corrupto, que eu considerava um ato tão covarde, me fez optar pelo mais seguro dos sentimentos presentes naquela imensa bola de neve. Ódio. E junto com ele, seguiram outros mais, como o desprezo, em detrimento da pequena admiração que sentia por ele, o desafeto, deixando o carinho terno que sentia quando o via, e por fim, havia a pena. Esta que não pertencia a nenhum lado específico, e que independente de como me posicionava estava sempre lá.

Sim. Eu sentia pena dele. Com o passar do tempo, eu comecei a enxergá-lo mais como uma vítima, do que como um vilão. Vítima da criação conservadora do pai, e sua falta de afeto, junto com a falta de iniciativa de sua mãe em interceder por ele.

Ele fora ensinado a ser assim. Ensinado a ver as mulheres como meros objetos que estarão lá disponíveis para serem aproveitados. Ensinado a ter tudo em suas mãos, e a fazer o que quisesse, porque seu pai estaria lá eventualmente para livrá-lo. Ensinado a ser frio e distante, porque chorar era fraqueza.

Me lembro do momento em que tudo mudou. O momento que fez com que todos esses sentimentos dentro de mim, que começavam finalmente a serem controlados, fossem novamente bagunçados por ele.

Você é louca Marizza. E o pior é que é contagioso.

E pronto, lá estavam todas aquelas malditas sensações que eu tentava a todo custo socar dentro de uma caixa preta dentro de algum lugar onde elas não pudessem causar todo o reboliço como as que estavam causando dentro de mim naquele momento.

Às vezes... Estou com você e escuto o que você diz, me parece que é possível.

Naquele justo momento, eu desejei que ele conseguisse ver o que eu via. Eu vi resistência. Vi que apesar daquela armadura fajuta que ele vestia cotidianamente, ele desejava ser melhor, desejava poder viver por si. O que eu vi foi um menino gritando desesperadamente por ajuda, por um pouco de confiança, de incentivo. Alguém que dissesse que sim ele podia.

É possível. Me vi sussurrando de volta. Imagine que não há ninguém aqui ao seu redor. E faça o que sente no estômago. Me aproximei, sem quebrar o contato visual, apoiando minha mão no lugar apontado, e desejando, mais uma vez, que ele se desse conta da força que ele demonstrara ter naquele momento, que eu conseguia ver tão claramente que era como se fosse parte dele. Faça o que você sente aqui. O que tem vontade de fazer agora?

Reparei que seu olhar desceu para meus lábios, e o vi se aproximar lentamente. A partir de então, não conseguia mais distinguir o que era eu, e o que era esse sentimento sufocante que reprimi por tanto tempo. Era tudo um só. Marizza se tornou só aquilo. Marizza naquele momento se resumia a seus lábios nos meus. Era tudo que eu queria e me importava. Contanto que ele estivesse ali, me olhando daquela forma, poderia jurar que nunca conseguiria deixar aquilo de lado.

E ele me beijou.

Não era a primeira vez que nos beijávamos. Mas era.

Eu senti sim algo enquanto nós fingíamos que estávamos nos beijando para que nossos pais nos deixassem em paz. Ele me olhara daquela mesma forma. Mas ao mesmo tempo não fora nada comparado a esse momento.

Não era nada forçado, ou abrupto, éramos só nós dois, tão conectados que não dava para evitar não sermos atraídos um para o outro.

Também foi a primeira vez que eu desejei desesperadamente que ele sentisse o mesmo por mim. Que ele me visse da mesma forma como eu o via. Além de todas as brigas e sabotagens costumeiras entre nós, quis que ele me admirasse e visse em mim algo que valesse a pena, exatamente como eu via agora.

Esse foi o divisor de águas em relação a minha pequena guerra interior, a partir desse beijo, eu me vi rendida. Não conseguia evitar de pensá-lo em todo momento, e de perguntar sobre ele para nossos amigos, e de desejar vê-lo finalmente. Ainda que, ao final do beijo, ele tenha negado que era o que ele desejava tanto fazer, eu não acreditei. A desculpa que ele dera não me convencera em nada, e me fez pensar que talvez ele me quisesse tanto quanto eu o queria.

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