Faça o que eu mando

1 Pode começar do início


Notas iniciais
Primeiro ato - Cena I Personagens: Olívia, a vítima. Vívian Beltrão, a doutora.

Sala escura com luzes vermelhas vindas de fora piscando pela vidraça janela. Só há duas cadeiras na sala, em que Olívia e a Dra. Beltrão estão frente a frente. Olívia está trêmula, agasalhada numa coberta e segurando uma xícara de café com as duas mãos.

Vívian entra com as mãos cheias de documentos e o controle remoto. Desliga a televisão e se senta ao lado de Olívia.

VÍVIAN — Já chega de boatos por hoje. Vamos nos concentrar no que aconteceu de verdade. Olívia, estou aqui para te ajudar. Sei que você passou por uma situação difícil, mas preciso de ajuda para entender o que aconteceu nessas últimas horas. Tudo bem?

Olívia diz que sim com a cabeça.

OLÍVIA — Vou tentar.

VÍVIAN — Tentarei fazer isso de maneira prática. Basta que você conte o que aconteceu hoje da forma mais autêntica possível. Teremos que gravar essa conversa por motivos óbvios. Eu sei que é difícil, mas tente não se intimidar com isso. Vamos manter uma ordem cronológica, então pode começar do início.

Olívia respira fundo e se mostra bastante nervosa.

OLÍVIA — Bem, eu entrei no ônibus e...

VÍVIAN — Não, não... O que eu quero dizer é: realmente do início. Como você acordou, com quem você mora, o que você faz... Quanto mais detalhes melhor.

Olívia responde de maneira desconfiada e hesitante.

OLÍVIA — Bem... Não sei ao certo. É que eu não me lembro exatamente o que aconteceu... Isto aqui é realmente necessário ou só uma coisa burocrática?

Vívian sorri e põe em seu rosto um olhar calmo para demonstrar que tem paciência para ouvir todas as queixas de Olívia.

VÍVIAN – A entrevista é necessária, porém não é obrigatória. Todo mundo que entra nessa sala tem direito a não se pronunciar, mas eu não recomendo. A única forma que eu tenho de conseguir te ajudar é entender o que houve.

OLÍVIA – Não é que eu não queira ajuda... É que parece que está tudo meio embaçado na minha cabeça. Não sei explicar como é que isso pôde acontecer. Sei o nome de todos os personagens de um livro que estou lendo, mas não consigo dizer exatamente o que aconteceu hoje... Chega a dar desespero.

VÍVIAN – É normal que isso aconteça depois de uma situação traumática. Conte tudo que você lembra, fique à vontade.

OLÍVIA – Eu acordei e fiquei um pouco na cama olhando meu celular. Moro na zona norte, cerca de vinte cinco minutos da faculdade. Falei uns minutos com um amigo no celular e minha mãe entrou no meu quarto para avisar que tinha café pronto...

Vívian interrompe.

VÍVIAN – Com que amigo você falou? Lembra-se de como foi a conversa?

OLÍVIA – Não sei exatamente o que eu falei. Ele pegou meu celular...

De repente, Olívia se emociona e ameaçá chorar.

VÍVIAN – Tome um copo de água e fique tranquila, nada perigoso vai acontecer enquanto você estiver nessa sala. Não precisa falar agora do que aconteceu. Vamos com calma e só me diga o que houve com você hoje. Com quem você mora?

Olívia passa a mão no rosto e procura se recompor.

OLÍVIA — Só... Só sou eu e minha mãe. A gente morava com meus avós até eles falecerem há uns anos atrás. Agora somos só nós duas naquela casa. Bem, eu me arrumei como sempre. Tomei café como sempre. Escovei os dentes como sempre. Ninguém pensa que algo horrível assim pode acontecer em um dia normal e o dia normal acaba sendo o pior dia da sua vida. Eu saí de casa umas oito e meia porque minha aula começa de nove, e aí...

Olivia segura a emoção novamente e bebe um gole de café, começa a falar com dificuldade deste ponto.

OLÍVIA – Fui caminhando até o ponto e esperei por um ônibus que passasse pela faculdade. Aí eu entrei no ônibus 67, passei pela catraca e sentei em um banco qualquer. Depois eu acho que peguei meus fones de ouvidos dentro da minha bolsa e... E tudo aconteceu como eu já falei pra os policiais.

Vívian se mantém calada e anotando algo em um papel qualquer. Olívia começa a chorar compulsivamente e continua.

OLÍVIA – Então ele sentou do meu lado. Não desconfiei que fosse nada, mas ele meio que colocou o braço em volta de mim aos poucos. Quando eu percebi algo estranho resolvi me levantar, até que ele cochichou “melhor você se sentar agora mesmo, porque eu estou armado”. E riu. Ele riu.

Olívia engole seco.

Eu me sentei devagar e fiquei olhando para o cobrador, que não estava percebendo nada ou não queria perceber. Meu ponto não ia demorar e o ônibus começou a lotar. Quase saí correndo, mas eu não queria morrer. Então ele colocou as mãos na minha cintura de vez e eu senti o meu pior pesadelo perto da minha cintura. Era gelada e metálica, eu imaginei a bala me perfurando, mas ele teve que confirmar com mais um sussurro: “isso aqui é realmente uma arma, finja que está comigo ou eu atiro bem aqui”. Como se não fosse óbvio o suficiente.

Olívia começa a chorar cada vez mais forte ao ponto de soluçar e tornar sua fala impraticável.

VÍVIAN — Respire mais um pouco. Eu sei que seria mais fácil evitar essa conversa, mas esse momento aqui pode fazer bem para você.

Olívia continua o relato com muita dificuldade, já com o nariz escorrendo e os olhos vermelhos.

OLÍVIA – Eu acho que eu estava sentada no meio do ônibus, do lado do cobrador. O ônibus não estava nem tão cheio nem vazio. Ele chegou de fininho, vestido como uma pessoa normal. Acho que jeans e camisa preta. Foi dando as ordens e eu estava morrendo de medo de morrer. A senhora entende, não é? Eu estava só e fiz tudo aquilo porque ele mandou, não dava para arriscar a minha vida. Ele deveria pagar por tudo que fez comigo!

VÍVIAN – Entendo, Olívia. Não tenho direito de julgar ninguém. Isso é papel de outra autoridade. Fique tranquila. Mas o que foi que ele disse para você?

Notas finais
APara ouvir - https://www.youtube.com/watch?v=fk1Q9y6VVy0