Faça Um Desejo

3 Capítulo 3 - Pequenos esclarecimentos


Notas iniciais
E então finalmente eu rompi o bloqueio que me impedia de continuar essa história. Sinto pela demora para postar, tentarei fazer um capítulo por semana, agora.

Antes das prévias conclusões obviamente tomadas a respeito da personalidade de meu pai, tenho de dizer algo a seu favor: Ele é um bom homem, de modo geral. Trabalha mais do que o próprio corpo permite apenas para dar-nos a oportunidade de estudar. Sempre encontrava jeito de passar um tempo, mesmo que mínimo, conosco, apesar das condições precárias em que vivíamos.

Uma pequena acentuação: Encontrava.

Com o adoecimento de mamãe certas coisas mudaram. Não éramos de esbanjar dinheiro, tínhamos apenas o suficiente para nossa subsistência, logo os novos gastos trouxeram-nos noites insones. As folgas foram todas cortadas, Jean e Peter agora trabalhavam com papai na fábrica têxtil após a aula, Débora substituía mamãe como doméstica na região rica da cidade. Eu? Bem, já tinha idade para acompanhar meus irmãos, segundo os padrões da época, mas obtive mais lucro vendendo os doces que minha irmã preparava nas poucas horas vagas.

Vendo de certo ângulo (o qual sem dúvidas eu mais me apegava), ainda tínhamos sorte: Vovô nos deixara uma casa, mesmo que um pouco afastada do centro. Ele fora um grande magnata em tempos passados, dono de várias propriedades, mas todo seu dinheiro escoou com suas frequentes festas (certa vez perguntei a papai que havia nessas para gastar tamanha quantia — ele não quis me responder). Após sua morte a maior parte dos terrenos e imóveis foi vendida a preços inaceitavelmente baixos, os poucos que sobraram foram distribuídos entre seus inúmeros filhos. Assim ficamos com esse pequeno casebre de madeira no subúrbio da cidade, dois quartos, cozinha, banheiro, o segundo listado tendo um colchão espremido entre a pia e o armário. O lugar podia ser mínimo e afastado, mas era nosso, e era isso que importava.

Mas voltando, nossos esforços eram mínimos em comparação aos de papai. Esse trabalhava de domingo a domingo, entrava na fábrica as 4h da manhã e só saía as 9 da noite. Nos fins de semana e poucos feriados ainda conseguia alguns trocados com seu violão (também herança do avô, como quase tudo o que nos pertencia). Se ele ia dormir logo ao chegar em casa? Jamais. Parte do dinheiro arrecadado ia direto para o bar (se é que pode-se assim aquele chiqueiro repleto da corja frequentadora desses botecos imundos) da esquina, e era daí que provinham os problemas. Embebedado, papai tendia a exprimir sua frustração em forma de murros, e o alvo normalmente escolhido era ninguém mais, ninguém menos que Jean, o mais velho dentre seus 4 filhos. O garoto era esperto o suficiente para saber que contar para a mãe só lhe geraria mais uma surra, então mantinha-se calado.

Excedendo as expectativas, meu irmão gostava disso, sentia-se orgulhoso, maior do que os outros por seus hematomas e cicatrizes. Confesso que nunca o entendi, mas o que fazer? Se ele estava feliz, quem sou eu para tirar-lhe isso!

Piter, porém, indignava-se com tal posição, envolvendo-se em muitas brigas por causa da apatia de Jean quanto a isso. Certa vez ouvi-o jurando para si mesmo que jamais seria submisso a alguém, apenas para provar o quão certo estava. Débora? Posso afirmar que só não metia um tabefe no pai pois ainda era nova, contentando-se então em me afastar do local, murmurando que eu não precisava ver nada disso. Anos depois sua atitude mudaria, mas até lá seu irmão já estaria meses adiantado.

Notas finais
É, ficou meio curto, eu sei, mas se não postasse hoje seria só semana que vem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.