FT High School: Where All Began
9 É Ano Novo!
Notas iniciais
Lucy POV
Mais uma manhã. Não apenas uma manhã qualquer, mas era o amanhecer do último dia do ano. Quando minha mãe ainda era viva, nós adorávamos comemorar o Ano Novo. Era sua data favorita, pois adorava ver a família toda reunida. Mas desde que ela se fora, não era mais assim tão divertida a passagem de ano. Para mim, era um dos piores dias possíveis, mas acordara com as esperanças renovadas, já que agora a família Dragneel e suas sobrinhas, e meu primo Loke estavam aqui.
Não me esforcei para me arrumar, não queria parecer animada. Não sabia como meu pai estava se sentindo, então não queria entristecê-lo desnecessariamente. Quando cheguei à mesa para o café da manhã, todos já estavam reunidos. Meu pai na ponta, como de costume, e próximo a ele, estava Igneel e ao seu lado sua esposa, Saeko. Wendy estava ao seu lado, e de frente para ela, Levy. Loke estava do outro lado do meu pai, eles e Igneel envolvidos numa conversa sobre algum evento, e me sentei na outra ponta, ao lado de Natsu.
– Querido – Saeko começou, depositando a faca prateada ao lado de seu prato. – Estive pensando sobre como recompensar a família Heartfilia pela hospitalidade e generosidade há algum tempo.
– Saeko, isso não é necessário, embora eu agradeça – meu pai sorriu para ela, mas isso não a desanimou.
– Mas Jude, é claro que é – seus olhos brilharam quando ela olhou um por um na mesa. – Quando éramos uma família com laços excepcionalmente fortes, tínhamos grandes festas com banquetes na noite do Ano Novo. Gostaria de poder trazer esse ar festivo de volta a casa, para animá-los.
– Certamente não será necessário, querida – Igneel levou a xícara aos lábios. – Por melhores que sejam suas intenções, nós teremos um jantar de negócios essa noite. Seria interessante se conseguíssemos esse contrato.
– Nesse caso, iremos também – Saeko cruzou os braços, decidida.
– Mãe, não acredito que possamos ir a um encontro de negócios. O Sr. Jude é educado demais para te cortar – Natsu revirou os olhos, abocanhando quase metade de uma panqueca de uma vez só.
– Ainda assim – interferi – podemos comemorar só nós aqui em casa, Saeko – tentei sorrir ao máximo que dava, mas ela não parecia interessada em abrir mão de seu marido naquela noite. Igneel lançou um olhar repreensivo a Natsu, que pareceu não se importar muito.
– O que Natsu quis dizer, querida, é que nosso trabalho não é uma festa, deve ser levado a sério – tentou explicar. Meu pai ficou sem reação, trocando olhares comigo, e quase que por telepatia, ouvi-o dizer “faça alguma coisa”, enquanto eu respondi “o que há para se fazer?”. Ele nunca soube como tratar bem as mulheres, com exceção, talvez, da minha mãe. Levy parecia desanimada como sua tia, querendo festejar.
– Talvez devessem acatar a ideia de Lucy – ele se pronunciou rapidamente, apontando para mim, e eu o fitei do outro lado da mesa. – Podemos contratar ótimos chefes para fazer um grande banquete, e as crianças poderão chamar os amigos que estiverem livres.
– Crianças? – Levy fitou o chão, mas apenas eu e Wendy a ouvimos. Essa era a baixinha e seu problema de altura.
– Agradeço por isso, mas um Ano Novo sem meu marido não seria um Ano Novo – Saeko murmurou, triste. Meu pai e Igneel trocaram olhares rápidos e nervosos, e depois assentiram.
– Talvez nossos sócios possam colocar algumas cadeiras a mais na mesa – Igneel falou. – Isso te animaria, querida?
– Já me animou! – ela saltou da cadeira, abraçando-o. – Parem de comer, vocês três – apontou para mim, que estava pronta para colocar um grande pedaço de panqueca na boca, e depois para Levy e Wendy. – Nós estamos saindo para fazer compras!
– Como? – senti minha barriga roncar. – Agora?
– É bom você comer menos mesmo, Luce, ou você vai engordar – Natsu comentou, e eu o chutei por debaixo da mesa. – Ai!
– Vamos logo, Lu-chan! – Levy se levantou, puxando-me para fora da mesa. Saeko e Wendy já estavam na porta, esperando Capricórnio estacionar o carro para entrarmos. Alguns minutos depois, estávamos no centro de Magnólia. Não tive nem chance de pegar meu celular, mas por sorte eu tinha alguns trocados no bolso da calça que estava vestindo, então parei para comprar um café para me esquentar.
– Você está com essa cara desde que saímos de casa – falei, observando Levy segurando a risada com um sorriso malicioso. Ela estava parada do meu lado, olhando enquanto eu tomava meu café e a encarava, desconfiada. – Fale logo o que se passa em sua mente.
– Ah, nada de mais – ela quebrou o contato visual, o que me despreparou completamente para o que veio em seguida. – Só estava imaginando como vai ser a lingerie de hoje à noite.
– O quê? – engasguei, e virei meu rosto para olhá-la enquanto caía na risada. – Do que raios você está falando?
– Ora, Lucy Heartfilia! Você sabe muito bem do que eu estou falando – ela deu uma piscadela, e eu balancei a cabeça. “Essa pequena pervertida e suas ideias”, pensei, segurando-me e tomando mais um gole do meu café que começava a esfriar por causa do vento gelado. – Noites de Ano Novo são sempre mágicas, sabe como é. Une qualquer casal.
– Pare por aí, nada do que se passa nessa sua mente vai acontecer – joguei o copo numa lata de lixo próxima. – Eu sou uma moça de família.
– E moças de família não podem fazer essas coisas? – perguntou, rindo, enquanto eu sentia meu rosto esquentar violentamente só de imaginar tudo aquilo. – Bem, vamos prosseguir com a missão que minha tia nos deixou, e procurar vestidos para o jantar.
– Vamos antes que mais pensamentos indecentes invadam sua cabeça – tomei o caminho, e ela me seguia, rindo. Francamente, era tudo no que ela pensava?
Algumas horas entrando de loja em loja, encontramos os vestidos perfeitos. O meu era simples, mas divino. Era justo, mas por ser de babados, nem tanto. Seu tecido branco era leve e fluía com o vento. Tinha alcinhas finas, quase imperceptíveis, se não fosse pelas pequenas pedras que lhe atribuíam uma beleza incapaz de ser colocada em palavras. Eu me apaixonara pelo vestido no instante que o vi na vitrine, do outro lado da rua. Levy comprara um prateado, também com alcinhas, mas que ficava solto no corpo, que ia até a metade das coxas. Levy ficaria como um verdadeiro anjo nele, apesar de saber que ela não era nem um pouco angelical.
Ao chegarmos em casa, Wendy correra para dentro da casa sem dizer nada, Saeko fora deixar suas várias sacolas em seu quarto, e novamente, eu ficara para trás com Levy, que não parava de sorrir. Decidida a me provocar mais um pouco, sussurrou:
– Esse seu vestido é tão sensual, Lu-chan. Tenho certeza que Natsu vai adorar tirá-lo essa noite.
– É claro que... – parei por pouco, quase concordando sem querer. – Eu não sei o que você pensa que vai acontecer, mas não vai – ela se divertia, rindo da minha reação. Imaginei se algum dia eu explodiria de vergonha por causa dessas piadinhas infames que ela gostava de fazer comigo. Revirei os olhos e lhe baguncei seus cabelos, subindo as escadas. — Agora vá se arrumar e trate de tirar uma foto, senão o Gajeel não vai ver como você estava linda essa noite.
– E-Ele não... – ela fitou o chão, corando, e subiu as escadas sem falar nada. Quando cheguei ao segundo andar, encontrei Natsu parado, carregando algo que parecia ser um terno. Ele olhava na direção do corredor, confuso, mas voltou a atenção para mim.
– Posso ajudar em alguma coisa? – perguntei, fitando-o, e ele sorriu, aproximando-se de mim, curioso.
– O que você tem aí nessa sacola?
– Um vestido – respondi, recuando um passo. – Por quê? – ele me analisou de cima a baixo, e encarou a sacola mais uma vez.
– E ele é bonito?
– Não, Natsu. Eu comprei um vestido muito feio pelo prazer de gastar dinheiro em roupas horríveis – suspirei, revirando os olhos. – Sinceramente, às vezes você pergunta umas coisas que eu... – minha frase fora interrompida por um beijo que ele havia roubado. – O que você pensa que está fazendo? – perguntei, envergonhada, empurrando-o para longe de mim.
– Só estou antecedendo o que vai acontecer entre nós – respondeu, parecendo se divertir com minha reação. – É inevitável, sabe? Você e eu – riu, e eu senti meu rosto esquentar como se eu estivesse prestes a morrer com uma febre intensa. – Você fica linda envergonhada – ele prendeu uma madeixa rebelde atrás da minha orelha, e depositou um beijo em minha bochecha. – Nos vemos mais tarde, Luce.
Eu estava pasma, plantada no mesmo lugar, no topo da escada, assistindo ele se virar e caminhar pelo corredor até seu quarto. A maneira como ele estava agindo, não acabaria bem. Perguntei-me se Levy podia prever acontecimentos futuros, mas afastei todo e qualquer pensamento relacionado às expectativas daquela baixinha pervertida. Quando ele adentrou seu quarto e fechou a porta, corri até o meu e me tranquei lá dentro. Tudo o que estava acontecendo era real? Natsu realmente me corteja porque está interessado em mim ou é tudo parte de um mero jogo onde eu não passava de uma carta bônus? Não. Eu não podia me permitir pensar esse tipo de coisa. Eu ainda tinha esperanças, por mais complicado que parecesse ser.
Deixei a sacola sobre a minha mesa, e notei que Virgo passara por ali, deixando tudo em seu devido lugar. Joguei-me na cama, enfiando um travesseiro na cara, como se fosse ser o suficiente para esfriar meu rosto, que permanecia fervendo. Fechei os olhos, e antes que percebesse, eu havia apagado.
–-
– Lucy! – Levy batia na porta violentamente. – Lucy!
Remexi-me na cama, forçando a acordar, e me espreguicei demoradamente, até que meus olhos foram de encontro ao despertador, que marcava sete da noite. Assustei-me de ter dormido tanto, e ao tentar me desenrolar dos cobertores, fui de encontro ao chão. Praguejando alguns palavrões nada bonitos, abri a porta e encontrei uma baixinha toda arrumada, desesperada.
– Aleluia! Achei que teria que arrombar e te encontraria morta! – exclamou, entrando no quarto e fechando a porta.
– Que exagero, Levy – murmurei, bocejando.
– Lucy, nós sairemos em quarenta minutos, não fique fazendo hora! – ela me empurrou, trazendo-me de volta a realidade, e eu corri para o chuveiro, deixando minhas roupas pelo caminho até o banheiro. Levy parecia mexer nas minhas coisas, separando o que precisava ser separado, e eu senti o sono tomar meu corpo graças à água quente que descia pelo cano. Forcei-me a acordar de vez, fechando o registro e me enrolando na toalha.
– O que é isso, Levy-chan? – perguntei, fitando um sutiã tomara-que-caia nada decente combinando com uma calcinha ainda menos decente em cima da cama. Ela sorriu para mim. Como pude deixar aquilo acontecer?
– Não temos tempo para discutir, vista-se logo – protestou, de frente para o espelho, passando rímel nos cílios.
– Ora, é sério isso? – peguei o sutiã na mão, questionando se deveria mesmo acatar aquela decisão com a falta de tempo para discutir com a Levy sobre sua escolha indecente.
– Luce, seu pai quer saber se... – Natsu entrou no quarto, sem cerimônia alguma, mas travou ao perceber que eu estava só de toalha. Minha reação foi esconder a peça que estava em minhas mãos, e Levy se colocou entre nós dois.
– Natsu, é assim que se entra no quarto de uma dama? – perguntou, indignada, e ele sorriu.
– Não é o quarto de uma dama, é só o quarto da Luce – falou, e ela o empurrou para fora. Ele acabara de ver só de toalha. Mais uma vez, mas a vergonha ainda era a mesma e nunca deixaria de ser assim. Levy me trouxe de volta à realidade, falando para eu me trocar rápido. Sem pensar, coloquei aquele conjunto vergonhoso e o vestido por cima, e Levy fez eu me sentar em uma cadeira para poder me maquiar.
Só então percebi como ela estava bonita, toda arrumada. O vestido ficara perfeito em seu corpinho magro e pequeno, seus sapatos pareciam de boneca, e várias pulseiras e longos brincos com uma pedra azul completavam-na. A maquiagem era quase invisível, mas ajudava a realçar seus traços ainda mais. Quando terminou de me maquiar, ela pegou um secador e uma escova de cabelo, e alguns minutos depois, ela prendia uma longa trança com uma presilha dourada.
– Hoje eu aprendi que não devo subestimar sua capacidade – comentei, colocando sandálias douradas e vestindo um sobretudo bege. Ela colocou um casaco num tom pastel de verde, e sorriu para mim.
– Ora Lu-chan, amigas são para isso – falou. – Fora que eu tinha o dever de te deixar atraente para o meu primo.
– Por que tudo o que conversamos sempre acaba no Natsu? – perguntei, enquanto descíamos as escadas, e ela deu de ombros. Todos estavam reunidos no hall, esperando. Mas devo admitir que meu olhar se focou em Natsu, porque enquanto todos os outros homens estavam em ternos pretos, ele usava um branco, com uma gravata borboleta preta, que o deixava extremamente sensual.
Ignorei meus pensamentos e terminei de descer as escadas com cuidado, com medo de cair e passar mais vergonha do que eu já costumava passar com Levy e Natsu na mesma casa que eu. Natsu me encarava, mas não como sempre. De certa forma, seus olhos pareciam brilhar enquanto ele me olhava, o que, como já estava acostumada, deixou-me envergonhada.
– Eu sei que fiz um bom trabalho, pode me agradecer depois – Levy sussurrou para ele, mas por estar perto, acabei ouvindo. – E feche a boca, senão fica muito óbvio.
– Nossa Levy, como você é hilária – ironizou, e ela sorriu.
– Não sou? – concordou, convencida, juntando-se a Wendy.
– Minha filhinha! – meu pai me abraçou, depois me analisou. – Você está tão bela e crescida. Ainda me lembro de quando você tinha apenas três aninhos e insistia em usar só rosa.
– Obrigada, pai, você também está um garanhão com esse terno – sorri para ele, ignorando a parte nostálgica do elogio. Dividimo-nos nas limusines, sendo que os adultos foram em uma, e nós, como sempre, ficamos na outra. Não era um caminho longo até o restaurante, mas enquanto olhava pela janela, vi o quão linda estava a cidade, com as estalactites escorrendo dos galhos das árvores, os bonecos de neve espalhados feitos pelas crianças, a neve acumulada na calçada e nas marquises das lojas.
A porta se abriu e saímos em frente a um enorme restaurante chamado “Divine’s”. Descemos dos carros e nos reunimos com meu pai, que, junto com Igneel e Loke, conversavam com outros dois homens em frente ao restaurante. Vestiam roupas sócias, então deduzi que eram os parceiros de trabalho dos nossos pais.
– Max, Howard, esta é a minha filha, Lucy Heartfilia – meu pai estendeu a mão para mim e eu a tomei, cumprimentando os dois. Mas tinha cabelos cor de areia, compridos até os ombros, enquanto Howard tinham rebeldes cabelos escuros e olhos azuis. Digamos que, para a idade do meu pai, os dois eram bastante atraentes. Ambos me cumprimentaram com um beijo nas costas de minha mão.
Igneel encerrou as apresentações e pudemos entrar no lugar. Logo na entrada, uma moça em um vestido dourado pegou nossos casacos e depois nos guiou até nossa mesa. Assim que retirei meu casaco para entregá-lo, Natsu me secou, hipnotizado, com um olhar nada lisonjeiros sem nem ao menos disfarçar. Decidi ignorá-lo, até porque eu me peguei encarando-o também. Sentei entre ele e meu pai, o que parecia desconfortável de início.
Pelo que entendi, o jantar era servido em partes. Primeiro as entradas, depois os coquetéis; na hora da virada, o champanhe; e só então seria servida a refeição principal e a sobremesa. Meu estômago reclamou, e pensei que deveria ter comido ao invés de dormir. Nas mesas, pequenos pratos de porcelana branca decorada eram colocados com pequenos petiscos. Choraminguei por dentro, e decidi me empanturrar com aqueles canapés de palmito tentadores.
Natsu não comia nada, nem parecia se interessar pela discussão de negócios que transcorria ao meu lado, na verdade, era difícil tentar imaginar o que se passava em sua cabeça, enquanto encarava seu copo com água com gás. E eu não podia desviar o olhar do mesmo copo, ou encontraria Levy fitando a nós dois com aquele seu clássico sorriso que eu julgava desnecessário numa situação como aquela. Depois de um longo tempo, os garçons começaram a distribuir taças de cristal com champanhe, e agradeci por estar chegando meia noite.
Todos ficaram de pé, cada um com uma taça. Natsu me olhava de um jeito estranho, e então sorriu, com um ar de malícia. Fitei a pessoa que guiava a contagem regressiva para o novo ano, no palco onde alguns músicos estavam tocando. Quando começaram a contar, todos acompanharam, animados.
– 10! 9! 8! 7! – eu olhei em volta. Casais se abraçavam, amigos riam entre si. Saeko estava junto a Igneel, e Wendy com Levy. Meu pai parecia triste e perdido naquele momento. – 6! 5! 4! 3! 2! – eu me virei para Natsu. Eu não sabia por que tinha virado para ele, mas ele sorriu para mim. – 1! Feliz Ano Novo! – todos no salão se cumprimentaram. Abracei meu pai, que sorriu triste e depois se voltou para seus sócios, desejei bons votos a Saeko, Levy e Wendy, Igneel me abraçou animado, e quando me virei, Natsu encostou sua taça na minha.
– Saúde – disse ele.
– Saúde – respondi, levando a taça aos lábios assim como ele, e assim que a afastei, Natsu me puxou para um beijo. Ouvi fogos de artifício ao longe, e me lembrei das histórias de romance que sempre diziam “e quando você ouve fogos de artifício durante um beijo, é porque ele é sincero e verdadeiro”. Mas não, quando nos separamos, percebi que eram verdadeiros estouros de fogos de artifício, comemorando a virada do ano.
Senti meus músculos se retesarem por um segundo, e como se eu precisasse daquilo, toquei o rosto de Natsu e o puxei para mim novamente, para mais um beijo. Os fogos estouravam longe dali, e por poucos segundos, estive nas nuvens. Estava tudo tão perfeito, mas era tudo tão...público. Afastei-o, assustada, lembrando que não estávamos sozinhos. Droga, que recaída. Eu nunca me redimiria dela.
– O que foi? Não estava bom? – perguntou, e eu engoli em seco.
– Só lembrei que estamos em público e que você tem uma namorada – fitei-o. – Coisa que você parece esquecer com facilidade.
– Não se preocupe, eu posso te esperar – riu, dando de ombros, e eu me sentei novamente, sentindo minhas pernas fraquejarem. Por um momento, imaginei se era o efeito do beijo inesperado, até que percebi que era falta de comida. Começava a me sentir mal, quando anunciaram que haveria um atraso no jantar, o que me deixou bastante desgostosa com a situação. Eu precisava ir pra casa para poder comer. Talvez tivesse algum pedaço de pizza na geladeira.
– Oh, papai – resmunguei, fingindo a melhor cara de dor possível. – Eu não estou me sentindo muito bem, acho que deve ter sido o palmito... – ele interrompeu a conversa e voltou sua atenção para mim.
– Como? Eu vou reclamar com a cozinha agora mesmo! Que tipo de profissional...? – antes que ele se levantasse, segurei sua mão.
– Não – respondi, preparando-me para dar continuidade à farsa. – Quero dizer, às vezes o tipo de conservação não me faz muito bem, e eu havia me esquecido disso. Posso ir embora?
– Mas filha, nós...
– Por favor, Jude, deixe a garota ir – Max comentou. – Se ela não está bem, uma conversa maçante sobre negócios não irá melhorar seu astral.
– E você vai sozinha? E se piorar? Quem cuidará de você? – questionou, e eu mordi os lábios.
– Natsu pode acompanhá-la! – Saeko se prontificou, e Natsu levantou o olhar, assim como eu.
– O quê? – perguntamos em uníssono.
– Eu posso levá-la – Loke se pronunciou, e eu agradeci que ele estivesse ali. Quando me preparava para levantar, Saeko interferiu.
– Não precisa, Loke. Você deve ficar por causa dos negócios – explicou. – Natsu pode cuidar de uma simples tarefa como essa.
– Sério mesmo? – Natsu não acreditava no que sua mãe estava querendo aprontar agora. Levy estava com a mão sobre a boca, mas seu sorriso malicioso era perceptível há quilômetros dali.
– É claro, meu querido. Você não pode deixá-la sozinha nesse estado – Natsu revirou os olhos, abrindo a boca para falar algo, então eu me contorci na cadeira, fazendo com que eu parecesse pior, e ele revirou os olhos.
– Tudo bem – ele se levantou e eu o acompanhei, com a melhor cara de indigestão possível. Despedi-me de todos e pegamos nossos casacos, caminhando até a saída. Quando me virei antes de sair, vi Levy sorrindo para mim, e pude ler seus lábios. “Eu avisei”. Suspirei, entrando na limusine. O quão certa aquela tampinha poderia estar?
Chegamos em casa bem rápido, já que não havia nenhum outro carro além do nosso circulando pelas ruas, e por incrível que pareça, Natsu apenas ficara sentado o trajeto inteiro, sem dizer nem tentar nada. Capricórnio avisou que voltaria para o restaurante, e eu agradeci por ter nos trazido de volta. Quando adentramos em casa, eu ainda reclamava baixinho de dor de estômago.
– Você já pode parar de fingir – falou, retirando o casaco.
– Eu não estou fingindo, realmente não estou bem... – sussurrei, com dor no meu tom de voz.
– E eu sou o Papai Noel, o que você quer de Natal? – ironizou, direcionando-se para as escadas.
– Quero que você pare de agir como um completo idiota – respondi, e ele se virou, rindo. Já estava com a coluna ereta novamente, em ótimo estado, mas ele pareceu ignorar minha cura milagrosa.
– Você anda muito abusada, sabia?
– E você não? – perguntei. – Você me beija um monte de vezes e me diz coisas doces, e minutos depois você virá esse completo imbecil que está na minha frente. Eu deveria te dar uma medalha por ser o maior idiota do ano? Você por acaso quer um troféu por esse mérito? – dizendo isso, franzi o cenho e passei por ele, esbarrando em seu ombro de propósito, e subi as escadas rapidamente para meu quarto.
Natsu me seguiu, subindo de dois em dois degraus. Quando chegamos à frente do meu quarto, e ele me prensou violentamente contra a porta. Uma mão repousava em minha cintura, enquanto a outra estava apoiada na madeira. Suas pernas estavam alternadas com as minhas, e nossos rostos a poucos milímetros um do outro. Eu conseguia sentir sua respiração quente em minha pele.
– O que você...
– É tudo um jogo – sussurrou em meu ouvido. – Não percebe? – distribuiu demorados beijos em meu pescoço, e eu segurei um gemido. – Você é deliciosa – falou, beijando minha boca. Ele me prensou mais forte contra a porta, puxando minha cintura para si. Meus seios doíam, mas era uma dor prazerosa, porque estavam cercados pelo peitoral firme que é o de Natsu. Entrelacei meus braços em volta de seu pescoço, aproximando-o mais, se é que era possível.
– Natsu... – murmurei, sem querer. Talvez alguma parte de mim que não estivesse tomada por todo aquele desejo tentasse me impedir de continuar com aquilo.
– Essa noite você é minha. Alguma objeção quanto a isso?
– Como? – perguntei, forçando a porta a se abrir. Natsu me empurrou para dentro, trancando a porta e arrancando meu casaco. Tirei o seu, enquanto os beijávamos. Não havia tempo para respirar. Os beijos ficavam mais ousados, enquanto nossas línguas pediam passagem de uma boca para a outra, dançando em completa sincronia. Natsu percebeu que havia um zíper na parte de trás do vestido e o desceu. Senti o tecido escorrer pelo meu corpo de encontro ao chão, enquanto ele deslizava as mãos pelas minhas costas nuas.
Arranquei sua gravata e comecei a desabotoar botão por botão, abrindo sua camisa social e a retirando sem demora. Ele parou por um instante, analisando-me. Antes que eu pudesse seguir sua linha de raciocínio, ele me puxou para seu colo, com as pernas ao redor de sua cintura. Natsu colocou as mãos na minha bunda e a apertou forte. Ainda tentava segurar os baixos gemidos, mas era involuntário. Ele empurrou todas as minhas coisas que estavam em cima da mesa, todas caindo com um barulho estrondoso no chão, só para me deitar ali.
Passou as mãos pelas minhas coxas enquanto beijava minha barriga, até parar no vale entre meus seios. Por um segundo, ele me fitou, e depois passou as mãos no fecho do sutiã, que era na frente, e o soltou sem dificuldade alguma. Ele sorriu maliciosamente para mim, o que me fez corar violentamente, e se inclinou para chupá-los. Um de cada vez, e eu já não conseguia segurar os gemidos. Instigava-o a fazer cada vez mais forte. Sentia minha calcinha molhada quando ele voltou a me beijar e abaixou sua calça. Seu membro estava um pouco rígido, mas nem tanto.
Trocamos de posições e eu fiquei por cima dele. Sorri maliciosamente, o que pareceu deixá-lo sem jeito e com as bochechas levemente coradas, e comecei a beijar seu pescoço. Não consegui esconder um sorriso quando o ouvi gemer baixo em meu ouvido. Abaixei sua cueca e passei a língua, descrevendo movimentos para cima e para baixo logo em seguida. Alguns segundos depois, seus gemidos já eram audíveis, e eu senti uma pontada de felicidade em vê-lo daquele jeito. Não demorou para que ele gozasse na velocidade em que eu fazia, e ele se levantou, meio grogue, mas ainda assim me pegou no colo e me levou até a cama que continuara bagunçada de quando eu dormira ali a tarde.
Natsu ficou por cima de mim, beijando-me ferozmente e passando a mão por todo meu corpo com desejo. Ele unia nossos lábios com paixão, de maneira que me deixava sem ideia do que estava fazendo ou porque estava fazendo. Eu estava sonhando, mas sonhava acordada. Ele desceu, distribuindo beijos pelo meu corpo, e arrancou minha calcinha com a boca, jogando-a longe. Natsu me penetrou com dois dedos, devagar, e eu não conseguia parar de gemer, louca por mais. Os movimentos de seus dedos ficavam mais rápidos e eu ficava com mais vontade daquilo. Com um último gemido, gozei e Natsu apareceu em cima de mim, selando nossos lábios mais uma vez, e eu senti que ele arrumava o membro na entrada da minha intimidade.
Natsu me penetrou com força. Abri a boca, sentindo uma dor me enfraquecer por alguns segundos, mas logo o prazer começou a percorrer minhas veias. Permiti-me abrir os olhos, e ele me beijou. Nós estávamos nos desfazendo com aquilo. Ele começara com estocadas leves, mas depois foi acelerando e aprofundando.
Eu estava quase perdendo a razão, mas ele continuava firme dentro de mim. Dava um ritmo maior às estocadas, o que me fazia gemer sem parar. Sentia que logo iria gozar, e alguns instantes, gozamos em sincronia. Eu achei que não aguentaria mais, mas Natsu era insaciável. Ele se sentou e me colocou em seu colo, penetrando-me mais uma vez. Desta vez, eu rebolava e quicava, enquanto ele segurava firme minha cintura e empurrando seu membro contra mim muito, muito forte. Eu não conseguia parar de desejar mais daquilo.
Foi então que cheguei ao clímax, enquanto ele gemia entre os beijos, mas ele continuou por mais alguns segundos, até gozar de novo. Caímos exaustos na cama, ofegantes. Natsu me fitou e eu sorri para ele, e ele me puxou para perto de si, envolvendo-me com os braços, e depositou um beijo em minha testa.
– Lucy? – chamou. Senti um arrepio percorrer meu corpo. Por mais clichê que fosse, perguntei-me se ele diria aquilo.
– Sim?
– Eu estou com muita fome – respondeu, e eu comecei a rir.
– Acho que tem pizza na geladeira, lá embaixo – falei.
– Pizza era uma boa agora – comentou, e eu sorri para ele. Um jogo ou não, provavelmente nunca me esqueceria dessa noite.
– Então você quer... – sentei-me, e ele respirou fundo, sentando-se ao meu lado e beijando minha bochecha.
– Te encontro lá embaixo – falou, levantando-se, e eu o assisti pegar suas roupas e deixar meu quarto completamente nu e com os cabelos desgrenhados. Levantei-me, com as pernas trêmulas, e coloquei um short e uma camiseta, saindo do meu quarto e o encontrando no corredor, vestido apenas com uma bermuda.
Por um segundo, achei que as coisas ficariam ainda mais estranhas entre nós, então ele sorriu para mim e me pegou, colocando-me sobre seu ombro, e desceu as escadas. Não pude deixar de rir com isso, e esperava que aquele momento não acabasse muito. Por um segundo, lembrei-me de como éramos colados quando crianças. Quando foi que tudo mudou entre nós dois?
Depois de comermos, Natsu me jogou em minha cama de novo, mas me abraçou carinhosamente, enquanto trocávamos beijos demorados até pegarmos no sono, juntos. Antes de fechar meus olhos, deixando o cansaço vencer, vi a neve cair do lado de fora, serena.
–-
Abri meus olhos quando senti os raios de sol invadirem meu quarto e tocarem meu rosto. Bocejei e me espreguicei, então arregalei os olhos, sentindo meu corpo doer. Foi só então que a ficha do que acontecera na noite anterior quicou em minha cabeça. Olhei para o lado, mas estava sozinha na cama. Não, o cheiro de Natsu estava na minha coberta e no meu travesseiro. Ocorreu-me que adormecemos trocando beijos. Por mais romântico que a noite anterior tenha parecido, aquilo provavelmente chegara ao fim, e Natsu voltaria a ser o maior imbecil do universo, brincando com meus sentimentos.
Sentindo-me mal por me depreciar tanto logo de cara, entrei no banheiro e tranquei a porta, deixando que a banheira se enchesse com a água quente e a espuma com o doce cheiro de baunilha, e arranquei minhas roupas, imergindo até o pescoço. “É inevitável, sabe? Você e eu”, sua voz soou em minha cabeça, e eu arregalei os olhos. Eu havia duvidado de sua capacidade de me fazer esquecer da minha própria vida. Era o efeito Natsu em mim. Mas supondo que aquele tormento acabara ali, fora só uma noite e nada mais. E ele ainda tinha uma namorada.
Uma namorada chamada Lisanna. Nada de mais. Nada de mais mesmo. Tudo o que aconteceu foi um caso incontrolável de desejo um pelo outro, e isso chegara ao fim. Só isso. Não tinha por que ficar me preocupando a toa com esse tipo de coisa, ela nunca descobriria, e eu poderia colocar toda a culpa em Natsu, se isso se tornasse um problema para mim. Poderia?
Em meio aos meus pensamentos, minha barriga roncou alto, estremecendo meu corpo. Enrolei-me numa toalha e me coloquei na frente do espelho, penteando meus cabelos. Encarei o reflexo daquela garota loira. Sim, aquela pobre garota, cujos sentimentos haviam sido abalados por causa de uma única pessoa, que vivia no quarto ao lado. Joguei água gelada em meu rosto, tentando sair daqueles pensamentos deprimentes, e sorri para mim mesma no espelho. Quando saí do banheiro em direção ao meu closet, congelando, dei de cara com Levy, sentada na minha cadeira, e Virgo arrumando meu quarto.
– Bom dia, Hime-sama – Virgo cumprimentou, com sua expressão vaga como sempre.
– Bom dia, Virgo. E Levy-chan – sorri fraco, e continuei meu caminho, mas Levy se levantou e me seguiu.
– Então, Lu-chan – começou, sorrindo maliciosamente. – Não precisa entrar em detalhes, eu não preciso disso. Ou preciso. Mas enfim, só me responda uma coisa: eu estava certa, não estava?
– De novo com essa história, Levy-chan? – perguntei, sem encará-la, vestindo uma calça jeans e um suéter bem quente. – Por que essa obsessão comigo e com o Natsu?
– Obsessão? – ela repetiu. – Não sou obcecada por vocês.
– Mas é o que parece – protestei, e ela balançou a cabeça.
– Lu-chan, eu vi o estado do seu quarto antes que Virgo chegasse. É bem óbvio que rolou alguma coisa entre vocês. Sei como meu primo pode ser agressivo.
– É, ele é bem agressivo – concordei, calçando um par de botas. – Mas não entendo por que você pensa que rola algo entre nós.
– A menos que tenha passado um furacão por aqui, não há outra explicação para o caos do seu quarto – teimou, seguindo-me para fora do closet. Graças a Virgo, o quarto já estava impecável novamente, com tudo no lugar, e nenhuma memória visível da noite anterior.
– Que caos, Levy-chan? Está como sempre – falei, dando de ombros como se não entendesse do que ela estava falando, e me coloquei a secar os cabelos.
– Eu sou sua melhor amiga, Lu-chan. Você pode me falar se aconteceu alguma coisa entre vocês – ela cruzou os braços, encostando-se a parede.
– O que teria acontecido? – ela abriu a boca, mas hesitou em continuar, seu rosto corando fortemente. – Quem diria, não é? A tampinha pervertida não consegue falar um verbo – ri, e ela mordeu o lábio.
– Hime-sama – Virgo bateu na saia de seu vestido, tirando a poeira que estava ali. – Seu quarto está arrumado novamente, e não que eu me importe de arrumá-lo todos os dias, mas espero que no futuro, a Senhorita e o Senhor Dragneel não baguncem tanto – falou, saindo do quarto, e eu engoli em seco.
– Até a Virgo sabe e você não admite para mim, que sou sua melhor amiga – Levy murmurou, incomodada, e eu revirei os olhos. Antes que ela pudesse falar mais alguma coisa, Natsu adentrou o quarto, falando no celular, com uma expressão cansada e irritada, e se deitou na minha cama que acabara de ser arrumada.
– Caramba, agora virou casa da mãe Joana para todo mundo entrar e sair quando bem entender? – perguntei, mas ele me ignorou. Guardei o secador no banheiro, terminando de pentear meus cabelos e me sentei na cama, observando a conversa de Natsu com Lisanna, que parecia bem mais interessante do que eu fiz ou deixei de fazer com ele, graças aos céus.
– Eu sei, Lis – falou. – Você não precisa repetir isso, e não precisa se preocupar com nada. Você não me conhece? Claro que nada aconteceu – tentei não ressentir que o que aconteceu entre mim e ele fosse um “nada” para qualquer um que perguntasse. – Até mais tarde – desligou, mas continuou mexendo no celular, digitando algo.
Pela primeira vez, Levy não sorrira maliciosamente, e eu agradecera por isso, afinal quando eu e Natsu estávamos no mesmo cômodo, ela não conseguia se conter. Atravessei o quarto, entrando novamente no closet, e de canto de olho, pude ver que eles conversavam alguma coisa aos sussurros, e Natsu começava a ficar vermelho. Ele estava corado de vergonha, e era a coisa mais fofa do mundo. Minha barriga roncou mais uma vez, e eu suspirei.
– Vocês podem ficar se quiserem, mas eu estou indo comer – avisei, deixando-os para trás. Algo me ocorreu naquele momento, e eu parei no topo da escada, apoiada no corrimão. Nós descemos para comer pizza depois daquilo. Comecei a descer degrau por degrau, conforme as lembranças voltavam para mim, ignorando a leve dor no corpo. Sentei-me na outra ponta da mesa, e Natsu e Levy, cada um de um lado, e ataquei uma torrada que parecia chamar por mim.
– Bom dia, crianças – Saeko entrou na sala, animada como sempre. – Está se sentindo melhor, Lucy-chan?
– Estou sim, obrigada por se preocupar – agradeci, e ela sorriu para mim, lançando um olhar para Natsu enquanto bagunçava seus cabelos rosados.
– Vejo que meu filho cuidou bem de você noite passada – a frase pegou a mim e Natsu de surpresa, e sincronizadamente, nós engasgamos com as comidas que desciam em nossas gargantas. – Ora, vocês devem comer mais devagar.
– É a fome – Levy comentou, sorrindo maliciosamente para nós. – Tem horas que não dá pra se segurar.
– Levy-chan – murmurei, e ela fez um sinal de que ficaria em silêncio.
– Agora que estão todos aqui – meu pai falou, e todos se silenciaram, encarando-o -, tenho uma notícia para você, minha filhinha – Saeko fez uma careta, murmurando um “não deu para evitar”. – Hoje, almoçaremos na casa de um amigo meu.
– E nós vamos junto – Igneel completou. – Então façam o favor de se vestirem decentemente e se comportarem – falou, encarando Natsu.
– Você fala como se eu não me comportasse – Natsu protestou.
– É melhor prevenir do que remediar – Levy comentou, recebendo um olhar nada simpático de Natsu. Eu estava mordendo uma torrada com manteiga quando nossos olhares se cruzaram. Senti meu rosto esquentar, e ele desviou o olhar, corando. Percebendo o clima tenso, Levy decidiu interferir para que a situação pudesse se tornar ainda mais desconfortável.
– Só eu acho que vocês dois estão estranhos demais? – perguntou, e todos na mesa concordaram. Quer dizer, meu pai e Igneel estavam entretidos numa conversa sobre algum campeonato esportivo, então deixemos os dois de lado.
– Estranhos? Por que acha isso, Levy? – Natsu perguntou, mordendo um bolinho de chocolate.
– Vocês não estão muito normais, quer dizer, estão ainda mais anormais – Wendy falou, e eu dei de ombros.
– É impressão de vocês, está tudo perfeitamente normal como de costume – sorri, e Saeko me analisou profundamente.
– Anormais ou não, tratem de se comportarem – falou, antes de se levantar e se aproximar de mim. – Lucy, esse almoço é na casa de um de seus pretendentes, então, por favor, trate de não impressioná-los – e com um sorriso, saiu andando. Natsu lançou um olhar nervoso para Lucy, mas ela não correspondeu, e continuou a comer. Àquela altura, só havia eles e Wendy na mesa, mas esta estava focada em seu celular.
– Agora que estamos a sós – Levy começou, mas eu interrompi sem me sentir mal por isso.
– Agora que vocês estão a sós, porque eu estou indo antes que algo extremamente desnecessário saia da sua boca, Levy-chan – sorri docemente para ela, o que a fez fechar a cara, e quando me levantei, meu olhar encontrou o de Natsu. Sem saber o que fazer, eu engoli em seco e saí correndo. Sim, eu saí correndo. Vergonhoso.
Natsu POV
Assisti Lucy sair correndo do cômodo, sem olhar para trás. Eu entendia como ela se sentia, e lembrando-me da noite anterior, meu rosto fervia a ponto de ficar mais vermelho que os cabelos da Erza. Senti um arrepio percorrer meu corpo, quando percebi que minhas primas me encaravam intensamente.
– Vocês realmente não conseguem esconder nada agindo dessa maneira – Levy falou, e eu suspirei.
– Não há nada para esconder Levy – protestei, colocando o restante do bolinho de chocolate na boca.
– Está tão na cara que tem alguma coisa entre vocês – comentou, cruzando os braços. – Pode falar.
– Não temos nada entre nós, Levy, inclusive, eu tenho uma namorada e odeio a Luce, você sabe disso.
– E desde quando você odeia a sua amada “Luce”, Dragneel? – ela sorriu maliciosamente. No fundo, ele nunca odiara a Lucy de verdade, e ele sabia que Levy tinha certeza disso.
– Desde sempre, ora.
– Mas que droga, Natsu – Wendy se levantou bruscamente, apertando o celular com tanta força que pensou que fosse quebrá-lo. – Todos nós sabemos que vocês se gostam, e que vocês têm algo rolando, então por que não só admitem logo? Vai ser mais fácil se acabarem com isso logo de uma vez – ela respirava pesadamente, e seus olhos marejaram de lágrimas quando ela me encarou. – Eu tenho certeza que, seja como for, não foi nada de mais para você. Mas e para a Lucy? Já parou para pensar que você está agindo como se estivesse a usando?
– Wendy... – Levy iria se levantar para acalmá-la, e ela jogou o celular na parede, com tanta força que ele se quebrou inteiro.
– Vocês, homens, só se importam com vocês mesmos. Vocês não ligam de usar uma garota boa sem piedade alguma, mesmo que isso vá quebrar o coração dela depois – ela apontou para mim, tremendo. – Sabe o que eu penso? Que a Lucy é uma mulher incrível e que se você fosse homem de verdade, você mudaria essa situação para não perdê-la para sempre, porque quando ela perceber que você não vai atrás dela, ela vai escolher outro mesmo que isso a faça infeliz – e com isso, ela saiu correndo do cômodo.
– Acho que você deveria ir atrás dela... – avisei depois de algum tempo, quebrando o silêncio, mas Levy estava paralisada. Admito que fiquei surpreso, afinal Wendy nunca nem mesmo havia levantado a voz com alguém.
– Eu sou tão cega... – ela fitou o celular destruído no chão. – É minha própria irmã e eu nem mesmo percebi...
– Como? – perguntei, confuso.
– Wendy está com problemas – respondeu, deixando uma lágrima escorrer por seu rosto. Assenti, sem entender muito bem. Acho que era mais uma daquelas coisas de garotas que só garotas entendem.
– Você deveria falar com ela – falei, e ela se virou para a porta.
– Eu vou – revirei os olhos, e ela fez menção de sair, mas me fitou uma última vez. – Sei que não tenho nada a ver com o que acontece entre você e a Lucy, mas talvez seja a hora de ser homem de verdade e assumir, ou como Wendy disse, você a perderá para sempre. E eu sei que você não é idiota a esse ponto – e deixou o cômodo. Apenas eu fiquei na mesa, e eu fitei o lugar onde Lucy estava sentada. Talvez estivesse na hora de fazer o que era certo.
Lucy POV
Estava parada no corredor, agachada e encostada na parede, pensativa. Sem lágrimas rolando, apenas pensamentos que inundavam minha mente. Ouvi passos apressados subirem as escadas e me coloquei de pé, quando Wendy veio correndo na minha direção, sem olhar para onde estava indo, e nós caímos no chão.
– Ai – murmurei, e ela abriu os olhos. Ela tinha caído de joelhos e eu de costas, mas ainda assim optei por ignorar a dor. – Wendy? Você está bem?
– Lu-chan! – ela se jogou em cima de mim, e eu a abracei da melhor forma que deu.
– O que aconteceu? Venha – eu me forcei a ficar de pé e a levantei, guiando-a até meu quarto, e a sentei na cama, acariciando seus longos cabelos azuis. Ela soluçava e seu choro não cessava de jeito algum. – Você pode me falar o que quiser, mas se preferir guardar tudo para você, eu entendo. Só não acho que seja o melhor.
– Todos diziam que ele gostava de mim, Lu-chan... – ela me abraçou novamente. – E quando eu finalmente comecei a gostar dele, Meredy me falou que o viu com outra – ela me apertou com força, e eu engoli em seco.
– Oh céus – murmurei para mim mesma. – Ele, é? – ela se calou, mas continuou chorando. Imaginei que “ele” só poderia ser Romeo, mas essa história que ela acabara de contar não me soava muito convincente. Romeo era muito parecido com Natsu, e bem, Natsu ficaria com alguém que ele não gostava? Senti uma pontada de dor no peito, mas decidi que não deveria demonstrar coisa alguma.
– Você acha que ele faria isso, Lu-chan? – perguntou, olhando cheia de esperança para mim. – Ele ficaria com alguém que não gosta? Ou ele na verdade não gostava de mim e eu só venho me iludindo nos últimos tempos?
– Eu não sei muito bem o que te dizer, mas acho que a melhor solução seja esclarecer a história com ele para poder encerrar de vez a dúvida – respondi. – Mas vocês ainda são tão novos para se preocuparem em ficarem juntos ou não...
– Isso não ajudou nem um pouco – ela soluçou. – Eu não sei o que fazer.
– Então talvez a melhor opção seja relevar a história e agir como se não soubesse de nada, às vezes Meredy se enganou e não foi como ela disse – falei, tentando escolher as palavras com cuidado. – Talvez ele goste de você mas ache que você não está ao alcance dele, então ele escolheu outra para se esquecer do quanto gosta de você.
– Você acha? – ela parou de chorar no mesmo instante, e limpou as lágrimas que escorriam por seu rosto.
– Pode ser que seja verdade – sorri fraco, lembrando-me de quando tinha 15 anos e vi Natsu e Lisanna juntos pela primeira vez. Aquela seria a noite mais importante para mim, quando eu iria me confessar para ele, mas ao vê-los, a única reação que tive foi correr. Depois de correr descalça pelas ruas escuras de Magnólia, eu cheguei em casa e me tranquei em meu quarto por uma semana. Quando decidi ir para a escola de novo, encontrei os dois, e por impulso, fugi mais uma vez. – Pelo menos você tem a opção de conversar a sério com ele, eu vi com meus próprios olhos...
– Lu-chan? – Wendy me chamou com a voz fraca, e eu percebi que encarava minha porta. – Sinto muito por aquela noite. Todos sentimos que falhamos com você por causa daquilo. Eles nem mesmo se conheciam.
– Como? – perguntei, confusa. Ela não chorava, apenas me encarava, segurando minha mão.
– Eles não teriam ficado juntos se você... – antes que ela pudesse falar, Levy entrou afobada no quarto, empurrando a porta com força e correndo até a irmã. – Você está bem? O que houve? Precisa de um abraço?
– Não precisa se preocupar, eu já estou me sentindo melhor – Wendy respondeu, abraçando a irmã, que suspirou aliviada. – Levy, talvez seja melhor você falar sobre aquela noite.
– Aquela noite? – repetiu, pensativa. – Ah, aquela noite.
– Do que estão falando? – questionei, perdida entre os olhares que as duas trocavam.
– Da noite em que Natsu conheceu Lisanna – Levy respondeu, balançando a cabeça. – Eu me lembro daquilo como se fosse ontem, meu primo estava tão nervoso, ele queria falar com você, mas você não apareceu. Ele decidiu desistir, e Lisanna se aproveitou da situação complicada entre vocês dois.
– Ele...queria falar comigo?
– Ele ia se confessar pra você – Wendy explicou. – Ele era tão apaixonado por você, Lu-chan, desde que vocês eram crianças.
– O que? – minha visão ficou turva e senti as lágrimas escorrerem sem piedade pelo meu rosto. – A culpa foi minha?
– Culpa de que, Lu-chan? – Levy me abraçou. – A culpa é do Natsu por ele ser um fraco e desistir.
– Não – limpei o rosto com as costas da mão, respirando fundo. Sim, a culpa era minha. Ele não foi fraco, eu que fui. Eu que fugi. Eu que deixei que Lisanna se aproveitasse da situação. – Aquela noite... – hesitei. Nunca contara aquilo para Levy. – Aquela noite eu ia me confessar para ele, sabe? Mas quando eu cheguei à entrada do restaurante e vi os dois, eu saí correndo. Como uma covarde.
– Você é... – Levy se levantou, irritada, lançando uma almofada na porta. – Você tem algum problema, não é possível.
– Levy... – Wendy avisou, mas a irmã a ignorou completamente.
– Você podia ter me avisado, assim eu não teria deixado as coisas tomarem o rumo que elas tomaram! – exclamou, fitando-me nos olhos. – Amigas contam as coisas umas para as outras e se ajudam quando precisam. Eu sou sua amiga, Lu-chan. Melhor amiga. Ou pensei que fosse.
– Desculpa... – murmurei, desabando em lágrimas, e Levy me abraçou. – Desculpa, Levy-chan. Eu deveria ter falado. Quando eu mais precisei de alguém, eu me tornei solitária...
– Só não faça uma coisa dessas de novo – avisou, retribuindo o abraço, no qual Wendy entrou também.
– Levy, Wendy, minha mãe falou para vocês... – Natsu parou na porta, assistindo a cena patética que era nós três abraçadas e chorando como condenadas. – Eu perdi alguma coisa? – perguntou, confuso.
– Verdade, precisamos nos arrumar para o almoço – Levy se levantou, puxando Wendy para fora do quarto, limpando o rosto com as mãos.
– Luce, você está bem? – aproximou-se de mim, sentando-se ao meu lado na cama, passando a mão por meu rosto, o que fez com que eu chorasse ainda mais. – Acalme-se – ele me abraçou, e eu senti um forte aperto no coração, sem conseguir controlar o choro.
Abracei-o de volta, e nos poucos minutos que ficamos naquela posição, minha mente viajou até aquela noite em que meu coração se partira. Aquela dor que senti, meu coração se quebrando em milhares de pedacinhos, que jamais voltariam a se unir normalmente. Agora, a dor era semelhante, mas ainda assim não chegava a ser a mesma.
– Eu sinto muito... – murmurei, tendo certeza que ele não entenderia de primeira pelo que eu me desculpava.
– Tudo bem – passou a mão pelos meus cabelos, e depositou um beijo em meu nariz. – Agora vá se arrumar para almoçarmos na casa do seu...pretendente – ele revirou os olhos, o que me fez rir. – É bem melhor assim – apertou meu nariz e se levantou, deixando meu quarto. Era a primeira vez que eu me sentira realmente à vontade com Natsu depois de tanto tempo. Respirei fundo e me coloquei em pé, caminhando para meu closet em busca de um vestido.
Natsu POV
Fechei a porta do quarto de Lucy, tremendo, com o coração batendo a mil. Eu não me sentia desse jeito há tempos, e ver Lucy chorando me deixava tão perturbado agora quanto quando éramos crianças. Levy atravessava o corredor com um vestido em mãos, mas parou ao me encontrar encostado à porta, fitando o chão.
– Você não vai me dizer, não é mesmo? – perguntei, e ela deu de ombros. – Por que ela se desculpou?
– Ela se desculpou? – ela mordeu o lábio. – Você não entenderia, Natsu. Mas tem tudo a ver com essa enrolação toda.
– Que enrolação? – questionei, arqueando a sobrancelha.
– Esse chove não molha que vocês têm vivido desde que nos mudamos para cá – ela balançou a cabeça. – Não, vocês vivem isso há mais tempo. Por que não termina logo com a Lisanna, e admite que gosta dela? Você sempre gostou dela.
– Se você não se lembra, estamos indo almoçar na casa do provável futuro noivo dela – protestei, incomodado.
– Como você mesmo acabou de dizer, provável – ela me segurou quando eu me virei para ir para meu quarto. – Você ao menos tem ideia do que pode fazer? Natsu, você pode impedir que Lucy se case com alguém que ela nem mesmo conhece!
– Você está exagerando, Levy. Como sempre – falei, e ela soltou meu braço.
– Caramba, Natsu, você é definitivamente o maior idiota que eu conheço – murmurou, irritada. – Você deixaria mesmo Lucy se casar com aquele tal de Hibiki? Ou com Rogue? – virei-me no mesmo instante, e encarei Levy, que sorria maliciosamente para mim. – Vai dizer que não se lembrava que ele está na lista de pretendentes?
– É claro que eu me lembro – respondi, irritado, e adentrei meu quarto, trancando a porta. Levy encontrara meu ponto fraco.
Lucy POV
Vesti um simples vestido vermelho, que cobria metade das minhas coxas, e que não era tão justo no corpo. Como Saeko dissera, não poderia impressionar muito, ou meu destino estava selado. Mas era sempre assim. Nessas horas, nunca tinha como fechar o zíper nas minhas costas.
– Luce, seu pai pediu para descermos logo – Natsu entrou no meu quarto, vestido com um terno preto. Tinha que admitir que ele ficava sexy quando parecia estar sério.
– Você não sabe bater antes de entrar, por acaso? – perguntei, e ele se virou, batendo na porta de madeira.
– Estou entrando – avisou, e eu revirei os olhos.
– Preciso que feche o vestido para mim – pedi, envergonhada, e ele se aproximou, suspirando, passando a mão pelas minhas costas, e subindo o zíper logo em seguida.
– Pronto – avisou, afastando-se e sentando na cama. Olhei para ele surpresa. Ele certamente parecera tentado a fazer qualquer coisa, mas se segurou. Coloquei um par de sandálias, um medalhão dourado que minha mãe costumava usar, e ajeitei o cabelo, deixando-o solto.
– Vamos – falei, vestindo um casaco de couro branco. Natsu ficou alguns minutos me encarando e então se levantou, envolvendo-me por trás. – Natsu...
– O quê? – perguntou, beijando meu pescoço. De repente, virou-me e colou nossos corpos, unindo nossos lábios num beijo calmo e contido, diferente dos anteriores. – Nós temos que ir para a casa do seu futuro noivo – ele interrompeu o beijo, andando para a porta e me deixando para trás.
– Ainda não foi decidido com quem vou me casar.
– Ainda – senti uma pontada de irritação em sua voz, o que me fez sorrir.
– Ora, Natsu Dragneel, não me diga está com ciúmes? – perguntei, e ele revirou os olhos.
– Ciúmes de quê? De você? Com aquele tal de Hibiki? Ou com o Rogue? – ele apertou a maçaneta. – Claro que não. Impossível.
– Se você diz – passei em sua frente, e ele encostou a porta atrás de mim. Trocamos olhares e senti meu rosto esquentar de leve. Natsu estava com ciúmes? Só podia ser, para citar o Rogue numa situação em que ele nem mesmo estava incluído. Sorri para ele, e descemos as escadas, encontrando a todos no hall.
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