.

FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 23

Perfume de Magnólias

Syaoran entrou debaixo da ducha gelada. A água estava tão fria que podia lhe cortar a pele, mas era assim que ele gostava desde que tinha voltado do inferno. Talvez tanto tempo sentindo aquele calor a queimar-lhe o corpo ou a alma ou que quer que fosse agora, a água gelada lhe dava a sensação e a certeza de que não estava mais lá. E isso lhe causava um imenso prazer.

Levantou o rosto deixando o jato forte bater no rosto, molhando os cabelos. Os olhos estavam fechados, respirava devagar, tentando colocar a cabeça em ordem. Qual o motivo daquele terremoto do nada? Não fora uma causa natural. Os repórteres da pequena Tomoeda estavam enlouquecidos, tentando arrancar explicações dos cientistas para o forte tremor. Só se falava disso no jornal local e até no jornal regional. “Terremoto misterioso na cidade de Tomoeda”.

Soltou um suspiro. Realmente, a cidade de Tomoeda não tinha sorte. Primeiro foi aquela loucura toda com os seres das trevas, depois o Caos, ou seja lá o que o ex-amigo maluco de Clow fez, e agora um terremoto do nada. O que viria a seguir? Tornado? Eclipse? Franziu a testa pensando que talvez…

‘Não pode ser…’ Sussurrou, abrindo os olhos.

Seria possível que alguns demônios estivessem novamente invadindo a cidade? Seria possível que, depois de tudo pelo que passou, tudo voltaria a ser a loucura de antes? Como se a morte dele não tivesse resolvido nada. Franziu a testa e, sem pensar, deu um soco na parede para descontar a raiva em alguma coisa. Trincou os dentes.

‘Merda…’ soltou, voltando a fechar os olhos e a colocar a cabeça debaixo da água corrente, deixando-a bater diretamente na nuca. ‘Inferno.’

A mão estava latejando. Tinha quebrado a parede do box com seu descontrole e cortado a mão. Teria que arrumar isso depois. Abriu os olhos e viu o sangue escorrendo da ferida, misturando-se à água do chuveiro e descendo pelo ralo. Olhou para a mão, vendo o machucado se fechar e, em pouco tempo, ela já estava boa. O poder que Luthor havia lhe dado ainda funcionava neste universo.

Voltou a fechar os olhos e percebeu a aura mágica de Sakura movendo-se pela casa. Devia estar preparando o jantar para os dois. Sorriu de leve, mas depois percebeu que tinha alguma coisa errada. Fechou o chuveiro, pegou a toalha para enrolar na cintura e começou a descer as escadas.

‘Sakura.’ Ele a chamou e logo viu o rosto irritado da feiticeira.

‘Onde estão as panelas?’

‘Panelas?’ Ele perguntou, olhando para ela desconfiado.

‘Sim, Syaoran. As panelas! Aquele negócio que a gente usa para fazer a comida.’

‘Eu sei lá onde estão as panelas!’ Respondeu irritado, voltando a subir para o segundo andar e reclamando.

Sakura observou o namorado subir pisando duro. Franziu a testa. Voltou-se novamente para a cozinha sem entender o que estava acontecendo. Foi quando ouviu um grito vindo do lado de fora da casa. Correu até a janela e viu, através dela, um grupo de pessoas se juntarem perto da entrada do sobrado branco.

Abriu a porta para tentar entender o que acontecia. Uma jovem chorava no meio do pequeno grupo. Desceu os degraus da pequena escada da varanda e cruzou o jardim. Abriu devagar o portão de ferro e se aproximou do grupo.

‘Aconteceu alguma coisa?’ Ela perguntou para um senhor.

O homem voltou-se para ela. ‘Parece que roubaram o carro da jovem.’

‘Um furto?! Aqui?’ Sakura falou um pouco mais alto do que intencionava, assustada.

‘Não!’ A jovem gritou, respondendo ao comentário de Sakura. ‘O carro sumiu! Desapareceu do nada! Eu não estou ficando louca!’ Ela ainda gritou para o rapaz a frente dela, que tentava acalmá-la.

Sakura franziu a testa, tentando entender o que estava acontecendo. Sentiu uma presença mágica mais adiante e correu pela calçada, tentando identificar o que era. Não lhe era estranha. Parou em frente o templo Tsukimine e olhou assustada para o torii, ou melhor, para o espaço vazio onde ele deveria estar.

‘Mas que diabos está acontecendo aqui?’ Ela se perguntou. Logo, dois frequentadores do templo a fitaram com os rostos assustados.

‘O torii! Ele sumiu do nada! Como mágica!’ Um senhor comentou, apontando para o espaço vazio onde o portal costumava ficar, tremendo feito vara verde.

‘Como assim?’

‘Sumiu!’ A senhora que estava com o homem repetiu sem conseguir acreditar no que tinha visto. ‘Eu vi! Ele sumiu.’

Sakura sentiu a presença mágica novamente e voltou a correr pela calçada, perseguindo não sabia o quê. Levou a mão ao peito, para pegar a chave, que deveria estar no seu pescoço, e estacou ao não senti-lo. Parou no meio da rua, verificando se estava em seus bolsos, mas as Cartas também não estavam ali.

‘Elas sumiram…’ Constatou atordoada.

Franziu a testa, voltando a correr. Tinha que saber o que estava acontecendo para as coisas simplesmente sumirem daquele jeito. Sentiu uma gota de suor descer pelo seu rosto de nervosismo.

Parou, de repente, assim como outras pessoas, para simplesmente observar o enorme vazio que existia no lugar que antes era ocupado por um dos prédios da universidade de Tomoeda.

Sentiu quando Syaoran parou ao seu lado, já estava se acostumando com a presença diferente do namorado. Era fácil saber que era dele, os cabelos da sua nuca se arrepiavam e ela sempre sentia como se uma corrente de eletricidade baixa percorresse sua coluna. Antes a presença dele lhe transmitia segurança, aconchego, agora lhe trazia sentimentos diversos que ela ainda não sabia descrever.

‘As coisas estão sumindo.’ Sakura esclareceu para o namorado assim que o fitou.

Ele a olhou rapidamente antes de desviar os olhos para o outro lado. ‘Acho que não…’ Respondeu.

‘Como assim?’

Ele apontou para o prédio. ‘O prédio que deveria estar na nossa frente está ali.’ Falou com a voz calma.

Eles caminharam devagar entre vários curiosos para o prédio que havia, do nada, movido-se para o outro lado do campus.

‘O que será que está acontecendo?’ Ela perguntou para ele.

‘Parece… Parece com o poder de Movimento.’ Ele respondeu e ela concordou com a cabeça. Pararam em frente ao prédio, reparando que junto a ele, estava o enorme portão do templo Tsukimine, além do Rei Pinguim e vários carros, que estavam empilhados um em cima do outro, como se fossem de brinquedo.

‘Não sinto mais presença alguma.’ Ela mencionou.

‘Também não. Quem quer que fez essa bagunça foi embora.’ Li respondeu.

Uma multidão se formou em volta do prédio movido. Todos se perguntavam o que teria acontecido. Algumas juravam que haviam visto o prédio se mover de um lado da universidade para o outro, como mágica.

Vários repórteres já chegavam para fazer a cobertura de mais um evento extraordinário da pequena cidade.

Sakura sentiu Syaoran segurar sua mão e a puxar de leve. ‘Vamos… Não há mais nada a fazer aqui.’

‘Minhas cartas!’ A jovem falou. ‘Elas sumiram!’

‘As cartas estão lá em casa, Sakura. Você as deixou na mesa da sala.’ Ele respondeu.

Ela balançou a cabeça de leve. ‘Não… Eu tenho certeza que não as deixei.’

O rapaz franziu a testa. ‘Vim atrás de você justamente porque as vi espalhadas na mesa da sala.’

Sakura franziu a testa. Realmente não se lembrava de tê-las deixado lá. Ela tinha chegado em casa, lavado as mãos e já estava indo preparar a janta quando não encontrou as panelas. Será que, com a irritação de não encontrar as panelas, acabou tirando as cartas do bolso, deixando-as na sala? Levou uma mão até a testa tentando se lembrar.

‘Vamos.’ Insistiu Syaoran. ‘Melhor você pegar Movimento e colocar tudo de volta no lugar.’

Ela concordou com a cabeça, acompanhando o namorado no caminho de volta à casa deles.

‘O que você acha que pode ter feito isso?’ Ela perguntou, preocupada.

O rapaz deu de ombros. ‘Não sei. Senti uma presença mágica; era muito rápida.’

‘Eu também. Era uma presença familiar, mas era estranha…’

‘Estranha?’ Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

‘Sim.’ Ela suspirou fundo. ‘Estão voltando a acontecer coisas estranhas em Tomoeda.’

‘Como sempre…’ Ele soltou com a voz um pouco chateada.

Sakura enlaçou seu braço no dele, repousando a cabeça no ombro do namorado enquanto caminhavam em direção a casa. ‘Tudo vai dar certo.’

Ele concordou sorrindo de leve, permanecendo em silêncio.

‘Acho que vamos ter que pedir uma pizza. As panelas sumiram.’

‘Ou você as colocou num lugar que não lembra.’ Ele retrucou, sorrindo de leve e levou uma cotovelada da jovem.

‘Hei. Acredite em mim.’

‘Acredito!’ Falou, sorrindo. ‘Vamos pedir uma pizza até você lem… Hum… Achar onde elas estão.’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura estava comendo um pedaço de pizza deitada no sofá com as pernas no colo de Syaoran. Estavam assistindo ao jornal local que não sabia agora se dava enfoque para o terremoto ou para o prédio que mudou de lugar do nada.

‘Hum…’ Ela soltou depois de engolir um pedaço. ‘Acho que terei que usar sono no pessoal que está fazendo guarda em frente ao prédio.’

Ele concordou com a cabeça. Sakura voltou-se para trás, observando a porta. ‘Yue e Kero estão chegando.’ Falou, sentindo a presença dos guardiões e, não muito depois, a campainha tocou.

Ela puxou as pernas e se sentou, deixando o prato com metade da pizza sobre a mesa de centro. Caminhou devagar até a porta e a abriu já sabendo que encontraria os seus guardiões e, é claro, seu irmão.

Sakura deu espaço para eles entrarem e avisou que já ia preparar um chá. Pelo menos a chaleira elétrica não tinha desaparecido.

Touya cumprimentou a irmã com um abraço, perguntando se estava tudo bem com ela. Cumprimentou Syaoran de forma polida. Ele tinha aceitado a irmã ir morar com o rapaz, mas isso não significava que havia concordado. Yue e Kerberus observavam Syaoran com rostos desconfiados, depois de cumprimentá-lo também.

Syaoran percebeu que o tigre estava nervoso, pois não conseguia parar de chicotear o rabo ao seu lado, além disso, estava quieto demais. Isso era bem incomum vindo dele. Sorriu de lado.

‘Não tenho chifres ainda.’ Falou do nada, assustando os dois guardiões de Sakura que se entreolharam. ‘Mas talvez daqui a pouco possam surgir, não é?’

‘Você não deveria brincar com isso.’ Yue falou sério, encarando o rapaz que deu de ombros.

‘Não tem mais como mudar as coisas.’

Kerberus se aproximou de Syaoran que, depois de cumprimentar a todos, voltou a se sentar no sofá. O grande felino parou a centímetros do rosto dele, encarando-o. ‘Você é um moleque muito teimoso.’

Syaoran ergueu uma sobrancelha. ‘Eu tinha que voltar.’

‘Mas o preço foi alto demais.’ Yue falou seriamente. Era a primeira vez que conversavam sem a presença de Sakura, que estava na cozinha, preparando o chá.

‘Eu paguei… Eu estou pagando.’ Ele falou, desviando os olhos de Yue. ‘Eu faria a mesma coisa quantas vezes fosse necessário.’

Touya acompanhava a conversa em silêncio. Os dois guardiões já haviam comentado com ele sobre a presença diferente do namorado da irmã. Estavam preocupados pela segurança de Sakura. O problema era que, por mais que quisesse, não podia negar o fato do rapaz ter passado por tudo aquilo para voltar por ela.

Sakura estava completamente perdida algum tempo atrás. Ele nem saberia o que fazer com ela se o rapaz não tivesse reaparecido ou ressuscitado, ou sei lá o quê. No fundo, isso não importava, ele estava de volta e a irmã havia voltado ao seu equilíbrio. Mesmo que não quisesse admitir, sentia respeito por ele. Não era qualquer um que faria o que ele fez. Olhou para a cozinha e ouviu a irmã preparando o chá, ela logo apareceu com a bandeja e serviu a todos.

Sakura sentiu o clima tenso. Era sempre assim desde que Syaoran tinha voltado.

‘Estou de saco cheio dessas caras.’ Ela falou, não tinha porque medir as palavras com seus dois guardiões. Ela os encarou severamente. ‘A presença de Syaoran mudou, e daí?’

‘Estamos preocupados.’ Yue falou, fitando-a sério.

‘Não tem com o que vocês se preocuparem.’

Syaoran olhou a namorada. Ela estava se colocando na defensiva por causa dele. Abaixou o rosto e sorriu.

Kerberus sentou perto de Syaoran e voltou-se para sua mestra. ‘A presença do moleque petulante realmente mudou, mas a cara feia continua a mesma.’

Syaoran ergueu uma sobrancelha. ‘Humph… Melhor que a sua.’ Retrucou, sorrindo de lado.

Sakura estendeu uma xícara para o irmão que a aceitou, mantendo atenção no diálogo.

‘Vocês estão aqui para repetirem a mesma ladainha ou para conversar sobre o terremoto e as loucuras que andam acontecendo na cidade?’ Sakura tentou ser objetiva.

‘Estamos preocupados com os acontecimentos estranhos.’ Yue falou.

Ela concordou com a cabeça, gostando da resposta do guardião da lua. ‘Eu senti uma presença muito particular, não era estranha. Muito pelo contrário, mas não era exatamente como…’ Sakura falou, colocando um dedinho no queixo. ‘Parecia uma carta Clow.’ Ela concluiu.

‘Foi exatamente o que eu senti.’ Syaoran confirmou.

Yue concordou com a cabeça. A campainha tocou novamente.

‘É Eriol.’ Sakura falou, levantando-se, pois já esperava pela reencarnação de Clow. Ela caminhou até a porta e a abriu, encarando o semblante sério do rapaz. Ele parecia muito cansado.

‘Está bem, Eriol?’ Ela perguntou, realmente preocupada.

Ele balançou a cabeça respondendo que estava tudo bem sim. Deu um passo à frente e abraçou a amiga com carinho. ‘Estou feliz que você esteja bem agora, Sakura.’

A jovem feiticeira o abraçou, com gratidão. ‘Eu também. Obrigada por tudo.’

Eriol tinha, literalmente, largado tudo da sua vida para estar ao lado dela, tentando ajudá-la durante aqueles meses de sofrimento.

Syaoran observou os dois com o semblante franzido. Por mais que não quisesse admitir, ainda tinha ciúmes de Sakura com Eriol. Podia ser coisa da sua cabeça, mas desde que eles eram garotos nunca gostou do rapaz muito perto da jovem ruiva.

Não desgostava de Eriol, na verdade ele o respeitava por ser reencarnação de um ancestral dele e também tinham algumas afinidades na magia. Eriol fora seu canal para ajudá-lo a controlar Sakura em alguns momentos, era o único que poderia se comunicar com a natureza espiritual em que se encontrava. Estava grato a ele. Não poderia negar que ele tinha realmente se preocupado com a jovem feiticeira, mas isso não significava que precisava gostar quando o mago era todo “mãos” para cima da sua namorada.

Eriol encarou Syaoran, que se levantou para cumprimentá-lo, mas, diferente das outras vezes, o britânico se aproximou e o abraçou dando um tapinha em suas costas. Syaoran não se esquivou. Verdade que fora surpreendido pela atitude do rapaz, mas vendo o rosto do feiticeiro pensou que ele realmente deveria estar bem mal.

‘Fico feliz que esteja aqui.’ Eriol falou para ele.

‘Está tudo bem, Hiiraguizawa? Você está com uma aparência péssima.’ Falou, sinceramente preocupado.

‘Muitos problemas…’ Ele respondeu de maneira evasiva. ‘Mas realmente estou feliz em saber que vocês dois estão juntos.’

Syaoran concordou com a cabeça.

‘Sente-se Eriol.’ Sakura falou, oferecendo um lugar no sofá. Serviu chá para o rapaz que agradeceu.

Yue não tirava os olhos de seu antigo mestre, também percebeu que Eriol não estava bem.

‘Como vai a Kaho?’ Sakura perguntou ao acaso e Syaoran viu o rapaz encolher os ombros. Bingo! Os problemas do poderoso mago Clow eram, para variar, de natureza bem humana.

‘Ela está bem. Mandou lembranças para você.’

‘A senhora Mizuki foi muito legal em nos vender esta casa. Syaoran e eu gostamos muito dela.’ A ruiva falou, servindo o chá para o namorado que agradeceu.

‘É uma boa casa.’ Ele respondeu, pensando que fora naquela sala que ele tinha contado tudo a eles sobre o passado dele.

Pigarreou, lembrando-se do que Sakura havia falado para ele no momento em que descobriu que ele havia tentando influenciá-la a gostar de Yukito. Sentia-se culpado ainda. Olhou para Syaoran que o fitava com o semblante fechado. Sentiu-se pior ao reparar a aura púrpura que circular o rapaz.

‘Não carregue a culpa toda, Hiiraguizawa.’ Li o aconselhou, encarando-o. ‘Ou você vai acabar enlouquecendo.’

Eriol concordou. O chinês estava certo.

Sakura serviu finalmente o chá para si mesma e sentou-se no braço do sofá ao lado de Syaoran que apoiou o braço na perna da namorada.

‘Daqui a pouco terei que ir até Universidade para colocar aquele prédio de volta no lugar. Não sei nem como vou fazer isso…’ Ela voltou-se para Eriol. ‘Movimento, normalmente, apenas consegue mover coisas pequenas, será que terá força para mover um prédio daquele tamanho?’

‘Eu realmente não sei.’ O reencarnação do mago respondeu com sinceridade. ‘Quando era uma carta Clow provavelmente não, mas agora… Sendo uma carta Sakura.’

‘Ele tem razão.’ Yue comentou. ‘As cartas acompanham o poder de seu mestre, se o feiticeiro torna-se mais forte, a magia das cartas também acaba se elevando.’

‘E você está muito forte, Sakura.’ Kerberus concluiu, sorrindo para a mestra que ficou ligeiramente encabulada.

Syaoran sorriu de leve, a fera alada tinha razão. A jovem feiticeira estava com a presença mais forte do que nunca. Ele estava verdadeiramente orgulhoso dela. Fora ela quem o tirou daquele inferno em que estava. Ainda não tinha conseguido entender como, mas isso não era o que realmente importava. Ela o salvara novamente.

‘Eu não sei…’ Ela falou. ‘Mas vamos tentar.’

‘Tenho certeza que irá conseguir.’ Syaoran falou e a observou abrir um lindo sorriso.

Era bom saber que ele confiava nela. Sempre desejou que ele soubesse que ela estava se esforçando para se desenvolver na magia.

Touya terminou o chá e se inclinou a frente para colocar a xícara na mesa de centro. Franziu a testa, observando Kerberus comendo o restante da pizza em vez de se preocupar com o que estava acontecendo. Aquela bola de pelo realmente parecia um saco sem fundo.

‘O problema não é como colocar as coisas de volta, é saber o que aconteceu.’ Falou, observando Eriol.

Daquele ali, Touya não gostava mesmo, não tinha nem dúvidas. Tudo bem, ele era o criador de Yue que era a forma original de Yukito, mas não podia negar que detestava ver a devoção no rosto do guardião lunar para com o rapaz.

‘Senti uma presença parecida com uma carta, Clow ou Sakura, não importa.’ Eriol franziu a testa e ficou alguns segundos em silêncio. ‘Parecia a presença original da carta.’

‘Forma original?’ Kerberus perguntou com a boca cheia de pizza. Sakura olhou para o guardião solar com um olhar de reprovação. ‘Hei, eu preciso me alimentar.’ Ele falou, tentando se defender. ‘Seu irmão é muito pão duro.’

‘Este bicho é um irritante.’ Touya bufou.

A irmã bem que poderia voltar a ficar com ele. Era muito caro tê-lo em casa, comendo sem parar e gastando fortunas da conta de energia pelo excesso de televisão ligada, ou melhor, videogame ligado.

Yue rodou os olhos, não era hora de discutir isso. Voltou-se para Eriol, esperando uma resposta e reparou que o rapaz tinha o rosto muito preocupado. ‘Como assim, Clow?’

Eriol fitou o guardião. Já havia pedido que não o chamasse assim. Ele não era o mago Clow e, sim, sua reencarnação, mas Yue não aceitava. Suspirou. Não era hora de discutir isso mais uma vez. ‘Antes de Clow prendê-las em cartas, limitando seus poderes.’

‘Quando ainda eram somente demônios.’ Syaoran concluiu, vendo Eriol concordar. ‘Então…’ Syaoran começou, respirando fundo. ‘Voltaram a aparecer demônios em Tomoeda. Isso parece que não tem mais fim.’

Sakura tremeu. Sentiu o tom aborrecido do namorado. Abaixou-se e beijou a cabeça dele. ‘A gente vai dar um jeito.’

‘Como sempre.’ Retrucou e fitou Eriol. ‘Então ainda tem uma brecha?’

‘Talvez. Você, melhor do que ninguém, deve saber como são as brechas no mundo das trevas.’ Falou e se arrependeu imediatamente. Abriu a boca para tentar consertar, mas viu que a emenda sairia pior que o soneto. Achou melhor se calar.

‘É… Acho que sim.’ Ele respondeu, olhando de esguelha para a namorada, embora não precisasse nem ter visto a apreensão no rosto dela, pois sua aura já começava a aumentar, mostrando que estava tensa. ‘Existem brechas fixas, foi por uma delas que eu passei.’ Começou a contar.

Kerberus voltou sua atenção ao rapaz, deixando de lado a comilança. Yue e Touya também estavam atentos.

‘Pelo que eu entendi, estas brechas são guardadas por demônios superiores para evitar que os menores ou almas condenadas passem por elas. Acho que é um acordo com Enma Daiyoh.’

‘E como você passou por uma delas?’ Yue perguntou, fitando-o seriamente.

Syaoran desviou os olhos do guardião e fitou um ponto qualquer da sala. Não gostava muito de lembrar do tempo que passou lá. Era como as lembranças de quando era criança e apanhava dos anciões. ‘Eu tive que matar um demônio superior. Derrotando-o pude passar por uma brecha.’

Sakura engoliu em seco, lembrava-se bem do estado em que o rapaz havia voltado, a roupa rasgada, suja e coberta de sangue. Ele deveria ter passado por muita coisa. Sentiu os olhos marejados, mas se controlou. Chorar na frente dele não ajudaria nada, muito pelo contrário.

‘Deve ter sido bem difícil, não?’ Touya perguntou, franzindo a testa e encarando o namorado da irmã.

Syaoran concordou com a cabeça. ‘Foi… Todo o tempo que passei lá foi bem difícil. Mas não é este o ponto da conversa aqui.’ Falou, voltando-se para Eriol. ‘Não senti a presença de nenhuma brecha. Além disso, a manifestação é muito rápida e oscilante. Como se o que estivesse se manifestando aparecesse e sumisse em intervalos rápidos.’

Sakura concordou. ‘Verdade. A impressão que dava era que ela aparecia e desaparecia rapidamente.’

‘Não tem como ter uma brecha assim.’ Syaoran concluiu. ‘Ou elas aparecem em um determinado momento e desaparecem em seguida, em um evento único, ou elas são fixas.’

‘Ele tem razão.’ Kerberus concordou. ‘Isso não é possível.’

Eriol estava em silêncio, também tentando entender o que estava acontecendo. Ponderou que já fosse hora de voltar para Londres, talvez tivesse algo nos inúmeros volumes de estudo sobre as brechas em sua biblioteca particular que explicasse aqueles novos eventos. Olhou para o casal de feiticeiros ao seu lado.

‘Sakura…’ Chamou a atenção da jovem feiticeira e levantou-se rapidamente, tirando um envelope do bolso. Estendeu para a jovem que olhou desconfiada para ele. ‘Eu e você fomos convocados.’ Ele falou simplesmente.

Sakura franziu a testa. ‘Convocados... Para?’

Eriol percebeu que ela hesitou em pegar o envelope, fitando-o com olhar desconfiado. Estendeu novamente o pedaço de papel. ‘É uma convocação do Círculo. Acho que eles resolveram chamá-la agora, já que o Caos, ou sei lá o que Shyrai fez, acabou.’

‘Humph… Antes eu era só o “pilar”, não é?’ Falou com a voz chateada, pegando o pequeno envelope com a mão. Olhou pelo canto dos olhos para Syaoran que também se mostrava bem incomodado com a convocação.

‘Antes não era seguro você saber o que era discutido. Vocês faziam parte de uma profecia.’ Eriol esclareceu.

Syaoran mal conseguia controlar o incômodo. ‘Discutiam tanto e não faziam nada.’ Não conseguiu segurar. ‘Não fazem nada!’ Corrigiu-se. ‘Só enchem o saco dos outros.’

Sakura rodou o envelope nas mãos. Era um envelope pardo, comum até para um convite. Estava escrito na frente o nome dela, e logo abaixo “Mestra das Cartas”. Bem, pelo menos não estava escrito “Pilar”. Detestava isso. Tinha muita magia em torno daquele pequeno pedaço de papel. Abriu-o, rompendo o lacre e começando a ler. Seu semblante ficando mais fechado conforme avançava na leitura.

Olhou para Eriol. ‘Eu não vou.’

‘Precisa ir, Sakura. Sua presença é importante.’ Eriol comentou.

‘É em Londres.’ Ela replicou. ‘Não tenho como me afastar do Japão agora. Preciso correr atrás do prejuízo na faculdade, senão eu vou reprovar nas provas finais. Não posso ir.’ Simplesmente respondeu, estendendo de volta o envelope para Eriol.

Não se afastaria de Syaoran por nada agora, mas achou que era melhor não verbalizar isso. Sabia que o namorado poderia não gostar do comentário.

O rapaz olhou para a jovem. ‘Eles gostariam de falar com você.’

‘Então que venham me procurar aqui.’ Ela declarou, firmemente. ‘Eriol… Não quero fazer parte de nada. Quero apenas viver minha vida sossegada.’

Eriol concordou com a cabeça. Ela realmente tinha o direito de simplesmente recusar o convite. Olhou para o casal de feiticeiros e pensou que 10 em cada 10 magos do mundo inteiro sonhariam em receber aquele tipo de convocação e Sakura, simplesmente, recusava-se a ir.

Suspirou, pensando que provavelmente levariam a recusa dela como uma afronta. Isso era bem típico dos burocratas, quando simplesmente é jogado na cara deles que não se liga para o que pensam ou decidem. Pensou que teria que usar de diplomacia. Não gostaria que nenhum viesse para o Japão. Uma presença tão forte quanto a de Syaoran, com certeza, levantaria temores em alguns dos integrantes do Círculo.

‘O que eles querem agora?’ Syaoran perguntou para Eriol, sabendo que aquele tipo de convocação tinha sempre um assunto em pauta.

Conhecia já o funcionamento do Círculo, pois sua mãe também fazia parte dele. Ele nunca fora chamado, obviamente, porque já sabiam que ele morreria e não seria muito agradável se ele ficasse sabendo. No final, ponderando de forma fria, havia sido um boneco.

Bem, não tinha muito o que fazer. Era sua responsabilidade e ele a cumpriu conforme sua moral o obrigava, mas agora, nada mais era obrigação dele. Gostaria de viver sua vida de forma tranquila com a feiticeira ao seu lado e pronto. Terminar a faculdade, trabalhar em alguma coisa que realmente gostasse, casar, ter filhos, coisas comuns que todo homem de bem gostaria. Aquele tempo de loucura tinha que ficar no passado.

Eriol se ajeitou melhor no sofá. ‘A pauta não foi aberta, mas com certeza deve ter como assunto as reminiscências do que Shyrai aprontou.’

Sakura olhou para Eriol. ‘Eles têm conhecimento de Syaoran?’

Eriol deu de ombros. ‘Não faço ideia.’

‘A existência de um ser com o poder e a presença de Li deve ter chamado a atenção deles.’ Yue ponderou e Eriol concordou com um gesto, pensava o mesmo.

‘Realmente sua aura não tem como passar despercebida.’ Kerberus confirmou.

Syaoran suspirou. ‘Fiz um acordo antes de ir para lá.’ Explicou. ‘Foi combinado que ninguém do plano superior interviria na minha permanência aqui se eu conseguisse passar por uma brecha. Não vai ser um bando de babacas que vão me encher o saco.’ Avisou com a voz firme.

Sakura tremeu. ‘Eriol… Precisa acertar as coisas com eles. Minha presença lá só vai piorar… Não ando muito controlada.’ Ela falou de forma sincera. ‘Se algum deles ameaçar nós dois, eu juro que…’ Ela calou-se, olhando rapidamente para o irmão e seus guardiões que a fitavam de forma apreensiva. Ela fechou os olhos rapidamente e voltou a encarar o amigo de infância. ‘Enfrentamos sozinhos aquela confusão, sem ajuda. Eles se mantiveram afastados, então que fiquem assim.’ Falou por fim.

Eriol observava a sucessora de Clow com cuidado. A aura dela está bem forte e segura. Estava realmente sendo influenciada pela presença de Syaoran, mas não da forma como ele havia temido, inicialmente. Parecia que sua aura tentava, de alguma maneira, sobrepor-se à do namorado. Não havia visto mais manchas ou turvamento, estava límpida e brilhante. Tão brilhante que, algumas vezes, tornava difícil manter o olhar fixo sobre ela por muito tempo. Como tentar olhar para o Sol. Ela envolvia o corpo de Syaoran, tornando a presença dele mais tranquila e menos agitada ou violenta do que era de se esperar de um ser com poder vindo das trevas.

Ela estava tentando protegê-lo. Sorriu de lado. Independente de serem feiticeiros, independente dela ser o pilar da vida daquele universo e ele ser seu guardião e agora um demônio, os dois eram simplesmente uma mulher e um homem completamente apaixonados um pelo outro. Se não fosse o sentimento de um pelo outro, provavelmente, muitos dos problemas que tinham já teriam sido resolvidos. Ele tinha interpretado muitos sonhos e sinais de forma errada apenas por nunca ter considerado essa hipótese humana. Bem, a merda agora já tinha sido feita. Era seu dever tentar minimizar as coisas.

‘Eu entendo, Sakura. Vou representá-la.’

‘Está na hora de você voltar para casa, Eriol. Sua esposa deve estar com saudades de você também. Obrigada por tudo que fez por mim.’ Sakura falou para ele com a voz carinhosa.

Eriol tirou os óculos do rosto e um lenço de um dos bolsos para limpar as lentes. ‘É… Acho que está na hora de voltar para casa.’

‘É o melhor.’ Syaoran concordou. ‘Vamos descobrir o que está acontecendo aqui. Não se preocupe.’

O rapaz de cabelos longos fitou Yue. ‘Você me mantém informado?’ Yue concordou e não viu que Touya trincou os dentes.

Eriol bateu de leve as mãos nos joelhos e se levantou. ‘Bem, acho então que está na hora de ir.’

Sakura levantou-se e foi até o amigo, pousou uma mão no ombro dele e sorriu. ‘Você fez o seu melhor, Eriol. As coisas é que foram muito complicadas.’

Ele concordou com a cabeça. ‘Sim… Complicadas demais.’

‘Mas no final… tudo terminou bem.’ Ela falou, sorrindo para ele de forma magnífica.

Eriol sorriu de leve concordando.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

‘Sensacional!’ Kurogane falou, rindo assim que o vídeo de Tomoyo terminou. ‘Não dá para acreditar que eles faziam isso tudo. Fantástico!’ Franziu a testa, pensando por alguns instantes enquanto observava a morena a sua frente que tinha as mãos juntas na altura do peito e os olhos brilhantes. ‘Conhecendo os dois agora, até dá para acreditar mesmo.’

‘Sim… Sakura e Syaoran eram incríveis. Sakura, às vezes, usava a carta Criatividade para fazer uns monstros bem legais contra os quais lutar só para que eu pudesse filmá-la.’ Ela falava entusiasmada. ‘Mas nada era tão incrível do que captar ela e o Syaoran tímidos um com o outro. Até hoje não me perdoo por não ter filmado a declaração de nenhum dos dois.’ Ela falava de forma teatral. ‘Seria um momento tão romântico. Sakura deveria estar linda, com o rosto todo corado.’ Falou e já foi tirar o DVD do aparelho para guardá-lo junto com os outros.

Kurogane observava a morena com um olhar suave. ‘Você não acha que viveu até agora só para ela?’

Tomoyo o fitou com a testa franzida. ‘Como assim?’

Ele suspirou e ficou um tempo calado, tentando escolher as melhores palavras. ‘Você fala com tanto entusiasmo das façanhas de Sakura e de como ela é linda e poderosa e coisa e tal…’ Reparou que a jovem fechava o rosto. ‘E ela é!’ Ele falou rapidamente. ‘Realmente Kinomoto é uma mulher lindíssima e uma feiticeira sensacional.’ Ele fez uma pausa ainda, fitando a morena. Levantou-se e caminhou até ela parando a sua frente e segurando seus braços, fazendo Tomoyo levantar o rosto para fitá-lo. ‘Mas parece que você não consegue ver o quanto você é sensacional também.’

Ela arregalou os olhos, fitando-o. Sentiu o sangue correr rápido por suas veias e sabia que estava corada. Apertou mais forte a caixa do DVD que tinha nas mãos. ‘Hã…’ Ela murmurou sem graça e desviou os olhos dele. ‘Eu… Eu me sinto muito feliz em poder estar ao lado dela.’

‘Assim como ela se sente feliz estando ao lado de Li?’ Ele foi direto. Não era um rapaz bobo como ela pensava.

A morena engoliu em seco, sentiu seu corpo tremer ao perceber que seu grande segredo poderia ser revelado por ele. Não queria que ninguém soubesse. ‘C-como você…’

O rapaz sorriu de leve. ‘Não sou bobo, princesa.’ Ele respondeu simplesmente. Ela desviou os olhos dele novamente, mas Kurogane tocou de leve seu queixo e levantou o rosto da morena. ‘Você é linda.’ Falou com a voz rouca.

Ela sentiu o corpo tremer pela segunda vez. O que estaria acontecendo com ela? Sempre teve certeza que no seu coração só existia uma pessoa, mas talvez… Talvez o corpo dela estivesse pedindo mais. Ela passou a língua rapidamente pelos lábios secos enquanto ainda fitava o rapaz de forma profunda.

Kurogane sorriu de leve novamente, passou o polegar de forma delicada nos lábios macios da morena e inclinou o corpo, fazendo com que os narizes quase se tocassem.

‘Eu posso?’ Sussurrou e sentiu-a concordar com a cabeça de leve.

Tomoyo engoliu em seco, estava tensa, nervosa. Nunca havia beijado antes e, apesar da imensa curiosidade que sentia, também sentia alguma coisa estranha, como um leve formigamento na altura do ventre.

Kurogane a viu fechar os olhos e tocou de leve os lábios rosados e pequeninos da sua princesa. Como se beijasse uma flor delicada com pétalas aveludadas. O perfume de magnólias era maravilhoso. Afastou-se dela e a viu abrir os olhos, reparando no olhar confuso da jovem. Sorriu de lado. Ela esperava mais, dava para ver na expressão de desapontamento, pelo toque apenas suave do roçar de lábios.

Ótimo! Era isso que ele esperava para finalmente dar um passo à frente, enlaçar a cintura fina, segurá-la pela nuca e beijá-la como queria, como sempre sonhara. Sentiu o pequeno corpo tremer, mas os lábios dela logo se abriram, permitindo que ele aprofundasse o beijo. Ele ouviu o barulho da caixa do DVD cair no chão e sentiu as mãos da jovem enlaçando seu pescoço. Os dedos das mãos delicadas tocavam de forma suave sua nuca.

Afastaram-se apenas por falta de ar. Ele a viu abrindo os olhos devagar e sorriu ao ver as duas belas ametistas brilhantes de maneira espetacular. O rosto perfeito de sua princesa estava avermelhado e os lábios rosados abertos e inchados devido ao beijo. Ela levou uma mão à boca tocando de leve os lábios e sorriu de forma tímida. Desviou os olhos dele, encabulada. Então era assim um beijo. Era este gosto, esta sensação que tinha um beijo? Agora entendia o porquê dos casais enamorados simplesmente ignorarem qualquer um ao redor deles durante aquele ato tão maravilhoso.

Kurogane a fitava com carinho, não tinha ideia de que fora o primeiro beijo da morena, talvez se soubesse conseguiria entender parte dos motivos daqueles olhos estarem transmitindo tanta felicidade.

Ele a segurou pela nuca e deu um beijo demorado na testa dela. Tomoyo fechou os olhos e abraçou o rapaz pela cintura. Ele a envolveu em seus braços e repousou seu queixo na cabeça da morena.

Não falaram mais nada um com o outro, apenas permaneceram abraçados, escutando a respiração um do outro voltar ao normal.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura abriu a porta da casa para a amiga. Tomoyo e ela tinham combinado de tomar um chá na casa da ruiva. Sakura estava se esforçando ao máximo e estudava com afinco para passar nas provas. Tinha prometido isso ao irmão e não o decepcionaria.

Tomoyo entrou olhando ao redor. Tinha escolhido alguns dos móveis com a amiga para o ambiente que aos poucos ia se compondo. Syaoran e Sakura estavam envolvidos demais com as provas e tinham dedicado pouco tempo para a decoração da casa. Apenas os móveis e eletrodomésticos básicos tinham sido comprados.

‘Vamos preparar um chá para nós.’ Sakura falou indo até a cozinha e acompanhada pela amiga. As duas já conversando animadamente sobre banalidades.

Tomoyo lhe contava sobre as aulas de moda que estava frequentando como ouvinte e falava com entusiasmo em fazer alguns modelos para a amiga que sorria sem graça, porque, no final, sempre acabava concordando em vesti-los. Não tinha como falar não para Tomoyo.

A morena perguntou sobre Syaoran e Sakura informou que hoje ele chegaria mais tarde. Tinha treino de futebol e, como o ingresso dele no time principal era um dos motivos do rapaz ter uma bolsa de estudos e já estar com a vaga garantida na universidade depois de ter sumido, não tinha como ele faltar.

No fundo, Syaoran também gostava. Atividade física para ele sempre fora uma ótima terapia. E talvez esportes em grupo o ajudassem a socializar um pouco mais. Pelo menos esta era a esperança da jovem feiticeira.

‘Então vocês estão bem?’ Tomoyo perguntou assim que tomou um gole de chá.

Sakura sorriu. ‘Não poderíamos estar melhor.’

‘Fico muito feliz em saber disso, Sakura.’ A morena falou, sorrindo para a amiga. ‘Você não sabe o quanto me faz feliz saber disso.’

‘Obrigada por tudo, Tomoyo.’

A morena balançou a cabeça de leve. ‘Não me agradeça. Faria muito mais por você.’

‘Eu sei disso, por isso mesmo tenho que a agradecer. Você, Eriol e Kurogane foram incríveis comigo.’

Sakura franziu a testa ao observar que a amiga desviou os olhos dela e corou quando mencionou Kurogane. Pigarreou, chamando a atenção de Tomoyo novamente.

‘Está tudo bem, Tomoyo? Tudo bem mesmo?’ Ela insistiu na primeira pergunta que tinha feito e que tinha recebido a mesma resposta “Tudo bem” padrão.

Tomoyo comprimiu um pouco os lábios permanecendo em silêncio. Sakura tocou o seu ombro e sorriu para ela de forma meiga.

‘Sakura… Como é estar com a pessoa amada?’

A feiticeira ergueu uma sobrancelha. ‘Como assim?’

Tomoyo brincava com as mãos. ‘Ah! Como é estar com a pessoa que se ama ao seu lado… Namorando… Entende?’

A ruiva inclinou o corpo a frente e semicerrou os olhos, avaliando a amiga. ‘É maravilhoso… Você nunca se apaixonou, Tomoyo?’

A morena sentiu o coração bater de forma descompensada. Desviou os olhos da amiga sem saber o que responder direito.

‘Tomoyo…’

A morena fechou os olhos e abaixou o rosto. ‘Eu já me apaixonei, sim, mas não sou correspondida.’

‘Mas você já falou isso para ele? Como pode ter certeza?’

Tomoyo sorriu de forma triste. Sakura nunca perceberia. E, mesmo que percebesse, ela nunca teria uma chance. A ruiva era completamente, enlouquecidamente apaixonada por Syaoran Li. Ela tinha acompanhado a descoberta da amiga de seus sentimentos e também tinha acompanhado toda a história dos dois. Não tinha como um viver sem o outro. Ela nunca teria chances.

Mas ela também queria ser feliz. Ela tinha o direito de ser feliz, também. Ela tinha que tirar aquela carga dos seus ombros. Ela tinha que finalmente se dar a chance de ser feliz.

‘Porque esta pessoa já é muito feliz com outra.’ Respondeu simplesmente.

Sakura afastou-se e encostou no sofá, fitando ainda a amiga. ‘Com outra pessoa…’ Repetiu devagar. ‘E como você pode ter certeza que ela é feliz com essa suposta pessoa? Veja o meu caso, custei tanto para entender os meus sentimentos que, se Syaoran não fosse tão cabeça dura, eu teria perdido este sentimento quando aprisionamos a carta Vácuo e ele nunca saberia dos meus sentimentos por ele.’

‘Ele sempre soube que você gostava dele.’ Tomoyo replicou.

Sakura balançou a cabeça de leve. ‘Esta história de Pilar e Guardião foi bem complicada da gente superar.’ Ela falou com sinceridade. ‘Eu sei que eu peguei esta responsabilidade quando passei no juízo final de Yue e evitei que todos perdessem o sentimento de amor que tinham em seus corações. Mas nunca imaginei que ao pegar esta responsabilidade estaria colocando em xeque o relacionamento com a pessoa mais importante para mim.’

Tomoyo franziu a testa, observando a amiga. ‘O que você quer dizer com isso?’

‘Que você fale para esta pessoa o que sente. Quando eu falei para Syaoran que eu o amava tinha certeza que ele não sentia nada por mim naquela hora, mas simplesmente falei porque não aguentava mais aquele sentimento preso no meu coração.’ Ela fitou a amiga de forma profunda. ‘Não sei como você aguenta.’

Tomoyo sentiu os olhos marejados. Comprimiu novamente os lábios e apertou as mãos. Sua cabeça zunia. Seria capaz de finalmente se declarar para Sakura e dizer o quanto a amava? Mas como seria a reação da jovem ruiva a esta declaração? Fechou os olhos por alguns segundos e os abriu, fitando profundamente os olhos glaucos que tanto a fascinavam.

‘Eu te amo, Sakura.’ Ela falou com a voz firme.

Sakura sorriu. ‘Eu também te amo, Tomoyo.’

Tomoyo balançou a cabeça de leve e pegou as mãos da jovem entre as suas. ‘Não, você não entendeu. Eu te amo.’ Repetiu devagar.

Sakura franziu a testa. ‘Claro que sim. Somos como irmãs!’

Tomoyo soltou as mãos de Sakura e sorriu para ela de forma triste. Levantou-se e tentou desesperadamente controlar as batidas do seu coração, virando-se para a jovem. ‘Sim… Somos como irmãs.’

A ruiva se levantou. ‘Vamos logo e me diga… Por que ficou corada quando falei de Kurogane?’

Sakura tinha percebido isso, mas não conseguia perceber o que ela estava tentando lhe dizer segundos atrás. Esta era sua Sakura. Ela não mudaria nunca. Balançou a cabeça de leve e resolveu novamente pegar aquele sentimento, dobrar com cuidado e colocar de volta em uma das gavetinhas de seu coração. Mas gostaria de logo poder abrir uma nova gaveta. Estava já na hora.

Sorriu de leve. ‘Eu e Yuo… Bem… Nós nos beijamos.’ Ela falou por fim e ouviu um gritinho entusiasmado da jovem.

‘Ah, já estava na hora!!!’ Ela falou, dando um tapinha no ombro da amiga. ‘Depois você e Meilyn falavam que eu era lenta para me declarar para Syaoran. Eu tinha, sei lá, 11 anos. Agora você, uma marmanja de 20 anos, ficar em dúvida é que não tem cabimento!’

Sakura pegou as mãos da amiga e a puxou para se sentar no sofá novamente. Sentou ao lado dela, na verdade estava de joelho no sofá, sentada sobre suas pernas enquanto esperava ansiosa pelos detalhes. ‘E aí? Como foi?’

A morena sorriu um pouco nervosa. ‘Foi bom.’ Respondeu.

‘Bom? Como assim bom?’ Ela franziu a testa. ‘Peraí, Kurogane com aquela pinta de galinha, não sabe nem dar um beijo direito?’

‘Como assim? Como é que você se sente quando Syaoran a beija?’

Sakura abriu mais ainda o sorriso. ‘Como se fogos de artifícios explodissem no meu ouvido.’

A morena arregalou os olhos. ‘Todas as vezes?’

‘Todas.’ Ela respondeu de forma firme. ‘E quando a gente se ama é…’ Ela se calou, olhando para a amiga e mordendo o lábio inferior de leve. ‘Hum… é muito bom.’ Falou por fim, sentia-se tímida para falar da intimidade, mesmo para a prima.

Tomoyo sorriu para ela. ‘Se o beijo são fogos de artifício, então acho que deve ser mais do que muito bom, não é?’

Sakura riu, encabulada. ‘O assunto aqui não sou eu. Não desvie. Agora você me diga a verdade. O que sentiu quando ele a beijou?’

Tomoyo desviou os olhos da amiga e sorriu de leve, lembrando-se do rapaz. Tinha sido muito bom o beijo dele. Ele fora carinhoso e delicado como ela nunca imaginou que seria quando o conheceu no alojamento estudantil. Kurogane teve que realmente destruir de forma árdua a barreira que ela criou em volta de si por causa de seu amor por Sakura. E ele tinha conseguido não só rachar aquele muro, inicialmente intransponível, como também tinha conseguido derrubar parte dele.

‘Foi como se mil borboletas estivessem batendo as asas dentro do meu estômago.’ Ela falou sorrindo de leve.

‘Ah!!!’ Sakura gritou, entusiasmada. ‘Você está gostando dele! Estão namorando?’

‘Não!’ Tomoyo respondeu, rapidamente. ‘Foi apenas um beijo.’

Sakura franziu a testa. ‘Nossa, você é difícil mesmo.’

‘Não tenho ainda certeza do que sinto por ele.’

‘Entendi. Você primeiro vai resolver esta questão com a pessoa misteriosa.’

‘Não. Essa pessoa misteriosa, como você está colocando, vai sempre fazer parte da minha vida, mas vou deixá-la numa parte do meu coração apenas. Vou tentar abrir espaço para outra pessoa.’ Falou de forma firme, fitando a adorada amiga.

‘Isso mesmo, Tomoyo!’ Ela falou entusiasmada. ‘Mas então você e Kurogane agora, pelo menos, não são apenas amigos, certo?’

‘Ah, Sakura, não vamos rotular, certo?’

‘Nossa… Que modernidade. Está bem. Está bem.’ Ela falou rindo. ‘Você tem uma amizade colorida…’ Tomoyo riu com gosto. ‘Como um arco-íris!’ A ruiva completou abrindo os braços, fazendo um semicírculo enquanto falava. As duas riram. ‘Ah! Então podemos convidar Kurogane para a despedida de Eriol.’

Tomoyo parou de rir e franziu a testa. ‘Despedida de Eriol? Como assim?’

‘Ele voltará para Londres no final desta semana.’ A feiticeira informou. ‘Já estava na hora. Ele largou tudo para ficar aqui no Japão ao meu lado quando eu surtei. Está na hora de retomar a vida dele. Com a esposa dele.’

‘Ah, sim…’ Tomoyo falou. Estranhou sentir-se, de repente, triste com a notícia de que o rapaz voltaria para Londres. Talvez estivesse tão acostumada com a presença dele. ‘Ele não me falou que estava voltando.’

Sakura deu de ombros. ‘Ele não deve ter tido oportunidade de falar contigo ainda.’

Tomoyo ainda se mostrava chateada pelo inglês não ter lhe falado que voltaria para casa. Tinha conversado pelo telefone com ele naquela manhã e ele não tinha mencionado nada. Ela percebera que a voz dele estava diferente, um pouco melancólica, mas ele lhe disse que estava apenas cansado. Se ele decidiu voltar para casa, deveria estar feliz, não era? Por que ele soara tão triste? E por que diabos ela tinha se sentido triste ao saber da partida dele?

‘Tomoyo…’ Sakura a chamou novamente, pois percebeu que a amiga havia se distanciado. ‘O que está realmente acontecendo?’

A morena fechou os olhos. ‘Eu realmente não sei, Sakura.’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura caminhava pelo campus enquanto digitava no celular uma mensagem para Syaoran. Ela tinha ficado até tarde na biblioteca, estudando com alguns colegas de classe. Tinha conseguido sair do sufoco em algumas matérias, mas não em todas. Sorriu de lado, apertando o send.

Amanhã fariam uma pequena reunião com os amigos na nova casa deles. Seria para despedida de Eriol. Tinha já providenciado quase tudo. Tomoyo a estava ajudando apesar de o humor da prima não andar muito bom. Ela andava distraída demais para os seus padrões. Pensou que deve ter sido o efeito colateral do amor.

Ah, o amor… Sorriu e jogou a cabeça para trás, rindo. Estava tão feliz em ter Syaoran ao seu lado, morando junto com o chinês que tinha vontade de gritar para todos. Rodopiou, sorrindo. Era mágico chegar em casa e encontrá-lo esperando por ela. Sentia-se ansiosa para beijá-lo e…

‘Para com isso, Sakura!’ Ela falou para sua consciência. ‘Foco. Foco. Você precisa também estudar.’ Apertou os livros que tinha nas mãos e respirou fundo. Tinha ainda que finalizar um relatório para entregar até o final da semana.

Estava distraída quando sentiu uma presença mágica e parou de caminhar, concentrando-se. Era estranha. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha e uma gota de suor descer pela sua face.

‘Tao…’ O nome do rapaz saiu de seus lábios. Reconhecendo a presença mágica. ‘Não… Não é ele…’ Ela concluiu, reparando que realmente era parecida com a energia mágica do clã rival de Li, no entanto, não era ele.

Sentiu o cheiro de carne podre e o estômago embrulhar de leve.

‘Olá, querida Sakura.’ Ela reconheceu a voz de Yanamoto. Virou-se para o rapaz que, finalmente, se revelava, caminhando em direção a ela. ‘Estava com saudades.’ Ele falou sorrindo e parando perto dela.

‘O que quer de mim, Yanamoto?’ Ela falou com o rosto duro. Não era dele a presença mágica, mas sentia que ela estava vindo justamente da direção que ele tinha saído.

‘Eu quero você.’ Falou de forma direta.

Ela franziu a testa. ‘Você é maluco. Agora me deixa em paz.’

‘Eu sou maluco por você.’

‘Você realmente não consegue superar um não.’

‘Eu nunca recebo um não.’ Ele falou, trincando os dentes.

‘Então é bom procurar um psicólogo… Um psiquiatra para o seu caso. Entenda uma coisa, Yanamoto. Nunca vou querer nada com você.’

‘Lembra-se que eu lhe disse que traria quem você quisesse de volta?’ Seiya falou, inclinando o corpo para se aproximar da jovem que deu um passo para trás. Ela arregalou os olhos de leve e ele sorriu de lado. ‘Então… Deu-me muito, muito trabalho, Sakura. Gastei uma pequena fortuna, mas acho que, pelo que eu vou lhe dar, você pode reconsiderar o seu não.’

‘Do que você está falando?’

‘Do meu novo brinquedo.’ Ele falou e estalou os dedos.

Sakura arregalou os olhos, apavorada com o que se revelava do canto escuro do campus universitário. Deixou cair os livros e levou as mãos à boca para abafar um grito de terror ao ver diante de si um kyonshi de Syaoran.

Continua.