FEITICEIROS

Por Kath Klein

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 10

Os Visitantes do Futuro

Sakura viu aos poucos as labaredas de fogo se extinguindo por trás de seu poderoso Escudo. Franziu a testa, estava em alerta, pois, diferente dos outros monstros que tanto ela quanto Li estavam constantemente enfrentando, sentia a presença de dois poderosos seres bem mais agressivos e evoluídos na magia também. Eles estavam próximos, sabia disto.

‘Cadê vocês?’ Li sussurrou, olhando para todos os lados, procurando-os, tinha a espada em punho.

‘Ali.’ Sakura falou, fazendo o rapaz virar-se e encarar duas figuras exóticas que se aproximavam lentamente dos dois. Sakura pôde identificar uma mulher e um homem vestidos com roupas tradicionais de luta. A mulher tinha traços ocidentais, ruiva com os cabelos presos em um grossa trança. O olhar dela era marcante pela maquiagem pesada. Já o homem tinha traços orientais, porte forte, um pouco mais alto que Syaoran. Estava com uma túnica negra cobrindo-o que foi logo jogada para um canto mostrando que tinha físico de lutador. A energia que os dois emanavam, era pesada e quase nociva.

‘Estávamos procurando por vocês, que bom que encontramos os dois juntos.’ O homem falou finalmente parando a poucos metros do casal de Feiticeiros.

‘Ora, ora, Sakura Kinomoto não é tão bonita como dizem.’ A mulher falou com desdém. Sakura ergueu uma sobrancelha assustada por ela saber quem era.

‘Como sabe o meu nome?’ A Feiticeira perguntou.

O estranho casal parou encarando-os. ‘Todos do mundo da magia os conhecem, os escolhidos para evitar o caos do mundo.’ A mulher falou em tom teatral.

Li bufou irritado, aquela estória de caos já estava enchendo o saco dele.

A mulher tirou os olhos da jovem e fitou Syaoran que estava ao lado dela, sorriu de lado e Sakura trincou os dentes, colocando o báculo na frente do rapaz que arregalou os olhos de leve vendo aquilo. A namorada estava de sacanagem com ele?

‘Está olhando para o meu namorado?’ perguntou, assustando ainda mais, se fosse possível, o guerreiro chinês. Nunca imaginou Sakura ciumenta daquela maneira.

A mulher riu com gosto. ‘Sabe cuidar bem do que é seu, não é?’

Sakura deu um passo a frente e encarou a mulher com chamas nos olhos, sabia reconhecer muito bem o olhar de luxúria sobre o namorado e não gostou nem um pouco disto. ‘Você nem tem ideia.’ Respondeu de forma baixa e fatal.

‘Mirena!’ O homem a chamou. ‘Não viemos aqui para você ficar com suas besteiras.’

A mulher deu de ombros. ‘Eu sei de nossa missão. Só estou sendo curiosa, Takeda. Não é todo dia que se encontra duas figuras históricas.’

Li observava os dois. Sakura estava a sua frente como se fosse uma loba. Sorriu de lado, não tinha pensado que um dia veria uma cena como aquela, talvez porque era sempre ela o objeto de cobiça e ele o seu protetor. Posição interessante em que estava agora, pensou intrigado.

Takeda materializou uma espada comprida na mão direita e a empunhou na direção de Li. ‘Faço questão de te matar, Li.’

Li rodou sua espada na mão e olhou de esguelha a namorada. ‘Você dá conta da tiazinha sozinha?’

‘Vou arrancar os olhos dela.’ Sakura falou já com sua espada nas mãos.

‘Fica fria.’ Ele sussurrou para ela em posição de luta, abaixou a espada movendo-a para o outro lado e segurando com as duas mãos o punho da arma. ‘Eles não são seres das trevas, mas têm muita magia. Cabeça quente não faz pensar direito.’ Aconselhou a namorada, vendo os dentes dela trincarem observando a mulher que não tirava os olhos dele.

‘Isso pode funcionar contigo, Syaoran.’ Ela falou pronta para abaixar o escudo. ‘Comigo, o buraco é mais embaixo.’

Observaram o casal caminhar em volta deles e, logo em seguida, atacaram-nos. A sequência foi rápida, Takeda pulou para cima de Li com a espada em punho. O Chinês se defendeu do primeiro ataque e pulou afastando-se de Sakura, logo teve que barrar outra sequência de ataques, mal tendo tempo de revidar devido às incessantes estocadas do homem contra ele. As espadas se chocavam com fúria soltando faíscas de metal e pura energia. Afastaram-se devido à violência dos golpes que um desferia contra o outro. Li jogou sua espada na outra mão, rodou-a e voltou a atacar, não queria dar brecha para o inimigo, no braço direito já tinha um pequeno arranhão. Pulou dando um chute atingindo o homem e pegando o pulso deste que segurava a arma, virou-se e deu uma cotovelada no peito, com o braço que segurava sua espada e, subindo o punho fechado, acertou no rosto do inimigo, girou o corpo rápido e acertou um outro soco nele fazendo Takeda deslizar por alguns metros com a força do golpe.

Estava com o rosto sangrando, constatou o homem irritado. Ele voltou a desferir golpes no guerreiro chinês que apenas esquivava-se, revidando de forma certeira.

Yue tinha os olhos cravados em Li, pensando em como o rapaz tinha evoluído na arte da luta. Era uma máquina de golpes, sabia que inicialmente o inimigo apresentava uma magia mais forte que a do rapaz, estava pronto para protegê-lo, mas simplesmente permaneceu parado imaginando que caso se aproximasse poderia ser atingindo pelos terríveis golpes que os dois lutadores desferiam um no outro.

‘Sakura...’ Ouviu a voz sussurrada e aflita de Tomoyo ao seu lado, desviou os olhos e observou sua mestra lutando contra a outra feiticeira. Deu um passo a frente pensando em ajudá-la, mas bateu no escudo de Sakura. Ela o tinha levantado para proteger os amigos e para avisar, de forma diplomática, que era para eles ficarem fora da ação.

‘Ela está se superando.’ Kerberus comentou com o parceiro.

O Anjo semicerrou os olhos na sua mestra e na aura brilhante dela. Sakura estava usando Espada e Luta ao mesmo tempo. Pelo jeito a convivência com o namorado tinha feito a jovem apreciar este tipo de modalidade na magia. Observou o semblante da Mestra pensando que aquela menininha que havia conhecido mudou muito, estava com uma autoconfiança impressionante em suas habilidades, isso era bom, mas também perigoso. Ela não poderia ficar limitada àquelas duas cartas...

Arregalou os olhos quando a jovem invocou Bosque e árvores brotaram das profundezas da terra com seus galhos fortíssimos aprisionando o inimigo. Sorriu de lado, enganou-se, Sakura tinha mais criatividade.

Mirena debatia-se tentando se livrar dos galhos que prendiam tanto suas mãos quanto os seus pés, por mais que usasse sua magia para cortar aquelas malditas plantas, outras apareciam para aprisioná-la. Sentiu quando um galho agarrou-lhe o pescoço e o comprimiu fazendo a passagem de ar diminuir. Encarou com espanto a Mestra das Cartas que a fitava com intensidade. Estava presa e cansada pelo esforço de tentar se libertar. Sakura abaixou o cetro e caminhou na direção de sua presa. Seu olhar era fatal, fazendo a mulher suar frio.

‘Quem são vocês?’ A Feiticeira perguntou. Não obteve resposta e jogou uma carta para cima. ‘Água.’ As ondas mágicas circularam o corpo da inimiga de sua mestra, envolvendo-a. Sakura reparou o olhar de desespero da mulher e cessou sua magia, fitava agora o corpo trêmulo a sua frente, cuspindo água e tentando desesperadamente buscar ar para os pulmões. ‘Quem são vocês?’ Repetiu sabendo que a resposta viria em seguir.

‘Futuro...’ Ela sussurrou. ‘Somos do futuro. Muito depois do Caos que vocês vão enfrentar.’

‘Futuro.’ A feiticeira repetiu, não sabendo se acreditava ou não .

‘Viemos de um futuro onde a magia é perseguida como uma doença e não como uma evolução da espécie humana. Os idiotas sem um pingo de poder controlam o estado e o mundo, fazendo mais e mais besteiras.’

‘A magia nunca deve ser usada para atrair para si poder e riqueza.’ A Feiticeira retrucou.

‘Você não tem ideia do que poderá fazer. Você preferiu acabar com o Caos e manter esta porcaria de universo neste estado atrasado de evolução. Sacrifícios humanos são necessários para que a evolução aconteça.’

‘Eu não sei se você é mais louca pelo que fala ou por olhar para o meu namorado daquela maneira.’ Sakura falou irritada e estranhou o desenho de um sorriso maldoso nos lábios de Mirena.

‘Acha que ele vai ficar ao seu lado para sempre?’ Ela peguntou finalmente, encarando-a de frente com um olhar que era de deboche. ‘Ele morre no Caos.’

Sakura arregalou os olhos. ‘Você mente.’ Disse, mas sentiu que sua voz falhou, recriminou-se por isso, e a mulher a sua frente soltou uma gargalhada.

‘E agora, Sakura Kinomoto? Acho que lhe dei uma informação privilegiada de seu próprio futuro, não?’ Era palpável a ironia da fala dela.

‘Trovão!’ A descarga elétrica atingiu a mulher que gritou. Bosque recuou soltando o corpo que caiu no chão, movimentando-se de forma espasmódica devido ao forte golpe.

De repente ouviu-a começar a sussurrar algumas palavras, parecia ser algum tipo de oração, e observou o corpo levantar-se devagar do chão. A jovem feiticeira não sabia, mas afastado das duas, Takeda começava a sussurrar as mesmas palavras já que estava em terrível desvantagem na luta contra Li.

Os corpos dos dois magos começaram a brilhar envoltos em uma luz negra, flutuaram aproximando-se. Impuseram suas mãos na direção um do outro. Sakura sentiu quando Li parou ao seu lado, a respiração dele era ligeiramente ofegante. “Ele morre”! As palavras da inimiga ecoaram na sua cabeça, fazendo a jovem sentir o peito fisgar de dor. Não conseguiria viver sem ele. Tinha que ser mentira. Ela mentira para ganhar tempo e começar o ritual mágico sabe-se Deus para o quê. Sentiu a magia deles explodindo. Li arregalou os olhos e envolveu a jovem com seus braços para protegê-la da energia.

‘Droga!’ Ele soltou.

Sakura levantou uma muralha de gelo enorme a frente dos dois protegendo-os de tudo que voava ao redor do parque tentando atingi-los. Escudo fazia o seu papel protegendo seus guardiões e a amiga.

Como um imenso buraco negro puxando tudo ao seu redor, os dois inimigos desapareceram. A calmaria e o silêncio absoluto instalaram-se no parque. Syaoran afastou-se de Sakura observando o local que os inimigos desapareceram. Sakura girou o báculo nas mãos fazendo a sua muralha mágica desaparecer.

‘Eles fugiram...’ Ela sussurrou, mas ainda sentia a sensação de perigo iminente, um perigo palpável e não era apenas pela besteira que a mulher tinha lhe dito.

Li franziu a testa pensando que reconhecia aquela invocação de algum lugar, recriminava-se por não lembrar direito. A respiração dele ainda estava levemente acelerada devido a luta travada há pouco. ‘Tem alguma coisa errada.’ Falou mais para si mesmo do que para a namorada. De repente uma carta saiu do bolso de Sakura e pairou na frente do casal de feiticeiros. Ela brilhava intensamente. A jovem levantou o braço e a carta se aproximou ficando ao alcance de sua mestra. ‘Retorno.’ Li reconheceu a figura estampada. ‘Droga! Claro!’ Finalmente conseguindo se lembrar de suas aulas incessantes de magia das trevas. ‘Eles foram para o passado.’

‘Exatamente.’ A voz de Yue não assustou os dois, apenas os alertou que não estavam sozinhos. Sakura desviou rapidamente os olhos do seu guardião lunar e observou a amiga. Sentiu alívio por constatar que ela estava bem, sem machucados. Tinha ordenado Escudo protegê-los a todo custo, por isso teve que improvisar uma barreira para proteger tanto ela como o namorado com Gelo.

‘Aquela mulher falou que era do futuro.’ Sakura repassou a informação que obteve.

‘Por que viajantes de futuro viriam para cá?’ Kerberus falou ainda incerto se a jovem deveria acreditar no que a inimiga contou.

‘Disse que era para evitar que nós combatêssemos o tal do Caos.’ Falou agora sem tirar os olhos de sua carta. Retorno estava tentando lhe dizer algo, mas não conseguia entender. Fechou os olhos tentando se concentrar para que entrasse em sincronia com uma de suas amadas companheiras. Yue percebeu isso.

Syaoran passou a mão pela cabeleira rebelde, compartilhava o mesmo sentimento de perigo que a namorada. ‘Aquilo foi uma invocação para viagem do tempo. Para que tempo aqueles idiotas foram?’

Sakura abriu os olhos e fitou o namorado profundamente. ‘Para o nosso.’ Ela observou Syaoran levantar de leve uma sobrancelha sem entender direito. ‘Eles vão nos atacar mais novos.’ Explicou.

‘Tem certeza?’

‘Absoluta.’ Foi a resposta segura dela. ‘Retorno me falou.’

Yue e Kerberus não esconderam a surpresa, entreolharam-se preocupados. Comunicar-se diretamente com as cartas e não apenas as solicitar para usar magia era um passo grande demais para a Feiticeira, era como se ela não só as estivesse manipulando como fazia no princípio, mas tornando-as parte da sua magia. Uma coisa era usar Disparo, Luta, Espada ou Escudo para se proteger e atacar. Manipular as cartas de forma precisa e rápida era um passo que a jovem já tinha dado, agora entender cartas mais complexas como Retorno, Tempo, Labirinto, Trevas era algo muito maior.

‘Temos que ir atrás deles, então?’ Li perguntou observando a namorada, ela confirmou com um gesto de cabeça. Ele abaixou os olhos para a carta que Sakura tinha nas mãos. ‘Precisamos ir ao templo Tsukimine para...’

‘Não.’ Sakura o interrompeu segurando sua mão e impedindo o namorado, que já estava pronto para correr em direção ao templo, de se afastar. Ele voltou-se para ela, fitando-a de forma interrogativa. ‘Não preciso mais de ajuda.’ Falou decidida jogando a carta para o alto e invocando seu poder. Uma luz forte circulou os dois Feiticeiros e, da mesma forma como os dois viajantes do futuro desapareceram, eles sumiram das vistas de Yue, Kerberus e Tomoyo.

Os dois guardiões se entreolharam novamente apreensivos, de certo modo estavam felizes pela evolução rápida da sua mestra, mas sabiam que fora rápida demais.

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Sakura e Li estavam no Parque do Rei Pinguim. A Feiticeira segurou Retorno por um tempo, observando-a e agradecendo. Guardou sua carta junto com as outras no bolso de trás da calça jeans. Observou Li a sua frente, sorrindo-lhe de leve.

‘Estou impressionado.’ O rapaz falou sinceramente. A jovem sorriu um pouco encabulada.

‘Vamos ver se estamos na época certa. Foi a primeira vez que fiz sem ajuda.’

Ele concordou balançando de leve a cabeça. Estendeu a mão para a namorada e logo teve seus dedos entrelaçados aos dela. ‘Tenho certeza que conseguiu.’ Syaoran beijou de leve a testa da amada e se afastou . ‘Vamos encontrá-los.’

Não precisaram de muito tempo para conseguirem identificar tanto suas presenças de quando criança como as dos dois feiticeiros do futuro. Sakura franziu a testa. ‘Eles já nos encontraram.’ Saíram correndo em direção ao local.

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Sakura com apenas onze anos estava encolhida atrás do seu báculo olhando para as duas figuras esquisitas que estavam atacando-a e a Syaoran. O menino chinês estava a sua frente tentando defendê-la. Lágrimas de angústia e dor, pelos ferimentos que tinha sofrido, saíam dos olhos esmeralda. Ela tinha tentado evitar os golpes com o Escudo, mas ele não foi o suficiente. O Escudo rachou fazendo com que Li e ela recebessem o golpe em cheio. Tudo aconteceu numa fração de segundos e agora ela tinha medo de morrer e nunca mais ver as pessoas que tanto amava.

‘É incrível como você é teimoso, não importa a época’. Takeda desabafou encarando o menino a sua frente.

‘Por que nos atacam?’ O menino perguntou empunhando a espada e tentando proteger a menina.

‘Tadinho, é uma pena termos que matá-los, mas quem mandou serem tão teimosos.’ Mirena falou sorrindo de forma insana ao perceber Sakura encolhida como um animalzinho que levou um chute.

‘Por que não nos deixam em paz?!’ Sakura falou ainda com lágrimas nos olhos

‘Como é divertido. Era tão dona de si, Sakura Kinomoto, agora não passa de uma menininha chorona.’

Takeda não segurou o sorriso de vitória, pois conseguiria, finalmente, aniquilar Li da face da Terra. ‘Vamos acabar com isso. Quero voltar logo para ver os resultados de nossa missão.’

Mirena concordou com um gesto, já tinham se divertido o bastante com os fedelhos, era melhor terminar de uma vez. ‘Tem razão. Vou acabar com vocês de uma vez. Fúria do Fogo!’

Li só teve tempo de abraçar Sakura, tentando protegê-la, ele sabia que aquele era o fim dos dois, mas, mesmo assim, mesmo sabendo que não poderia protegê-la do ataque, queria morrer abraçado à garota que sempre esteve em seus pensamentos e a quem ele, covardemente, não confessara seus sentimentos.

Houve uma explosão e chamas cercaram as duas crianças encolhidas e abraçadas. O casal ria quase que loucamente. Porém Mirena foi a primeira a parar de rir ao ver as chamas desaparecerem e surgir um escudo forte e intocado. ‘Mas como? Ela não tinha poder para isso...’

‘Mas eu tenho.’ Sakura falou surgindo atrás dos inimigos. O casal se virou e encarou os dois Feiticeiros, contra quem haviam duelado há pouco, parados encarando-os com fúria.

‘Como descobriram? Não é possível, deviam estar mortos.’

‘Nunca subestime o passado, Takeda. Deveria ter aprendido isso.’ Syaoran respondeu de forma debochada, observando que agora o homem não se mostrava mais tão confiante da vitória.

A jovem feiticeira deu alguns passos a frente sem tirar os olhos de Mirena. ‘Como puderam atacar crianças inocentes, arrependo-me de não ter quebrado seu pescoço quando tive oportunidade.’ Estava pronta para voltar a atacar aquela mulher quando sentiu a mão do namorado no seu ombro.

‘Deixa comigo, por favor.’ Pediu de forma gentil. Fez um gesto na direção do casalzinho de onze anos que fitava os quatro adultos com imensa curiosidade, deixando claro que intervinha não para protegê-la. ‘Cuide das crianças, devem estar feridas e assustadas. Não será bom para elas verem o que precisará ser feito.’ Falou para a namorada que entendeu a que o rapaz se referia. Ela precisava fazer com que as crianças ficassem de fora do que aconteceria.

Desviou os olhos de Li e fitou as crianças, pareciam dois bichinhos assustados e realmente estavam machucadas, principalmente o menino, obviamente. Não teve como não constatar isso. ‘Está bem.’ Decidiu, baixando o cetro mágico e caminhando devagar em direção aos pequenos. ‘Nuvem!’

Uma neblina densa cobriu o parque do Rei Pinguim impedindo qualquer um de ver o que acontecia a mais de dois palmos de distância. Syaoran agradeceu ao bom senso da namorada. Encarou pela última vez as figuras tanto de Mirena e Takeda antes de não ser mais possível usar o sentido da visão. Rodou a espada na mão esquerda e depois, jogando-a na mão direita, levantou-a na posição de combate. Logo os dois atacaram o rapaz ao mesmo tempo.

Sakura pôde ouvir o barulho dos golpes potentes de espada e luta corporal travada entre os três. Sabia que Syaoran conseguiria, confiava na força do namorado. A jovem feiticeira entrou no seu escudo e observou as duas crianças. O pequeno Syaoran ainda tinha um dos braços envolvendo a menina de forma protetora, mantendo-se o tempo todo entre ela e sua forma infantil. A jovem esboçou um sorriso ao constatar isso, abaixando-se até ficar na altura deles, e deixou seu báculo ao lado no chão.

Syaoran aproximou-se da jovem estranha com desconfiança, apesar de não acreditar muito no que estava vendo com seus próprios olhos. Voltou-se para a menina atrás de si que tinha os olhos glaucos chorosos. Fitou a jovem ruiva novamente e franziu a testa.

Sakura desistiu de controlar o sorriso, observando como Li era bonitinho quando criança. Era um menino lindo. Pegou o rosto dele com as duas mãos assustando-o ainda mais, se fosse possível. ‘Você está bem?’ Não conseguiu disfarçar o tom carinhoso da pergunta. O menino balançou a cabeça afirmando que estava bem. ‘Sempre foi teimoso, não? Não deveria tê-los enfrentado sozinho.’

Ele desviou os olhos da jovem. ‘Não sou homem de fugir de uma luta, moça.’

‘Sei disso.’ Tirou um lenço do bolso e colocou por cima do ferimento dele. ‘Segure firme para estancar o sangue.’ Pediu e voltou-se para a menina que observava a tudo com o rosto choroso. Ela sorriu, vendo-se menina e pensou em como era maravilhosa aquela época de tanta inocência e amor. ‘Você está machucada?’ Perguntou, levantando-se e parando em frente a ela que fungava. Abaixou-se envolvendo-a com carinho em seus braços. ‘Shiiii... já vai passar.’ Pediu. Sentiu quando os bracinhos a envolveram e a cabecinha repousou no seu ombro. Ouviu os soluços começando a diminuir mostrando que ela estava se acalmando. ‘E então, está machucada?’

‘Meus joelhos.’ A menina falou com fiozinho de voz. Sakura se afastou dela e desceu os olhos nos joelhos esfolados.

‘Vamos cuidar deles logo, está bem?’

‘Quem é você?’ Ela ouviu a voz do menino perguntando, virou-se e o fitou sobre o ombro direito.

Sabia que ele já estava desconfiado. Observou o garoto cravar os olhos curiosos no seu báculo assim que ela entrou pelo escudo. Era o mesmo que usava quando menina, porém maior. Se mentisse seria pior, ele não acreditaria, além disso... ela desviou os olhos do menino observando mais além dele, Li estava ainda lutando contra os dois inimigos. Estava preocupada com o namorado. Podia não ver de forma clara, mas conseguia sentir as auras se locomovendo de forma rápida, chocando-se com fúria. Reparou que a presença de Li estava mais forte, ele estava se superando, assim como ela. Estava rápido e de certa forma mortal. Engoliu seco, lembrando-se das palavras dele antes de se separarem. Li estava certo, teria que matá-los ou eles poderiam atacá-los em outra e mais outra época, sendo um ciclo sem fim de viagens no tempo e perseguições. Respirou fundo e de forma pesada. Voltou a tirar os olhos da neblina e fitar o rosto do namorado quando jovem. Ele era tão inocente, tão bonitinho. Como imaginar que aquele anjinho seria obrigado a se transformar naquela máquina de luta e guerra? Engoliu um bolo enorme que havia se formado na sua garganta.

‘Quem são vocês?’ O menino insistiu na pergunta apontando com o braço o que estava acontecendo além da nebulosidade.

Era melhor não mentir. ‘Acho que já tem a resposta, não?’ Respondeu com uma outra pergunta.

‘Você é ela...’ Ele sussurrou apontando para a menina que olhava a tudo assustada ainda. ‘E ele...’ voltou-se para trás mostrando-se perdido. ‘Eu?’

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Li protegeu-se dos ataques sequenciais de Mirena e Takeda. Estava só na luta corporal, porque no fundo gostava de colocar a prova todo treinamento pesado pelo que fora obrigado a passar. Se aqueles anos no inferno teriam que ter resultado, pelo menos que seus duros e amargos aprendizados fossem testados. Pulou, desviando de um ataque conjunto, apoiou uma das mãos no chão e enlaçou o pescoço de Takeda com as pernas jogando-o para longe como um boneco de pano. O homem bateu numa árvore gemendo. Estava com inúmeros ferimentos por todo o corpo. Mirena não estava muito atrás, e apesar da mulher estar armada com duas tessens, que eram leques de guerra com lâminas afiadíssimas, estas só tinham feito poucos arranhões no guerreiro chinês. Li já se mostrava impaciente.

‘Acho melhor terminarmos com isso.’ Sussurrou pensando que já estava há muito tempo lutando contra eles. Sabia que a namorada era impaciente e admirava-se pela Nuvem ainda estar encobrindo tudo, impedindo a visão clara do combate. Logo Sakura apareceria para ver o motivo da demora e, por distração, poderia abaixar a magia permitindo que as crianças vissem o que estava acontecendo. Não se perdoaria se revelasse para si mesmo em tão tenra idade em que havia se tornado.

‘Imperador do trovão e das tempestades elétricas, eu o invoco ao meu auxílio! Agora!’ Falou, fazendo uma poderosa descarga elétrica descer dos céus e atingir os dois inimigos que gritaram. O jovem apertou a espada com as duas mãos. Era agora, tinha que finalizá-los de forma certeira. Só esperava que os dois virassem pó como os demônios que combatia ou teria que arranjar um jeito de sumir com os corpos. Corria na direção deles quando foi surpreendido por uma ventania. Takeda, num momento de desespero, usou magia para tentar atacá-lo. O guerreiro chinês mal foi atingido, mas o redemoinho de vento fez a neblina de Sakura se dissipar. Li hesitou em finalizar o ataque sabendo que era observado pelas crianças.

Sakura franziu a testa, observando a neblina se dissipando e a figura dos três lutadores aparecerem nítidas a sua frente, arregalou os olhos ao ver Li correndo na direção dos inimigos, pronto para acertá-los, mas freando o ataque por saber que era observado. ‘Virem-se!’ Ela ordenou e foi obedecida prontamente pela menina, no entanto, o menino era mais teimoso. Não só não tinha se virado, como dera um passo a frente tocando no escudo da jovem.

Li apertou a empunhadura da arma e virou-se rapidamente para trás, seus olhos cruzaram com os do menino assustado. Não. Não faria isso na frente dele. Hesitou e o preço da sua hesitação foi um golpe no ombro pela espada de Takeda.

‘Syaoran!!!’ Sakura gritou vendo o rapaz ser ferido. Saiu do Escudo passando pelo menino que tinha os olhos vidrados na cena. ‘Disparo!’ Ela gritou desesperada. ‘Flecha!’ Invocou duas magias ao mesmo tempo, acertando os dois inimigos que estavam prontos para dar o bote no namorado. Eles afastaram-se dela e sumiram como fumaça.

‘Não poderão ficar aqui para sempre...’ Ouviu a voz da mulher antes dela desaparecer. Não ligou, correu até Li que estava com o braço sangrando pelo grande ferimento. Sangue escorria por todo o membro e sujava a espada do guerreiro.

‘Desculpe-me.’ Ela falou observando-o. ‘Não sei como a Nuvem se dissipou. Desculpe-me.’ Falou não sabendo direito o que fazer. Fitava o ferimento do namorado. Tinha visto a troca de olhares entre ele e o menino e a decisão de não dar o golpe mortal na frente do garoto.

Ele sorriu de leve para acalmar a namorada. ‘Não foi culpa sua.’ Falou com tranquilidade. ‘Está tudo bem. Só preciso de mais alguns pontos.’

‘Vamos para o hospital.’ Ela sentenciou.

‘Não podemos aparecer com os nossos documentos.’ Ele esclareceu, transformando a espada em sua esfera negra e guardando-a no bolso. ‘Vamos a casa da senhora Mizuki. Ela saberá o que fazer.’

Sakura tirou o casaco que vestia e o estendeu para o namorado que o enrolou no braço para cobrir o ferimento. Eles perceberam a aproximação das crianças e, principalmente, do menino curioso que ele era.

O menino de olhos castanhos parou na frente do rapaz e o encarou. Franziu a testa, ainda incapaz de acreditar que estava em frente de si mesmo mais velho. Desceu os olhos para o machucado dele. ‘Isso deve estar doendo.’ Falou francamente. Syaoran concordou, dando um longo suspiro, era melhor ir logo procurar a senhora para pedir-lhe, sem ter que dar muitas explicações, para lhe ajudar. ‘Quem eram eles? Por que estavam nos atacando e por que vocês vieram para nos ajudar?’ O menino perguntou encarando o jovem guerreiro.

‘Eram de um futuro além do nosso.’ Syaoran começou a responder, se bem se conhecia não sossegaria até encontrar as respostas, não tinham muito tempo para isso. ‘Eles nos atacaram em nosso tempo e os perseguimos até este.’ Não era de todo mentira, era apenas uma explicação sumarizada e que o rapaz ponderou ser suficiente para que a curiosidade do garoto fosse controlada. ‘E sabe que não deve perguntar mais nada porque não podemos falar do futuro.’ Viu o menino concordar com a cabeça. Seus olhos logo fitaram Sakura menina.

Sakura percebeu um sorriso doce desenhado nos lábios do namorado, pouco antes dele fitá-la. Reparou que Syaoran corou levemente. Talvez constatando como ela havia crescido. Não pôde negar que fizera a mesma comparação entre o menino, que ainda olhava intrigado para eles, e o namorado.

Sakura deu um passo e parou próxima ao rapaz; como gostaria de abraçá-lo e dizer o quanto o amava; quando o observou ser atingido e gritar de dor, foi como se seu coração congelasse no peito.

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‘Isto aqui foi bem feio, Senhor Li.’ A bondosa senhora Mizuki, assim como Li previu, não fez nenhum comentário sobre eles aparecerem na casa dela. Estavam com as duas crianças assustadas, não poderiam se manter longe delas até resolverem o problema. Seriam alvos fáceis naquela idade. ‘Tome isto aqui, ajudará a aguentar a dor.’ Ela falou estendendo um vidrinho com um líquido.

‘Não preciso.’ Ele falou recusando. Já estava acostumado a fazer curativos e tomar pontos sem grandes preocupações.

Sakura caminhou até a senhora e pegou o recipiente de vidro das mãos dela com força. Abriu e estendeu para o namorado. ‘Tome.’ Ordenou de forma rígida.

Li não aceitou, desviou os olhos dela fitando um canto qualquer no cômodo. ‘A dor me faz sentir vivo.’ Falou esperando que ela entendesse. ‘Às vezes ela é a única coisa que faz você ter certeza de que ainda está vivo e não, morto.’ Bateu de leve na mão da jovem, recusando e pedindo novamente para a senhora iniciar os pontos. Ele sabia que quanto antes fechasse o ferimento menores seriam as chances de infecção. Tomaria um anti-inflamatório como remédio para evitar ficar doente, mas não tomaria uma poção para se dopar naquela situação. Takeda e Mirena poderiam aparecer e ele precisava estar com os sentidos bem claros. ‘Não vamos discutir, Sakura. Estão nos olhando. Melhor levá-los para a sala.’ Ele fez um gesto indicando as duas crianças no batente da porta da pequena saleta da Senhora Mizuki.

Sakura rodou os olhos pensando que tinha vontade de dar um soco no namorado, talvez assim aquela maldita nuvem negra que volta e meia cobria os olhos tão amados desaparecesse de alguma maneira. Pegou um pouco de gaze e antisséptico e caminhou, afastando-se dele e da Senhora. ‘Cuide bem dele, por favor.’ Pediu para a senhora, tentando sorrir sem conseguir, antes de começar a, literalmente, empurrar os dois curiosos para a sala. ‘Vamos, vamos... não tem nada para vocês verem aqui.’

Antes de sair ainda voltou-se para trás onde a senhora começava a fazer os pontos no ferimento. Observou os punhos cerrados do namorado, estava doendo, mas o cabeça dura era teimoso demais. Soltou um longo suspiro voltando sua atenção para as duas crianças. ‘Está na hora de cuidar de vocês também.’

As crianças sentaram no sofá, observando a aconchegante casa perto do templo Tsukimine. Havia uma estante enorme com vários potinhos de vidro coloridos que brilhavam conforme a luz da televisão os atingia. Sakura molhou a gaze com o líquido e começou a limpar o ferimento da testa do menino. Estava tentando analisar se havia necessidade de dar uns pontos ou não, mas constatou aliviada que não era profundo como o do rapaz, daria para fazer o curativo uma com fita adesiva sem problema. O menino deixou ser cuidado, mas a jovem sabia que por dentro ele estava um verdadeiro vulcão de ansiedade.

‘Machucou-se em algum outro lugar, Syaoran?’ Ela perguntou com carinho e viu ele negando com a cabeça.

‘Sakura está com os joelhos machucados.’ O menino falou e virou-se para menina. ‘Desculpe-me. Não consegui lhe proteger.’

Ela sorriu. ‘Não, Syaoran. Você me protegeu. Esteve ao meu lado e isso é que importa.’ Ela fechou o sorriso e o fitou profundamente. ‘Tive muito medo que lhe machucassem.’

‘E eu que lhe fizessem mal.’

A jovem semicerrou os olhos observando os dois se fitando profundamente. Estava tão na cara que se amavam que não entendia como pudera demorar tanto para descobrir os seus sentimentos. Começou a tratar os ferimentos da menina, só estava mesmo com o joelho esfolado. Com o tempo ela tiraria aquilo de letra, pensou na quantidade de arranhões e escoriações que ela ganhara desde que aqueles seres das trevas começaram a invadir o universo deles. Já estava até acostumada a tomar um banho, dormir e só cuidar deles como devia no amanhecer depois de descansada.

‘Prontinho.’ Ela falou, levantando-se e pensando que teria que levá-los para casa. Teria que explicar a situação para Touya; ela sabia que o irmão não era tolo e que nunca acreditara em nenhuma desculpa esfarrapada que ela tinha lhe dado naquela idade. Suspirou pensando que o irmão implicaria ainda mais com o menino quando constatasse o óbvio ao ver ela e Li juntos. ‘Estão com fome?’

As crianças confirmaram e ela bateu uma mão na outra tentando animá-las. ‘Vamos fazer o jantar? A senhora Mizuki deve estar muito ocupada ainda.’

‘Ele se machucou muito, não foi?’ A menina perguntou olhando para a saleta onde o rapaz estava sendo cuidado, longe dos olhares curiosos.

‘Um pouco.’ A jovem respondeu tentando não passar preocupação. ‘Mas vai ficar bem. Ele é forte.’ Falou para tranquilizá-la.

‘Sim... ele é muito forte.’ Syaoran sussurrou com os olhos voltados para o mesmo lugar que a menina.

O que Sakura mais queria naquele momento era estar ao lado dele para ver se estava tudo bem, mas tinha que ficar com as crianças. ‘Vamos lá? Vocês me ajudam?’ Chamou caminhando em direção à cozinha e abrindo os armários para decidir o que fazer. Logo estava cozinhando e conversando de forma alegre com eles, tentando dissipar a preocupação causada pelos eventos do dia.

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A jovem ruiva entrou na bela casa amarela e sentiu o coração cada vez mais apertado olhando para a velha sala onde costumava receber os amigos. A menina entrou, tirou os sapatos e virou-se para os outros. ‘Por favor, entrem.’

Os Syaorans tinham ficado parados na porta esperando o convite, não era de bom tom entrar na casa de uma menina sem, pelo menos, serem convidados. Os dois sabiam que assim que Touya chegasse seria um desastre. Syaoran considerava que teriam de contar a verdade para o irmão da menina. Ele não queria deixar a namorada sozinha, mas o irmão dela, provavelmente, não permitiria a sua estadia na casa. De certo modo ele estaria até com razão. Além disso, estava cansado e, por mais que não quisesse admitir, queria rever uma outra pessoa. Takeda e Mirena foram muito feridos, precisariam de um tempo para se recuperar assim como ele.

Kero apareceu no alto da escada no segundo andar e arregalou os olhos assustado. Voou até sua mestra esperando uma explicação.

‘Kero, é um pouco difícil de explicar...’ a menina limitou-se a falar, mas sabia que o guardião curioso não deixaria por menos.

‘Quem são vocês?’

A jovem aproximou-se do seu guardião solar e tentou sorrir. ‘Sou eu Kero, Sakura. Só um pouco maior.’

O bichano olhou para ela com reprovação. ‘Mas como?! Por que vieram para este tempo? Sabe muito bem que não podia usar a carta Retorno e interferir no curso natural das coisas.’

Syaoran rodou os olhos; estava cansado. Não estava com vontade de conversar com Kero. ‘E você acha que estamos aqui a passeio, ô, bicho de pelúcia? Estamos aqui porque você não sabe fazer o seu trabalho direito que é proteger a sua mestra.’

‘Moleque insolente, não venha me dizer o que fazer!’

‘Então faça-o melhor. Onde estava quando sua mestra foi atacada? Jogando vídeo game?’

O bichano, sem saber o que responder, transformou-se na sua forma original e encarou sério o rapaz. ‘Agora você está no tamanho adequado para enfrentar o poderoso Kerberus.’

‘Não me faça rir, sabe muito bem que não vai conseguir fazer isso.’

Sakura rodou os olhos observando os dois. ‘Parem vocês dois. Não aguento mais a implicância entre vocês. Kero, você também pare com esse negócio de querer aparecer, é sempre assim com Syaoran e Yue.’

‘Mas são sempre eles que começam.’ O bichano tentou se justificar.

‘Ou você.’

A menina resolveu entrar na discussão, concordando. ‘Ela tem razão. Você sempre implica com o Syaoran.’

‘Até tu, Sakura?’ Kero olhou desanimado.

‘Volte logo para sua forma falsa. Vai que alguém aparece aqui em casa? Já temos problemas demais.’ A menina ordenou já temendo que o irmão chegasse.

Kero bufou, mas obedeceu sua mestra. Encarou tanto o rapaz quanto o menino com um olhar assassino. ‘Mas se tentarem alguma coisa contra a minha mestra vão se arrepender de terem nascido, moleques.’

‘É sempre esta ladainha.’ O menino falou soltando um suspiro desanimado.

‘Vai se acostumando, depois ele fica muito mais chato.’ Li achou melhor já alertar a si mesmo.

‘Mais chato que isso, não dá.’

‘Pode apostar que dá.’ Respondeu encostando-se no batente da janela e olhando para o movimento da rua lá fora. Passou a mão levemente no machucado, pensando que a senhora Mizuki tinha feito o melhor que pôde, mas ainda estava ardendo. Ele sentiu que estava sendo observado e virou-se encarando os olhos esmeraldinos da namorada. Tentou sorrir para informar que estava tudo bem, só estava cansado, mas via claramente o semblante preocupado dela. ‘Eu posso tomar um copo de água?’ Perguntou virando-se para a menina que arregalou os olhos de leve.

Ela balançou a cabeça e caminhou em direção à cozinha. Syaoran desencostou-se da janela e seguiu-a; parou brevemente em frente à namorada e se fitaram rapidamente antes dele desaparecer na cozinha com a menina. Kero voou atrás dele, não permitiria que sua mestra ficasse sozinha com um moleque daquele tamanho.

Sakura observou a casa onde morou por grande parte da vida. Não tinha como não se sentir nostálgica. Olhou para a escrivaninha onde o pai trabalhava e suspirou. ‘Vamos ver o que tem na televisão.’ Falou pegando o controle remoto e ligando-a. Observou o menino parado olhando para a cozinha. Ele deveria estar bem ansioso para fazer um monte de perguntas para si mesmo mais velho, pensou sorrindo. Não tinha como não se encantar com ele.

Sentia uma vontade desesperada de ir até ele, abraçá-lo e fazê-lo jurar que não iria embora de Tomoeda, nunca. Que era para ele ficar na cidade, ficar com ela e evitar aqueles anos intermináveis de separação e dor que sofreu. Quando deu por si estava em frente ao garoto, abaixou-se ficando da altura dele e fez parte do que queria: envolveu-o de forma carinhosa abraçando-o forte contra o peito e fechando os olhos. Deus, como gostaria de tê-lo eternamente ao alcance dos seus braços. Assim que ela descobrisse seus verdadeiros sentimentos, conseguiria entender o porquê de não conseguir ficar longe dele.

O menino arregalou os olhos de leve ao ser envolvido por aquela jovem lindíssima. Nunca em sua mais louca fantasia sonharia em como sua Sakura ficaria linda quando crescesse. Deixou-se abraçar e fechou os olhos apenas inalando aquele perfume maravilhoso de cerejeiras.

‘Ah, Syaoran...’ Ela suspirou ainda abraçada a ele, sentiu lágrimas nos olhos, mas não permitiu que nenhuma caísse de seus olhos. Não queria assustá-lo. Sabia que não tinha este direito.

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A menina caminhou até a pia, pegou um copo e o encheu de água, oferecendo-o ao rapaz que estava atrás de si. Observou que ele estava com semblante cansado. Seus olhos cravaram no ombro ferido, a bandagem estava coberta pela camiseta que ele tinha pegado emprestada com a senhora.

Syaoran aceitou e agradeceu. Foi até a mesa, deixando o copo e pegando o remédio que tinha comprado numa farmácia do bolso da calça jeans para tomar. Tomou devagar, olhando para a janela e pensando no que faria agora.

‘Acho que vou fazer um chá para todos.’ Ouviu a menina falando e logo o barulho de panelas e água. Estava cansado, mas tinha que esperar para falar com Touya. Deixou um suspiro sair dos seus lábios. ‘Você está bem?’ Ouviu a pergunta e voltou-se para a menina que o encarava de forma desconfiada. Os olhos glaucos brilhavam de forma intensa e ele sabia muito bem que ela o estava analisando. Ele fez que sim com a cabeça, respondendo a pergunta da menina sem desviar os olhos dos dela. Observou-a ficar ruborizada e sorriu de lado. ‘Sabe, acho que você é mais alto que o Touya.’

O rapaz arqueou uma sobrancelha. ‘Acha mesmo?’

‘Hum-hum.’ Ela respondeu agora encarando o chão e arrastando de leve o pé direito.

‘Pode ser.’

Ela levantou o rosto e voltou a fitá-lo. Kero estava pousado na pia, observando o diálogo de sua mestra com a versão mais velha do odioso moleque e não gostou nada do que estava percebendo. A chaleira apitou, informando que a água já estava fervendo e assustando a menina que correu até o fogão. Li observou-a preparando o chá com cuidado e sorriu de leve. Ela era tão linda como ainda a tinha em suas lembranças. Suspirou novamente, virando o rosto e pegando o copo para terminar de tomar a água.

‘Você tem namorada?’ A pergunta fez Li se engasgar com a água.

‘Sakura!’ Kero a recriminou pela pergunta.

Syaoran voltou-se para ela e reparou que ela o olhava pelo canto dos olhos, enquanto finalizava de preparar a bandeja para levar o chá para os outros na sala. ‘Por que quer saber?’

Sakura deu de ombros, mas ele conseguia ver bem o rosto vermelho da menina. Sorriu internamente observando isso. ‘É que você mudou tanto, acho que deve ter um monte de namoradas assim como Touya e o Yukito.’

‘E o que te interessa isso, Sakura? Aposto que não deve ter nenhuma. Como uma garota poderia se interessar por um moleque grosso como ele?’ Kero interrompeu irritado com o rumo da conversa.

‘Desculpa, não tinha o direito de perguntar isso.’ Ela se desculpou, completamente envergonhada.

Syaoran deixou o copo na mesa. ‘Está curiosa para saber o futuro dele?’ Perguntou.

‘De Syaoran?’

‘Isso.’

A menina segurou as alças da bandeja de chá, mas não a levantou, sabia que estava vermelha. ‘Um pouco. Espero que ele seja muito feliz. Ele me ajudou muito.’ Respondeu com inocência.

‘Peraí, ele nunca a ajudou em nada. Lembre-se de que ele tentou tirar as cartas de você.’ Kero interveio novamente. Ela deu de ombros sem dar crédito ao que o bichano falou.

Syaoran caminhou até a menina e abaixou-se até tocar um joelho no chão ficando na altura do rosto dela. ‘Ele a ajudará sempre que precisar, Sakura. Não se preocupe com isso.’

‘Ontem você...’ Ela começou um pouco incerta. ‘Bem... no parque depois que eu falei com Yukito...’ Ela levantou os olhos e eles se fitaram tão intensamente que Syaoran não pôde deixar de perceber todo o amor que eles transmitiam por ele. Era o mesmo olhar de sua querida namorada. ‘Obrigada.’ Ela falou por fim, mordendo levemente o lábio inferior denunciando seu nervosismo.

‘Por que não agradece a ele? Não fui eu que a ajudei, foi ele.’

Ela sorriu de forma meiga fazendo o rapaz sorrir junto. ‘Tem razão. Vou dizer isso a ele.’ A menina desviou os olhos. ‘Você gosta de verde, não é?

Syaoran franziu a testa. ‘Verde?’

‘Sim. Da cor verde. A roupa que você usa… usava... é verde. Deve ser porque gosta de verde, não é?’

O rapaz não soube o que responder. A menina continuou. ‘Quero fazer um cachecol. Eu não sei fazer ainda, mas eu vou aprender. Será que ele vai gostar?’

Li sorriu lembrando-se do cachecol que a menina lhe fez com tanto carinho. ‘Acho que ele vai gostar bastante.’ Ela abriu ainda mais o sorriso. O rapaz não teve como não admirá-lo, foi aquele sorriso lindo que o fez se encantar por ela.

Kero observou com cuidado a cena dos dois. Syaoran levantou-se, finalmente, estendendo os braços para alcançar a bandeja. ‘Deixa que eu levo esta bandeja pesada para você’.

A menina arregalou os olhos. ‘Não! Você está machucado. Deixa que eu levo.’ Falou empurrando o rapaz de leve e sentiu uma leve descarga elétrica percorrer o seu corpo. Sentiu as faces tão quentes que pensou que estavam em brasas. Retraiu-se com o coração acelerado.

‘Isso não foi nada.’ Falou já pegando a bandeja e caminhando em direção a saída da cozinha. Encontrou a namorada abraçada ao menino e pigarreou.

Sakura afastou-se do menino, que tinha o rosto em brasas, e levantou-se encarando o namorado. Viu que ele fez um gesto com a cabeça informando que não era para ela falar nada. Já tinham feito demais vindo para este tempo e intervindo na vida deles.

Ele reparou que ela estava lutando para não chorar. Sentiu-se mal. Não gostava de vê-la desta maneira. Deixou a bandeja na mesa central e, logo, a menina apareceu trazendo também um pote de biscoitos acompanhada por Kerberus.

Sakura disfarçou. Afastou-se do menino que ainda a olhava como um bobo.

Continua.