FEITICEIROS
31 O Caçador
Notas iniciais
FEITICEIROS
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 31
O Caçador
Hyo Ling estava no quarto do hotel. Tivera um dia cheio, resolvendo alguns problemas de negócios no Japão. O Clã estava querendo investir em algumas empresas japonesas. Antes de ser uma tradicional instituição familiar, era, sobretudo, uma instituição financeira com investimentos em várias áreas e vários países.
Estava cansado. Meilyn ainda não o havia procurado e muito menos ao advogado que estava cuidando da separação dos dois.
Os anciões, e até Yelan, estavam pressionando-o para um novo casamento. Ele tinha concordado com a ideia do casamento, mas não aceitou a noiva arranjada, tentando ganhar tempo. Então deram-lhe um prazo para que escolhesse. Mas não tinha cabeça, nem paciência para conhecer novas mulheres e tentar iniciar um namoro. E, verdade seja dita, não queria se casar novamente.
Estava levemente tentado a sair do cargo e deixar a batata quente para outro primo. Andava meio de saco cheio de tudo. Era discussão demais, gasto de energia demais. Problemas demais. Problemas dos outros demais.
Ouviu baterem à porta e estranhou; não tinha pedido nenhum serviço de quarto. Queria apenas tomar um banho e dormir. Caminhou a contragosto até a porta e a abriu, pronto para já soltar um desaforo, quando arregalou os olhos.
‘Tā mā de! Zhè shì shénme dōngxī?!’ (Droga! Que merda é essa?!) Ele gritou surpreso.
‘Wǎn shàng háo, Hyo Ling. Nǐ hǎo ma?’ (Boa noite, Hyo Ling. Como vai?) Syaoran cumprimentou o primo. ‘Acho que precisamos conversar.’
Hyo Ling ainda ficou um tempo olhando para a figura do primo a sua frente. Balançou a cabeça de leve. ‘Estou estressado.’ Falou para si, ainda não acreditando que estava a frente de Syaoran.
‘Ser o patriarca do Clã realmente deve ser bem estressante.’ Syaoran falou, cruzando os braços e dando tempo ao primo se recompor. Sabia que seria uma conversa difícil, mas devia isso a ele.
Tomoyo tinha ligado para Sakura e falado que o primo estava no Japão. Meylin dissera que o rapaz gostaria de conversar com a Feiticeira sobre o que aconteceu durante a visita dela à China, meses atrás. Achou que aquela conversa deveria ser dele, não dela. Foi ele quem agira errado e usara, sem permissão, o corpo do primo, pois naquele momento a energia dos dois estavam em sintonia. Aproveitou a oportunidade.
‘Merda… Isso é coisa dos Tao. Eu não vejo espíritos.’ Hyo Ling exclamou incomodado.
‘Não sou um espírito, Hyo Ling.’ Syaoran falou. ‘Nós precisamos conversar, e eu lhe explico tudo. Eu posso entrar ou você quer ir para outro lugar?’
Hyo Ling ainda ficou um tempo olhando para o primo, pensando que ele desapareceria. Syaoran se recostou na parede do corredor esperando-o tomar a decisão ou o tempo que ele precisava para acreditar que estava realmente vivo.
Hyo Ling deu um passo a frente e tocou no ombro do primo, certificando-se que não era alucinação dele. Soltou vários palavrões em mandarim. Syaoran sorriu de leve.
‘Que palhaçada foi aquela?’ Ele perguntou irritado. ‘Ou em que merda barra pesada você andou se metendo Xiao Lang?’
‘Posso entrar?’ Ele repetiu a pergunta. Não queria tratar daquele assunto no corredor de um hotel.
Hyo Ling deu passagem para ele, que descruzou os braços e entrou no quarto. O primo fechou a porta, ainda olhando desconfiado para ele.
‘Bem… Por onde eu começo…’ Syaoran falou respirando fundo. ‘Vou tentar simplificar a história…’ Disse, sentando-se numa cadeira. ‘Eu realmente morri, se é isso que você gostaria de me perguntar primeiro.’
‘É claro que você morreu. Eu preparei o seu corpo.’ Hyo Ling falou irritado. ‘Mei Ling só conseguia chorar e, além disso, não tinha como ela arrumar você sozinha. Mas que merda, Xiao Lang!’ Soltou novamente. Tinha vontade de socar o primo e matá-lo novamente. ‘Em que você andou se metendo?’
Syaoran percebeu que ele estava nervoso, e não era para menos. ‘A história é complicada. Eu vou lhe contar… Só queria, primeiro, pedir desculpas por agir no seu corpo enquanto eu estava no plano espiritual durante a luta contra Reyume. Não foi certo o que eu fiz.’
Hyo Ling encarou o primo. ‘Agir? Você incorporou em mim, foi isso então?’
Syaoran assentiu. ‘Nossa família não gosta muito deste dom, provavelmente por isso que não o desenvolveram da maneira correta. Eles acham que é coisa dos Tao como você mesmo falou.’
Hyo Ling soltou outros palavrões. ‘Eu não quero saber disso!’ Disse por fim.
‘É uma decisão sua.’ Syaoran falou. ‘Você estava protegendo Sakura e então nossas energias ficaram sincronizadas, eu aproveitei a situação. Fui imprudente, mas não tinha como permanecer de braços cruzados olhando tudo do além. O covarde do Reyume tinha materializado uma espada usando magia e sabia muito bem que você não teria como se defender. Foi golpe baixo. Você acabaria mais machucado do que já estava.’
‘Aí você resolveu incorporar em mim?!’ Ele falou com sarcasmo. ‘Tā mā de! Nǐ shì wángbā!’ (Droga, você é um filho da p…) Soltou ainda revoltado com o primo. ‘Você não tinha este direito!’
‘Eu sei. Por isso estou aqui para lhe explicar o que realmente aconteceu. Porque, sabendo como é o clã, devem ter lhe dado várias explicações, não?’
Hyo Ling concordou com a cabeça. Caminhou pelo quarto sem desviar os olhos do primo. Pegou uma cadeira e se sentou a frente dele. ‘Desembucha.’ Mandou. ‘E nem pense em me esconder alguma coisa, Xiao Lang!’
Syaoran se ajeitou melhor na cadeira e respirou fundo. Começou a contar desde o início. Contou sobre o tal Caos, porque tinha morrido, sobre a incorporação dele, sua ida ao mundo das trevas e depois sua volta para o universo ao qual pertencia.
Não era muito de dramatizar a situação, tentou ser objetivo. Sua mãe já tinha lhe contado que os anciões estavam cientes do retorno dele e, obviamente, isso se mantinha em segredo. Então achou melhor alertar o primo para que ele ficasse atento. Os anciões e nem sua mãe eram de todo confiáveis quando o assunto eram as tradições do clã.
Hyo Ling ouviu tudo sem fazer muitas interrupções. Era verdade que algumas vezes se perguntou, durante a narrativa do primo, se ele estava drogado, ou bêbado, mas vindo de Xiao Lang, com quem tudo era sempre mais dramático, ponderou que era verdadeira a história.
Syaoran terminou de falar e se esticou na cadeira. ‘Tem água aqui?’
‘Na geladeira.’ Hyo Ling respondeu apontando. O rapaz se levantou e foi até a pequena geladeira onde pegou uma água para beber.
‘Agora faz sentindo a Yelan ter se empenhado tanto para abafar o arrombamento da sua sepultura.’ Hyo Ling falou.
Ficaram em silêncio por um tempo, com Hyo Ling tentando assimilar toda a história que tinha ouvido. Syaoran bebia a água devagar, observando o primo. Não esperava que ele acreditasse em tudo, mas achou que deveria falar a verdade. Bem ou mal, Hyo Ling ficou com os problemas da liderança do clã nas mãos dele.
‘Então você não é mais humano, é isso?’
‘É.’
‘Você é um demônio agora. Não é força de linguagem?’
‘Não. Sou realmente um ser das trevas agora.’
‘Já parou para pensar que isso tudo é loucura?’ Hyo Ling falou, levantando-se e fitando o primo. ‘É difícil demais de acreditar.’
‘Eu sei.’
‘Se eu não tivesse ajudado a preparar o seu corpo, não teria como eu acreditar que realmente esteve morto.’
Syaoran confirmou com um gesto. ‘Eu não volto mais para a China. Vou ficar aqui no Japão e acho que é de interesse de todos, principalmente da minha mãe.’
‘Ela é uma mulher muito inflexível às vezes.’
‘Ela leva muito a sério as tradições. Se você quiser fazer realmente mudanças, precisará ter calma. Não se muda milênios de tradição em poucos anos.’
‘Eu sei…’ Ele falou. ‘Mas ando meio de saco cheio.’
‘Eu imagino.’ Syaoran falou. ‘Também sei sobre a Mei Ling. Eu sinto muito.’
‘Ela usou isso como desculpa para me abandonar.’ Falou com pesar. ‘Não tem como forçar alguém a gostar da gente, não é?’
‘Ela gosta de você. Não seja cego.’
‘Estou é sendo realista. É melhor começar a aceitar de uma vez isso e deixar essa paixonite de criança de lado.’
‘Ainda sou apaixonado pela mulher que eu conheci aos 10 anos de idade.’ Syaoran falou com o rosto sério. ‘Sei que as coisas não devem estar fáceis, mas estas mudanças precisavam ser feitas. O único problema é que elas não deveriam partir apenas de uma pessoa, isto é, de você. A família precisa ser mais ativa e menos submissa às decisões de um pequeno grupo.’
Syaoran foi até o primo e bateu no ombro dele. ‘Pegue sua mulher e a leve para casa. É isso o que ela quer, só que ela também quer ser mais do que apenas sua sombra. Mei Ling quer estudar. Dê esta chance não só para ela, mas para as outras. A China tem que parar de pensar que apenas os homens é que são capazes de pensar. E seria muito bom começar pelo Clã.’
‘Acho que sim.’ Hyo Ling falou, respirando fundo e soltando o ar devagar. ‘Só que não é fácil.’
‘Eu tenho certeza que não será. Mas eu aprendi há pouco tempo que é bem mais fácil de enfrentar os problemas quando se tem alguém ao seu lado.’ Disse dando um tapinha camarada no ombro do primo e se afastando. ‘Eu estou morando com Sakura.’ Ele falou. ‘Mei Ling sabe onde estamos, se quiser me procurar é só aparecer lá.’
‘Mei Ling não me contou sobre isso quando eu perguntei por Kinomoto.’
‘Ela não tinha nem como falar. Você não acreditaria mesmo.’ Ele retrucou. ‘Vou nessa. Até mais, Hyo Ling. Foi bom vê-lo.’ Falou caminhando em direção à porta. Reteve-se por um momento e voltou-se para o primo. ‘Não ceda aos velhos, Hyo Ling. Eles não têm o direito de decidir a sua vida. Nem a de ninguém.’
Hyo Ling encarou o primo. Cumprimentaram-se discretamente antes de Syaoran ir embora deixando Hyo Ling sozinho. O rapaz fechou os olhos e pensou que ele tinha razão. Ninguém tinha o direito de decidir pela sua vida.
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O ambiente estava parcialmente iluminado por algumas tochas. Não poderiam usar eletricidade no raio de, pelo menos, 500 metros do local. Fox tinha encontrado um ritual que poderia acionar a chave de Janus, o deus da dualidade.
Encontraram uma caverna no interior da Irlanda que possuía duas entradas. Ela seria perfeita. Tiveram que pedir a ajuda de um guia local para encontrá-la. No centro desta caverna, havia várias estalactites e um pequeno e raso lago de águas cristalinas.
O grupo era liderado por Smith e Fox. Rosas tinha mandado um rapaz jovem, seu nome era Leon Del Fravi. Não devia ter mais de 20 anos, mas era perceptível a magia que o circulava. Ele era um noviço, não havia ainda passado pelas provações para tornar-se exorcista. Assim que o fizesse, provavelmente, ficaria com aquela mesma aura padronizada visível em outros exorcistas. A intenção da Igreja era controlar os detentores de magia, pois sabia que só poderia combater magia, principalmente as advindas das trevas, com magia.
O mundo da magia poderia abrir a mente daqueles que possuíam a mente mais questionadora, pessoas de pouca fé e de caráter mais fraco, segundo o entendimento da Igreja, então era preciso padronizar. Porém, tudo que era padronizado, também não era fortalecido.
Rosas era um exorcista experiente e, por isso mesmo, mandou um rapaz novo, que não havia sofrido ainda o processo de limitação. E tinha reparado que Leon, de todos os outros noviços, era o que possuía uma magia genuinamente forte, que poderia ser importante para o ritual que Smith estava querendo montar.
Rosas não mediria esforços para destruir os demônios. Esta era sua missão de vida. O que ele e a igreja consideravam demônios? Bem, no topo da lista, estava Syaoran Li, e depois qualquer um que pertencesse ao Círculo. No entanto, o Vaticano, como todas as outras instituições religiosas, era também política. E eles sabiam das suas limitações. Sabiam que nunca conseguiriam derrotar todos os detentores de magia, então faziam questão de ser parte do Círculo. Não podiam controlá-los mas poderiam vigiá-los.
O grupo era completo por Marion Phauna. Marion era uma bruxa italiana. Havia participado anos atrás de algo relacionado aos xamãs, mas recusava-se a falar sobre isso. Tinha o rosto belo, porém sério e melancólico. Sua energia era poderosíssima.
Smith a encontrara quando procurava por detentores de magia que pudessem se unir a ele a fim de fortalecer-se. Sabia que, provavelmente, o Círculo se posicionaria contra ele caso tivesse suas intenções descobertas. Precisaria de apoio. Quando ele a encontrou, reparou no enorme poder, completamente corrompido, da jovem. Fora fácil convencê-la a participar do ritual, já que ela tinha interesse em saber sobre as aberturas dos portais.
Como Janus era o Deus da dualidade, era necessária a polaridade entre os dois protagonistas. Leon e Marion eram perfeitos. Leon ainda tinha a ingenuidade de que poderia salvar o mundo de seres malévolos, enquanto Marion já havia, há muito tempo, perdido a esperança na humanidade.
Fox estava nervoso. Tinha lido e relido a sequência do ritual. Não sabia se tinha mais medo dele dar resultado ou ser um imenso fracasso. Olhou de esguelha para Smith que se mostrava sério e ansioso.
Hoje era Halloween. Mesmo não tendo poderes mágicos, ele sentia a energia aumentando pelo ambiente. E, eles estando dentro de uma caverna, um “útero da terra”, tornava mais evidente a fragilidade entre os universos. Eles só teriam aquela oportunidade.
O senhor desviou os olhos para os dois jovens que estavam num dos cantos da caverna. Franziu a testa. Não sabia exatamente qual seria a consequência do ritual neles. Engoliu em seco. Talvez fosse melhor desistir daquela loucura. Era um antropólogo, cientista. Gostaria de saber que suas pesquisas e teorias estavam certas, no entanto, não queria arriscar a vida de ninguém. Pegou um lenço do bolso da calça e secou a testa suada. Não estava calor, então isso o alertava de que estava realmente no ápice de seu nervosismo.
‘Acho que já podemos começar.’ Smith falou. ‘Senão perderemos a oportunidade e isso é inadmissível.’ Completou olhando duro para Fox.
‘Claro.’ O senhor falou.
Fox abriu o seu caderno de anotações onde estava escrita a invocação para a abertura do portal. Olhou para o lago a sua frente e franziu a testa, reparando na forma circular. Olhou para cima. As estalactites davam a impressão de que, caso se desprendessem, seriam mortais. Respirou fundo. Não dava para protelar mais.
‘A chave?’ Ele pediu e logo Smith entregou-lhe o embrulho. Pegou-o com as mãos trêmulas. Abriu com cuidado e mais uma vez a analisou. Realmente parecia um objeto tão normal, assim como as chaves nos desenhos encontrados do deus Janus.
‘Senhor Del Fravi, Senhorita Phauna.’ Fox chamou os jovens que estavam em silêncio apenas observando a tudo. Eles se aproximaram. ‘Acho que agora chegou a vez de vocês.’
Leon mostrava-se nervoso também. Havia sido convocado pessoalmente por Rosas, para a importante missão. Rosas estava abaixo apenas do Papa, e ele, como um noviço recém-aceito pela Ordem, nunca imaginou encontrá-lo cara a cara.
Sabia que era uma grande honra e privilégio ser a mão de Deus para limpar a Terra de seres demoníacos. Ele olhava de esguelha para a bela jovem ao seu lado, não podia negar que a tinha achado bonita.
‘O que precisamos fazer, velho?’ Marion perguntou encarando Fox.
‘Vocês precisam vestir estas túnicas brancas.’ Fox orientou e Smith logo estava entregando as peças de roupa para os dois.
‘Isso realmente é necessário?’ Ela perguntou, olhando de forma fria para Fox.
‘É assim que os rituais são descritos.’ Fox respondeu incerto.
‘Troquem-se logo!’ Smith falou impaciente. ‘Estamos perdendo muito tempo.’
Leon sentiu o rosto corar, respirou fundo e pegou a vestimenta. Marion também pegou a contragosto, estava já achando aquilo tudo uma palhaçada sem fim.
Trocaram-se e logo estavam em frente a Fox. Este pediu para os dois jovens entrarem no lago raso e ficarem no meio deste. A água estava congelante. As chamas das tochas que eles usavam para manter a precária iluminação balançava devido ao vento que entrava de uma abertura da caverna e saía pela outra.
Estava tudo ali: Terra, água, fogo e ar.
O ritual se iniciaria. Fox pediu para os dois ficarem de costas um para o outro, cada um voltado para uma entrada da caverna, como as estátuas de Janus, que sempre era representado por duas cabeças em lados opostos.
A maior e mais poderosa dualidade, entretanto, era justamente o masculino e o feminino. E Smith realmente tinha encontrado dois jovens completamente opostos um do outro. Enquanto Leon estava cheio de vida e entusiasmo, a jovem Marion era a personificação da apatia. Parecia completamente vazia por dentro. A perfeita contradição.
O senhor reparou que o rapaz estava corado por estar tão próximo de uma jovem com poucas roupas cobrindo ambos os corpos, mas ela parecia apenas entediada.
Fox respirou fundo, observando-os. ‘Aproximem-se.’ Pediu e Marion deu um passo para trás encostando suas costas nas do rapaz. ‘Senhor Del Fravi, segure a chave acima de sua cabeça, com o segredo apontado para o alto, com sua mão direita, por favor.’ Orientou ao rapaz que, assim que segurou o objeto, sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Leon franziu a testa e já perguntaria que droga era aquela, mas lembrou-se das palavras de Rosas. Estava ali para ajudar a limpar o mundo do pecado. Respirou fundo. Provavelmente, estar com poucas roupas e encostado ao corpo de uma bela moça deveria também ser parte do ritual para testar sua resiliência contra as tentações da carne.
‘Senhoria Phauna, envolva sua mão esquerda por cima da dele, por favor.’ Fox pediu e foi prontamente atendido.
O senhor se afastou e pediu para os dois repetirem exatamente o que ele falaria.
‘Spiritus magnus. Ignis et Aquae Spiritus. Aeris et Terrae Spiritus’ (Grande espírito. Espíritos do fogo e da água. Espíritos do ar e da terra). O ritual iniciou-se.
Smith observava, afastado, e franziu a testa notando a energia que começava a circular os dois jovens. A chave começou a brilhar de forma fraca ainda.
Leon e Marion prestavam atenção ao que Fox falava para repetirem com exatidão as palavras em latim.
‘Pedimos autorização para abrirmos este portal, por intermédio de Janus, aquele que intercede pelos opostos, pela divergência entre o Tudo e o Nada. Entre o Céu e o Inferno. Entre o belo e o repulsivo.’
O vento que entrava por uma das extremidades da caverna, aumentou a sua força, circulando os dois jovens e fazendo com que as águas, antes calmas, do pequeno lago rodassem em torno deles acompanhando o movimento circular do vento.
‘Entre o masculino e o feminino. Entre o novo e o velho. Entre a Luz e as Trevas.’
Leon olhou assustado para o que estava acontecendo, tremeu e não pôde negar que se apavorou. Estava para se afastar quando sentiu a mão direita de Marion segurar a sua mão esquerda com força, enquanto a mão esquerda dela mantinha a direita dele bem presa e impedia que ele largasse a chave que brilhava de forma esplendorosa.
‘Solicitamos, humildemente, a vossa interferência para que nos traga aquele que será capaz de nos proteger dos demônios vindos das trevas.’
A terra começou a tremer; algumas estalactites não resistiram e se desprenderam do teto da caverna. O casal seria atingido, não fosse a energia que os estava envolvendo a protegê-los. Fox tinha sido repelido pelas rajadas de vento e agora tentava se proteger como podia, pois precisava continuar perto dos dois para cantar o final da invocação. Smith também tentava fazer o mesmo.
‘Solicitamos vossa sabedoria e vosso poder para que venha até nós aquele que tem como responsabilidade ser o Guardião das trevas.’
As chamas das tochas aumentaram, assim como a luz que envolvia a chave. As línguas de fogo circulavam os dois e Fox foi obrigado a se afastar desesperadamente para não ser atingido por elas.
‘Suplicamos por vossa clemência e vossa permissão para que assim seja!’ Ele gritou desesperado, jogando-se no chão e tentando se proteger. Arrastou-se, tentando se afastar do casal que agora estava envolvido por uma imensa bola de energia e eram circulados pelos quatro elementos.
Houve uma imensa explosão de luz, fazendo com que os dois homens protegessem os olhos para não acabarem cegos, enquanto ouviam ainda o barulho dos elementos ecoando pela caverna.
De repente tudo foi silêncio e calmaria. Fox estava encolhido no chão; em cima dele havia algumas pedras. Sentia a cabeça dolorida e algumas outras partes do corpo também, devido ao impacto das rochas que voaram por todos os lados, além de uma pequena queimadura que ardia no seu braço direito.
Levantou a cabeça e abriu os olhos devagar. No centro do lago, onde antes estavam os dois jovens, havia um homem alto e forte. Seu rosto era duro e mostrava-se nem um pouco amigável. Tinha os dois jovens desmaiados, um em cada braço, impedindo-os de cair no lago e se afogarem.
Smith arregalou os olhos, observando-o e sorriu de lado, reparando na presença poderosíssima. Não havia dúvidas, aquele era um guardião.
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Kaho caminhava pelo templo Tsukimine. Sorriu de leve, pois sentira saudades daquele lugar. Quando era sacerdotisa do templo, praticamente vivia ali todos os dias, mas, depois de tantas mudanças, tinha deixado um pouco de lado esta sua responsabilidade.
Da última vez que esteve no lugar, foi durante a luta contra Shyrai. Fechou os olhos e respirou fundo. Nunca teve tanto medo quanto naquele momento ao pensar que perderia o marido. Abaixou os olhos e sorriu de leve.
Eriol era um bom marido, apenas tentava se manter o tempo todo forte e indestrutível diante dela. Como se ela estivesse casada com uma fortaleza. Ele não entendia que ela não tinha se casado com Clow. Ela amava Eriol Hiiraguizawa, com todos os defeitos e problemas dele. Ela sabia que algo o perturbava, mas ele não se abria com ela. Ainda se sentia culpado pelas decisões de sua vida passada.
Olhou ao redor e sentiu falta de algumas árvores que foram arrancadas naquela luta contra Shyrai, tirando isso, tudo estava em perfeita harmonia naquele lugar sagrado.
Tinha falado com a mãe ontem à noite por telefone. Amaterasu tinha lhe contado sobre suas suspeitas em relação a Smith. A senhora soube que ele havia contratado um grupo grande de profissionais ligados às línguas mortas, antropólogos e arqueólogos. Além disso, estava entrando em contato com alguns detentores de magia de fora do Círculo. Magos como Smith, normalmente apenas buscariam tais aliados por se envolverem em algo perigoso e dúbio.
Smith sempre fora um rato, mas ela se questionava até onde iria a coragem dele. Ele sozinho, apenas blasfemaria. Se estava agindo, mesmo por entre as sombras, era porque alguém o estava apoiando. Franziu a testa e olhou para o céu. Estava começando a escurecer, logo a lua despontaria, podendo ser vista refletida no lago. Precisava de algumas respostas.
Sentia que Sakura e Syaoran ainda estavam em perigo. Durante a última visita aos dois, tinha os observado atentamente. Eles estavam tão felizes juntos. As auras continuavam a se misturar, independente das mudanças que sofreram devido a evolução dos dois.
Era, até certo ponto, nostálgico vê-los juntos e involuntariamente lembrar de quando eram crianças. O amor dos dois era algo que realmente a intrigava, pois tinha tudo para não acontecer e, no entanto, era um dos sentimentos mais fortes e concretos que ela já tinha visto.
‘Como almas gêmeas…’ Ela concluiu seu pensamento em voz alta. Parou de caminhar e voltou-se para a árvore sagrada. Seria possível que Sakura e Syaoran fossem almas gêmeas? Como Yin-Yang, que precisavam estar juntas para existirem. Mas como isso seria possível? E, mais importante, por quê? Sentiu um arrepio correr-lhe a espinha. A história ainda não havia chegado ao final, eles teriam muitos outros desafios, para enfrentarem juntos.
A Lua já estava alta no céu de Tomoeda. Voltou a caminhar em direção ao Lago da Lua. Parou na beirada dele e viu as águas completamente paradas devido a ausência de peixes. Olhou para o firmamento, vendo o astro esplendoroso. A energia lunar sempre lhe dera uma sensação de plenitude. Respirou fundo, levando as mãos juntas até a altura do peito e fechou os olhos. Ficou alguns minutos em silêncio até sentir que sua mente estava mais tranquila, em maior harmonia com aquele ambiente sagrado.
‘Tsukuyomi-no-kami,’ Sussurrou com os olhos fechados. ‘Os olhos talvez se enganem com aquilo que há de impuro, mas permita que a mente veja o que não está claro.’ Ela sentiu a energia do templo começar a circular seu corpo, causando-lhe um sentimento de paz e felicidade profundos. Sorriu de leve. ‘Os ouvidos talvez se atentem àquilo que há de impuro, mas permita que a mente ouça o que não está claro.’ Ela fez uma pausa. ‘Atenda a meu pedido, mostre o que preciso ver sobre aqueles a quem devo ajudar.’ Ela respirou fundo. Apertou as mãos de leve e abriu os olhos devagar, mirando o reflexo da lua nas águas paradas. Sua respiração era calma e silenciosa.
O reflexo da lua prateada tornou-se turvo e a cena que apareceu parecia ser vista através de uma janela vermelha, várias criaturas atacavam humanos em uma grande batalha. Kaho sentiu o coração acelerar. A imagem novamente se turvou e agora a figura de um homem apareceu. Ele era alto e forte, ao redor dele havia a aura esverdeada de um guardião. A imagem mais uma vez se escureceu e o reflexo da lua prateada reapareceu.
Abaixou as mãos ainda observando o lago. O que seriam aquelas imagens? Parecia uma guerra entre demônios e humanos. Será que eles invadiriam de alguma forma este universo? Franziu a testa novamente. Ela tinha pedido para ver o agora. Então aquilo estava acontecendo agora? Mas onde? E quem era aquele homem?
Deu um passo para trás ainda fitando o reflexo da lua. Precisava falar com sua mãe e com o esposo. Ela sabia que vira algo muito importante, precisava apenas conseguir desvendar o que aquelas imagens significavam.
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Sakura abriu a porta de casa e estranhou tudo ainda estar escuro. Syaoran dissera que chegaria mais cedo hoje e que, inclusive, prepararia o jantar. Tirou os sapatos e acendeu a luz. Franziu a testa e sentiu a presença dele no segundo andar.
Caminhou até a mesa onde deixou a mochila com os livros e apostilas. Subiu as escadas para encontrá-lo e ver se tinha acontecido alguma coisa. Ela sabia que ele não era de falar algo e, simplesmente, não fazer depois.
Observou que a mochila dele tinha ficado perto da porta, jogada no chão. Subiu as escadas e ao entrar no corredor, ouviu o barulho do chuveiro ligado. A porta estava apenas encostada, empurrou-a devagar e o viu no box, os braços estavam apoiados na parede e a cabeça inclinada para frente, deixando a água bater na nuca. As roupas estavam jogadas no chão. Reparou que ele levou uma das mãos aos olhos e os apertou, parecia que algo o incomodava.
‘Droga…’ Ouviu-o esbravejar.
‘Syaoran.’ Ela o chamou, mas ele não respondeu. Pelo visto, nem sequer percebera que ela tinha chegado.
Abriu a porta do box e tocou as costas dele, finalmente fazendo o rapaz perceber a sua presença. Syaoran abriu os olhos e virou o rosto, observando a namorada sobre o ombro direito.
‘Está bem?’ Ela perguntou com a voz preocupada, estava na cara que ele não estava bem.
‘Estou. Não se preocupe.’ Ele respondeu, tentando sorrir de leve. ‘Apenas com dor de cabeça.’ Esclareceu para não deixá-la preocupada.
Ela assentiu. ‘Vou fazer um chá para você.’
‘Já estou saindo.’ Ele falou e voltou a colocar a cabeça debaixo da ducha forte.
Sakura se afastou, secando os braços pela água gelada que havia respingado neles. Ela não conseguia entender como o rapaz conseguia tomar banho com aquela água congelante. Só de pensar em entrar naquele chuveiro lhe dava calafrios.
Juntou a roupa dele que estava no chão e olhou para trás, observando-o ainda embaixo da ducha. Tinha alguma outra coisa. Suspirou. Conversariam mais tarde. Saiu do banheiro e foi até o quarto para se trocar antes de fazer o chá e a janta para eles.
Estava na cozinha quando Syaoran entrou. Ele a abraçou por trás e beijou sua cabeça. ‘Desculpe-me. Prometi fazer a janta, mas não deu.’ Ele falou envergonhado.
Sakura sorriu e voltou-se para ele. ‘Não se preocupe.’ Ele não estava bem, estava na cara dele. ‘O que você tem?’ Ela perguntou preocupada.
Syaoran se afastou e sentou num banco com um dos cotovelos na mesa e a mão na cabeça. ‘Estou com um zumbido insuportável no meu ouvido desde a hora do almoço.’ Ele respondeu.
‘Zumbido?’ Ela estranhou.
‘Sim. Isso é irritante demais.’ Ele disse, trincando os dentes.
‘Tomou uma aspirina?’
‘Já tomei umas três e não adiantou. Só alivia debaixo d’água.’ Esclareceu.
Ela lhe serviu o chá e colocou a xícara na frente dele. ‘Tome. Vamos ver se funciona.’
‘Obrigado.’ Agradeceu e tomou a bebida devagar. Fechou os olhos. Realmente aquele zumbido o estava irritando demais. Deixou a xícara na mesa e respirou fundo, apoiando novamente o cotovelo na mesa e a cabeça na mão. Droga. Por que aquilo agora?
Sakura observou o rapaz sobre o ombro direito.
‘Está tão ruim assim?’
‘Está me irritando.’ Ele respondeu com sinceridade.
Ela sorriu de leve. Era bem fácil Syaoran se irritar. Desligou o fogo e foi até ele, parando a sua frente. Segurou o rosto do namorado entre as mãos e se inclinou, beijando a testa dele de forma demorada.
Ele percebeu a aura dela aumentar e se misturar com a dele, sorriu de leve e fechou os olhos. Aquilo estava sendo mais eficaz que as aspirinas. Ela beijou um olho do namorado e depois o outro. Tocou de leve seus lábios nos dele e depois se afastou.
Syaoran abriu os olhos e sorriu para ela. ‘Interessante.’
‘Sente-se melhor?’ Ela perguntou, tirando as mãos do rosto dele e sorrindo ao vê-lo confirmar com a cabeça.
Sakura estava se afastando quando Li a segurou e a puxou para sentar no colo dele. ‘Acho melhor você ficar perto de mim.’ Falou, beijando o rosto da namorada. ‘Obrigado.’
‘Preciso fazer a janta. Não está com fome?’
Ele suspirou. ‘Aquele zumbido estava me enlouquecendo tanto que nem fome eu sentia.’
Ela passou a mão pelos cabelos molhados dele. ‘Vai ficar tudo bem agora.’
‘Eu espero que sim.’
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Smith tinha no rosto um grande hematoma. Caiu de novo no chão e foi levantado pelo colarinho.
‘Vou falar mais uma vez, bruxo. Mande-me de volta!’ Ele falou com a voz ameaçadora. ‘E faça este zumbido parar!’
Leon e Marion estavam ainda desmaiados no chão perto do lago. Fox estava assustado demais para fazer qualquer coisa. Smith se aproximara do homem já lhe falando que deveria matar um demônio, mas não conseguiu nem terminar a primeira ordem e recebeu um golpe dele sem piedade.
‘Não tem como mandá-lo de volta enquanto não destruir Syaoran Li.’ Smith falou.
O homem franziu a testa. ‘Não sei quem é este. Meu problema é com você, bruxo. Eu estava no meio de uma batalha! Você não devia ter me tirado de lá!’ Ele falou com raiva.
‘Não posso!’ Smith manteve a história. ‘Apenas depois que você matar o demônio que ameaça nosso universo.’
‘Seu idiota! Estava lutando contra dezenas deles! Você, bruxo, não consegue defender o seu universo de um, apenas um, demônio?!’ Falou, jogando novamente o homem contra a parede de pedra e olhando em volta.
Inferno! Não deveria estar ali! Cravou os olhos no humano sem poderes que olhava para tudo assustado. Caminhou até ele e o viu arregalar os olhos, morrendo de medo.
‘Você! Diga-me o que está acontecendo. Por que estou aqui?’ Perguntou e levou uma mão para a cabeça incomodado com aquele maldito zumbido. ‘Droga!’ Falou novamente.
Smith levantou-se e limpou o sangue que escorria no canto da sua boca. ‘Ele não tem poderes, ele apenas descobriu a maneira de usar a chave e abrir o portal que o trouxe para cá.’
O homem voltou-se para Smith novamente. ‘Então abram novamente o tal portal para que eu possa voltar.’ Ordenou.
‘Já falei que não há como. Apenas depois que o demônio que está livre em nosso universo for destruído será possível reabrir o portal.’
O homem fechou os olhos, tinha vontade de matar aquele bruxo desgraçado. Precisava voltar logo para o seu universo, precisavam dele. Ela precisava dele. Não poderia deixá-la sozinha agora.
‘E onde está este demônio?’
‘Japão.’ Smith respondeu.
‘Não sou deste lugar, idiota. Não tenho a menor ideia de onde fica isso.’
‘Eu o levarei até ele.’
O homem fitou os dois jovens e caminhou até eles. Bateu de leve no rosto do rapaz, fazendo-o acordar. Leon abriu os olhos e arregalou-os assustado. ‘Você está bem garoto?’
Leon respondeu que sim com a cabeça, assustado demais para falar qualquer coisa.
‘Não deveria andar com este tipo de gente. E esta garota…’ Falou, fazendo um gesto em direção a ela. ‘Não tem energia boa.’ Alertou-o, levantando-se.
Leon tremia da cabeça aos pés enquanto fitava o homem a sua frente que novamente encarou Smith.
‘Vamos agora. Tenho pressa.’
‘Podemos ir…’ Ele começou a falar.
‘Agora.’ Interrompeu-o, caminhando até ele e parou na frente de Smith. ‘Ou eu o esmurrarei até você conseguir abrir um portal, nem que seja depois de morto.’
Smith concordou com a cabeça. ‘Vamos, então.’
Leon ainda não conseguia entender o que estava acontecendo. ‘Q-quem é você?’ Perguntou, encarando o desconhecido.
O homem voltou-se para ele. ‘Meu nome é Logan Väktare. Sou um caçador de gente igual a este aqui e aquela ali.’ Falou apontando para Smith e Marion. ‘E você, garoto, comece a andar com gente de melhor qualidade ou vai acabar igual a ele. Sua energia ainda não foi corrompida.’
‘Do que está falando?’ Mostrava-se ainda assustado.
‘Não tenho tempo.’ Olhou para Smith. ‘Vamos.’ Falou, pegando Marion, que ainda estava desacordada, e caminhando em direção a saída da caverna. Olhou para trás e foi logo acompanhado pelos outros três.
‘Inferno de zumbido.’ Ainda esbravejou, irritado, voltando a caminhar.
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Tomoyo caminhava em silêncio ao lado de Kurogane. Eles estavam voltando de uma sessão de cinema. O rapaz tinha insistido para a morena aceitar o convite. Ele sentia que sua princesa andava mais pensativa e calada que o normal.
Ele estava com as mãos nos bolsos caminhando devagar, olhou para frente, observando a entrada da irmandade Kαβ cada vez mais próxima. Soltou um suspiro, sem querer. Estava cansado. Syaoran tinha lhe dado uma surra pela manhã. Estava começando a se arrepender de ter pedido ao amigo para treinarem juntos. Syaoran era mais baixo que ele, mas, que droga, ele era bem rápido e forte. E o pior era saber que o amigo estava pegando leve com ele.
‘Está tudo bem?’ Tomoyo perguntou com o tom preocupado ao ouvir o suspiro dele. Parou de caminhar, fitando o rapaz.
‘Hã…’ Kurogane fora pego de surpresa. ‘Estou.’ Respondeu. ‘Um pouco cansado apenas.’
‘Muitas provas?’
‘Também.’ Falou, dando de ombros.
‘Você está bem perto de se formar.’ Ela comentou. ‘Já pensou onde vai estagiar?’
Ele deu de ombros novamente, voltando a caminhar. ‘Estou vendo isso.’
Tomoyo franziu a testa, observando-o; era impressão dela ou o rapaz andava calado demais? Kurogane normalmente não era assim. Estava sentindo falta da voz dele.
‘O que está realmente acontecendo? Você não está bem.’ Ela falou segurando o braço dele e obrigando-o a parar de caminhar.
‘Está tudo bem, princesa.’ Ele respondeu, tentando sorrir.
Ela, involuntariamente, sorriu ao ouvi-lo chamá-la de princesa pela primeira vez naquela noite. Porém fechou o sorriso, ele não a engambelaria. ‘Não está. Eu o conheço, Yuo.’
Ele respirou fundo novamente. ‘Estou apenas cansado. Dolorido. Preocupado.’
‘Cansado e dolorido até entendo.’ Ela falou, olhando-o séria. ‘Por que está preocupado?’
Kurogane a fitou. Como falar que estava preocupado por causa dela? Não era idiota para não perceber que, de um jeito ou de outro, aquele cabeludo mexia com ela.
Era verdade que adorava a companhia dela. Ela era inteligente, espirituosa, delicada, linda… Mas talvez eles ficassem mesmo apenas no plano da amizade. Talvez fosse melhor aceitar os fatos. Ele era cabeça dura, sabia disso. Insistia no que queria até o máximo, mas quando o assunto era sentimentos, nem a melhor das argumentações e a melhor das intenções eram suficientes.
Hiding from the blue in your eyes
(Me escondendo do azul em seus olhos)
I never told you that
(Eu nunca disse)
I don't need a reason to be
(Que eu não preciso uma razão para estar)
In love with the smile on your face
(Apaixonado com o sorriso em seu rosto)
Guess I just want you around
(Acho que eu só quero você por perto)
To keep my feet on the ground
(Para manter meus pés no chão)
Desviou os olhos dela. ‘Acho que vou pegar um estágio em Tókio.’
Tomoyo arregalou os olhos, sentindo o peito fisgar. ‘T-Tókio? Mas você ainda não terminou as matérias.’
‘Dá para aparecer aqui só nas provas. Eu me garanto.’ Ele falou.
‘É arriscado.’ Ela ainda rebateu.
Ele meneou a cabeça. ‘Pode ser, mas eu já ponderei os riscos. Vai ser o melhor.’
‘Melhor para quem?’ Ela perguntou, fitando-o e reparou que ele não a encarava.
‘Para nós dois.’ Respondeu, por fim.
‘Hum…’ Ela murmurou. Estava chateada com ele. ‘Então você já decidiu.’
‘Acho que sim.’
‘Acha?!’ Ela elevou o tom de voz sem querer.
And I say
(E eu pergunto)
Why can't you tell me
(Por que você não pode me dizer)
What is the reason?
(Qual é a razão?)
Tell me what is on your mind
(Me diga o que está em sua mente)
I'll try not to be uptight
(Vou tentar não ser tenso,)
But I need to know now
(Mas eu preciso saber agora)
Tell me what is on your mind
(Me diga o que está em sua mente)
Fechou os olhos e tentou se controlar. Ele estava blefando. Ela o conhecia, mas só a ameaça de se afastar daquela maneira já a deixou irritada.
Abriu os olhos e o fitou novamente. ‘Você está fazendo isso de propósito, não é?’
Kurogane franziu a testa. ‘De propósito…’ Repetiu. ‘Por que eu faria isso?’
‘Oras, Yuo! Não sou boba.’
‘Sei que não é.’ Ele respondeu.
‘Então por que resolveu, agora, afastar-se desta maneira?’
Is it something we've got to mend?
(É algo que temos que consertar?)
Or should we do it over again
(Ou será que devemos fazer tudo de novo)
Do you need some more time
(Você precisa de mais tempo para
To learn how to love in return
(Aprender a amar em retorno)
If only you gave me a sign
(Se você somente me desse um sinal)
Then I'd know I'll be fine
(Então, saberia que vou ficar bem)
Ele a fitou por alguns momentos, em silêncio. Gostava muito dela. Seria bem penoso afastar-se, mas não dava mais para ele continuar naquela situação. E também não queria forçá-la a tomar alguma decisão. Ponderou que, ao afastar-se, ela estaria livre para decidir o melhor para si. Só esperava que o cabeludo também resolvesse sua situação com a mulher dele. Tomoyo não merecia ser colocada na posição de amante.
‘Responde!’ Tomoyo quase gritou com ele, sabia que estava nervosa. Mas que diabos deu nele agora?
‘Para deixar você livre.’ Respondeu com sinceridade. Não gostava de mentir. ‘E nem me pergunte “livre para quê”, pois sei que é inteligente o suficiente para entender o que eu estou dizendo.’ Completou, encarando-a.
Ela arregalou os olhos. Ele desviou os seus dos dela e fitou o edifício da irmandade. ‘Acho que é melhor a gente se despedir aqui.’
And I say
(E eu pergunto)
Why can't you tell me
(Por que você não pode me dizer)
What is the reason
(Qual é a razão?)
Tell me what is on your mind
(Me diga o que está em sua mente)
I'll try not to be uptight
(Vou tentar não ser tenso,)
But I need to know now
(Mas eu preciso saber agora)
Tell me what is on your mind
(Me diga o que está em sua mente)
Tomoyo respirou fundo. Estava terrivelmente irritada. Kurogane a tinha tirado de sua zona de conforto. Ele estava sempre ao seu lado e ela sabia que poderia contar com ele em todos os momentos. Sentia-se perdida com seus pensamentos e evitava analisar o que sentia, mas ele era sempre como um porto seguro para ela.
Ela sabia que, se estivesse triste, bastava ligar para ele e encontrá-lo, nem que fosse apenas para dar uma volta pelo campus, e ela se sentiria melhor. Agora, ele simplesmente falava que partiria. Tinha vontade de socá-lo. Pela primeira vez na vida tinha vontade verdadeira de socar alguém. Fechou os punhos.
‘Eu não quero que você vá.’ Ela falou, encarando o chão.
‘Vai ser o melhor. Acredite em mim.’ Ele respondeu.
‘Você não está entendendo.’ Ela o encarou novamente. ‘Eu não quero que você se afaste de mim.’
Don't be afraid, it's never too late
(Não tenha medo, nunca é tarde demais)
Can't bare to see you hesitate
(Não suporto vê-lo hesitar)
Ele respirou fundo. ‘Você não sabe o que quer direito, Princesa. Você precisa descobrir o que quer. O que sente...’
Tomoyo comprimiu os lábios e apertou as mãos. Sentia um incômodo tão grande no peito que parecia que o coração estava sendo espremido de forma terrível. Ela gostava dele, o rapaz bobo acabou entrando na sua vida de tal maneira que agora não conseguia mais se ver sem ele. Não era tonta como Sakura. Estava confusa, sim. Mas também sabia o que queria, e queria estar com ele.
‘Eu gosto de você, Yuo.’ Ela falou e sentiu os olhos arderem. ‘Não quero que você se afaste de mim.’
Ele sorriu de leve. ‘Eu também gosto de você, Princesa. Mas gostamos de maneiras diferentes.’
It's a matter of time before you'll be mine
(É uma questão de tempo até você ser minha)
But until that day I won't cross the line
(Mas até esse dia eu não vou cruzar a linha)
Then life will be so much better
(Então a vida será muito melhor )
For you and me
(Para você e eu)
Just let us be
(Vamos deixar rolar)
Tomoyo balançou a cabeça de leve. ‘Não. Gostamos da mesma maneira.’ Ela falou, encarando-o e o viu abrindo um sorriso. ‘Você só precisa ter paciência comigo. Você é meu primeiro namorado, Yuo.’
Agora foi a vez dele arregalar os olhos surpreso. ‘Namorado?’ Ele a viu corar e abaixar os olhos. Sorriu e balançou a cabeça de leve. ‘Fui promovido, finalmente?’
Tomoyo gargalhou com o comentário do rapaz. ‘Você é impossível.’ Soltou.
And I say
(E eu pergunto)
Why can't you tell me
(Por que você não pode me dizer)
What is the reason
(Qual é a razão?)
Tell me what is on your mind
(Me diga o que está em sua mente)
I'll try not to be uptight
(Vou tentar não ser tenso,)
But I need to know now
(Mas eu preciso saber agora)
Tell me what is on your mind
(Me diga o que está em sua mente)
Ele se aproximou dela e a segurou pela cintura. Ela levantou o rosto, fitando-o ainda rindo. Ele inclinou-se e finalmente beijou os lábios rosados que tanto o fascinavam. Tomoyo levantou os braços, enlaçando o pescoço do rapaz e entreabrindo os lábios para ele aprofundar o beijo enquanto a apertava contra o corpo.
Novamente Tomoyo sentiu borboletas baterem suas asinhas no estômago, enquanto sentia os lábios quentes do rapaz contra os seus, as línguas se encontrando e as mãos nas suas costas, apertando-a contra o corpo dele.
Afastaram-se por falta de fôlego, mas ele ainda a tinha em seus braços. ‘Por favor… Não vá.’ Ela pediu.
Kurogane sorriu. ‘Eu não vou.’ Ele respondeu e a viu abrir novamente o sorriso.
Tell me what is on your mind
(Me diga o que está em sua mente)
Continua.
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