FEITICEIROS
25 O Círculo
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FEITICEIROS
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 25
O Círculo
Touya caminhava devagar pela cidade. Tinha comprado algumas coisas para a loja de informática que tinha com Yukito. Por causa do último terremoto tinham perdido várias mercadorias. Estava preocupado com a irmã. Sabia que aquele tremor tinha a ver com magia e, apesar de Yue não confirmar de jeito nenhum, conhecia muito bem Yukito para descobrir quando ele estava mentindo. Era estranho gostar apenas de uma parte de uma pessoa.
E ainda tinha Clow na história toda. Ontem, quando encontrou com o rapaz novamente na casa da irmã, ficaram discutindo o que tinha acontecido para a jovem feiticeira ter dificuldade de controlar novamente as cartas.
Sakura ficou dormindo direto. Dava para ver que o namorado da irmã estava bem preocupado com ela. Estava bem caladão e apenas fazia perguntas para Kerberus e para Yue. Parecia estar brigado com a reencarnação do mago Clow. Bem, tinha isso em comum com o chinês; também não conseguia engolir o rapaz. Para ele, Clow era um psicopata doido que tinha envolvido sua irmãzinha numa teia de confusões e manipulações. No final, tinha até que agradecer a intervenção de Syaoran na vida da irmã ou as coisas poderiam ser bem piores.
Estava passando pelo parque do Rei Pinguim quando se deteve por alguns segundos ao ver as crianças brincando. Sorriu e desviou de seu caminho. Atravessou o parque e sentou-se num dos bancos de madeira. Tinha tempo para ficar alguns minutos descansando e observando a algazarra da criançada. Sorriu de leve.
Sentiu quando alguém se sentou ao seu lado. Virou-se e arregalou os olhos fitando sua irmã.
‘Sakura?’
A jovem balançou a cabeça, negando. Ele sorriu de lado. Já sabia quem era. ‘Faz muito tempo que a gente não se vê, não é?’ Touya falou, voltando a observar as crianças.
‘Sim…’ Ela respondeu de forma tímida.
‘Sabe, não gosto quando você está na forma dela.’ Ele falou. ‘Já falei isso para você.’
Ela fechou os olhos e assumiu a aparência de uma jovem de cabelos longos e vestindo um quimono tradicional. As crianças estavam tão entretidas com a brincadeira que não repararam em nada.
Ele voltou-se para ela e sorriu. ‘Você está usando as fitas nos cabelos.’
A carta sentiu o rosto corar. ‘Nunca mais as tirei.’
‘Que bom que gostou. Ficaram muito bem em você.’
Voltaram a ficar em silêncio.
‘Sabe o que é…’ Ela começou a falar, sentia-se extremamente tímida e um pouco envergonhada, também, por ter se manifestado sem a autorização de sua mestra. Mas ela estava com saudades demais de Touya. ‘Bem… Eu queria… É que eu…’
‘Sabe… Eu não sei o seu nome.’ Ele falou de repente.
Ela sorriu. ‘Kagami.’ Respondeu.
‘Sim… Kagami. Nada mais óbvio, não é?’ Ele falou, sorrindo de leve.
‘Acho que sim.’ Ela respondeu, apertando as roupas sobre os joelhos. Sentiu quando a mão de Touya segurou a sua e arregalou os olhos. Era maravilhoso se sentir tocada.
‘Preciso que me ajude a entender o que está acontecendo com Sakura.’
Ela confirmou com a cabeça.
‘Sakura está em apuros novamente, não é?’
Kagami voltou-se para o rapaz e sorriu. ‘Não… Ela está bem com o mestre. Está muito feliz.’
Touya franziu a testa. ‘Ela é apaixonada por ele.’
‘Eles são apaixonados um pelo outro.’ Ela o corrigiu. ‘A ligação dos dois é muito mais complexa do que nós entendemos.’
Touya apertou a mão dela de leve. ‘Como assim?’
‘Somos seres independentes. Quando fomos aprisionados nas Cartas, Clow modificou nossa origem, limitou nossos poderes e nossa existência... E, de certa forma, também limitou nossas personalidades.’ Kagami suspirou, pesadamente. ‘Quando sua irmã nos transformou em cartas Sakura, ela nos cedeu mais liberdade. Ela nos trata como verdadeiras amigas. Somos muito gratas a ela por nos ver desta maneira. E, justamente por isso, sabemos o que se passa pelo coração dela. Ela e ele são como um ser apenas. É algo muito bonito e que nos toca de forma muito profunda. Por isso, seguimos os dois.’
‘E por que vocês não a estão obedecendo agora?’
‘Nós a obedecemos, porém…’ Kagami se calou por um momento. Levantou a mão livre e tocou o rosto do rapaz com ternura. ‘A presença nova do mestre nos faz sentir mais livres.’
‘De Syaoran?’
Ela confirmou com a cabeça. ‘A presença dele está muito mais próxima à nossa presença original. Ele agora é como se fosse um de nós. E isso nos fortalece. Antes a magia dele era diretamente ligada aos elementos da natureza, no entanto, ele sempre teve a presença elementar das trevas.’
‘Como assim?’ Touya perguntou, franzindo a testa.
‘Quando Sakura era uma menina, ainda em desenvolvimento de sua magia, ela precisava usar o báculo, que é a metade de uma relíquia que foi corrompida com a energia das trevas, para nos manipular.’
‘Isso é verdade.’ Ele ponderou.
‘Syaoran Li sempre usou sua própria espada para isso porque, mesmo sua presença original, era baseada nos princípios das trevas.’
Touya franziu a testa, isso era uma outra verdade.
Ela suspirou. ‘Agora não há mais necessidade deste artifício com o nível de magia dela. Ainda mais por ela ter despertado para o poder do Pilar.’
‘Acho que ela não gosta muito desse “cargo”.’ Ele comentou, lembrando-se bem da reação da irmã ao descobrir isso. ‘E muito menos da posição do Li nisso tudo. Apesar de eu achar que, quando ele morreu, ele deixou de ser o guardião, não? Agora que voltou… Nem sei mais o que pensar.’
‘Ele voltou com uma energia que está em maior sintonia conosco, pois desenvolveu a magia que antes, de uma forma ou outra, era limitada pelo corpo humano que possuía.’
‘Ele é um demônio agora, não é?’ Ele perguntou, vendo-a confirmar com a cabeça. ‘Assim como vocês eram inicialmente.’ Continuou e, novamente, ela apenas assentiu. ‘Ele é um perigo para Sakura?’ Fez, enfim a pergunta que realmente queria.
‘Não!’ Ela respondeu, meneando a cabeça com os olhos arregalados.
‘Mas é justamente isso que as torna mais desobedientes?’
Ela concordou envergonhada. ‘Não é bem desobediência. É liberdade para agirmos de forma individual. Temos desejos e aspirações, também. Sonhos…’ Concluiu a última palavra com um sussurro.
Voltaram a ficar em silêncio, observando as crianças.
‘Ela sabe que você está aqui?’
Kagami respondeu que não com a cabeça e sorriu. ‘Eu vim procurá-lo porque estava com saudades.’
‘Então veio escondida dela.’ Ele falou, sorrindo de leve e viu a jovem encolher os ombros, com as bochechas rosadas. ‘Bem… Já que está aqui, quer dar uma volta?’
Ela concordou com a cabeça. Levantaram-se e caminharam um ao lado do outro em silêncio pelo parque por vários minutos.
‘Sabe… Eu preciso falar uma coisa…’ A jovem disse, parando de caminhar e o rapaz parou ao lado dela. ‘Eu gostaria que você soubesse o que eu sinto por você. Não sei quando terei outra oportunidade.’
Ele semicerrou os olhos na bela figura ao seu lado. Ela era uma jovem muito bonita. ‘Você sabe que isso é impossível.’
‘Se nossa mestra está junto com um ser de natureza não-humana… Acho que seria possível.’ Ela falou, sorrindo de leve e pegando uma das mãos de Touya. ‘Quer dizer, se é possível com eles, talvez…’
‘Kagami…’ Touya falou com ternura, apertando de leve a mão que ela segurava. ‘Eu já tenho uma pessoa importante na minha vida.’
A jovem fechou os olhos e depois os abriu, fitando-o profundamente. Deu um passo à frente até ficar na ponta dos pés e alcançar os lábios do rapaz. Foi apenas um roçar de lábios, mas para ela tinha sido o que mais almejava. Ela se afastou, soltando a mão dele e sorriu com os olhos brilhantes.
‘Obrigada, Touya.’ Falou, virando-se e se afastando dele. Uma névoa mágica a envolveu e ela retomou a aparência da irmã.
O rapaz acompanhou o ser mágico se afastando. Sentia-se lisonjeado por saber que ela gostava dele, mas não poderia corresponder aos sentimentos dela.
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Eriol observava a imensa construção a sua frente. Kaho estava ao seu lado assim como a mãe dela. Estavam ali para a reunião do Círculo. Ele estava agitado, nervoso. Sabia que teria que usar de diplomacia para explicar que a sucessora de Clow simplesmente tinha recusado a convocação.
‘Tudo vai dar certo, Eriol.’ Kaho falou, enlaçando o braço do esposo.
‘Assim espero.’ Ele falou. Virou-se para a esposa e tentou sorrir, mas estava tenso demais. Além de cansado. Havia chegado do Japão apenas na noite anterior.
‘Bem, está na hora.’ A senhora Mizuki falou, caminhando em direção à construção imponente de um castelo medieval. Tudo ali emanava magia. Vários tipos de magias.
No hall de entrada, encontraram um rapaz louro de cabelos curtos, despenteados. Assim como eles, trajava roupas formais. Eriol o cumprimentou com um gesto e o rapaz se aproximou.
‘Como vai, Eriol?’ Ele perguntou, apertando-lhe a mão. ‘Senhoras?’
‘Estamos bem.’ Eriol respondeu, tentando relaxar.
O rapaz ficou um tempo olhando para o amigo. ‘Esperávamos que a sucessora de Clow viesse com vocês.’
Kaho sentiu a tensão do marido. Sorriu para o rapaz a frente deles. ‘Ela não poderá vir. Logo tudo será esclarecido, Charles.’ Respondeu.
O rapaz franziu a testa, não gostando muito da resposta. ‘Melhor entrarmos, então. Está quase na hora.’
Atravessaram um extenso corredor e logo chegaram a um imenso salão. Eriol tentou relaxar os músculos do pescoço. Sentiu novamente a pressão da mão de Kaho em seu braço e sorriu para ela. Estava feliz em tê-la, novamente, ao seu lado. Kaho era a perfeita companheira para ele no mundo de magia.
Entraram no salão, notando que todos pararam de falar para fitá-los. Sabia que estavam esperando ver Sakura com ele. Puxou uma das cadeiras e, com um gesto, pediu para a esposa se sentar. Puxou outra para a sogra e sentou-se ao lado de Kaho.
Todos estavam em silêncio agora. O rapaz observou Yelan e outros dois membros do clã Li entrarem no salão. Cumprimentaram-se de forma discreta. Logo depois, observou Jun Tao entrando também. Imaginou que o irmão dela estaria presente desta vez, mas não. Ela estava acompanhada por outras três pessoas. Eriol semicerrou os olhos, observando a energia que envolvia os quatro. Apesar das sutis diferenças nas presenças, eram todos xamãs.
Jun vinha conversando, em japonês, com uma moça de longos cabelos cor de palha, pareciam amigas. A jovem chinesa reteve-se, por alguns segundos, observando Eriol e sorriu de leve, cumprimentando-o de forma discreta, antes de voltar a conversar com a jovem ao seu lado.
‘Aconteceu alguma coisa?’ Kaho perguntou para o esposo, tendo notado a quase imperceptível interação.
Eriol respirou fundo. ‘A situação com a Sakura saiu um pouco do controle na China. Conto para você mais tarde.’ Ele sabia que não seria bom conversarem sobre isso ali.
Ele desviou os olhos para os outros dois xamãs que acompanhavam Jun e sua amiga, mas reconheceu apenas um: Fausto VIII. Mesmo se não tivesse conversado com ele anteriormente, provavelmente o reconheceria, pois era uma figura intimidadora que emanava uma aura densa e fúnebre. Era alto e magro, mas não de forma esguia, mais parecia um esqueleto ambulante; pálido, tinha olheiras permanentes sob os olhos e os lábios arroxeados, denunciando graves problemas circulatórios.
Para surpresa dele, o xamã se aproximou. Movia-se com uma graciosidade invejável. Cumprimentou-o com um aperto de mão. Eriol sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Não gostava muito da energia xamânica. Sempre lhe dava aqueles arrepios.
‘Como vai, Hiiraguizawa?’ Perguntou de forma polida.
‘Vou bem, Fausto.’ Respondeu.
‘Ótimo.’ Ele fitou Kaho e Amaterasu, cumprimentando-as também. ‘Acho que todos estávamos esperando que trouxesse outra pessoa.’ Comentou, curiosamente.
Eriol suspirou, pensando que Sakura, realmente, tinha colocado-o numa enrascada ao recusar-se em comparecer à reunião do Círculo.
‘Estávamos esperando-a com bastante interesse.’ Eriol ouviu o outro rapaz que entrou com Jun falar. Era um jovem alto, de traços delicados e gentis olhos verdes. Encararam-se por alguns segundos até o rapaz estender a mão para cumprimentá-lo. ‘Lyserg Diethel.’ Apresentou-se, por fim. ‘Esperávamos poder conhecer o Pilar hoje.’
‘Eriol Hiiraguizawa.’ Falou, apertando a mão do rapaz. O mesmo calafrio incômodo percorreu sua espinha.
O rapaz sorriu de lado. ‘Feiticeiros não gostam muito da nossa energia.’ Disse, percebendo o sua reação. ‘Não o incomodaria tanto caso tivesse se desenvolvido nesse aspecto da magia, também.’
‘Não é isso.’ Tentou se justificar, mas viu a troca de olhares entre Fausto e Lyserg. Sabia que não os convenceria por nada. Era melhor ficar calado.
‘Jun nos falou sobre ela. Estávamos curiosos para conhecê-la.’ Lyserg voltou a comentar.
‘Sakura…’ Eriol começou a falar, mas reteve-se. ‘Ela não está ainda preparada para aceitar o poder que tem.’
‘Estas coisas acontecem quando algumas regras são quebradas.’ Fausto falou, sem passar julgamento. ‘Mas…’ Ele reteve-se por alguns segundos e voltou-se para trás, observando os outros membros do Círculo, antes de fitar Eriol novamente. ‘Se ela se recusou a participar de uma reunião como esta, já mostra que tem uma personalidade bem forte. Isso é tranquilizador.’
Lyserg sorriu de lado. ‘Além disso, ela deu uma surra em Ren. Esta realmente foi ótima.’
Kaho arregalou os olhos de leve e voltou-se para o marido, encarando-o de forma interrogativa. O que realmente tinha acontecido na China com Sakura? Fez menção de se levantar para tirar a história a limpo quando sentiu a pressão da mão de sua mãe no braço. Voltou-se para ela e a senhora fez um gesto com a cabeça, indicando que deveria perguntar em outra hora. Kaho respirou fundo e guardou a curiosidade para ser sanada depois.
Fausto também tinha no rosto um sorriso irônico. ‘Infelizmente não será desta vez que conheceremos a senhorita Kinomoto. Uma pena.’
Lyserg olhou para trás e reparou que estavam chamando a atenção dos outros membros. ‘Acho melhor ficarmos com Jun e Anna. Estão nos observando.’ O xamã falou e Fausto concordou com um gesto. Lyserg voltou-se para Eriol e cumprimentou-o com a cabeça antes de se afastar dele e das senhoras, acompanhado por Fausto.
Eriol os observou cruzando o grande salão e indo ao encontro das duas mulheres com muita altivez e segurança.
‘Eles me dão arrepios.’ Kaho sussurrou, observando-os.
Amaterasu observava-os também. ‘São apenas energias diferentes. Touya Kinomoto tinha esta mesma presença.’
Kaho confirmou com a cabeça. ‘Sim. Ainda bem que ele nunca a desenvolveu.’
‘Mesmo que tivesse, sempre foi uma escolha dele.’ A senhora falou, vendo a filha assentir.
A senhora Mizuki deu-se conta que Sakura tinha próximos a ela, alguém tanto com energia das naturezas, isto é, o Guardião, como alguém com energia sobrenatural: o irmão. Achou interessante constatar isso apenas agora, ao observar os xamãs. Olhou de esguelha para o genro. Ele também possuía aquele mesmo dom; apenas havia se tornado resistente em desenvolvê-lo. Pelo jeito, fantasmas ainda tinham o estigma de serem temidos por todos.
A senhora voltou a fitar os xamãs. Era realmente interessante a constatação de Sakura ter nascido com o dom da magia e Touya com o dom dos xamãs, sendo os dois irmãos. Olhou novamente para Eriol. Possivelmente, Clow foi um feiticeiro com habilidades xamânicas também.
A origem do poder do Pilar ainda era um mistério. Havia várias teorias sobre isso, mas talvez houvesse mais segredos do passado a serem desvendados. E, possivelmente, os xamãs poderiam ter algumas respostas. Soltou um suspiro cansado. Era melhor nem pensar nisto, arrancar alguma informação deles era quase impossível.
O salão estava em silêncio, a espera do início da sessão. Um grande relógio deu as doze badaladas, informando que era meia noite. E um senhor se levantou. Falou algumas palavras e uma aura dourada iluminou todos os membros do salão. Aquela magia servia para que todos pudessem se entender, sem a barreira do idioma. Havia, afinal, magos do mundo inteiro naquele salão.
Eriol estava tenso. Varreu os olhos pelo grande salão. Nunca tinha visto tantos detentores de magia dentro de um mesmo ambiente. Parecia que todos os membros do Círculo decidiram comparecer, o que nunca acontecia, pela expectativa de Sakura participar daquela convocação.
Num dos cantos do salão, reconheceu os representantes do Vaticano, vestidos com as batinas negras e solidéu na cabeça. Estavam em silêncio, observando a todos e tentando ser discretos, mas dava para perceber que estavam tensos. Eriol franziu a testa ao vê-los. O Vaticano sempre mandava um ou dois representantes nas reuniões regulares do Círculo, mas desta vez mandaram um grupo de dez.
Seus olhos novamente foram até os xamãs. Fora pego de surpresa pela aproximação deles. Era a primeira vez que se dirigiam a alguém durante as reuniões, pois, normalmente, apenas assistiam a tudo calados. Não era à toa que haviam chamado tanta atenção por uma simples troca de cumprimentos.
Respirou fundo e deixou o ar sair devagar pela boca, tentando manter a calma, sentia que estava prestes a enfrentar uma batalha.
‘Tudo vai dar certo, Eriol.’ A voz suave de Kaho chamou sua atenção. Virou-se para a esposa e tentou sorrir de leve, mas apenas levantou um dos cantos da boca. Ele começava a temer que, infelizmente, as coisas sairiam do controle.
Um sino tocou, informando que se iniciaria a sessão.
‘Boa noite, caros amigos. Sou o mago Garwood, mediador desta sessão. Estamos reunidos aqui para esclarecermos o que aconteceu logo depois do Caos.’ O senhor falou e fitou a reencarnação de Clow que engoliu em seco.
Sem querer, Eriol procurou Yelan com os olhos, notando que a chinesa observava a tudo com uma expressão séria. Mais séria que o habitual.
‘Esperávamos encontrar entre nós a Feiticeira Sakura Kinomoto, mestra das cartas Clow e também o Pilar deste universo.’ Garwood prosseguiu seriamente. ‘Mas vejo que ela não está aqui como deveria, Hiiraguizawa.’
Eriol se levantou. ‘Ela não pôde vir para Londres. Está tentando reerguer sua vida depois de tudo o que passou. E ela, como todos nós, tem o direito de recusar ao convite do Círculo, se assim o quiser.’
‘Ela não pode negar a responsabilidade que tem.’ Um outro senhor falou. Eriol o encarou. Era um mago alemão, Müller.
‘Ela tem o direito de decidir pela própria vida.’ Eriol rebateu. ‘Até agora, nunca fora convocada para o Círculo e, depois de todos os acontecimentos traumatizantes pelos que passou, está, sim, no seu direito tentar se afastar da magia. Ela não pediu por essa responsabilidade, nós é que a demos a ela.’
Um mago se levantou e caminhou parando no centro de todos. ‘Sabemos que continuam ocorrendo perturbações mágicas em Tomoeda. Poderia nos explicar por que a situação não está controlada, Hiiraguizawa?’
Eriol trincou os dentes. Detestava Smith, mas tinha que tentar se manter calmo. ‘Acontece o mesmo que em todos os lugares do mundo, caro colega. Sabemos que as brechas se abrem de forma aleatória no mundo inteiro e que alguns demônios de níveis inferiores passam livremente por eles. Cabe a cada Mago local defender as pessoas destes seres se eles causarem algum problema. Kinomoto, como feiticeira do lugar, está fazendo o seu trabalho e protegendo as pessoas da melhor maneira possível.’
‘Só que sabemos da existência de um demônio de nível superior vivendo lá e não entendemos o porquê de vocês ainda não o terem eliminado.’ Smith falou, encarando o rapaz.
Eriol franziu a testa, estavam falando de Syaoran. Realmente o amigo estava com uma presença muito poderosa para passar despercebido no mundo da magia.
Yelan se levantou. ‘Ele é o Guardião que voltou. Não devemos nos preocupar com isso.’
Houve um murmurinho geral. ‘Senhores! Senhores! Por favor!’ Garwood chamou a atenção de todos para que se calassem. Fitou Yelan que tinha agora toda atenção para ela.
‘Senhora Li, poderia nos explicar melhor o que está acontecendo?’
Ela respirou fundo e fitou a todos. ‘Tudo saiu conforme foi profetizado. O Caos foi evitado pelo Pilar e pelo Guardião. O retorno dele foi um acordo feito com a esfera suprema. Não devemos interferir nisto.’
‘Isso é impossível!’ Smith gritou irado. ‘Como assim? É impossível que ele tenha voltado. Todos nós sabemos que, mesmo no mundo da magia, existe esta limitação! Não podemos intervir na morte. Este é o nosso limite!’
No tenso silêncio da sala foi possível ouvir um riso abafado vindo do grupo dos xamãs.
Yelan não perdeu a calma. Olhou para o mago com uma expressão pétrea no rosto. ‘Exatamente por você não entender, não deveria se julgar conhecedor de tudo, Smith. No mundo da magia, sabemos que existem várias possibilidades. Não há limitação.’
O mago trincou os dentes. ‘Existem, sim, limitações e regras! Que devem ser seguidas por todos.’
Eriol se posicionou ao lado de Yelan. ‘Existem regras dentro deste ciclo, não dentro da magia. Syaoran Li abriu mão do paraíso e foi ao mundo das trevas procurar uma brecha para voltar para este universo ao qual sua alma pertence. Foi uma decisão acordada e permitida pelo Domínio Maior. Não haverá nenhuma interferência deles; então, enquanto ele não representar nenhum perigo para este universo, não há motivos para pânico, Smith. Controle-se!’
Smith trincou os dentes, parando a frente de Eriol e o encarando. ‘Vocês dois o estão protegendo por motivos pessoais.’
‘Se eu me deixasse levar por motivos pessoais, teria tentado intervir na profecia há muito tempo e faria de tudo para impedir que meu único filho fosse morto durante o Caos.’ Yelan falou com o rosto duro para Smith. Eriol sentiu a aura mágica da senhora aumentar. ‘Como eu falei, foi um acordo com o Plano Superior. Xiao Lang Li não representa perigo para este universo.’
Um dos representantes do Vaticano deu um passo à frente. Eriol tinha trocado poucas palavras com ele anteriormente. Seu nome era Rosas. Era um senhor de meia idade, rosto duro, de nacionalidade espanhola, que se mostrava em seu sotaque. Participava da maioria das sessões do Círculo. Era perceptível magia emanando nele além de uma presença que transmitia respeito, sabia-se que reportava direto ao Papa e andava sempre às sombras das instituições tradicionais do Vaticano. No meio do peito carregava um pesado crucifixo de prata. Era o que, popularmente, chamavam de exorcista.
Eriol sentia-se tremendamente incomodado pela presença dos exorcistas. Era ainda mais incômodo do que a presença dos xamãs e isso, vindo dele, era bastante significativo. Todos os exorcistas possuíam uma presença uniforme, padronizada e artificial. Era estranho constatar isso no mundo da magia, onde cada indivíduo tinha suas particularidades. As magias poderiam ser parecidas, similares, mas nunca padronizada daquela forma como os exorcistas todos se apresentavam.
‘Como pode ter certeza, Senhora Li?’ Ele inquiriu com o tom de voz sério. ‘Ele é um demônio agora e todos nós sabemos bem a natureza de um ser das trevas. Seres das trevas não sabem o que é dever e não são dotados de bom caráter.’
‘Meu filho tem força de caráter suficiente para não se deixar influenciar.’ Yelan retrucou.
‘A senhora é mãe. Está romantizando a situação.’ Rosas rebateu. ‘Se ele passou pelo inferno e conviveu com seres inferiores, certamente, foi corrompido e perdeu sua alma.’
‘Eu me responsabilizo por ele.’ Eriol falou com a voz firme. ‘Estamos falando do homem que abriu mão da sua vida para salvar a todos nós. Nenhum de nós fez metade do que aquele rapaz fez, então temos obrigação de dar um voto de confiança a ele.’
‘Mas por que o guardião abriria mão do paraíso, passando pelo mundo das trevas, apenas para voltar a este universo?!’ Outro mago levantou a questão.
Yelan e Eriol se entreolharam.
‘Isso não é da nossa conta.’ A reencarnação de Clow falou. ‘Os motivos dele são pessoais e não nos cabe julgá-lo.’
Charles levantou-se. ‘É da nossa conta, Hiiraguizawa, visto que isso possa colocar o nosso universo em risco. Um demônio da categoria dele pode ser muito perigoso.’
‘Os motivos pelos quais ele voltou não estão claros.’ Uma mulher falou.
‘Óbvio que são!’ Rosas novamente se pronunciou. ‘Esse rapaz sempre teve contato com a energia do mundo subterrâneo e, agora que sua alma foi liberta do corpo físico, com certeza, procurou sua origem, afastando-se de Deus.’
‘Exatamente! Ele, com certeza, foi corrompido e sua volta apenas causará destruição ao nosso mundo.’ Charles completou o pensamento de Rosas.
‘Vocês estão loucos!’ Eriol gritou com o homem que acabara de falar tamanho absurdo. `Syaoran Li morreu para evitar que este universo fosse destruído por um lunático e agora você está afirmando, de forma precipitada, que ele voltou para fazer o mesmo? Você é louco, Charles!’
‘Estávamos loucos quando colocamos esta responsabilidade em dois jovens sem preparo algum para resolver o Caos.’ Smith concluiu.
‘Então por que não deu as caras para nos ajudar?’ Eriol já tinha perdido a compostura. Sentiu Yelan segurá-lo pelo braço direito, evitando que começasse uma disputa física. Ele puxou o braço. ‘Vocês só falam e não fazem nada!’ Soltou entre os dentes. ‘Aqueles dois jovens “sem preparo algum” lutaram praticamente sozinhos e salvaram nosso universo. Vocês deviam se envergonhar!’
Kaho observava o marido, vendo-o perder a calma e a compostura. Eriol estava numa posição bem desconfortável, tentando defender Syaoran de todos os outros. Olhou rapidamente para a mãe que também mostrava-se bem nervosa com a situação.
Uma mulher se levantou e todos se calaram para fitá-la. Ela estivera, até o momento, abrindo cartas numa mesa e parecia indiferente ao falatório, mas estava atenta à discussão e às respostas que as cartas lhe davam. Era uma das mais velhas magas do Círculo e uma das mais respeitadas. Seu nome era Harmony LeFleur. Ela fitou Eriol e depois Yelan.
‘Ele voltou por causa do Pilar, não foi?’ Notando o silêncio dos dois ela continuou. ‘Não está certo o Pilar e o Guardião terem uma relação amorosa, você deveria saber muito bem disto, Hiiraguizawa. Deveria ter impedido que acontecesse.’
‘Eu tentei. Fiz de tudo para que Sakura se apaixonasse pela forma falsa de um dos guardiões das Cartas. Só que eu não pude impedir que os dois se apaixonassem.’
‘Isso é ridículo!’ Smith soltou. ‘Nunca que um homem abriria mão do paraíso e iria para o mundo das trevas apenas para voltar para uma mulher. Isso é ridículo! História da carochinha! Vocês realmente querem que eu acredite em tamanha besteira?’
‘Parece-me óbvio que o senhor é incapaz de compreender o que um homem realmente apaixonado estaria disposto a fazer pela mulher que ama, Smith.’ Fausto pronunciou-se com a voz monótona, sem ao menos dar-se ao trabalho de se levantar. O ar no salão tornou-se subitamente gélido enquanto ele falava.
Smith desviou os olhos de Eriol e encarou Fausto, sentindo um arrepio desagradável percorrer-lhe a espinha e fazendo com que seu corpo tremesse levemente. Ele realmente detestava a energia que emanava dos xamãs. Engoliu em seco, tentando manter o controle. Não poderia mostrar fraqueza.
Abriu a boca para tentar retrucar, mas sentiu a voz falhar de repente, a boca estava seca. Levou uma das mãos à garganta e franziu a testa, observando Fausto esboçar um leve sorriso irônico. Diethel tinha os olhos no mago e via-se claramente que ele tentava abafar uma risada. Apenas a jovem loira observava a tudo com o rosto sério e levemente irritado.
Eriol arregalou os olhos, vendo, com surpresa, a figura de uma mulher com longos cabelos loiros se materializar ao lado de Smith. Sentiu novamente um calafrio percorrer sua espinha. Ela tinha o rosto pálido e sério, encarava o mago e segurava sua garganta de forma que seria mortal, não fosse sua natureza etérea. Eriol olhou para o grupo de xamãs que tinham os olhos no mago e na loira. Engoliu em seco, vendo-os com rostos zombeteiros.
Notou quando uma fadinha, que estava sentada no ombro de Diethel, voou em direção a Smith. Ela parecia bem brava com ele e seus comentários. Era estranho ver um ser de contos de fadas com aquela expressão zangada e dando soquinhos no mago que não sentia nada diretamente. Olhou para a chinesa ao seu lado que observava também o ataque contra o Smith.
Yelan não gostava do mago e, em outra ocasião até se divertiria com a situação, mas agora precisava decidir o destino do filho. Olhou para o grupo de xamãs com o semblante sério e fez um sinal negativo.
Fausto concordou e a loira se afastou do mago indo em direção a ele, embora ainda lançasse um olhar fatal para Smith. A fadinha fora mais resistente. Ainda circulou o mago mais duas vezes antes de se afastar; parecia até que tinha feito uma careta. Voou até pousar de forma graciosa no ombro de Lyserg, que fitou a senhora, assentindo com a cabeça e indicando que tentariam controlar seus espíritos guardiões.
Yelan deu um passo a frente, chamando a atenção de todos. ‘Nosso problema não era apenas uma questão amorosa como vocês estão querendo colocar. Nosso problema real era que Sakura, com a energia que possui, estava desequilibrada sem a presença de Xiao Lang. O Pilar estava para se corromper.’ A senhora falou, tentando manter a calma. ‘Se Xiao Lang não voltasse, ela continuaria a oscilar. Os dois precisam permanecer juntos ou teremos muitos problemas.’
‘Isso é ridículo!’ Charles exclamou, compartilhando da mesma opinião de Smith.
‘Não!’ Harmony falou, fazendo os dois olharem para ela assustados. ‘Não consideramos este fator. Sakura Kinomoto tem o poder de alteração dos universos dentro do peito. Se ela se desequilibrar, pode realmente colocar nosso universo em risco.’
‘É responsabilidade demais para um só mago.’ Smith falou.
‘Foi a responsabilidade que o Círculo aceitou em lhe dar.’ Harmony rebateu. ‘Foi erro nosso.’
‘Sabemos que ele voltou por ela, mas será que ela o quererá de volta sabendo que é um demônio?’ Rosas falou preocupado. ‘Oras! Ela com certeza não o aceitará e ele se tornará um perigo... Ele já é um perigo.’
‘Sakura Kinomoto e Syaoran Li se amam de forma que nem eu mesmo entendo. Não importa a natureza deles, eles querem ficar juntos.’ Eriol falou.
‘Não seja um romântico idiota, Hiiraguizawa! Nenhuma mulher aceitaria um companheiro desta natureza.’ Rosas rebateu. ‘A não ser por corrupção e luxúria. O que a torna tão perigosa quanto ele.’
‘Aí que você se engana.’ Jun se levantou, pronunciando-se sobre o assunto. ‘Ela o aceitará de qualquer forma porque o ama incondicionalmente.’
A xamã sabia, pois tinha visto a determinação da garota em trazê-lo de volta e, no fundo, sentia-se infinitamente feliz em saber que ela tinha conseguido. Agora entendia aquela conversa sem pé nem cabeça do irmão, relatando tê-la encontrado no aeroporto algum tempo atrás.
‘Do que está falando, Tao?’ Rosas perguntou, olhando para a jovem que estava em pé à frente dos colegas. ‘E, pelo que eu saiba, vocês e os Li não são muito amigos.’
Jun rodou os olhos com o comentário idiota. ‘Nossa rixa com os Li não vem ao caso, Rosas. Você, mais que ninguém, deveria saber que perdoar é uma das dádivas que nos aproximam do mundo superior.’ Falou com sarcasmo. Observou o rosto do homem se contorcer de raiva. ‘Estamos aqui por um motivo bem maior.’ Disse com a voz firme. ‘Conheci Kinomoto. Se Li não voltasse, ela tentaria trazê-lo de volta sob qualquer outra forma.’
‘Isso é…’ Um feiticeiro tentou interrompê-la, no entanto, Jun levantou a mão pedindo para continuar.
‘Não vejo perigo nenhum vindo dos dois. Vocês todos estão é com medo do poder deles e do que eles podem vir a fazer, não do que eles estão fazendo.’ Explicou de forma franca. ‘Kinomoto nem se deu ao trabalho de vir até aqui. Ela quer apenas seguir a vida dela em paz. Será muito mais perigoso se nos colocarmos contra eles. Se um homem abriu mão do paraíso para voltar à mulher que ama, o que acham que ele será capaz de fazer quando souber que estão arquitetando contra eles? Não sejam ingênuos, caros senhores, os dois têm poderes que vão além do que temos aqui.’
O salão ficou em silêncio. Um silêncio incômodo. Yelan cumprimentou Jun, agradecendo de forma discreta a intervenção dela. Eram de lados opostos, mas a jovem tinha se mostrado muito superior à rixa familiar.
‘Então os dois são um perigo para a existência deste universo.’ Finalmente Smith falou trincando os dentes.
O que aquela mulher queria agora? Por que não ficara calada? Todos sabiam que os Tao e os Li eram inimigos. Por que se manifestava em defesa de Kinomoto e Li naquela questão?
‘Eles se sacrificaram para proteger este universo, Smith.’ Eriol rebateu. ‘Está na hora de deixá-los em paz.’
‘Até que eles resolvam destruir tudo?’
‘E por que fariam isso? Eles poderiam muito bem ter ignorado o dever deles e continuado com suas vidas. Ao invés disso, arriscaram tudo ao lutarem contra o Caos. Você não está ponderando as coisas direito.’ O jovem retrucou, ajeitando os óculos no rosto. ‘Não há nenhuma evidência que Sakura e Syaoran são ameaças para o nosso universo.’ Declarou com a voz firme.
Garwood observou o mago e concordou com a cabeça. ‘Hiiraguizawa está certo. Não há evidência alguma.’
‘Não sabemos quais as verdadeiras intenções de um ser das trevas. Além disso, ele pode enlouquecer.’ Charles ainda falou, não se dando por vencido.
‘A história já nos deu provas que não devemos confiar num ser das trevas.’ Rosas novamente falou.
‘A história também já nos deu provas que não devemos confiar nos seres humanos.’ Eriol rebateu, rodando os olhos. ‘Eu já falei que me responsabilizarei por eles. Não vou admitir que ninguém interfira na vida dos dois. Sakura e Syaoran já sofreram demais.’
‘Você está envolvido emocionalmente nisto, Hiiraguizawa.’ Smith comentou.
‘Ele está certo! Não podemos confiar em você.’ Charles apoiou o outro mago.
‘Clow previu o caos. Conseguimos evitá-lo graças aos dois. Agora precisamos dar uma chance a eles. Eles abriram mão de muita coisa por nós. Devemos isso a eles.’
‘Não podem ficar juntos. O Pilar e o Guardião não deveriam ter uma relação amorosa. Isso é perigoso demais!’ Harmony novamente levantou o tópico.
‘E como vocês propõem controlar sentimentos tão humanos?’ Jun novamente chamou a atenção para si. ‘Não sejamos soberbos. Isso, sim, está além da influência da magia.’
Jun observou aquele grande grupo de magos discutindo a vida de duas pessoas que não estavam nem aí para eles. Pensou por um momento no irmão e em sua aversão àquele tipo de cerimônia. Tinha que dar certa razão para Ren. Eles, às vezes, eram uns idiotas arrogantes. Olhou para Hiiraguizawa e pensou que o rapaz estava realmente numa situação bem complicada, tanto ele quanto a matriarca dos Li.
Verdade que tinham uma rixa quase milenar com o outro clã, mas, depois de ver a jovem feiticeira lutar de forma desesperada por uma fagulha de esperança de ter o homem que amava de volta, não tinha como ela se manter indiferente. Tinha gostado de Sakura Kinomoto e saber que, de alguma forma, ela tinha conseguido trazer o amado de volta lhe dava uma esperança única de, quem sabe um dia, ser feliz com seu verdadeiro amor. Na magia, não havia limites, assim como no amor.
Garwood novamente pediu a palavra. ‘A senhorita Tao tem razão. Erramos no momento que não consideramos esta possibilidade, pois como o senhor Hiiraguizawa levantou, Clow havia planejado um enlace amoroso da sua sucessora com a forma falsa de um dos guardiões das Cartas. Fomos prepotência considerar que era possível manipular um sentimento como o amor.’
‘Eu não acredito que você se deixará influenciar por bobagens românticas, Garwood!’ Smith falou com raiva. ‘Isso é absurdo!’ Novamente o feiticeiro sentiu um arrepio e uma pontada de dor. Estava sentindo o corpo todo dolorido.
Eriol sorriu de lado, ao ver a fadinha de Diethel voar em direção ao mago, dando um rasante e voltando a golpeá-lo como uma bala. Realmente detestava Smith, então, diferente de Yelan, estava mesmo se divertindo com aquilo. Ele merecia. A fadinha, depois de satisfeita, voava ao lado do mago, com o olhos fixos nele. Parecia pronta para voltar a atacá-lo a qualquer momento.
‘Não fale do que não tem conhecimento, Smith.’ Eriol falou, de maneira controlada.
Por mais satisfatório que fosse assistir a Smith apanhando da fadinha, não podia negar que ainda sentia vontade de pulverizar aquele idiota que estava plantando aquele pânico absurdo dentro do Círculo.
Smith encarou o mago com o rosto sério. ‘Acho que quem não tem conhecimento de nada aqui é você, Hiiraguizawa. Tudo o que você previu deu errado.’
Eriol deu um passo à frente, devolvendo a encarada. ‘E você? O que você fez, além de ficar aqui falando e reclamando?’ Falou de forma baixa. ‘Eu respondo! Você não fez nada!’
Todos do Círculo perceberam a aura dos dois magos elevar-se rapidamente, estavam para começar um duelo a qualquer momento. Garwood, como mediador, teve que intervir.
‘Senhores! Senhores! Por favor! Acalmem-se!’
Yelan parou ao lado de Eriol assim como Charles parou ao lado de Smith numa clara demonstração de apoio. E, assim, um a um vários magos se posicionaram ao lado de um ou do outro. Rosas parou logo atrás de Smith, olhou severamente para os representantes do Vaticano que, um a um, posicionaram-se a favor de Smith. Harmony ficou na dúvida e se posicionou, assim como Garwood, no centro. Jun, para espanto de todos, parou ao lado da Sra. Li. Kaho e a senhora Mizuki se levantaram, posicionando-se ao lado de Eriol.
Jun observou os três amigos num canto do salão. Estavam calados, apenas observando a discussão. Anna se mostrava, inclusive, entediada. Ela detestava aquelas discussões sobre a vida alheia. A jovem senhora Asakura se levantou e caminhou até o centro parando ao lado da amiga.
‘Humph… Vocês se metem demais na vida dos outros.’ Ela falou incomodada para Smith e seus aliados.
Fausto e Lyserg também se manifestaram em silêncio, posicionando-se ao lado das amigas. Os quatro se entreolharam.
O posicionamento dos xamãs fez com que mais alguns magos tomassem o partido de Eriol. Yelan observou os anciões do Clã e franziu a testa. Percebeu que ficaram ao seu lado a contragosto. No final, vários magos se mantiveram neutros. Os dois lados estavam equilibrados. Garwood e Harmony entreolharam-se, precisavam decidir aquela disputa ou sabiam que poderiam quebrar o Círculo e isso seria sinônimo de enfraquecimento.
Harmony observou Smith por alguns minutos. Não gostava do mago, achava-o por demais arrogante. Ponderou que uma representante dos Tao havia se declarado a favor de uma questão dos Li. Isso realmente havia sido uma grande surpresa e era algo sem precedentes.
Além disso, tinha visto, pela primeira vez, em todos os seus anos no Círculo, os xamãs se manifestarem em uma discussão. Eles sempre se mostraram indiferentes às outras questões. Havia sempre um grupo de quatro representantes dos xamãs nas reuniões, mas contentavam-se a estar ali meramente como ouvintes e nunca tomavam partido. Enquanto discutiam sobre o Caos, antes dele acontecer, os xamãs apenas mantiveram-se calados. Como se soubessem exatamente o que aconteceria. Inclusive, pareciam também saber o que estava acontecendo agora.
Por fim, Harmony deu um passo para frente, parando ao lado de Yelan e finalmente tomando uma posição.
Smith trincou os dentes. Estava em desvantagem. Olhou para Garwood esperando que o senhor tivesse mais bom senso, arregalou os olhos ao observar o homem caminhar até ele, colocando-se a favor de Hiiraguizawa também. Tinha perdido. Os outros membros do Círculo mantiveram-se nos seus lugares não se posicionando em nenhum lado.
A maioria venceu. Foi decidido ali, de forma silenciosa, que o Círculo, oficialmente, deixaria Sakura Kinomoto e Syaoran Li em paz.
Só não contavam novamente, com outro sentimento muito humano: a arrogância de Smith que não se daria por vencido.
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Syaoran observava a namorada estudando na sala. Estava debruçada em cima da enciclopédia quase a tarde inteira. Estava se esforçando para cumprir a palavra que tinha dado ao irmão de que não reprovaria mais nas matérias da faculdade. Sorriu de lado.
Sakura, como uma feiticeira, poderia usar métodos muito mais fáceis para passar na matéria do senhor Sasaki, mas estava ali como uma jovem normal estudando de forma exaustiva. Ela levantou o rosto e sorriu, sabia que ele estava ali, parado, olhando para ela há algum tempo.
Syaoran sentiu-se encabulado em ter sido flagrado admirando-a. Abriu a boca, tentando achar uma desculpa, mas nada vinha a sua cabeça naquela hora. Desistiu e caminhou até a mesa, sentando-se na cadeira em frente a ela.
‘A prova é quando?’ Perguntou.
‘Semana que vem.’ Ela falou, esticando as costas para relaxar um pouco. ‘Estou apenas fazendo uma revisão. Acho que tirando uma nota acima de oito consigo a média mínima para passar. Fui muito mal na primeira prova.’ Falou, sentindo-se um pouco envergonhada e desviou os olhos dele. ‘Mas agora tenho certeza que vou conseguir’ Concluiu, sorrindo para ele.
Ele sorriu de leve, apesar de se sentir mal com a colocação dela. Bateu as mãos rapidamente na mesa e se levantou. ‘Vou deixar você estudar. Quer um chá?’ Perguntou, já se levantando e caminhando em direção a cozinha.
‘Se for fazer para você, também vou querer. Pode ser chá verde?’
‘Está bem. Farei para nós.’ Ele concordou, entrando na cozinha.
Ela sorriu mais ainda, observando o rapaz se afastar até desaparecer da sua vista entrando na cozinha. Voltou-se para o livro que tinha nas mãos e suspirou. Fechou os olhos rapidamente, era felicidade demais estar ali com ele. Aquela matéria chata não seria um percalço na sua felicidade.
A campainha tocou e ela desviou a atenção dos livros.
Syaoran apareceu na porta da cozinha. ‘Está esperando alguém?’ Ele perguntou, fitando-a.
Ela se levantou devagar, respondendo que não com um gesto.
O rapaz caminhou até a entrada da casa, com o rosto sério, e abriu a porta. Surpreendeu-se ao deparar-se com a prima na sua frente. ‘Mei Ling?’
A chinesa levantou o rosto e arregalou os olhos, encarando o primo. ‘Xiao Lang?!’ Eles ficaram um tempo fitando-se, até a jovem soltar uma gargalhada. ‘Sakura está maluca em deixar uma Carta abrir a porta para as visitas! Cadê sua mestra?’
‘Hã...’ O rapaz não soube direito o que falar quando a prima concluiu que ele era uma das cartas de Sakura.
A jovem o empurrou de leve e entrou na casa com aquele jeito dela. Encarou a amiga de olhos verdes e sorriu para ela que se mostrava surpresa por ver a chinesa ali no meio da sua sala. Meilyn fez um gesto indicando Syaoran com um rosto sério para a amiga.
‘Se você continuar a usar as Cartas desta maneira, Xiao Lang vai ficar muito triste.’ Ela falou com tom de reprovação enquanto se aproximava da amiga. ‘Você precisa deixá-lo descansar em paz e tocar sua vida para frente, Sakura.’
‘Meilyn…’ A feiticeira começou a falar, tentando explicar para ela que o rapaz realmente era Syaoran e não uma carta. ‘Você está entendendo errado.’
‘Não estou, não. Não está certo você usar as cartas desta maneira. Isso…’ Falou, apontando para o primo que se mantinha calado, só observando a interação das duas. ‘Não é o Xiao Lang. Não está certo você ficar usando magia para criar uma imagem dele como se ele ainda estivesse vivo. Você vai acabar maluca de verdade, Sakura.’ Falou, com preocupação.
‘Meilyn…’ Sakura tentou, novamente, chamar a atenção da jovem, mas ela parecia que ainda não tinha terminado seu discurso.
‘Estou falando sério, Sakura. Preocupo-me com você. Sei que está sendo dolorido. Você foi embora da China e nem se despediu de mim, mas tudo bem, eu entendo. Você estava chateada com a tia Yelan e com aquele bando de anciões idiotas e babacas… Eles são babacas, mesmo… Eu perdoo você por isso. Mas você ficar com esta fissura pelo meu primo, morando com uma cópia dele é por demais insano, não acha?’ Falou, inclinando-se em direção à amiga e olhando-a nos olhos. ‘O que mais você anda fazendo com esta carta, Sakura?’
A Feiticeira arregalou os olhos, sentindo as faces esquentarem. ‘Hei! Meilyn! Você é que está ficando maluca agora!’ Falou completamente constrangida. Olhou para o namorado que estava calado, observando a tudo e, no fundo, divertindo-se. ‘Dá para você explicar para ela, Syaoran?’
Meilyn balançou a cabeça de leve. ‘Sakura… Agora estou aqui com você… Vou ajudá-la.’
‘Syaoran!’ Sakura chamou o namorado, novamente, batendo o pé para que ele fizesse alguma coisa.
O rapaz caminhou até a prima e pousou a mão no ombro da prima que se virou para ele com o olhar desconfiado. ‘Sou realmente eu, Mei Ling. Não é uma carta Sakura.’
‘Ah, sim… Claro…’ Falou sem acreditar. Voltou-se para a amiga. ‘Ele imita direitinho o Xiao Lang, mas não é ele. Você precisa aceitar. Mas não se preocupe… A poderosa Mei Ling está aqui e cuidará de tudo.’ Ela voltou-se para o rapaz com o rosto duro. ‘Pode voltar a sua forma de carta. Agora eu estou aqui para cuidar e controlar a sua mestra. Vamos… Volte lá para aquela forma… Dá arrepios ficar vendo você na forma do Xiao Lang.’ Ordenou pela segunda vez.
‘Mei Ling…’ O rapaz começou a falar, pensando no que fazer para convencer a prima que era ele mesmo. De repente, franziu a testa. ‘Hei… O que você está fazendo aqui que não está com seu marido?’
‘Ah-ah… Carta espertinha…’ Ela falou, voltando-se para a amiga. ‘Viu? Está dando muita liberdade para elas… Olha só! Está até começando a desviar do assunto principal que é obedecer a sua mestra. Vamos logo, espertinha… Não começa com essa lenga-lenga…’
‘Não desvie você do assunto… Não deveria estar aqui Mei Ling. Onde está Hyo Ling?’
Meilyn franziu a testa, observando a imagem do primo a sua frente. Inclinou o corpo e semicerrou os olhos no rosto dele. ‘Você está muito parecido com ele… Não estou gostando disto.’
O rapaz inclinou-se e encarou a prima. ‘Porque eu não sou uma carta, Mei Ling. Então não me enrole e diga logo o motivo de estar aqui, em outro país, sem o seu marido.’
A jovem arregalou os olhos e deu um passo para trás. ‘O-o que está acontecendo aqui?’ Estava assustada com a postura, do que até agora supunha, ser apenas uma criatura mágica. Desviou os olhos do rosto de Syaoran e fitou a amiga que se mostrava nervosa sem saber direito o que falar. ‘Sakura?!’ Chamou a amiga em busca de uma explicação.
‘Ele voltou, Meilyn.’ Ela falou simplesmente.
Meilyn voltou a fitar o primo com o rosto sério. ‘Voltou…’ Ela repetiu devagar. ‘De onde?’
‘Eu voltei, Mei Ling.’ Syaoran repetiu com a voz suave e não respondendo a pergunta da jovem. Não seria legal falar que tinha ido para o inferno.
‘Ah, meu Buda!’ Ela exclamou, pulando para trás com as mãos na boca. ‘Não… Não é possível!’ Falou sem acreditar. ‘O que você fez, Sakura?!’
‘Ela não fez nada, a decisão foi minha.’ Ele respondeu pela namorada.
‘Como assim?!’ Meilyn agora tinha o tom de voz alto, mostrando que estava completamente chocada com a descoberta. ‘Por que a tia Yelan não falou nada?’ Voltou-se para o primo, completamente desorientada, enquanto os olhos ardiam. ‘Não é possível! Eu!!’ Ela falou, apontando para si. ‘Eu preparei o seu corpo!’ Ela sentiu que começava a tremer. ‘Você está maluco, Xiao Lang?! Vocês dois…’ Apontou para os dois. ‘Estão malucos em brincarem com algo assim.’
‘Ninguém está brincando aqui, Mei Ling.’ Syaoran falou sério.
Sakura foi até a amiga e a segurou pelos ombros para tentar acalmá-la. ‘Meilyn, acalme-se agora…’
‘Acalmar-me?! EU? COMO?’ Ela gritou, afastando-se da jovem. ‘Como é que você me aparece morto e agora está aqui?’ Continuou encarando o primo. ‘Que brincadeira foi aquela, Xiao Lang?!’ Perguntou, secando as lágrimas que saíam dos olhos e tentando manter ainda a sanidade.
‘Não planejei nada disso, Mei Ling.’ Ele tentou novamente explicar para a prima. ‘Foi complicado… Mas eu consegui voltar.’
‘E por que não falou nada? Por que vocês não falaram nada?’
‘Falar para quem, Mei Ling?’ Ele aumentou o tom de voz. ‘Avisar para aquele bando de idiotas, como você acabou de chamar? Para eles, eu quero continuar morto.’
A jovem olhava do primo para a amiga e da amiga para o primo, ainda sem conseguir acreditar no que seus olhos estavam vendo. Deu um passo à frente e tocou no braço dele, retraindo-se assustada em seguida.
Syaoran teve que achar graça. A prima tinha feito o mesmo que Tomoyo quando o encontrou pela primeira vez.
Ela o tocou novamente e sorriu, com lágrimas ainda escorrendo de seus olhos. Deu um passo à frente e o abraçou com carinho. ‘Você é um idiota, Xiao Lang. Por que me deu um susto desses? Foi uma merda ter que arrumar o seu corpo.’
Syaoran sorriu e abraçou a prima com carinho. ‘Eu sinto muito, Mei Ling.’ Falou com sinceridade. ‘Imagino que não foi legal arrumar tudo.’
‘Foi um dos piores momentos da minha vida.’ Ela falou, apertando-o mais forte. ‘Hyo Ling me ajudou mesmo sendo contra as regras.’ Ela falou e tremeu ao mencionar o nome do marido.
Syaoran franziu a testa, realmente pelos costumes chineses o primo não poderia participar de nada. Apenas os mais novos que Syaoran. Nem mesmo sua mãe, Yelan, poderia prestar qualquer homenagem a ele. Sendo filho caçula, solteiro e sem filhos, não se surpreenderia se seu corpo fosse cremado. Bem… Não que fizesse diferença agora, já que ele tinha sido desintegrado pela carta Névoa. Agora tudo tinha acabado.
Apertou a prima nos braços e beijou a cabeça dela, com carinho. ‘Obrigado, Mei Ling.’ Agradeceu.
‘Não faça mais isso comigo. Não vou conseguir passar por tudo novamente.’
Sakura sorriu aliviada pela amiga, finalmente, ter acreditado que o rapaz era o primo dela. Não saberia explicar exatamente o que aconteceu, e verdade seja dita, desde que Syaoran voltou tentava não pensar em tudo que eles passaram. Estavam tentando reerguer suas vidas, juntos.
Meilyn se afastou do primo e secou os olhos. Não gostava de chorar na frente de ninguém e muito menos dele. ‘Você é um idiota.’ Repetiu, fungando.
‘Também estou feliz em ver você, Mei Ling.’ Ele falou, sorrindo e a viu abrir um sorriso para ele. ‘Mas ainda não respondeu o que está fazendo aqui sem o seu marido.’ Ele voltou ao ponto.
Conhecia o seu clã e sabia que, se ela estava ali, desacompanhada do esposo, era porque tinha acontecido alguma coisa. Reparou que ela desviou os olhos dele e respirou fundo.
Meilyn engoliu em seco e fechou os olhos rapidamente. Respirando fundo, abriu-os e encarou o primo. ‘Eu fugi.’ Respondeu por fim. ‘Não tinha para onde ir então vim para cá. Fui até o alojamento da Tomoyo, mas ela não estava lá, então a procurei na mansão Daidouji.’ Olhou para Sakura. ‘Lá a sua tia me deu seu endereço, Sakura.’ Ela falou de uma vez só. ‘Ainda bem que ela se lembrou de mim.’ Completou. ‘Eu pretendo ficar pouco tempo no Japão. É só para eu pensar no que vou fazer da vida e…’
‘Hei, hei, hei…’ Syaoran a interrompeu. Ela tinha engatado a terceira e não dava espaço nem para ela mesma respirar. ‘Você fugiu?’
Meilyn ficou um tempo calada. ‘Fugi.’ Confirmou.
‘Fugiu?’ Ele não acreditava. ‘Fugiu de quem? Hyo Ling? O que ele fez? O que aquele idiota fez?’ O rapaz perguntou nervoso.
Sakura pousou uma mão no ombro do namorado, pedindo para ele ficar calmo. Nervoso não conseguiria ajudar a prima. ‘Meilyn…’ Ela chamou, segurando as mãos da amiga, sentindo-as tremer. ‘Venha.’ Disse, puxando-a para o sofá. ‘Sente-se aqui…’ Ela voltou-se para o namorado. ‘Syaoran, termine de fazer o chá… De camomila, certo?’
‘Chá?’ Ele perguntou, sem entender. Aquilo não era hora de pensar em chá.
‘Sim… O chá!’ Sakura repetiu. ‘Traga-o para nós. A Meilyn vai contar com calma o que aconteceu enquanto bebemos chá.’ Ela falou devagar, fitando o namorado que se mostrava completamente incomodado por não ter as respostas na hora que ele queria.
O rapaz bufou, mas foi até a cozinha preparar o chá que tinha iniciado. A água já deveria ter fervido mesmo, então seria rápido.
Meilyn sentou-se no sofá e Sakura sentou ao lado dela. Pegou um lenço e entregou à jovem para que ela secasse as lágrimas. Aguardou o namorado voltar com a bandeja ajeitada de qualquer maneira para ser o mais rápido possível. Ajoelhou-se e começou a servir, com calma.
Syaoran sentou-se na poltrona a frente delas com os braços cruzados, esperando pelas explicações da prima. Se Hyo Ling tivesse batido na prima, pegaria o primeiro voo para a China e acabaria com a raça dele. Se algum dos anciões tivesse feito algum mal à ela, também já estava pensando em como acabar com a raça de cada um deles. Estava levemente tentado a ir lá logo e pulverizar todos da face da Terra de uma vez.
Sakura olhou para o namorado com o rosto sério. ‘Fica frio!’
Ele sabia que sua aura provavelmente tinha aumentado e ela, com certeza, percebera que ele estava nervoso e irritado. Ele bufou, novamente.
Ela estendeu uma xícara de chá para ele, encarando-o. ‘Não adianta ficar nervoso. Acalme-se.’ Ela pediu.
Ele concordou com a cabeça. Fechou os olhos e respirou fundo, tentando se controlar. Sakura serviu Meilyn que agradeceu timidamente. Ficaram em silêncio, dando tempo para a jovem chinesa se sentir bem para começar a falar.
Sakura reparou que o namorado estava uma pilha de nervos. Ultimamente Syaoran perdia a paciência com muito mais facilidade do que antes. Ela ainda não estava certa sobre a relação daquela mudança de humor do namorado e a agitação de suas cartas, mas sabia que, de alguma forma, isso estava interligado. Era melhor ele ficar frio.
Syaoran arregalou os olhos, vendo a presença da namorada aumentar de forma rápida e envolvê-lo, transmitindo-lhe uma sensação de paz e fazendo-o relaxar. Sorriu de lado, ela estava tentando controlá-lo, ou melhor, controlar sua irritabilidade. Olhou para a jovem que sorriu para ele. Ela realmente era incrível. Desviou os olhos da namorada para a prima que finalizava a xícara de chá e se inclinou a frente para repousar a xícara na mesinha de centro.
Ela sentou, encostando-se no sofá e encarou o primo. ‘Hyo Ling não tem culpa. Ele não tem culpa nenhuma.’
O rapaz franziu a testa. ‘Certo… Então, por que fugiu?’
‘Eu não posso ter filhos.’ Ela falou de uma vez e engoliu em seco.
Syaoran arregalou os olhos de leve, observando a prima. Sabia o que exatamente isso significava no clã. Trincou os dentes.
Sakura pegou as mãos de Meilyn entre as suas, chamando a atenção da jovem. ‘Como você pode ter certeza?’ Ela perguntou. ‘E, mesmo que isso realmente seja verdade, não é motivo para você fugir, Meilyn.’
Meilyn tentou sorrir para a amiga. ‘Eu tenho certeza. Fizemos todos os exames. O problema sou eu.’
‘Não pode encarar isso assim, Meilyn.’ A amiga continuou. ‘Existem tratamentos, existem outras opções. Não é motivo para você fugir do seu país como uma criminosa.’
A chinesa balançou a cabeça de leve. ‘Você não entende… Hyo Ling foi proclamado patriarca do Clã. Ele precisa de uma esposa que possa lhe dar filhos.’ Ela falou de forma baixa, os lábios tremiam indicando que estava prestes a cair no choro novamente, mas tentava se controlar. ‘Ele merece uma esposa melhor do que eu.’
‘Ele é louco por você, Meilyn!’ Sakura argumentou, aumentando o tom de voz. ‘Você está ficando maluca?’ A feiticeira falou, levantando o rosto da chinesa pelo queixo para que ela pudesse olhá-la de frente. ‘Ele é completamente apaixonado por você.’ Repetiu devagar.
Meilyn sorriu tristemente. ‘Eu sei… Mas… Eu fugindo, será abandono de lar. Ele estará livre para casar com outra mulher que possa lhe dar filhos. Ele não pode continuar preso a mim.’ Explicou, voltando a fitar um ponto qualquer da sala.
Sakura desviou os olhos da amiga e fitou o namorado que se mantinha calado. Ele não falava nada e, no fundo, isso incomodou a jovem. Eles se fitaram e o rapaz respirou fundo, desviando os olhos da feiticeira. Não sabia bem o que fazer. Sakura franziu a testa com a reação dele. Voltou-se para a amiga.
‘Ele sabe?’ A ruiva perguntou e viu a chinesa negar com a cabeça. ‘Então, você simplesmente tomou a decisão sozinha. Descobriu, ou concluiu precipitadamente, que não poderia ter filhos e resolveu fugir sem dar nenhuma explicação para ele.’ Sakura reparou que a jovem encolheu-se. Ela tinha acertado exatamente o que tinha acontecido. ‘Pelo jeito você é tão ou mais cabeça dura que o seu primo, não é?’
‘Hei!’ Syaoran estava pronto para se defender, mas recebeu um olhar fatal da namorada, literalmente, mandando-o ficar quieto agora. Praticamente ouviu a voz de Sakura lhe dizendo que, se não fosse ajudar, que não atrapalhasse. Bufou e virou o rosto.
Meilyn fitou a amiga a sua frente. Simplesmente era impossível não se encantar com aquela jovem de olhos glaucos. Ela era especial demais. ‘Você não entende, Sakura. A China, o Clã... Há muitas regras.’
‘Não tem como eu entender, Meilyn. Não tem como entender como uma mulher e um homem que se amam não podem ficar juntos por causa de meia dúzia de regras que um bando de babacas, como você os definiu pouco tempo atrás, criaram. Você não pode resolver as coisas desta maneira, fugindo delas. Dê uma chance para o seu marido decidir. Dê uma chance para vocês dois decidirem, juntos. Se ele não a quiser… O que eu duvido muito, por causa de um problema desses, então ele não a merece e, realmente, o melhor que você fez foi fugir dele.’ Ela falou de uma só vez. ‘Mas dê uma chance dele saber a verdade.’
Meilyn balançou a cabeça de leve. ‘Não é justo ele decidir entre mim e o Clã.’ Ela tentou fazer a amiga entender. ‘Ser o patriarca era o objetivo da vida dele. Ele merece. É o mais bem preparado.’ Ela voltou-se para o primo. ‘Você sabe o quanto é importante para todos que ele se mantenha como o líder.’
Syaoran se ajeitou melhor na poltrona. Ele sabia que realmente era importante o primo ficar onde estava. O clã precisava de um novo líder que enfraquecesse o poder dos anciões que controlavam a vida de todos. No fundo, o primo assumiu uma responsabilidade que era dele e isso o incomodava. Já teve responsabilidades demais na sua vida. Ele estava, teoricamente, morto.
Além disso, incomodava-lhe um pouco a inércia de todos com relação à postura dos anciões. Eles eram um bando de velhos babacas; os primos, tios e todos deveriam também se tornar mais ativos e não tão passivos das decisões. Era responsabilidade demais para uma pessoa apenas.
‘Syaoran?’ Sakura o chamou, esperando uma resposta do namorado.
Ele a fitou, ainda mantendo-se calado por alguns instantes. Colocou-se no lugar do primo e pensou no que sentiria se Sakura simplesmente o abandonasse sem dar justificativas. ‘Acho que você deveria deixá-lo decidir isso, Mei Ling.’ O rapaz falou por fim. ‘Esta é uma decisão tão dele quanto sua.’
Meilyn arregalou os olhos, fitando o primo. ‘Mas você entende que…’
‘Eu entendo!’ Ele a interrompeu. ‘Mas ainda assim, é uma decisão dele.’
A chinesa se levantou e encarou o primo. ‘Você sabe muito bem que uma mulher que não pode ter filhos é considerada…’ Ela reteve-se por alguns segundo e trincou os dentes. Balançou a cabeça com força. ‘Você sabe disso, Xiao Lang. Hyo Ling precisa ter filhos. Senão…’
‘Por que não deixa ele decidir isso?’ Syaoran perguntou com a voz suave.
‘Porque não é justo!’ Ela gritou.
‘Isso é o que você acha.’ Sakura interveio.
‘Você não entende!’ A chinesa gritou novamente. ‘Vocês não querem que eu fique aqui, é isso?’
Syaoran e Sakura se levantaram ao mesmo tempo. A chinesa tinha entendido errado.
O rapaz foi até ela e segurou seus braços. ‘Você pode ficar aqui o tempo que quiser, Mei Ling.’ Esclareceu. ‘Eu acho apenas…’ Ele fez uma pausa e suspirou, não adiantaria falar nada. A prima era cabeça dura como ele. ‘Faça o que achar melhor.’ Disse e olhou para a namorada que entendeu o que ele quis dizer.
Também pensava o mesmo. Meilyn não recuaria. Tentaria aos poucos convencer a amiga. Forçá-la agora seria inútil.
‘Vou preparar o quarto de hóspedes para você, Meilyn. Você pode ficar conosco o tempo que quiser.’ Sakura falou com a voz suave.
A chinesa olhou para a amiga. ‘Eu não quero atrapalhar vocês. Pensei que estivesse morando com Tomoyo.’ Ela olhou para o primo. ‘Vocês foram bem apressadinhos, não é?’
Sakura sorriu. ‘Não tinha mais porque perdermos mais tempo.’ Ela respondeu com um sorriso.
Continua.
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