FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 27

Maus Presságios

O despertador do quarto tocou na mesinha de cabeceira. Sakura levantou a mão e bateu no relógio, desligando-o. Suspirou pensando que tinha que se levantar cedo hoje. Tinha que treinar com o time de vôlei para o jogo no próximo mês contra a universidade de Tókio. Se as jogadoras não estivessem bem entrosadas, elas seriam massacradas pelo time adversário. Suspirou sentindo-se cansada. Rolou na cama e observou Syaoran dormindo ao seu lado. Sorriu. Sentia-se tão feliz em tê-lo ao seu alcance depois de tantos desafios.

Lembrou-se do tempo em que ele esteve morto, tinha sido um verdadeiro inferno acordar todos os dias e pensar que não o veria mais. Não tinha vontade de levantar da cama. Não tinha mais vontade alguma de fazer qualquer coisa. Tinha feito muitas loucuras, tomara decisões das quais se arrependeu, mas não valia a pena continuar se martirizando. Era passado. Tudo era passado e agora a única coisa em que conseguia pensar era num futuro com ele. Ao lado dele.

Franziu a testa observando o rosto amado e lembrando-se do que ele tinha lhe falado ontem. Syaoran estava com medo de não ser mais humano. Isso não importava para ela. Ele poderia ser qualquer coisa que ela continuaria amando-o da mesma maneira, mas sabia que ele estava se sentindo inseguro. Talvez ele tivesse razão, um filho agora seria bem vindo para tirar algumas das dúvidas da cabeça dele. Mas também seria muita responsabilidade para uma criança. Isso não seria justo. Fechou os olhos e suspirou novamente.

‘Terceiro suspiro.’ Ele falou de repente. ‘Está tão difícil assim de sair da cama?’

Ela sorriu e se aproximou dele que a envolveu em seus braços. ‘Com você aqui fica difícil sair dela.’ Respondeu manhosa enquanto encaixava o rosto no pescoço dele.

‘Não é me provocando que vai ficar mais fácil.’ Ele falou, sorrindo e sentindo que ela beijava seu pescoço. ‘Assim não vou deixá-la sair.’

‘Talvez seja esta a minha intenção’. Ela sussurrou no ouvido dele, com a voz rouca.

Ele sentiu um arrepio percorrer a espinha. Abriu os olhos, olhando para o relógio. Chegaria atrasado para a primeira aula do dia. Que se dane! Procurou os lábios da feiticeira, beijando-a e a apertando mais forte contra o corpo.

‘Você vai me enlouquecer.’

‘Pois repito que esta é a minha intenção.’ Ela respondeu, beijando-o.

‘Está conseguindo.’ Ele respondeu, já tirando a camisola dela e passando-a pela cabeça da jovem.

Ela sorriu para ele, deslizando a mão pelo rosto amado. ‘Eu te amo.’ Falou e o viu sorrindo.

Era sempre maravilhoso ouvi-la falando que o amava. Syaoran a beijou novamente, ficando por cima dela e levando a mão até a gaveta para pegar um preservativo, mas ela segurou o braço dele.

‘Não. Não vamos mais usar.’

Ele a fitou de forma profunda. ‘Você tem certeza?’

Ela confirmou com a cabeça. ‘Vamos deixar que as coisas aconteçam, Syaoran. Vamos parar de nos preocupar tanto.’

Ele confirmou com a cabeça e sorriu para ela. Sakura era maravilhosa. Beijou-a novamente com todo amor que sentia por aquela mulher.

‘Wǒ duìnǐ gǎnxìngqu’ (Eu adoro você). Falou com os lábios contra os dela.

‘Wǒ ài nǐ.’ (Eu te amo) Ela sorriu e ele voltou a beijá-la.

Não se cansaria nunca de beijar e sentir o gosto dela. Sakura era como parte dele, ficar longe dela era como ter pedaços de si faltando. Sentia-se incompleto. Era doloroso demais. E unir-se a ela era como se finalmente estivesse completo, além de ser imensamente prazeroso.

Tinha medo de perdê-la novamente, de ser afastado dela. Quando estava na forma de espírito, correndo atrás dela, podendo vê-la, mas não podendo tocá-la tinha sido um inferno. Vendo-a chorar por ele era como se ter sua alma destroçada. Queria abraçá-la e dizer que estava ali ao lado dela, mas não tinha como.

Quando a viu cometer erro após erro e tomar medidas que mostravam toda a dor que ela sentia, que era a mesma dele, era como se sua existência não tivesse sentido. Não queria existir se não fosse para estar ao lado dela.

Quando a viu pela primeira vez, tinha certeza de que ela seria importante, mas nunca imaginou o quanto estaria ligado àquela menina de olhos verdes que sorria de forma magnífica. Fez de tudo para odiá-la, mas falhou de forma miserável. Ela conseguiu derrubar todas as barreiras que ele tinha levantado desde que se entendia por gente. Ele sabia de suas responsabilidades, sabia de seus deveres para com o clã, para com sua família. Todos esperavam seu sucesso, todos esperavam sua vitória.

Tentou hostilizá-la, tentou se convencer de todas as maneiras possíveis que ela era uma tonta. Falhou, e falharia em todas as suas tentativas, simplesmente porque não queria vencer. Não queria. Quando ela ficou com as cartas, ele poderia voltar para Hong Kong, mas não quis. Queria ficar ao lado dela, queria ajudá-la, queria estar presente na vida dela. Tinha receio do que poderia acontecer com ela.

Não sabia o que sentia, era um sentimento novo para ele. Nunca havia amado ninguém. Seu relacionamento com a família era formal. A diferença de idade com suas irmãs, era enorme. Mal conheceu seu pai, que faleceu quando era ainda bebê. Sua mãe era uma figura importante no clã. Tinha uma posição que não permitia que ficasse muito tempo com ele. Wei fora seu pai. Wei fora, no final, sua família.

E Meilyn, da maneira dela, tinha sido a prima mais próxima. Seria mais fácil para ele se gostasse da prima, pois todos os seus problemas deixariam de existir, mas não. Aquela garota de olhos verdes tinha invadido seu coração de forma irrevogável.

Aquele amor custou-lhe caro. Não poderia sentir aquilo. Odiou-se por amá-la daquela forma, mas não tinha como mudar as coisas depois que voltou do Japão. Aceitou todos os castigos. Aceitou toda raiva que sentiram dele, mas não tiraria as cartas dela e não aceitaria que ninguém o fizesse. Quando ameaçaram enviar outra pessoa para isso, quase surtou. Ameaçou os anciões e mais uma vez foi castigado.

Jurou falsamente que, assim que estivesse mais preparado, ele mesmo tiraria as cartas dela. Balela. Tudo era apenas arquitetado para que a deixassem em paz. Ele não se importava de estar no inferno desde que soubesse que ela estava em paz.

Ele fechou os olhos enquanto sentia o corpo dela encostado ao dele, os braços dela envolviam o seu corpo e as mãos delicadas da mestra das cartas passavam por suas costas. Ele ouvia sua respiração suave. Beijou o pescoço dela, sentindo o gosto doce da pele quente. Como ele a amava. O perfume que emanava da pele da mulher ao seu lado o entorpecia de maneira a deixá-lo zonzo. Sentiu a pele sedosa do seio dela na sua mão direita, suave, cabia exatamente na palma de sua mão. Apertou-o de leve, acariciando-o, e ouviu um gemido. Adorava perceber a resposta do corpo da namorada aos estímulos que ele lhe dava. Adorava senti-la completamente entregue a ele daquela forma.

Ali, com ela, era como se todos os seus fantasmas desaparecessem, como se todas as dores, todos os horrores nunca tivessem existido. Estar com ela, dava-lhe a sensação de que era imortal. Imortal no coração e na alma dela.

Sentiu o corpo dela tremer e as unhas cravarem levemente nas suas costas quando invadiu-lhe a feminilidade, novamente fazendo os dois corpos se fundirem em um apenas. Sentiu a aura dela invadir seu corpo, misturar-se com a dele, tornando-a mais calma ao mesmo tempo em que a fortalecia, dando-lhe uma sensação de plenitude indescritível.

‘Syaoran…’ Ouviu-a falar seu nome baixinho entre os gemidos e sorriu.

Sabia que o que unia os dois era mais que carnal. Era acima da compreensão de qualquer um, inclusive dele. Não adiantava achar respostas para perguntas sem sentido. Era melhor apenas aceitar que não poderia mais se afastar dela, era melhor aceitar que simplesmente ela era sua vida. E, sendo assim, não importava o que ele era agora.

‘Wǒ ài nǐ, Yīnghuā.’ (Eu te amo, Sakura)’

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Touya levantou aquele dia com um mau presságio. Não tinha mais poderes, mas em algumas situações sentia como se o seu sexto sentido o alertasse de que algo estava por vir. Caminhava devagar pela casa, passou em frente ao porta-retrato da mãe e reteve-se por alguns segundos observando o rosto sorridente de Nadeshiko. Franziu a testa pensando em como Sakura se parecia com a mãe agora. Os olhos verdes belíssimos transmitiam uma força fora do normal.

Não podia negar que sua irmã havia se tornado uma mulher muito determinada. Tinha orgulho pela coragem dela. Verdade que não gostaria que ela tivesse passado por tudo que passou, mas, no final, tudo estava definido. Não poderia mudar o destino dela, o que fez foi tentar, de alguma forma, estar por perto para poder ajudá-la.

Estudou sobre magia e sobre alguns outros assuntos. Kaho Mizuki o orientou em algumas coisas de forma sorrateira. Ela já tinha lhe falado, por alto, sobre a questão do Caos e o papel da irmã. Não falou de forma clara, usava sempre as entrelinhas, mas desvendar as entrelinhas já era algo que ele dominava desde novo.

No final, quando ele pensou que tudo tinha finalizado e as coisas voltariam ao normal, ele entendeu o quanto a irmã estava ligada ao moleque chinês. Sentiu que a irmã estava escapando entre os seus dedos. Não sabia o que fazer, pois conhecia muito bem as intenções da irmã e sua determinação em trazê-lo de volta, não importando os meios. Sakura andou na tênue linha entre o bem e o mal. E pode-se dizer que, por muito pouco, não caiu para o lado errado.

Desviou os olhos para o porta-retrato onde estava uma foto dele, do pai e de Sakura com 10 anos. Provavelmente tiraram na época em que ela já estava caçando as cartas Clow. O sorriso dela era contagiante. Seus olhos passearam por outras fotos, algumas dele com Yukito, outras com Sakura e Fujitaka.

Observou uma em que a irmã devia ter 15 anos. Fora na época que havia perdido o contato com Syaoran totalmente. Pegou a foto e reparou na irmã. Ela não conseguia sorrir como antes. Os olhos verdes, belíssimos, transmitiam vários sentimentos, e o mais forte entre eles era dor. E ele sabia o motivo disso, sempre soube. Talvez por isso fosse tão hostil com o garoto. Sabia que ele a faria sofrer, assim como sabia que ele a faria imensamente feliz. A vida da irmã era, realmente, uma montanha russa de acontecimentos.

‘E tudo por causa de Clow.’ Falou sem querer e fechou mais o rosto.

Não gostava mesmo de Clow. Aquele cara tinha realmente interferido demais na vida da irmã e de todos ao redor dela.

Ouviu um barulho que o tirou de seus pensamentos. Recolocou o porta-retrato na estante e virou-se encontrando Yukito.

‘Você está bem, Touya?’ Ele perguntou, olhando-o com o rosto preocupado.

Touya suspirou. ‘Mau pressentimento.’ Respondeu. ‘Não sei se é bobagem ou não.’

Yukito caminhou até ele e observou o porta-retrato que Touya acabara de colocar no lugar. ‘Está preocupado com Sakura?’

Touya confirmou com um gesto.

‘Por que não vamos visitá-la hoje no final do dia?’ Yuki sugeriu. ‘Precisa ver mais sua irmã. Desde que Sakura se mudou, temos a visitado pouco.’

‘Isso porque eu não concordo para onde ela se mudou.’ Ele rebateu.

‘Pensei que já tivesse superado isso.’

‘Como eu falei, Yuki. Eu aceitei, mas não concordei.’

‘Você quer ou não continuar mantendo contato com a sua irmã, Touya?’

Touya suspirou. Yukito tinha razão. Se continuasse assim, acabaria perdendo contato com a única família que tinha. Não conheciam nenhum parente por parte de Fujitaka e os parentes por parte de Nadeshiko sempre deixaram claro a rejeição por eles. Sakura no final era sua única família. Acabou balançando a cabeça em resposta à pergunta de Yukito.

‘Ótimo! Então vamos visitar Sakura e Syaoran hoje no final do dia.’ Ele falou.

Touya suspirou. É teria que ver aquele moleque chinês com sua irmãzinha novamente. Sabe-se lá que coisas ele estaria fazendo com ela àquela hora da manhã. Fechou o punho, sua vontade era de dar um soco nele.

‘Touya… Novamente…’ Yukito falou, pousando uma mão no ombro do homem. ‘Já deveria superar isso, não acha? Sua irmã já é uma mulher adulta.’

‘Está bem!’ Falou por fim, afastando-se de Yukito. ‘Vamos lá hoje! Vou engolir o pouco do orgulho que eu tenho e visitarei o antro de pecado ao qual aquele chinês carregou minha irmã.’

‘Você continua tão dramático.’

‘Ah! Cala a boca, Yuki!’

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Eriol caminhava devagar pela mansão Hiiraguizawa. Sentia-se um pouco entediado. Na verdade, não era bem esse o termo. Ainda se sentia nervoso, e aquele sentimento de apreensão que tinha ao sair de Tomoeda não havia diminuído, mesmo com o final da sessão com o Círculo de Magos.

Sabia que nem todos deixariam Sakura e Syaoran em paz, mas pelo menos a posição oficial do Círculo era esta. Suspirou sentindo-se cansado. Tirou os óculos do rosto e pegou um lenço de dentro do colete que vestia. Limpou as lentes devagar e depois recolocou os óculos. Semicerrou os olhos, observando Nakuru pela janela no jardim cuidando de algumas flores. A jovem tinha começado aquele passatempo desde que tinha voltado do Japão. Nakuru era inconstante, daqui a pouco acharia outro hobby para se dedicar e largaria o antigo de mão. Spinel Sun estava voando ao lado dela em sua forma fofa. Estavam conversando, provavelmente escolhendo quais as espécies novas que plantaria no jardim lateral da residência.

Virou o rosto e seus olhos cravaram no piano no canto oposto da sala. Caminhou devagar até ele e sentou-se na banqueta, abrindo o instrumento magnífico e dedilhou as teclas sem muita pretensão de tocar algo.

Sorriu, lembrando-se de quando havia ensinado a menina Sakura a tocar uma música que para ela mostrar às cartas Clow que, na época, estava transformando em cartas Sakura. A menina tinha se esforçado e dado o seu melhor para fazer algo bonito e de forma sincera para agradecer às cartas.

Sakura sempre as vira como amigas. Como criaturas independentes dela. Como uma mãe que cuida e acalenta seus filhos. Franziu a testa enquanto dedilhava a mesma música que havia ensinado para a menina.

Sakura tinha feito algo que ele nunca pensou ser possível: ela deu liberdade para as cartas a ponto de poderem obedecer aos comandos de outra pessoa. Syaoran poderia manipulá-las, se assim ela ordenasse. Em teoria isso não poderia acontecer. Clow havia lacrado as criaturas das trevas quando estas estavam soltas no mundo, criando problemas e, sendo assim, tinha limitado os poderes delas para que obedecessem apenas àquele a quem considerariam o mestre delas.

Sakura as renasceu novamente como Cartas Sakura e, ao fazê-lo, tinha mudado esta regra. Ela tinha afrouxado as limitações delas e, talvez, isso fosse uma explicação para o poder delas terem aumentado tanto. Mas a mestra precisava ter cuidado, pois, ao mesmo tempo que se dá liberdade, pode-se perder completamente o controle e, se isso acontecer, seria um verdadeiro caos ter aqueles 53 demônios soltos no mundo causando destruição e loucura.

No final, Clow tinha previsto várias coisas que ele ou interpretou errado ou de forma incompleta. O relacionamento de Sakura e Syaoran era algo que ele ainda não conseguia compreender. Yukito era, simplesmente, a combinação de tudo que seria atrativo para a jovem Sakura e, no entanto, a jovem era completamente apaixonada pelo lutador chinês, que num primeiro momento, era o extremo oposto do que ela considerava atraente.

Syaoran era irritadiço, mal-humorado, calado, extremamente sério. Sakura era alegre, bem-humorada, falante e extremamente amorosa. Como poderiam se amar daquela forma a ponto de destruírem o feitiço que Clow fez de forma tão minuciosa para que a jovem se apaixonasse por Yukito?

O próprio Yukito já tinha percebido que a menina era encantada por ele como seria por uma pessoa da família, como um irmão muito querido. Ele a ajudou a ver esta diferença porque, novamente, a criatura deu uma lição no criador, e a forma falsa de Yue havia deixado de lado sua obrigação de amar sua mestra para dar o coração para outra pessoa.

Eriol trincou os dentes, vendo que errou uma nota. Fechou os olhos, tirando as mãos do teclado e respirou fundo. Voltou a posicionar as mãos e dedilhar as teclas de forma rápida. Lembrou-se das palavras de Tomoyo quando Syaoran se manifestou no corpo do primo, fazendo aquele circo com os anciões na China.

‘Vocês fizeram de tudo para que eles dois não se amassem. Você…’ Tomoyo fitou Eriol ‘...Fez de tudo para ela se sentir atraída por Yukito.’ Tomoyo voltou-se depois para Yelan. ‘E eu me lembro bem do choro contínuo de Sakura depois do último telefonema dela para tentar falar com Syaoran. Mesmo longe, ela pressentia e sofria infinitamente sabendo que havia algo errado acontecendo com ele quando retornou para Hong Kong.’ O olhar da morena mostrara toda a desaprovação pela atitude dos dois. ‘E, apesar de tudo que vocês fizeram, mesmo assim eles não deixaram de se amar…’ Ela fez uma pausa olhando duro para ele e a senhora Li. ‘Acho que vocês ficam tão ligados na questão da magia e esquecem do fator humano. Esquecem que Sakura e Syaoran estão unidos por um sentimento único: o amor.’

Ele errou novamente. Bateu com força nas teclas, fazendo o barulho ecoar pelo imenso salão. Tomoyo estava certa. Ele se ateve tanto à magia, às premonições, às indicações e profecias que simplesmente não considerou o sentimento humano.

Clow era humano. Eriol Hiiraguizawa era humano. Sentia a cabeça dolorida. Tomoyo, sem qualquer magia, fora muito mais sábia e conseguiu enxergar o que ele não tinha visto. Ela era incrível. O senso de observação e a abnegação que tinha pela amiga era algo que o deixava incrivelmente... ‘Atraído?’ Ele questionou-se em voz alta, completando o seu pensamento.

O que diabos estava acontecendo com ele? Por que não conseguia tirar a amiga de infância da cabeça? Seria porque ela tinha, no final, dado-lhe uma bela lição de moral ou seria porque ela era simplesmente linda?

Balançou a cabeça, tentando tirar aqueles pensamentos. Ele era um homem casado. Amava Kaho. Ela era sua companheira, sua confidente na magia. Não havia mulher mais bem preparada para estar ao seu lado. Era estudiosa, inteligente, conhecedora de todas as magias do mundo. Uma esposa perfeita para um mago. Além de ser uma mulher lindíssima e esposa amorosa, compreensiva.

‘Inferno.’ Soltou novamente, inclinando a cabeça e batendo no instrumento a sua frente.

‘Acho que vocês ficam tão ligados na questão da magia e esquecem do fator humano. Esquecem que Sakura e Syaoran estão unidos por um sentimento único: o amor.’

As palavras da amiga novamente ecoaram na sua cabeça. Eriol Hiiraguizawa nunca havia considerado o amor. Provavelmente, e inclusive, nem para ele próprio.

Ele tinha certeza, agora, estando longe dela, o que mais queria era, novamente, vê-la e sentir o perfume de magnólias que exalava dos cabelos negros. Deixar-se perder dentro das esferas violetas dos olhos meigos da amiga de infância. Ouvir a voz dela como uma melodia. Estava apaixonado. Ele também não havia considerado o mais humano de todos os sentimentos para a sua vida: o amor.

‘Eriol…’ A voz conhecida o despertou de seu desespero. Levantou o corpo e virou o rosto, fitando a esposa que olhava para ele preocupada. ‘Você está bem?’

Ele tentou sorrir, pensando que a esposa não tinha culpa de nada. ‘Estou… Não se preocupe.’ Falou, sabendo que ela não acreditaria. Fechou os olhos rapidamente e pensou em dar uma desculpa melhor. ‘Estou apenas preocupado com Sakura e Li. Acho… Na verdade, tenho certeza que nem todos do Círculo cumprirão a decisão de não interferirem na vida dos dois.’

Ela se aproximou dele com o rosto ainda interrogativo. Pousou uma mão no ombro dele e sorriu. ‘Você fez o seu melhor.’

Ele colocou uma mão em cima da dela que estava em seu ombro. ‘Obrigado, Kaho. Você é uma ótima companheira.’ Agradeceu com sinceridade. Sentiu-a beijando seu rosto de forma demorada.

‘Não quero ser apenas sua companheira, Eriol. Você sabe disto.’

Ele confirmou com a cabeça. ‘Você é minha esposa.’

Kaho suspirou e observou o rapaz. Sabia que algo o perturbava desde que havia chegado do Japão. Eles tinham ficado vários meses separados. Eriol precisava ficar perto de Sakura depois da morte de Syaoran. Ele se sentia responsável por ela e por todo o sofrimento que ela estava passando. Precisava estar presente e ajudá-la. Não era justo, naquela hora, exigir que o marido voltasse para casa. Não era egoísta a esse ponto. Sentia-se sozinha, era verdade. E quando a mãe decidiu visitá-la ficou extremamente feliz.

Seus poderes mágicos podiam não ser tão grandiosos como os do mago Clow, mas ela tinha algo muito poderoso chamado sexto sentido feminino. E ele a avisava, de forma estridente, que havia algo errado com o esposo.

Sabendo que estava sendo analisado pela esposa, Eriol se levantou e se afastou do instrumento, fechando o teclado.

‘Gostaria de dar uma volta? Nakuru está há horas no jardim e estou com receio do que ela possa estar aprontando.’

Kaho sorriu para ele. Eriol fez um gesto oferecendo o braço que, prontamente, foi aceito pela esposa. Ela enlaçou seu braço ao dele e começaram a caminhar devagar em direção ao jardim. Ela sabia que tinha algo errado e faria de tudo para não perder o homem que amava.

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A aula estava entediante. Syaoran se esforçava para prestar atenção mas não conseguia. Estava se sentindo irritadiço, nervoso. Desde que tinha se despedido de Sakura pela manhã alguma coisa estava lhe deixando particularmente inquieto aquele dia. Olhou para o relógio e pensou que ainda faltavam, pelo menos, uns 40 minutos de aula. Tédio.

Não gostava de assistir aulas, normalmente entendia mais a matéria lendo e depois fazendo alguns exercícios. Tudo bem tirar uma ou outra dúvida com o professor, mas de uma maneira geral, estar ali sentado ouvindo o professor falar de forma sistemática como resolver um problema de logística era mais que entediante, era quase torturante.

Passou a mão nos cabelos, tinha alguma coisa errada, ele sabia que tinha alguma maldita coisa errada. Fechou os olhos e se concentrou, foi fácil achar a presença de Sakura. Não estava longe. Franziu a testa, reparando que a presença tinha se tornado agitada. Que se dane a aula. Levantou-se, arrumou o material de qualquer jeito na mochila e saiu da sala.

Era normal alguns alunos saírem no meio da aula, o que não era comum era Syaoran sair. Reparou que alguns olhos o acompanharam até cruzar a porta da sala. Caminhou na direção onde estava a presença da namorada. Andava com o passo apressado, como se tivesse urgência em encontrá-la. Precisava ter a certeza de que tudo estava bem.

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Sakura caminhava depressa pelo campus universitário. Tinha se atrasado para o treino de voleibol e, ao final, o dia tinha se tornado uma bola de neve de atrasos. Apesar da correria, não tinha se arrependido de ter provocado Syaoran pela manhã. Abriu um sorriso bobo. Era bom começar o dia daquela maneira.

Acenou para Tomoyo e Meilyn. Havia combinado de encontrá-las no final da tarde, depois das aulas. As duas estavam esperando-a em frente à antiga irmandade da jovem. Caminhava em direção a elas quando um vulto parou a sua frente. Arregalou os olhos, mal reconhecendo Seiya Yanamoto. Ele estava com um aspecto horrível!

‘Está muito feliz, não é, Sakura?’ Ele falou para ela em tom baixo.

A jovem franziu a testa, observando-o. ‘Isso não é da sua conta, Yanamoto.’

Sakura encarou o rosto envelhecido de Seiya a sua frente, deu um passo para o lado para desviar dele, mas o rapaz fez o mesmo impedindo-a. Ela recuou, ainda encarando-o.

´O que quer de mim, Yanamoto? Já não fez merda o suficiente?´

´A culpa de tudo é sua.´ Ele respondeu, raivoso.

´Você é que se meteu onde não devia. Eu avisei para não se envolver!´

´Por culpa sua.´

´Não posso fazer nada se você é maluco.´

´Sakura!’ Ela ouviu a voz de Tomoyo e desviou os olhos de Seiya para observar as duas amigas que agora estavam próximas a eles.

Sakura não soube direito o que aconteceu. Ouviu o barulho de um tiro seco próximo e sentiu uma fisgada no meio do peito. O cheiro de pólvora invadiu suas narinas. Levou a mão ao peito e sentiu o sangue viscoso entre os dedos. Ouviu Tomoyo gritar seu nome e outras pessoas gritando coisas que ela não entendia.

Sakura sentiu as pernas fracas e o corpo de repente perder as forças, as pálpebras ficaram pesadas, desequilibrou-se e cairia no chão se não fosse pega por alguém. Sentiu uma mão pressionar a sua em cima do ferimento e a apertar com força.

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Tomoyo assustou-se quando viu o homem parar em frente à amiga, impedindo-a de continuar seu caminho. Começou a caminhar em direção a ela.

‘Quem é o cara?’ Meilyn perguntou, acompanhando a amiga que se mostrava tensa.

‘Eu não tenho certeza.’ Ela respondeu, não reconhecendo o homem de aparência envelhecida.

Eriol tinha lhe contado o que acontecera com Yanamoto, mas custava ainda a acreditar no que estava vendo. ‘Vamos, Meilyn.’ Falou apressando o passo, não estava com um pressentimento bom.

A chinesa estranhou o comportamento da amiga e apressou o passo também, tentando acompanhar a morena que seguia a frente. ‘O que está acontecendo, Tomoyo?´ A amiga não respondeu.

´Sakura!’ Tomoyo a chamou, fazendo a ruiva desviar os olhos do homem à sua frente para fitá-las.

As duas viram, com desespero, quando Seiya tirou o revólver da jaqueta, atirando em Sakura à queima roupa.

‘SAKURA!!!!’ Tomoyo gritou pela prima, vendo-a dar um passo para trás com a mão no ferimento. Ela estava caindo no chão quando Syaoran surgiu do nada e a segurou antes de cair no chão.

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‘Sakura…’ A jovem ouviu o sussurro e reconheceu a voz de Syaoran. ‘Não me deixe.’

Abriu os olhos, piscando algumas vezes e sorriu de leve vendo o rosto tão amado próximo ao seu. A mão dele ainda pressionava a sua tentando estancar o ferimento que sangrava. Ele a apertava contra o corpo.

‘Syaoran...’ Conseguiu balbuciar, não sabia o que tinha acontecido, apenas sentia o corpo pesado, de repente. Queria levantar o braço para passar a mão no rosto dele que se mostrava desesperado. Queria dizer que estava tudo bem, mas não conseguia. Não conseguia falar nada. A boca estava seca. O ar começava a ser mais escasso.

‘Fique comigo, Sakura. Fique comigo.’ Ela ouviu-o, falando.

Queria dizer que era justamente isso que faria: ficaria com ele. Mas não conseguia, não sabia direito o que estava acontecendo. O corpo que antes estava pesado agora parecia leve. Desviou os olhos do rosto de Syaoran e pôde ver, por trás dele, a figura do pai que a fitava de forma triste, e ao lado dele estava sua mãe.

‘Não, Sakura! Olha… Olha para mim...’ Ela ouviu Syaoran dizer, mas continuou encarando o pai. Fazia tanto tempo que não o via. ‘Não feche os olhos, minha flor… Não…’

Fujitaka se aproximou, parou ao lado de Syaoran e estendeu a mão para Sakura, que levantou o braço e conseguiu segurar a mão do pai.

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When the days are cold

(Quando os dias estão frios)

And the cards all fold

(E as cartas estão na mesa)

And the saints we see

(E os santos que vemos)

Are all made of gold

(São todos feitos de ouro)

‘NÃO!!!!’ Syaoran gritou, apertando o corpo de Sakura contra o peito dele e fechou os olhos sem acreditar que ela tinha partido. A presença dela havia desaparecido inteiramente.

O corpo do rapaz foi envolvido pela aura púrpura intensa que explodiu em seguida e fez o ar que o circulava atingir os que estavam próximos como uma onda de choque, derrubando pessoas, objetos, arrancando árvores e fazendo-as cair a metros de distância.

Ele abriu os olhos e viu tudo vermelho a sua frente. Observou os estudantes todos afastados, muitos caídos no chão, olhando assustados para o rapaz com a jovem nos braços.

Ninguém conseguia entender nada do que tinha acontecido.

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Tomoyo se sentou no chão e balançou a cabeça, tentando se recuperar do estrondoso empurrão que havia sentido há pouco. O corpo ficara dolorido. Ao seu lado estava Meilyn tão ou mais assustada que ela.

‘O que foi isso?!’ Meilyn falou com os olhos arregalados em direção ao primo, abraçado ao corpo de Sakura.

‘E-eu não sei…’ Tomoyo respondeu, sentindo o peito doer vendo o corpo de Sakura banhado de sangue. Ela tentou se levantar, mas cambaleou, sendo ajudada pela chinesa. ‘S-Sakura…’ O nome tão amado saiu de seus lábios, enquanto lágrimas brotavam de seus olhos violetas.

Soluços entrecortados saíam de seus lábios. Não podia acreditar no que estava vendo. Sakura… Sua querida Sakura não podia ter morrido. Sentiu o corpo cambalear e a chinesa precisou segurá-la com mais força.

‘Tomoyo… Precisa ser forte.’ Ela falou também com a voz entrecortada.

Desviou os olhos da amiga e fitou o primo que levantou o rosto. Ele estava transfigurado. Sentiu um calafrio percorrer a espinha. Pela primeira vez, sentiu medo ao observá-lo. O olhar dele era frio, mortal, assassino.

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Syaoran fitou Seiya Yanamoto se levantar lentamente e ainda com a arma na mão. Afastou Sakura e a deitou no chão devagar, levantou-se sem desviar os olhos de Yanamoto.

Seiya apontou a arma para aquele chinês maldito, correndo em direção a ele e atirando várias vezes. Mataria os dois!

Syaoran caminhou ao encontro dele, sentindo as balas atravessarem seu corpo, mas não ligou, pegou o pescoço de Seiya e o levantou, fazendo o homem se debater, tentando se livrar.

‘Vou acabar com você!’ Syaoran sussurrou e apertou o pescoço dele. Empurrou-o para trás apenas para ter o espaço necessário para golpeá-lo mortalmente.

O corpo enfraquecido e quase sem energia vital recebeu os golpes furiosos do chinês de forma terrível e não aguentou, foi ao chão sem vida.

Mas isso ainda não era suficiente para apaziguar a dor de Syaoran. A dor não passava, só aumentava de forma exponencial. Ele sabia que não adiantaria fazer nada que aquela dor jamais passaria.

Gritou novamente e se ajoelhou, sentindo a cabeça explodir, levou as mãos até ela, comprimindo-a e tentando inutilmente fazer aquela dor cessar. Sentiu, finalmente, os olhos arderem e, logo depois, o gosto salgado das lágrimas rolarem pelo seu rosto. Nunca havia chorado na vida. Nunca havia sentindo o gosto das próprias lágrimas.

De repente, o sol foi encoberto e tudo se tornou escuro como uma noite sem lua, assustando mais ainda a todos que presenciavam aquele macabro acontecimento.

O tempo parou.

Syaoran sentiu as costas arderem; os ferimentos de bala que atingiram seu corpo no ombro, braço, peito e rosto também ardiam. Não conseguiu evitar que um grito de dor saísse de seus lábios. De suas costas surgiram um par de asas de dragão, enquanto ele sentia todo o corpo queimar de dentro para fora. Mas nada se comparava à dor que sentia dentro do peito.

Abriu os olhos e viu o corpo de Sakura, deu um passo para trás ainda o observando sujo de sangue, uma enorme poça havia se formado ao lado dela. Levantou as mãos e as viu sujas com o sangue dela, sangue dele, sangue de Yanamoto. Aquilo não poderia estar acontecendo! Não deveria estar acontecendo!

When your dreams all fail

(Quando todos os seus sonhos fracassam)

And the ones we hail

(E aqueles que saudamos)

Are the worst of all

(São os piores de todos)

And the blood’s run stale

(E o sangue vai secando)

Todos os momentos de dor que viveu ao longo de sua vida passaram diante de seus olhos. Todos os momentos de humilhação, de sacrifício e horror vieram à sua mente e, por fim, fitou novamente o corpo inerte de Sakura. Nada era igual a vê-la daquela maneira. Nenhuma dor era comparável àquela.

Cerrou os punhos e sentiu a energia das trevas circular seu corpo de forma rápida. Gritou novamente. Não aceitaria o que tinha acontecido. Não poderia perdê-la. Não poderiam tirá-la dele. Flexionou os joelhos e, com um impulso, levantou voo girando em torno do próprio corpo enquanto gritava, tentando controlar aquela maldita dor que o devastava, fazendo-o ter vontade de explodir tudo, destruir tudo!

As asas batiam de forma frenética dando mais energia para que ele continuasse a subir, cortando as camadas de nuvens negras, não havia limites para ele, não sabia o que fazer, apenas tentava de forma desesperada controlar aquela raiva, aquela energia que se apoderava dele de forma explosiva.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura sorriu, fitando o rosto sereno de Fujitaka. Como sentia saudades dele. ‘Papai…’ Falou, sem acreditar que voltava a vê-lo.

‘Querida.’ Fujitaka a chamou e a abraçou com carinho.

Sakura abraçou a cintura do pai e afundou a cabeça no peito dele. Como era maravilhoso voltar a abraçá-lo.

Ela ouviu Syaoran gritando e se afastou do pai, assustada. Virou o rosto, finalmente, dando-se conta do que tinha acontecido. Arregalou os olhos e um grito de desespero saiu de sua boca ao se ver sangrando nos braços do namorado. Sentiu a energia dele explodir e observou a onda de choque que iniciou-se no corpo do rapaz e simplesmente varreu tudo e todos em volta dele.

‘O que está acontecendo?!’ Ela perguntou, observando as pessoas serem arremessadas, assim como os objetos, pelos ares. Observou Tomoyo e Meilyn serem arrastadas por alguns metros e baterem em outras pessoas que também tiveram o mesmo destino. ‘Syaoran…’ O nome dele saiu de seus lábios, observando a aura do rapaz circular o corpo dele. Era nociva, terrível.

‘Ele não é mais quem você pensa, Sakura.’ A voz do pai a fez desviar os olhos do rapaz e observar o rosto de Fujitaka.

‘Ele é o homem que eu amo.’ Ela falou com o rosto sério, vendo-o negar com a cabeça.

I want to hide the truth

(Quero esconder a verdade)

I want to shelter you

(Quero abrigar você)

But with the beast inside

(Mas com a fera dentro)

There’s nowhere we can hide

(Não há onde nos escondermos)

‘Olhe, Filha.’ Fujitaka falou e fez um gesto para que ela observasse o que aconteceria.

Syaoran levantou o rosto. Os olhos dele estavam vermelhos, o rosto transfigurado. Ela o observou se levantar e caminhar em direção a Seiya que atirou, repetidamente, no rapaz. Ela levou a mão à boca para conter um grito ao ver o namorado ser alvejado, mas as balas batiam no corpo de Li e não o impediam, eram como se não fossem nada.

Sentiu os olhos arderem ao observá-lo matar Seiya com frieza. Deu um passo cambaleante a frente quando viu Syaoran se ajoelhar e se encolher gritando, sabia exatamente qual era a dor que ele estava sentindo, pois era a mesma que ela própria sentiu quando voltou do coma e soube que ele estava morto.

Não queria por nada que ele sentisse aquela maldita dor que ela carregou por mais de seis meses no peito. Queria dizer que estava ali, ao lado dele, que ele não precisava sofrer daquela maneira. Olhou assustada para o dia, subitamente, tornar-se escuro e reconheceu a manifestação de Trevas. Em seguida, percebeu que Tempo também havia se ativado sem que ela solicitasse. Observou a todos estáticos, menos Syaoran, ela e os pais. Franziu a testa sem entender o que estava acontecendo, mas tudo era uma loucura para conseguir achar as respostas agora.

No matter what we breed

(Não importa o que criamos)

We still are made of greed

(Ainda somos feitos de ganância)

This is my kingdom come

(Este é o meu fim)

This is my kingdom come

(Este é o meu fim)

Sentiu o pai segurar seu ombro, impedindo-a de se aproximar, mas se esquivou, voltando-se para observar o corpo brilhante de Syaoran envolto na luz púrpura esplendorosa e arregalou os olhos quando duas asas negras surgiram nas costas dele. Sentiu as lágrimas saírem de seus olhos ao observá-lo mudando. Ao observar a energia tão perigosa emanar do corpo do ser que amava.

Balançou a cabeça de leve, tentando não acreditar no que estava vendo. Sentiu o peito doer da mesma forma ou pior do que quando fora atingida pela bala.

When you feel my heat

(Quando você sentir o meu calor)

Look into my eyes

(Olhe nos meu olhos)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

Don’t get too close

(Não se aproxime muito)

It’s dark inside

(É escuro aqui dentro)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

‘Syaoran…’ Novamente pronunciou o nome do amado sem saber o que fazer.

‘É isso que ele é agora, minha filha.’ Ela ouviu a voz preocupada do pai atrás de si. ‘Ele não é mais o garoto por quem você se apaixonou.’

‘Não!’ Sakura gritou, virando-se para o pai. ‘Pare de falar isto! Pare de falar estas coisas dele! Você não entende…’

‘Quem não está entendendo é você, Sakura… Por Deus…’ Fujitaka falou, segurando os braços dela. Sentia toda dor que a sua pequena flor estava sentindo, mas ela precisava saber da verdade.

Sakura ouviu novamente Syaoran gritar, viu quando ele se levantou e voou em direção aos céus. Afastou as mãos do pai e correu, parando no local de onde ele tinha levantado voo. Observou-o desaparecendo de sua vista e olhou em volta, pensando no que faria. Tinha que invocar Alada e ir atrás dele. Tinha que dizer que estava tudo bem. Levou as mãos até onde estaria o pingente, mas não o encontrou.

Olhou para o pai. ‘Eu preciso ir até ele.’ Ela falou e Fujitaka entendeu que não adiantaria falar mais nada.

At the curtain’s call

(Quando as cortinas se fecharem)

It’s the last of all

(Será pela última vez)

When the lights fade out

(Quando as luzes se apagarem)

All the sinners crawl

(Todos os pecadores rastejarão)

Nadeshiko se aproximou do marido e, pousando uma mão em seu ombro, sorriu para ele, tentando passar confiança de que tudo terminaria bem. ‘Ela não vai desistir.’ Nadeshiko avisou.

Ela olhou sorrindo filha. Sabia que Sakura era tão ou mais determinada do que ela própria. Sabia que não adiantaria ninguém dizer que era loucura estar ao lado do homem que amava porque ela, simplesmente, ignoraria tudo para estar com ele. Foi exatamente isso que Nadeshiko fez para estar com Fujitaka. A mulher caminhou até a filha e parou a sua frente.

Sakura não se lembrava da mãe, apenas a conhecia através de fotos que o pai e o irmão espalhavam pela casa. Sentiu quando a mulher pegou o rosto dela entre as mãos e depositou um beijo demorado em sua testa.

‘Seu pai apenas está preocupado com você. Perdoe-o.’ Ela falou com a voz suave.

So they dug your grave

(Então eles cavaram as suas sepulturas)

And the masquerade

(E o baile de máscaras)

Will come calling out

(Chegará anunciando)

At the mess you’ve made

(A bagunça que você fez)

‘Eu sei… Mas eu… Eu não quero…’ Sakura balbuciou, mas se interrompeu, encarando sua mãe de forma decidida. ‘Eu não quero ficar longe dele.’ Sentenciou por fim. ‘E não me importa se ele é espírito, humano, demônio, seja lá o que for… Meu lugar é ao lado dele. É onde eu pertenço e quero estar.’

Nadeshiko voltou-se para trás, observou o marido e, ao lado dele, apareceu a figura de um anjo. Gabriel acenou afirmativamente para ela e a mulher concordou. Ela voltou-se para a filha e a fitou profundamente.

‘Preste atenção, Sakura.’ Começou a falar com calma, mas com tom sério. ‘Você pode decidir o que fazer, mas lembre-se: toda ação tem uma reação e toda decisão tem consequências.’

‘Do que está falando, mãe?’

‘Você vai entender. Apenas pondere bem as suas opções agora, minha filha, e decida o que realmente você quer.’

‘Eu já falei.’ Sakura falou decidida. ‘Eu quero estar ao lado dele.’

Don’t want to let you down

(Não quero decepcionar você)

But I am hell bound

(Mas meu destino é o inferno)

Though this is all for you

(Embora tudo isso seja para você)

Don’t want to hide the truth

(Não quero esconder a verdade)

‘Então…’ Nadeshiko falou, abraçando a jovem com carinho. ‘Vá atrás dele antes que seja tarde demais.’ Avisou, afastando-se e beijando novamente a testa dela antes de dar um passo para trás.

Sakura acenou que sim com a cabeça. Desviou os olhos da mãe e fitou o pai, sorrindo para ele. ‘Eu vou ficar bem, papai. Acredite em mim.’ viu Fujitaka concordar com um gesto.

Ela fechou os olhos e, quando os abriu, sentiu-se de volta no seu corpo. Abriu os lábios, tentando buscar ar para os seus pulmões. Levou uma mão ao ferimento e engoliu em seco. Ainda sentia a dor no peito. Respirou fundo e se levantou, mordendo o lábio inferior e impedindo-se de gritar pela dor no corpo. Tinha que ignorar aquilo por hora. Tinha que ir atrás de Syaoran.

‘Alada.’ Sussurrou. A voz estava fraca.

A energia da carta a circulou, fazendo-a sentir-se mais forte. Sabia que a carta a estava ajudando. Como queridas amigas, elas a estavam apoiando para ir atrás do que lhes era mais valioso.

O par de asas angelicais apareceu nas suas costas e ela flexionou os joelhos apenas para pegar mais impulso e ir atrás de Syaoran. Não permitiria que nada ficasse entre eles.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

No matter what we breed

(Não importa o que criamos)

We still are made of greed

(Ainda somos feitos de ganância)

This is my kingdom come

(Este é o meu fim)

This is my kingdom come

(Este é o meu fim)

Syaoran, de repente, parou. Sua respiração estava acelerada. Olhou em volta e se viu acima das nuvens, como se estivesse no espaço. Abaixo podia ver o planeta Terra. Não sabia o que estava acontecendo.

Reparou em suas mãos e viu garras. Seu corpo estava diferente, não tinha mais a forma do corpo humano, estava maior. Mais forte. Mais poderoso. Tão poderoso que poderia destruir tudo. Tudo! Franziu a testa, olhando para o planeta a sua frente. Aquele lugar sem Sakura não era nada.

When you feel my heat

(Quando você sentir o meu calor)

Look into my eyes

(Olhe nos meu olhos)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

Ele sabia que tinha mudado, que não era mais o mesmo e, agora, o pouco de humanidade que ainda persistia em manter viva em seu corpo tinha morrido junto com Sakura. Não era mais Syaoran Li. Não conseguia se ver totalmente, mas sabia que finalmente tinha tomado a sua verdadeira forma. A forma do que ele era agora. A forma de um demônio. Ele era aquilo e não poderia mais negar sua essência, não havia mais porque negar.

Levantou a mão e conseguiu sentir a energia se concentrando em sua palma. Era fenomenal. Intensa. Poderosa. Ia além de tudo que pensou obter um dia. Finalmente percebeu que, agora sim… Ele tinha o poder de tudo nas mãos e estava tentado a fazer tudo virar nada.

‘Syaoran.’ Ele ouviu chamarem-no e franziu a testa.

Virou-se para o lado e viu Sakura se aproximar dele com suas asas de anjo. Sua roupa ainda suja de sangue. Ela estava com o rosto tenso.

‘Vou acabar com tudo.’ Ele sussurrou, sentiu até que sua voz tinha mudado.

Don’t get too close

(Não se aproxime muito)

It’s dark inside

(É escuro aqui dentro)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

Ela se aproximou dele devagar, parou a sua frente, fitando-o profundamente. Levantou a mão, segurando o pulso dele que acumulava a energia nociva. ‘Você não quer fazer isso.’ Ela disse e levantou a outra mão, passando pelo rosto dele e secando as lágrimas que ainda escorriam de seus olhos com os dedos. ‘Tudo vai terminar bem… Não faça isso.’

‘Não valeu de nada o que eu fiz. Nada! Não valeu nada o que eu passei, o que eu me tornei.’

‘Sakura.’ Eles ouviram alguém chamá-la e ela desviou os olhos de Syaoran e observou o pai e a mãe logo atrás. ‘Você precisa decidir, minha filha.’ Nadeshiko voltou a falar.

‘Isso é o que eu sou agora, Sakura.’ Ele falou, encarando-a e sentiu vontade de se esconder.

They say it's what you make

(Dizem que é o que você faz)

I say it's up to fate

(Eu digo que depende do destino)

It's woven in my soul

(Está enrolada na minha alma)

I need to let you go

(Tenho que deixar você ir)

A jovem voltou a fitar o rosto transfigurado de Syaoran. ‘Não importa o que você se tornou. Você ainda é o meu amor.’ Ela falou, beijando-o de leve nos lábios. ‘Você será sempre a pessoa mais importante para mim.’ Repetiu o que falou para ele quase dez anos atrás.

Ela abaixou a mão dele, fazendo a energia que antes ele havia acumulado diminuir aos poucos.

‘Eu não sou…’ Ele começou a falar, mas foi interrompido por ela que levantou a mão, tocando de leve os lábios dele.

‘Está na hora de voltar.’ Sakura desviou os olhos do rapaz e fitou o pai e a mãe. ‘Não posso ir.’ Observou Fujitaka e Nadeshiko concordarem em silêncio e desaparecerem envoltos em uma cálida luz.

‘Sakura…’ Syaoran a chamou e ela o fitou novamente.

Your eyes, they shine so bright

(Seus olhos, eles brilham tanto)

I want to save that light

(Quero guardar esta luz)

I can't escape this now

(Não posso fugir agora)

Unless you show me how

(A menos que você me mostre como)

Ela o abraçou com carinho e ele fechou os olhos, envolvendo-a com cuidado para não machucar o frágil corpo feminino com suas garras. Sentiu o corpo se tornar leve e a dor que antes o devastava gradualmente diminuir.

‘Eu estou aqui, meu amor.’ Ela respondeu. ‘Eu sempre vou estar ao seu lado.’ Falou com o rosto contra o peito do rapaz.

A energia que antes circulava o corpo dele, aos poucos, foi diminuindo. As asas de dragão desapareceram e o rapaz sentiu que os sentidos lhe faltaram. Sakura sentiu a pressão dos braços dele sobre seu corpo diminuir. Afastou-se um pouco e o viu fechar os olhos, ele estava exausto. O rosto voltou a ser o mesmo de antes, o corpo voltou à forma humana.

Sakura sentiu o peso do corpo dele, segurou-o mais forte e fechou os olhos ao perceber que estavam caindo. Não tinha forças para manter os dois com Alada e não conseguiria invocar uma nova carta, pois estava com o corpo também fraco. As asas angelicais desapareceram de suas costas e ela apenas fechou os olhos, abraçando-se ao corpo do rapaz.

When you feel my heat

(Quando você sentir o meu calor)

Look into my eyes

(Olhe nos meu olhos)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

Subitamente, sentiu que pararam de cair de forma rápida e agora desciam devagar. Reconheceu a presença de Flutuação. As cartas agiam por conta própria, tentando ajudá-la. Assim que os dois tocaram o chão. Perdeu os sentidos. O tempo voltou a correr normalmente.

Don’t get too close

(Não se aproxime muito)

It’s dark inside

(É escuro aqui dentro)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

It’s where my demons hide

(É onde meus demônios se escondem)

Continua.

Notas finais
Música do capítulo: Demons (Demônios), por Imagine Dragons.