FEITICEIROS
16 Desequilíbrio
FEITICEIROS
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiraguizawa
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiraguizawa
Capítulo 16
Desequilíbrio
‘Está na hora de você voltar. Estão todos esperando por você.’ Sakura reconheceu a voz de Syaoran. Abriu os olhos e fitou o rosto sereno do namorado que sorria para ela lindamente. Ele ficava tão lindo sorrindo. Sentiu a leve carícia que ele fez no seu rosto, ela repousou sua mão em cima da dele que a segurava delicadamente. ‘Eu sempre vou te amar, Sakura.’ Falou se aproximando e beijando-a suavemente, fazendo a sentir-se inundada por uma onda morna de aconchego. Afastou-se sorrindo ainda para ela.
‘Eu também vou sempre te amar.’ Ela respondeu sorrindo.
‘Agora você precisa voltar. Ficou muito tempo descansando. Todos estão muito preocupados com você.’ Syaoran falou com a voz suave.
‘Voltar?’ Sakura franziu a testa não entendendo aquela conversa. ‘Mas onde estamos?’
Syaoran sorriu mais ainda e soltou o rosto da amada. ‘Olhe você mesma.’
Sakura desviou os olhos do namorado e começou a apreciar a bela paisagem a sua volta, árvores de cerejeira balançavam com o vento, fazendo com que suas flores se espalhassem pelo ambiente, perfumando o ar. O sol brilhava lindo dando um calor fora do normal naquela época de inverno.
‘Mas aqui... é lindo...’ Ela balbuciou, depois voltou-se para o namorado.
‘Eu a estarei esperando aqui. Um dia nos reencontraremos.’
‘Não.’ Sakura falou de forma direta, olhando no fundo dos olhos castanhos.
‘Não?’ Ele falou meneando a cabeça sem entender.
‘Vou ficar aqui com você.’ Falou decidida e deu um passo, abraçando o namorado com força.
‘Não podemos ficar juntos, Sakura.’ A voz dele agora era embargada, triste. ‘Você precisa voltar. Touya, Tomoyo... todos precisam de você.’ Ele a sentiu estremecer e fechou os olhos, pensando em como seria difícil para ele também não tê-la em seus braços por um longo tempo.
‘E eu preciso de você, Syaoran.’ Ela rebateu.
Ele sorriu tristemente, pensando que havia se enganado. Despedir-se estava sendo mais penoso do que havia imaginado. ‘Eu sempre estarei com você, minha flor. Se não estiver assim como estamos agora, estarei sempre em seu coração.’ Ele forçou o afastamento da feiticeira sentindo um enorme pesar. Abaixou o rosto fitando-a intensamente. ‘Eu sempre vou te amar, Sakura. Não duvide disto jamais, mas você precisa voltar.’ Tentou ser firme, mas ouviu que sua voz, quase sempre forte e assertiva, estava entrecortada.
‘O que está querendo me dizer, Syaoran?’ Ela perguntou, não conseguia entender aquela conversa sem sentido. Eles estavam juntos agora, então, por que precisavam se separar?
Seu pensamentos foram interrompidos novamente com os lábios de Syaoran sobre os seus. Eram doces os lábios dele. Ela fechou os olhos, retribuindo o beijo apaixonado.
‘Adeus.’ Ele disse com os lábios ainda sobre os dela.
‘Adeus?!’ Sakura falou abrindo os olhos. Foi obrigada a fechá-los novamente devido a forte luz que a cegava. Não sentia mais a presença do amado perto de si. ‘Syaoran!’ Chamou o namorado e tentou levantar, mas foi impedida.
‘Doutor, ela acordou! Ela abriu os olhos e falou.’ Reconheceu a voz do enfermeiro Taniguchi. Então estava no hospital, pensou rapidamente. ‘Hei mocinha, pode voltar a se deitar.’ Ouviu o homem dizer novamente e sentiu que ele a empurrava delicadamente pelos ombros para se deitar, sentiu-se fraca, mas se recusou a obedecer o senhor. Ficou sentada na beira da cama.
‘Graças a Deus.’ Ouviu a voz de um outro homem que não conhecia e logo sentiu pegarem seu rosto e puxar seus olhos examinando-a, desviou os olhos e viu um monitor que mostrava seus batimentos cardíacos. Olhou para o rosto sorridente do enfermeiro Taniguchi. Franziu a testa, tendo impressão de que o homem estava emocionado. Que diabos estava acontecendo ali? Estava há poucos segundos com Syaoran num lugar maravilhoso e agora estava num hospital?
O médico tirava sua pressão e continuava a examiná-la sem parar enquanto falava com o enfermeiro que respondia prontamente todas as perguntas. Finalmente ele voltou a encará-la. ‘Consegue me ouvir?’ Ela balançou a cabeça. ‘Sabe o seu nome?’
‘Sakura... Sakura Kinomoto.’ Respondeu, mas sentiu que sua voz saiu falhada.
‘Sabe quantos anos tem?’
’Dezenove.’ Respondeu prontamente.
‘Quantos dedos tem aqui?’ Ela o viu estender o braço mostrando dois dedos. Respondeu corretamente, sentindo-se incomodada. Bateu na mão dele tirando-a da frente do seu rosto.
‘Onde está Syaoran?’ Perguntou tentando se levantar da cama. Não conseguia sentir a presença do amado em lugar nenhum e isso já a estava enlouquecendo. O médico a segurou pelos ombros.
‘Senhorita Kinomoto. Você esteve desacordada por mais de um mês, não se levantará desta cama agora, está me ouvindo? Ou serei obrigado a lhe dar um sedativo.’ Falou com voz enérgica.
Ela franziu a testa e encarou o médico. ‘Você falou que eu acabei de acordar e agora quer me colocar para dormir novamente?’ Falou com ironia e ouviu o enfermeiro abafar uma risada sorrateira pela colocação debochada da jovem. ‘Deixe-me em paz, doutor.’ Falou, empurrando-o de leve para que lhe desse passagem para se levantar.
‘Senhorita Kinomoto! Não seja teimosa.’ O médico falou irritado, observando a jovem tentando tirar a agulha de soro do braço. ‘Você é maluca.’ Exclamou. ‘Vou chamar seu irmão.’ Falou afastando-se dela e indo em direção à porta do quarto.
Sakura sentou-se na beirada da cama novamente sentindo-se fraca, respirou fundo e levantou o rosto. O enfermeiro aproximou-se dela tentando sorrir de leve. ‘Não seja teimosa desta fez, senhorita Kinomoto.’
‘Onde está Syaoran, senhor Taniguchi?’ Ela perguntou novamente e reparou que o homem desviou os olhos dela para fitar o chão. Cadê a brincadeira? Cadê a gracinha de que eles estiveram transando de forma louca para pararem ali aos cuidados dele? Cadê? O homem se assustou quando sentiu as mãos da jovem segurando seu rosto e forçando-o a encará-la. ‘Onde ele está?’
O homem pigarreou. ‘Eu não sei.’ Ele mentiu, e ela percebeu isso. Ele tentou novamente desviar os olhos dela, mas ela segurou o rosto dele mais forte.
‘Não minta para mim, por favor. Onde ele está?’ Repetiu devagar.
Foi quando ela finalmente percebeu que os olhos do enfermeiro estavam brilhantes. Soltou o rosto do homem que tantas e tantas vezes havia cuidado deles dois nos últimos meses. ‘Eu sinto muito... não pude fazer nada quando chegaram com o corpo dele.’ Falou finalmente, fazendo a jovem sentir o coração parar de bater. No lado de fora do hospital uma torrencial chuva caía sem dar trégua para a cidade.
‘Corpo?’ Ela repetiu sem poder acreditar no que o homem falou. Viu-o confirmar com a cabeça, dando-lhe a certeza que Syaoran estava morto.
Sakura se levantou e sentiu o piso gelado do hospital sob seus pés. Levou uma das mãos trêmulas à altura do peito e a outra até sua boca. Fechou os olhos e finalmente entendeu que o amado havia se despedido dela poucos minutos atrás. As palavras dele começaram a fazer sentido agora.
‘NÃO!’ Foi tudo que conseguiu gritar enquanto se encolhia com as mãos na cabeça.
O tempo parou.
Without you
(Sem você)
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Touya estava impaciente sentado no sofá. Tomoyo estava sentada ao seu lado. A jovem morena havia chegado mal ao hospital, mas, depois de uma transfusão de sangue, ela se recuperou em duas semanas, embora tivesse permanecido no hospital para ficar perto da amiga que ainda não tinha retornado do coma. Yukito estava apoiado na parede ao lado de Eriol. Kaho estava sentada numa poltrona em frente a Touya.
‘Você tem certeza? Tem certeza de que ela vai acordar hoje?’ Touya perguntou fitando Eriol.
Eriol olhou discretamente para o lado e confirmou. ‘Sim, ela já acordou.’
‘Como sabe?’ Tomoyo perguntou, observando o rapaz.
‘Eu sei. Contaram-me.’ Ele respondeu simplesmente.
Touya olhou para a janela, depois baixou a cabeça e sorriu. ‘Ele está aqui, não é?’ O mago franziu a testa. ‘Eu também tinha este dom. Conseguia ver minha mãe.’
O homem sentiu quando Yukito repousou a mão no seu ombro. ‘Ela vai precisar muito de você.’ O rapaz falou e viu Touya balançar a cabeça de leve.
‘Não sei como ela vai reagir quando souber que ele está morto. Deveria ter proibido este namoro deles. Deveria ter proibido-a de se apaixonar por ele.’
‘Não fale asneira, Touya.’ Yukito falou sério para seu companheiro. ‘Você não tinha nem o poder e nem o direito de interferir na vida da sua irmã.’
‘E agora que tudo acabou, Yuki? Como é que ela vai ficar?’ Ele perguntou e suspirou de forma pesada. ‘Ela... ela nunca mais será a mesma.’
‘É o destino dela.’ Kaho falou, aproximando-se deles. Touya levantou o rosto encarando a bela mulher a sua frente. Sorriu de forma irônica.
‘Destino... sei.’ O rapaz olhou para fora onde, de repente, uma forte chuva começou a cair do nada.
Eriol virou-se para a janela do hospital e franziu a testa, há poucos segundos estava ensolarado em Tomoeda. Como o tempo havia mudado em apenas poucos segundos? Kaho voltou-se para o rapaz com o rosto assustado, ela sabia o que estava acontecendo.
‘Senhor Kinomoto!’ Ouviu chamarem e Touya virou-se para a porta da sala de espera, vendo o médico responsável pela irmã. Observou o homem caminhar em sua direção com o rosto contrariado e parar a sua frente. ‘Sua irmã acordou agora e já está querendo se levantar. Ela é muito teimosa. Por Deus, algum de vocês é Syaoran? Ela quer vê-lo de qualquer maneira.’ Falou de forma irritada pela teimosa paciente. Franziu a testa, observando os semblantes tristes.
‘Eu vou vê-la.’ Touya falou, afastando a mão de Yukito de seu ombro. ‘Leve-me até minha irmã.’
‘Vam...’ O tempo parou, impedindo o médico de completar o chamado.
Eriol olhou assustado para todos parados como estátuas.
‘É ela.’ Ouviu e virou-se para trás onde reconheceu o amigo parado perto de uma das janelas. As cartas que estavam na bolsa de Tomoyo saíram flutuando pelos corredores em direção a sua mestra. Lá fora os pingos grossos de chuva estavam estáticos também.
Eriol caminhou seguindo as cartas e abriu a porta do quarto de hospital. Sentiu o ar lhe faltar nos pulmões ao ver sua querida sucessora encolhida no chão envolta pela belíssima aura multicolorida. O choro dela era alto. As cartas circulavam o pequeno corpo, tentando desesperadamente dar apoio a sua querida mestra, mas era em vão. A dor de Sakura não poderia ser minimizada.
The ground thaws
(O solo descongela)
The rain falls
(A chuva cai)
The grass grows
(A grama cresce)
Ele se aproximou com o peito pesado, ajoelhou-se a frente dela e tocou sua cabeça de leve. A jovem levantou o rosto e Eriol não aguentou ver os belos olhos esmeraldinos transmitindo tanta dor e desespero. Não falou nada, apenas puxou o pequeno e frágil corpo de sua adorada sucessora e a abraçou forte contra o peito. Sakura não relutou, fechou os olhos enquanto chorava e se agarrava a roupa do amigo. Abaixo deles a imensa mandala mágica brilhava enquanto as cartas, uma a uma, retornavam a suas formas originais e se aproximavam de sua mestra.
O feiticeiro apertou forte a jovem nos braços e levantou o rosto, observando todas as cartas em suas formas originais, em silêncio, apoiando no que podiam sua mestra. A ligação de Sakura com elas era algo que ia além da magia, era uma ligação de alma. Ele fechou os olhos e finalmente chorou.
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Sakura entrou no dormitório que ainda dividia com Tomoyo sentindo-se exausta.
Touya havia pedido que fosse morar com ele, mas ela preferiu continuar a morar com a amiga. Fazer uma mudança agora seria ainda mais penoso. Seria como se a vida, realmente, tivesse que mudar completamente por causa da ausência de Li.
Without you
(Sem você)
The seeds root
(As sementes se enraizam)
The flowers bloom
(As flores desabrocham)
The children play
(As crianças brincam)
‘Boa noite.’ Ela cumprimentou a amiga que já estava no dormitório.
Tomoyo virou-se para ela e sorriu. Estava estudando história da arte na escrivaninha. ‘Boa noite.’ A morena falou. ‘Como você está?’
‘Bem.’ Ela respondeu, colocando a mochila com os livros na sua mesa de estudo.
Tomoyo franziu a testa. ‘Não a vi no refeitório hoje.’
‘Estava estudando na biblioteca.’ Sakura respondeu.
‘Você almoçou?’ Tomoyo perguntou preocupada.
‘Comi alguma coisa.’ Respondeu sem entrar em detalhes. ‘Acho que vou tomar um banho. Aquela biblioteca tem um cheiro de mofo insuportável.’
‘Cheiro de mofo? Você foi na seção de ocultismo?’ Tomoyo perguntou levantando uma sobrancelha.
‘Fui dar uma olhada em algumas coisas.’ Falou de modo genérico. ‘Vou tomar banho.’ Repetiu já se dirigindo ao banheiro.
‘Mas o que está procurando? Precisa de ajuda?’
‘Não se preocupe.’ Sakura respondeu antes de entrar no banheiro e fechar a porta.
Tomoyo ficou um tempo ainda observando por onde a amiga tinha saído. A ruiva, depois que saiu do hospital, resolveu manter as atividade de antes e não trancou nenhuma matéria, mas a morena sabia que ela andava faltando a várias aulas. Além disso, às vezes, Sakura simplesmente desaparecia.
Na semana anterior, durante um jantar na casa de Touya, Sakura simplesmente tinha se levantado da mesa e saído no meio do jantar, sem muitas palavras, depois de ouvir o irmão falar que ela deveria tocar a vida para frente. Que ela sabia, desta vez, que Syaoran não voltaria. Touya não havia sido muito sutil, mas tentava fazer a irmã aceitar a morte do namorado.
The stars gleam
(As estrelas brilham)
The poets dream
(Os poetas sonham)
The eagles fly
(As águias voam)
Without you
(Sem você)
Sakura saiu do banheiro, com a toalha nos cabelos, e estava caminhando até a geladeira para pegar um pouco de água quando seu celular tocou. A ruiva soltou um suspiro, pensando que era o irmão. Hesitou, pensando se atenderia ou não. Pegou o aparelho e olhou o número no display. Franziu a testa.
‘Eriol?’ Ela falou ao atender.
Tomoyo ouviu a conversa da amiga e a viu, logo, desligar o celular e soltar um suspiro. ‘Vou pegar o Eriol.’ Sakura falou desanimada, caminhando até o armário para trocar de roupa. Ela tinha vestido o pijama depois do banho.
‘O que aconteceu?’ A morena perguntou, levantando-se.
‘Ele andou bebendo.’ Ela falou. ‘Não dava para entender direito o que ele estava falando.’ Respondeu, trocando de roupa.
‘Eu vou com você.’ Tomoyo falou já se arrumando também. ‘Por que ele ligou para você?’
‘Para se desculpar’. Sakura falou entre os dentes. ‘De novo.’
‘Você foi muito dura com ele quando estava nos contando sobre o Caos.’ A morena comentou.
Sakura olhou para a amiga. ‘Eu fui dura com ele?’
‘Sim. Ele só estava pensando em proteger você.’
‘Eu não preciso ser protegida e, se eu fui dura com ele, é porque ele não tinha o direito de manipular os meus sentimentos.’
Tomoyo fitou a amiga. ‘Ele não manipulou realmente.’
‘Não? Então o que foi que ele fez?’
‘Ele apenas aproximou você de Yukito.’
Sakura deu alguns passos e parou em frente a amiga. ‘Tomoyo, você viu o quanto eu sofri sem saber o que sentia pelo Syaoran. Diga-me, como você se sentiria se soubesse que teve seus sentimentos completamente distorcidos por alguém a quem considerava um amigo?’
Tomoyo desviou os olhos dela. ‘Será que, se hoje você estivesse com Yukito, não seria o melhor?’
The Earth turns
(A Terra gira)
The sun burns
(O Sol arde)
But I die
(Mas eu morro)
Without you
(Sem você)
Sakura arregalou os olhos. ‘Eu não vou nem responder a esta sua pergunta.’ Falou, virando-se e caminhando em direção a porta.
‘Eu vou com você.’ Tomoyo a chamou, dando alguns passos à frente para seguir a amiga.
‘Não. Eu vou sozinha.’ Respondeu.
Tomoyo segurou o braço dela. ‘Eu vou com você.’ Repetiu.
Sakura encarou a amiga com o rosto sério. ‘Nunca mais insinue isso, Tomoyo.’
A morena soltou um suspiro. ‘Desculpe-me. Eu só… eu só não queria vê-la sofrendo tanto por ele novamente.’
Sakura sorriu de leve. ‘Talvez ele volte, não?’
Without you
(Sem você)
The breeze warms
(A brisa se aquece)
The girl smiles
(A garota sorri)
The cloud moves
(A nuvem se move)
Tomoyo olhou assustada para ela. ‘Do que você está falando?’
A ruiva deu de ombros. ‘No mundo da magia tudo é possível.’ Falou, abrindo a porta do quarto. ‘Se quiser vir comigo, estou saindo agora.’
A morena ainda ficou um tempo tentando entender o que a amiga quis dizer com aquilo. Será que ela realmente acreditava que um dia Syaoran voltaria? Será que ela estava tão perturbada assim em não aceitar a morte do rapaz? Balançou a cabeça de leve e correu atrás dela para juntas buscarem Eriol.
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Eriol caminhava apressado pelos corredores da irmandade Kαβ da faculdade Tomoeda. Era mais de meia noite e os corredores estavam praticamente vazios. Logo avistou Tomoyo sentada no chão encostada à parede.
Ela levantou o rosto e fitou o amigo que se aproximava, levantou-se e suspirou fundo, mostrando que estava ali há algum tempo. ‘Obrigada por ter vindo, Eriol.’ A morena falou com a voz cansada.
‘Não deveria me agradecer.’ O rapaz falou com o rosto sério. Ele tocou na porta do quarto e franziu a testa. Ela estava trancada por Cadeado. ‘Quanto tempo está trancada?’
A morena olhou para o relógio de pulso. ‘Desde que eu cheguei, acho que já faz quase uma hora.’
‘Ela tem feito muito isso?’ Eriol perguntou. Tocou a porta e foi repelido pela magia de Sakura.
‘Está cada vez mais frequente. Isso quando ela não desaparece por horas.’ Tomoyo falou depois de um suspiro cansado. ‘Não sei o que ela tanto faz trancada e usando magia. Não deixa nem Kero ficar mais conosco.’
Eriol fechou os olhos e se concentrou, logo a mandala de Clow apareceu sob seus pés. ‘Chave que guarda o poder das Trevas, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós e os ofereça ao valente Eriol que aceitou esta missão. Liberte-se!’ O rapaz pediu para Tomoyo se afastar. ‘Volte a forma humilde que merece!’ Ordenou a Cadeado, mas não foi obedecido. ‘Ela está mais forte.’ Constatou arrumando o óculos que descia pelo nariz fino.
‘O que ela tanto faz trancada?’ Tomoyo perguntou fitando a porta .
Eriol respirou fundo e fechou os olhos. ‘Ela está usando Ilusão.’
Without you
(sem você)
The tides change
(As marés mudam)
The boys run
(Os garotos correm)
The oceans crash
(Os oceanos rebentam)
‘Droga...’ A morena falou fechando os punhos. ‘Ela nunca vai conseguir esquecê-lo, não é? Ele desapareceu da vida dela por mais de cinco anos e, mesmo assim, ela ficou esperando por ele. Agora, sabendo que ele nunca mais vai voltar, ela fica usando magia para se encontrar com ele.’
‘Ela não tem poder para ressuscitar ninguém, Tomoyo. Isso é impossível.’ Eriol falou com pesar. Fez o mesmo que a amiga e ficou esperando por Sakura atrás da porta trancada. Era normal que agora os dois se encontrassem para falar da feiticeira, ou procurar por ela, ou ainda quando ela se trancava no dormitório.
‘Eu a vi estudando um livro de magia negra, Eriol. Isso não é bom sinal.’
O rapaz respirou fundo e se encostou à parede do corredor, deixou-se deslizar para o chão e decidiu esperar Sakura para, mais uma vez, tentar conversar com ela. ‘É normal ela ficar curiosa sobre outras magias.’ Falou como desculpa para não preocupar a amiga.
‘Qual é, Eriol? Você acha mesmo que eu vou acreditar nesta sua desculpa esfarrapada? Nós dois sabemos muito bem o que Sakura anda estudando.’
‘O que ela quer é impossível.’
‘Será?’ Tomoyo perguntou, abaixando-se e ficando com o rosto bem próximo do rapaz que estava sentado. ‘Será mesmo?’
‘Se ela for por este caminho... eu realmente não sei se poderei salvá-la.’
‘O que vamos fazer, Eriol?’ A morena indagou, segurando as mãos do amigo.
Eriol sentiu-se ainda pior ao ver os olhos suplicantes da amiga. Segurou as mãos dela e fez um leve carinho, abaixando os olhos. Viu a cicatriz no pulso da jovem onde Shyrai fizera o corte para tirar o sangue da moça no seu ritual macabro e iniciar o caos. Ela quase morrera naquela loucura. Pegou as mãos da jovem e apertou contra a sua testa.
‘Eu não sei mais o que fazer, Tomoyo. Eu não sei.’
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Sakura se esticou na cadeira da biblioteca municipal. Não era tão grande como a da faculdade, mas poderia ter algo interessante ali também. A frente dela estava um livro sobre rituais onde encontrara algumas informações interessantes. Tirou um outro livro, que “pegara emprestado” do museu da cidade, de dentro da mochila.
‘Kyonshi…’ Repetiu a palavra e conferiu as mesmas descrições nos dois livros.
Ela franziu a testa, pensativa. Bem ou mal, o corpo de Syaoran ainda existia, não? Era uma parte dele, não? Talvez… talvez ela pudesse... Sorriu de lado, a magia tinha lhe trazido muitos problemas, mas também tinha lhe trazido Syaoran. Seria realmente tão errado assim usá-la para recuperar o seu amor?
The crowds roar
(As multidões gritam)
The days soar
(Os dias voam)
The babies cry
(Os bebês choram)
Without you
(Sem você)
Apoiou os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos. Estava cansada, mas não conseguia pegar no sono durante a noite. Teria provas na semana seguinte e estava com dificuldade de se concentrar para estudar. Estava realmente tentada a usar magia para colar nas provas, mesmo sabendo que isso era errado. Estava um pouco cansada de fazer sempre tudo certinho e no final acabar sofrendo da mesma maneira.
Levantou-se e caminhou até o computador da biblioteca, sentou-se em frente a ele. Digitou a palavra: kyonshis. Várias páginas apareceram na tela do computador.
Franziu a testa, lendo que era uma “lenda” chinesa. ‘Humph… interessante.’ Soltou, clicando em alguns sites. Muitos falavam apenas um monte de besteiras, chegando a irritá-la pela perda de tempo.
Abaixou os olhos para ver a hora e pensou que, daqui a pouco, a bibliotecária encheria o seu saco porque estava na hora de fechar. Pegou o caderno em que anotara algumas coisas interessantes dos livros que Eriol havia mandado quando a cidade estava sendo invadida pelos seres da trevas. Algumas anotações de Clow sobre magia das trevas estavam sendo bem úteis.
The moon glows
(A Lua brilha)
The river flows
(O rio flui)
But I die
(Mas eu morro)
Without you
(Sem você)
Ela franziu a testa e fitou a tela, digitando “Clã Li”. Entrou na “página oficial” da família e começou a ler sobre a história milenar do “honorável clã chinês”. Fez uma careta pensando que era mesmo muita presunção. Leu por alto uma matéria sobre a morte de Xiao Lang Li e fechou ainda mais a expressão diante da informação de que ele tinha deixado para trás uma noiva escolhida pelo clã. Clicou em mais alguns links até encontrar uma menção ao clã antagonista deles. Sorriu de lado.
‘Olá!’ Alguém a cumprimentou, assustando-a. Estava tão distraída que não havia percebido a aproximação de ninguém.
Colocou a mão no peito e tentou se acalmar, olhando para o rosto da amiga de infância. ‘Por Deus, Naoko! Assim você me mata de susto!’ Ela soltou.
Naoko sorriu sem graça se desculpando enquanto ajeitava os óculos no rosto. ‘Há muito tempo que a gente não se vê, por isso vim cumprimentá-la.’ Ela falou.
Sakura se forçou a sorrir. ‘Sim, há muito tempo. Ando me dedicando muito à faculdade.’ Falou como desculpa.
Naoko olhou de relance para a tela do computador. ‘Ah! Você conhece sobre o Clã Tao?’
Sakura olhou para a amiga de infância e depois para a tela do computador. Estava pronta para fechar a página pensando que Naoko continuava bem curiosa como quando criança. ‘Estou dando só uma olhada em algumas coisas.’ Respondeu de forma evasiva.
‘O clã Tao é muito famoso, assim como o Clã Li, na China. Eles estão envolvidos em muitas questões políticas.’ Naoko falou, apesar de estar cursando jornalismo, tinha mesmo o sonho de ser escritora de contos de terror.
‘Acho que sim.’ Sakura falou.
Naoko se abaixou parando o rosto bem próxima ao da amiga. ‘Dizem que eles são ligados a magia negra… coisa bem barra pesada e por isso foram isolados.’
‘Mesmo?’ Sakura falou erguendo uma sobrancelha.
‘Sim…’ Naoko respondeu. ‘Muitos acreditam que eles são mestres numa arte de…’ A jovem parou, levantando-se e colocando um dedinho no queixo enquanto pensava. ‘Acho que eles ressuscitam cadáveres… coisa assim…’
‘Não diga? Deve ser algo realmente muito macabro…’
‘Sim…’ Naoko confirmou. ‘Tenho até arrepios quando leio a respeito.’
‘E onde será que a gente conseguiria ler sobre isso?’ Sakura falou como quem não quer nada e recebeu um olhar inquisitório da amiga. ‘Só por curiosidade… hã… talvez dar para o Eriol de aniversário… você sabe que ele e Yamazaki adoram estas coisas para depois contar várias histórias.’ Falou como desculpa.
Naoko riu. ‘Isso é verdade. Está aí! É realmente um ótimo presente dar estes livros de ocultismo… eles teriam muitas coisas bizarras para falar.’
‘E então? Onde eu poderia achar algo sobre isso?’ Insistiu.
‘Acho que aqui mesmo na biblioteca, tem um livro sobre isso… mas está em mandarim.’ Naoko respondeu. ‘O Li deve ter lhe ensinado um pouco antes de voltar para Hong Kong, não?’
Sakura se forçou a sorrir novamente. Poucas pessoas sabiam o que realmente tinha acontecido com Li. ‘Um pouco.’
‘Mas isso não tem problema… acho que Hiiraguizawa deve saber mandarim.’ Naoko falou. ‘E o presente é para ele, não é?’
‘Isso.’ Ela concordou, fechando o computador e caminhando atrás dela.
‘Vou lhe mostrar qual é o livro e, depois, você pode pesquisar onde tem para comprar.’ Ela falou olhando as prateleiras.
Sakura espirrou e se desculpou. Estava ansiosa. Naoko procurou por um tempo até que abriu um sorriso, pegando um tomo velho. ‘Acho que é este aqui.’ Falou estendendo para a amiga que o pegou.
‘Muito obrigada, Naoko.’ Ela agradeceu.
‘Por nada. Vamos tentar marcar de nos encontrarmos na faculdade qualquer dia?’
‘Claro.’ Ela respondeu apertando o livro nas mãos.
A bibliotecária se aproximou informando às amigas que estava na hora de fecharem. Naoko se despediu e logo saiu. Sakura falou que só pegaria o material que tinha deixado em cima da mesa.
‘Você vai levar este livro?’ A bibliotecária perguntou.
‘Não…’ Ela respondeu. ‘Já vou devolver.’ Falou, colocando o livro de volta na prateleira e se afastando para pegar o material que tinha deixado na mesa. Olhou a bibliotecária se afastando. Abriu a mochila.
‘Movimento.’ Sussurrou e o livro apareceu nas suas mãos. Sorriu e o colocou na mochila junto com os outros.
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Sakura observava o casal se despedindo a poucos metros. Estava escondida atrás de uma árvore. Sorriu de leve, observando os dois no maior agarramento na lateral da irmandade Kαβ.
‘Melhor eu ir andando.’ Ouviu o rapaz falar, mas sem fazer o menor esforço para se afastar da namorada. ‘Já que você tem prova amanhã cedo... É uma pena porque Kurogane foi para a casa dos pais...’
‘Não me tente... sabe que, se eu for, não vou dormir...’ A jovem falou sorrindo, enquanto sentia o namorado beijando seu pescoço.
‘É uma pena...’ Ele repetiu. Depois se afastou dela com um sorriso. ‘Então acho melhor eu ir mesmo agora. Não quero ser responsável pelo seu mau rendimento.’
‘Ah… Só mais um beijinho.’ A jovem pediu fazendo biquinho e foi prontamente atendida pelo namorado.
Um vigilante do Campus universitário passou por perto, Sakura se estreitou mais na penumbra e observou o homem chamar a atenção dos dois jovens que finalmente se afastaram. A jovem ruiva se despediu dele entrando no prédio enquanto o rapaz voltou-se para a irmandade a que pertencia. Ele passou perto de Sakura e deteve-se por alguns segundos. A feiticeira mal conseguia respirar, sabia que não deveria estar ali, mas simplesmente não conseguia evitar aquelas fugas onde podia sentir a presença morna dele novamente, mesmo que de longe. Tinha aprendido a camuflar sua presença com Apagar.
O rapaz balançou a cabeça e voltou a caminhar em direção ao seu alojamento. Tinha as mãos nos bolsos e assobiava de leve, mostrando-se claramente feliz.
The world revives
(O mundo revive)
Colors renew
(Cores se renovam)
Ela o seguiu, pensando que não faria mal se aproximar um pouco para sentir a aura dele mais de perto. Sentia tanta saudade. Se soubesse naquela época o que aconteceria, não ficaria longe dele por nada no mundo.
Observou o rapaz subir os degraus, pulando alguns, e sumir dentro do prédio. Ela ficou ali parada com os olhos marejados e um sorriso triste nos lábios. Passou a mão no rosto secando uma lágrima que escorreu pelo seu belo rosto. Sabia que não era certo estar ali, não era certo usar sua magia para isso, mas simplesmente não conseguia evitar.
But I know blue
(Mas eu conheço escuridão)
Only blue
(Apenas escuridão)
Lonely blue
(Uma escuridão solitária)
Within me, blue
(Dentro de mim, escuridão)
Without you
(Sem você)
‘Você sabe que não deveria estar aqui, não é?’ Ouviu a voz de Eriol às suas costas. Virou-se e encarou o amigo.
‘Estava com saudades…’ Ela falou ainda, olhando para a entrada da irmandade por onde o rapaz tinha entrado.
‘E se ele a visse aqui?’
‘Usaria Apagar.’ Falou, dando de ombros. ‘Como fizemos da outra vez… quando fomos ao passado...’ Viu Eriol encará-la um pouco confuso. Sorriu de lado, pensando que ele também não se lembrava. ‘Deixa para lá.’
‘Sakura!’ Eriol a repreendeu, balançando a cabeça. ‘Não pode ficar usando magia desta maneira.’
‘Por quê?’ Ela o questionou.
‘Porque é errado.’ Ele respondeu.
‘Certo e errado é um conceito muito relativo.’ A Feiticeira falou, começando a caminhar pelo campus seguida pelo amigo.
‘Certo é certo e errado é errado.’ Eriol retrucou.
‘Humph’. Ela murmurou. ‘Então foi certo você manipular meus sentimentos quando eu era uma criança para que eu me apaixonasse por Yukito?’ Sakura sorriu de forma irônica, vendo que ele ficou incomodado com o comentário. ‘Acho que você concorda comigo sobre isso, não?’
‘Eu me arrependo. Muito! Por tudo.’
‘Eu também.’ Ela falou.
‘Você tem que aceitar que ele morreu, Sakura.’ Eriol falou com suavidade.
Sakura olhou para ele com o cenho franzido. ‘Vamos embora, Eriol. Você já atrapalhou os meus planos para hoje.’
‘O que você pretendia fazer?’ O rapaz perguntou preocupado.
‘Vamos embora.’ Ela repetiu sem responder.
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Sakura estava caminhando pelo campus, era tarde. Tinha ficado na biblioteca até a hora desta fechar e foi praticamente expulsa pela bibliotecária. Ao longe podia ouvir as risadas de um grupo de jovens estudantes que conversavam alegremente como quem não tem uma única preocupação na vida. Trincou os dentes, sentindo um forte ressentimento. Ela e Syaoran tinham lutado tanto, arriscado suas vidas. Tinham pago um alto preço para manter aquelas pessoas em segurança e eles nem ao menos se importavam.
Without you
(Sem você)
The hand gropes
(A mão segura)
The ear hears
(O ouvido ouve)
The pulse beats
(O pulso pulsa)
Ela parou de caminhar quando avistou Seiya Yanamoto parado no meio do seu caminho. O rapaz a andava cercando o tempo todo novamente. Já estava cansada dele. Sentia-se levemente tentada a usar uma de suas cartas e dar um susto nele para que nunca mais se aproximasse. Seiya caminhou devagar até ela e parou a sua frente.
‘Preciso conversar com você.’
‘Não temos nada a conversar. Já falei que não te quero.’ Foi rude, sabia disso, mas não tinha como ser mais clara com ele.
‘Eu sei que Syaoran Li está morto.’
Ela fechou os olhos e respirou fundo, realmente estava tentada a usar uma carta nele. ‘Isso não lhe interessa.’
‘Eu sei o que você e ele eram. Não pense que sou como os idiotas que acharam ser loucura o que aconteceu seis meses atrás. Eu sei exatamente o que eu vi.’
‘Não me interessa o que você viu.’ Ela falou dando um passo para o lado para continuar seu caminho, mas o rapaz segurou seu braço com força. Ela o fitou de forma mortal. ‘Se sabe o que viu, então sabe do que eu sou capaz. Solte-me antes que eu apague você e sua insignificância da face da Terra.’ Ordenou e foi prontamente atendida. Tinha dado dois passos, distanciando-se do rapaz, quando ele voltou a falar.
‘Já ouviu falar do Clã Tao, Sakura.’
Ela parou. Sim, já sabia deles, já tinha encontrado algumas coisas interessantes na internet e em livros sobre o clã que era antagonista dos Li na China. Já tinha planos traçados e não queria Yanamoto se metendo nos assuntos dela.
‘Não me chame mais por Sakura.’ Falou, voltando a caminhar, mas ele não se deu por vencido.
‘Ah... então, também não sabe sobre kyonshis?’ O rapaz perguntou e sorriu de lado ao perceber que a jovem estaqueara. Ela voltou-se para ele devagar, encarando-o.
‘Não se meta nisto.’
‘Posso não ter magia como você, mas tenho dinheiro suficiente para comprar qualquer um e solicitar que faça o que eu pedir.’
Ela caminhou até ele e parou a sua frente. ‘E o que você acha que pode fazer com dinheiro, Yanamoto?’ Perguntou, praticamente cuspindo o sobrenome dele.
‘Eu posso contratar qualquer feiticeiro, bruxo, xamã, qualquer um... para trazer quem você quer de volta.’ Falou devagar e reparou que os olhos verdes que tanto o fascinavam se arregalaram. Ele tinha acertado, finalmente, o coração dela.
‘Kinomoto!’ Ela ouviu lhe chamarem e desviou os olhos de Seiya, voltando-se para a esquerda e viu Kurogane se aproximando deles ao lado de Tomoyo. Os dois pararam ao lado de Sakura.
'Está tudo bem?' Tomoyo perguntou, olhando de Seiya para Kurogane que se encaravam com animosidade.
'Não se metam nisso. Estamos conversando, não é, Sakura?’ Seiya falou de forma irônica.
Sakura franziu a testa. Ele estava blefando. Além disso, não precisaria da ajuda dos tipos dele. ‘Não vou avisar novamente para que não se envolva.’ Ela respondeu, afastando-se e fitando Tomoyo. 'Vou para o nosso alojamento.'
Tomoyo concordou e fitou Kurogane. ‘Vamos? Eu preciso devolver seu CD.’
‘Claro. Vamos.’ O rapaz falou ainda encarando Seiya que se contorceu de raiva.
‘Você ainda vai ser minha, Sakura. Eu estou avisando.’ O rapaz falou irado. ‘Agora não tem mais aquele idiota chinês por perto.’
Sakura sentiu todas as células do corpo explodirem. Sem pensar, levou a mão direita ao bolso, buscando uma de suas cartas para dar uma lição em Yanamoto, mas Tomoyo, por puro reflexo, segurou seu braço com força, olhando para a prima assustada. Num piscar de olhos, Kurogane voltou-se contra o rapaz e lhe deu um soco bem dado no rosto, possivelmente deslocando-lhe o maxilar. Seiya caiu no chão gemendo de dor.
‘Dobre a língua para falar do Li, Yanamoto!’ Kurogane gritou para ele. ‘Deveria quebrar todos os seus ossos!’
Tomoyo soltou Sakura e segurou o braço de Kurogane que estava bem tentado a cumprir a ameaça. 'Não vale a pena.' Falou, tentando acalmar o rapaz.
Sakura olhava para o rapaz encolhido no chão de forma distante, quase como se a cena a deleitasse.
Um grupo de jovens que estava um pouco mais distante veio em socorro a Seiya que segurava o rosto gemendo de dor.
Kurogane respirou fundo. ‘Vamos, Kinomoto. Você parece cansada.' Aproximou-se de Tomoyo, que empurrava de leve a amiga para se afastarem dali.
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Tomoyo olhou para o lado e fitou o perfil de Eriol enquanto rapaz dirigia pelas ruas de Hong Kong. Ela desviou os olhos dele e voltou-se para o banco traseiro, vendo a amiga que estava demasiadamente quieta. Ela usava óculos escuros para cobrir os belos olhos glaucos. Estava com o rosto voltado para fora, mas a morena sabia que ela olhava era para o nada.
Without you
(Sem você)
The eyes gaze
(Os olhos se fixam)
The legs walk
(As pernas andam)
The lungs breathe
(Os pulmões respiram)
Tomoyo tinha feito de tudo para impedir que a amiga fosse para a China, mas Eriol, no final, convenceu-a que, talvez, se Sakura visse a lápide de Li e constatasse que o rapaz estava realmente morto e enterrado, as coisas poderiam ficar mais claras.
Pararam em frente a mansão Li e Sakura saiu do carro, fitando a imponente residência. Estivera ali apenas uma vez, quando menina, na época que estava caçando as cartas Clow ao lado de Syaoran.
Eriol respirou fundo, também observando a construção. Não queria estar ali. Com certeza os anciões viriam para cima dele, perturbando-o como sempre faziam. Durante a cerimônia fúnebre, ele tinha se desentendido com os anciões e sabia que, assim que os velhos colocassem os olhos nele, voltariam a incomodá-lo sem respeitar a delicada situação. Se estava ali agora era por Sakura e por Li.
Os visitantes viram Yelan aparecer na porta da residência. Sakura pensou que ela não havia mudado muito do que a tinha em suas lembranças infantis. Continuava uma mulher muito bonita e séria, com uma aura mística intensa. Lembrava-se que Syaoran, quando criança, morria de medo dela e devia ter suas razões. Yelan transmitia muita seriedade, mas também despertava muito receio. A senhora desceu a longa escada devagar e sem tirar os olhos da jovem ruiva que se manteve parada, esperando pela aproximação dela. Yelan não havia sido muito gentil na última vez que se falaram por telefone. Não tinha rancor dela. Tinha era rancor da situação que tinha vivido por causa do afastamento de Syaoran.
A senhora parou a frente dela, tinha os olhos doces para a sucessora de Clow. Sorriu de leve. ‘Meu filho tinha me dito que você se tornou muito forte, Sakura. Estou realmente impressionada com sua presença.’
Sakura apenas engoliu seco, tentando fazer o bolo que se formava na sua garganta descer arrastando. A presença dela lembrava muito a de Syaoran.
‘Ele também tinha me dito que se tornou uma jovem lindíssima. Vejo que não exagerou.’ Falou de forma doce, pegando o rosto da jovem entre suas mãos. Tirou os óculos do rosto dela para que pudesse fitar os olhos esmeraldinos e sorriu novamente de leve. Sakura mordeu os lábios que tremiam. Queria falar com ela, mas sentia que a voz a abandonaria. Yelan deu um beijo demorado na face da jovem e voltou a fitá-la com carinho. Eriol parou ao lado da amiga e a senhora se afastou, endireitando-se. Sakura voltou a colocar o óculos escuros e secou de forma discreta o rosto.
The mind churns
(A mente se agita)
The heart yearns
(O coração deseja)
The tears dry
(As lágrimas secam)
Without you
(Sem você)
‘Boa tarde, senhora Li. Perdoe-nos por vir sem avisar.’ Ele falou com uma reverência.
‘Eu estava esperando por vocês.’ Ela respondeu com uma reverência. ‘Senhorita Daidouji.’ Cumprimentou a morena que retribuiu. ‘Por favor, entrem.’ Convidou o grupo indicando a residência. Caminhou devagar subindo os degraus e sendo acompanhada pelos três amigos.
Sakura respirou fundo. Não estava cansada da viagem, que fora até rápida. Estava cansada era daquele buraco no meio de seu peito causado pela ausência de Syaoran. Assim que entraram no enorme salão, os olhos verdes cravaram nos senhores vestidos com túnicas tradicionais chinesas. Franziu a testa, não gostando nada de encontrá-los.
‘Clow.’ Um deles falou encarando Eriol. ‘Que bom revê-lo.’
‘Eu não sou Clow. Meu nome é Eriol Hiraguizawa, Fu Wang.’ O rapaz falou com o tom um pouco irritado.
O senhor fez pouco caso, aproximou-se do grupo e desviou os olhos do rapaz para encarar Sakura. ‘E acredito que você deva ser a mestra das cartas, não?’
Sakura encarou o senhor por alguns segundos e desviou os olhos. ‘Isso não lhe diz respeito.’ Falou simplesmente. Não estava ali para falarem de magia como amigos. Estava ali, por suas próprias razões.
‘Claro que diz, minha cara. Você realmente tem um poder e uma presença fenomenais.’ Ele falou estendendo o braço para tocá-la no ombro, mas Sakura deu um passo para trás não permitindo o contato.
‘Estou aqui apenas por Syaoran.’ Falou sem rodeios.
‘Ah, sim... o jovem Xiao Lang.’ Ele disse com um sorriso mordaz. ‘Uma pena ele ter falhado em capturar as cartas. Você sabe bem que elas pertencem ao Clã Li, não?’
‘Fu Wang!’ Yelan interveio. ‘Isso não é hora!’
O velho deu de ombros. ‘Estou apenas sendo objetivo.’
‘Então eu também o serei.’ Sakura falou de forma fria. Não tinha gostado nada do tom desrespeitoso com o qual o velho havia falado de seu amado. ‘Estou aqui apenas por Syaoran. Melhor sair do meu caminho.’
Eriol tirou os olhos do ancião à sua frente e observou os outros sete que estavam parados mais adiante observando-os. Eram uns abutres, pensou para si. Constatou que o poder e a ganância haviam corrompido os principais ideais daquele Clã ao qual Reed Clow se unira tempos atrás com o intuito de produzir um poderoso guardião.
‘Desculpe-me, caríssima Mestra das Cartas.’ Fu Wang não gostou nada da resposta da japonesa, mas forçou-se a manter um tom diplomático. ‘Não quis de maneira nenhuma ferir seus sentimentos. Apenas precisamos ser claros com relação a sua posição.’
‘Que posição?’ Eriol interveio parando ao lado da amiga.
Tomoyo fez o mesmo. A morena sentiu um bolo na garganta, lembrando do que Meilyn havia lhe contado sobre o que o amigo de infância tinha passado quando retornou para Hong Kong sem as cartas Clow.
Outro ancião, mais novo que Fu Wang, mas tinha um semblante duro e uma presença desagradável, aproximou-se e trocou algumas palavras irritadas com Fu Wang em mandarim antes que ele pudesse responder. Depois voltou-se para Sakura, encarando-a com os olhos semicerrados. ‘Simples. Que ela entregue as cartas para o clã, já que Xiao Lang falhou e agora está morto.’
Sakura arregalou os olhos e deu um passo a frente. Como ele se atrevia a insinuar que a culpa de Syaoran ter morrido era dela?
‘Eu vim aqui apenas para prestar homenagem a Syaoran.’ Ela declarou tremendo de raiva e se voltou para Yelan. ‘Por favor, indique-me onde posso encontrar...’ Ela fez uma pausa, custava ainda falar. ‘...o túmulo dele.’
‘Não!’ O homem sibilou. ‘Não é permitido que concubinas visitem o túmulo dos membros do clã.’
Tomoyo arregalou os olhos irritada. ‘O quê?!’ exclamou indignada.
Eriol também mostrou aversão ao que o homem falou. O homem se manteve indiferente à revolta deles. Os outros membros do clã comentavam algo entre eles, fazendo um murmurinho irritante.
Sakura apenas o fitou com o rosto duro. Já estava realmente de saco cheio de tudo aquilo, controlava-se para não invocar seus poderes e fazer com que engolissem cada palavra e cada pensamento que tinham de Syaoran.
O homem olhou para Sakura e franziu a testa. ‘Não pense que só porque se deitou com ele tem os direitos de uma esposa.’
‘Respeite a mulher de meu primo, Reyume!’ Hyo Ling entrou como uma flecha no grande salão. Seu rosto mostrava toda a raiva que sentia ao presenciar tamanha falta de respeito para com a mulher que o primo tanto amava.
Meilyn apareceu logo atrás, mas estaqueou na porta observando todos os anciões reunidos. O chinês não se intimidou, parou a frente de Reyume com os olhos em chamas. ‘Peça desculpas a ela agora!’
O homem riu. ‘Agora deu para proteger a concubina do seu primo, Hyo Ling?’
‘Peça desculpas. Agora!’ Repetiu de forma baixa e mortal.
Sakura observou as costas do rapaz que tinha se colocado a sua frente, franziu a testa e se sentiu levemente desnorteada, alguma coisa na intromissão do marido de Meilyn tinha feito seu peito doer.
Life goes on
(A vida continua)
But I'm gone
(Mas eu desapareço)
'Cause I die
(Porque eu morro)
Tomoyo a segurou pelo braço, percebendo que a jovem cambaleou um pouco. ‘Vamos embora, Sakura. Isto aqui é loucura.’ A morena falou para a prima, sendo ignorada. ‘Estes velhos são malucos.’
‘Você irá me obrigar?’ O ancião ainda perguntou em tom de desafio para o jovem chinês.
‘Vamos resolver isso agora, então.’ O rapaz falou, colocando-se em posição de luta.
Já estava cansado daqueles velhos e presenciar a falta de sensibilidade e respeito com que eles trataram a mulher que o primo amava fora a última gota. Acompanhara todo o sofrimento do primo por amor àquela mulher. Constatou todo o amor que os dois tinham um pelo outro quando fora para o Japão.
Não permitiria que a tratassem assim. Se Syaoran estivesse vivo, eles não teriam nem direito a dirigir um olhar à mestra das cartas, imagina falarem aquele monte de merda para ela. Estavam se prevalecendo porque o primo estava morto. Nem mesmo respeitavam que tivesse morrido para defender a todos de um maluco que planejava destruir o mundo.
‘Você é um fedelho igual a Xiao Lang. Vou fazê-lo engolir estas palavras.’ Reyume também se colocou em posição de luta.
Os anciões mantinham-se estáticos, observando os dois. Fu Wang se juntou a eles para assistir à luta. Com certeza, assistir a Reyume seria uma lição de obediência aos mais jovens.
Meilyn tentou intervir em vão, assim como Yelan. A jovem chinesa estava tão tensa com a situação de perigo do marido que não conseguiu nem cumprimentar os amigos.
Os dois antagonistas iniciaram o combate no salão com extrema violência, destruindo parte da mobília e dos objetos de decoração, mas logo estavam no imenso quintal da mansão Li.
Sakura estava pronta para invocar sua magia e ela mesma tirar o desaforo com o homem, mas foi impedida por Eriol. Não seria bom a jovem invocar seus poderes na frente dos anciões, despertaria mais a cobiça deles. Deveria deixar que o primo de Syaoran resolvesse a questão.
Without you
(Sem você)
Meilyn beirava ao desespero vendo a luta dos dois. Reyume era o lutador mais experiente de todo o clã. O marido deveria estar muito fora de si e louco para desafiar o homem, que fora um de seus mestres durante o treinamento, para uma disputa daquelas. Tentou pedir que a tia intervisse, mas Yelan apenas balançou a cabeça informando que não poderia fazer nada agora que a questão estava sendo resolvida através de um combate. Ela sentiu o coração fisgar vendo o marido já com alguns ferimentos no corpo devido a luta.
‘Admira-me sua atitude, Hyo Ling.’ Reyume falou com desdém, observando o rapaz a sua frente. ‘Desafiar-me para proteger a amante de seu primo é realmente vergonhoso para o clã.’
‘Vocês não têm o mínimo respeito por Xiao Lang.’ Falou entre os dentes. ‘Estou cansado da arrogância e prepotência de vocês.’
‘Acho que vou ter que ser mais incisivo em seu castigo por se rebelar contra o clã.’ O homem falou com a voz fria. Ele fechou os olhos e uma poderosa espada se formou em suas mãos. ‘Você servirá de exemplo.’
Without you
(Sem você)
Hyo Ling arregalou os olhos, desviando dos ataques da arma mágica como pôde. Foi acertado duas vezes, fazendo a esposa gritar pelo seu nome e tentar se aproximar da luta. Meylin foi impedida por um dos anciões que a segurou.
‘Agora chega.’ Sakura falou levando a mão até o pingente para invocar sua magia. ‘Este cara é um covarde!’ Exclamou, mas estaqueou de repente ao sentir a presença tão familiar e amada. Arregalou os olhos, fitando Hyo Ling voltar a se levantar depois de receber mais um golpe de Reyume.
Without you
(Sem você)
O rapaz sorriu de lado e encarou o homem enquanto limpava o sangue que escorria de um corte na boca. ‘Sabe, Reyume, já estava com vontade de lhe dar uma surra há muito tempo. Pena que não tivemos oportunidade antes.’
O rapaz estendeu a mão para o lado e a esfera negra, tão conhecida de Sakura, voou em direção a mão dele. Jogou-a para cima duas vezes com a mão direita, encarando-o severamente.
Reyume franziu a testa, observando o rapaz com atenção e então arregalou os olhos, seu corpo tremeu e sentiu um calafrio. Não estava mais a frente de Hyo Ling.
Without you
(Sem você)
O rapaz jogou a esfera mais alto e pegou a espada mágica materializada com a mão direita, passando-a para a esquerda antes de, finalmente, empunhá-la com as duas mãos.
‘Vamos acabar logo com isso.’ Ele falou, trincando os dentes. ‘Vou fazê-lo engolir cada palavra que falou para Sakura.’
Sakura afastou-se de Tomoyo e deu um passo a frente, sentindo os olhos arderem. Em volta do corpo de Hyo Ling ela conseguia ver a aura esverdeada de Syaoran e os movimentos que o rapaz tinha feito ao invocar a espada mágica eram os mesmos que já tinha visto o namorado executar tantas e tantas vezes antes de uma batalha.
‘Syaoran...’ O nome amado saiu de seus lábios, reconhecendo-o.
Eriol franziu a testa, pois, assim como Yelan, ele conseguia ver claramente o espírito de Syaoran agindo no corpo do primo.
Without you
(Sem você)
Continua.
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