FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques

Capítulo 51

Bem-vindo ao Paraíso

Kazuo abriu os olhos e franziu a testa, observando o lugar onde estava e estranhando a ausência do céu em chamas. Fechou os olhos e respirou fundo. Reparou que a temperatura estava agradável e o lugar onde estava deitado era confortável. Abriu os olhos novamente, vendo-se no mesmo lugar. Sentou-se e olhou em volta.

Levou uma das mãos à cabeça, perguntando-se o que realmente tinha acontecido. Ele se lembrava claramente de ter lutado contra o dono do tal Deserto Ardente, só para que Midoriko parasse de lhe encher o saco. Depois ele brigou com ela, como sempre, e se afastou para descansar. Sim… isso mesmo… estava cansado da luta e com a droga do ferimento no braço ardendo.

Levantou da cama e deu uma volta no quarto. Então ele estava sonhando? Droga… Midoriko sempre o preveniu para que a avisasse quando fosse descansar.

Caminhou até a janela e olhou através dela, vendo o céu azul. Reparou no sol e lembrou-se da esfera multicolorida que surgiu a sua frente e a qual ele havia atravessado.

Arregalou os olhos com a lembrança. Mas que merda que ele fez?! Por que foi atravessar aquela droga?

Então não estava num sonho. Era real. Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás. Inferno! Por que tinha entrado naquela esfera? Porque estava curioso, claro. E porque aquela fonte o estava chamando. Mas por quê?

Conseguiu sentir a presença do pai bem próxima. Era só a presença dele. A da feiticeira e do garoto não estavam por perto. Franziu a testa novamente, percebendo várias outras presenças. Agora descansado, conseguia distingui-las melhor. Eram presenças diferentes e eram muitas. Arregalou os olhos surpreso. Será que eles tinham vários seguidores ou algo assim?

Isso era comum no mundo das trevas. Midoriko sempre falava que gostaria de ter milhares de servidores… Para não fazer nada, porque o trabalho pesado era sempre ele quem tinha que fazer.

Soltou um suspiro, pensando que precisava dar um jeito de voltar logo para o mundo das trevas. Midoriko e Arthas deveriam estar loucos atrás dele. E, quanto mais demorasse para voltar, pior seria o castigo por ter desaparecido.

Abriu os olhos e caminhou devagar, abrindo a porta do quarto para espiar o corredor. Foi quando viu uma criatura em cima de uma nuvem passar voando por ele. Voltou para o quarto, vendo uma outra criaturinha alada que perseguia a primeira. Elas pareciam estar... brincando?

A fadinha parou na frente dele e sorriu. ‘Oi!’

Ele coçou a cabeça sem entender direito o que acontecia ali.

Em seguida, outra pequena criatura alada apareceu, parando ao lado da primeira. Esta segunda o encarava com desconfiança. ‘Hum…. então este deve ser o outro filho do mestre.’ Comentou, estreitando os olhos nele.

‘Quem são vocês?’ Kazuo perguntou, apontando de um para o outro.

A primeira fadinha começou a rir. ‘É muito parecido com ele, não é?’ Ela falou, ainda rindo. ‘Até parece que Ilusão resolveu brincar.’

Kazuo olhou para baixo e viu outra criatura, parecia uma criança de 5 anos e o encarava com os olhos semicerrados. ‘A presença me faz lembrar de quando o mestre era um demônio, mas tem algo diferente, também.’

‘Isso é verdade.’ Sono falou para Força.

Uma criatura de orelhas compridas se aproximou e sentou olhando para Kazuo com curiosidade por alguns instantes antes de se aproximar, rodeando suas pernas e se esfregando nele.

Kazuo se assustou ligeiramente com aquela ação e franziu a testa, percebendo que a presença era de uma besta infernal, mas parecia domesticada.

Sorriu de leve e se abaixou, levantando a mão em direção à Corrida, passando-a pelo dorso da fera que pareceu se sentir muito satisfeita com aquilo.

‘Vocês deveriam deixar o filho do mestre em paz, não acham?’ Ele ouviu e levantou o rosto reparando em uma bela mulher de longos cabelos cacheados e uma coroa sobre a cabeça. Ela tinha os olhos cravados nele.

Força voltou-se para Luz. ‘Estamos apenas curiosos para conhecê-lo. Talvez ele queira brincar conosco também. Junto com Shaolin!’ Disse animada. ‘Já que a gente nunca pode brincar com Kasumi…’ Finalizou a frase num resmungo.

‘Vocês só pensam em brincar.’ Ela falou, soltando um suspiro. Olhou novamente para Kazuo que se endireitou, embora Corrida ainda passasse por entre suas pernas. ‘Que sorte você teve, hein, Garoto. Aqui é bem melhor do que o lugar de onde veio. Não precisa ficar com essa cara assustada.’ Ela sorriu de leve, continuando seu caminho pelo corredor até desaparecer da vista dele.

Brilho voou até Kazuo e parou bem perto do rosto dele. ‘Isso mesmo! Aqui é muito melhor!’ Falou, abrindo os braços de forma teatral.

Kazuo ainda olhava desconfiado para aquele monte de seres. Sentia–se completamente perdido. ‘Você.’ Ele falou apontando para a fadinha que sorria sem parar para ele. ‘Quem é você?’

‘Sou Brilho!’ Ela apresentou-se toda satisfeita, voando em torno dele. ‘Aquela ali é Sono.’ Ela falou, apontando para o outro ser alado. ‘E quem está se esfregando nas suas pernas é Corrida.’

‘E eu sou Força!’ A criança falou orgulhosa, sorrindo.

Espelho se aproximou, pedindo para elas se afastarem e irem brincar em outro lugar.

Força olhou para ela fazendo biquinho. ‘Aquela velha chata está de guarita. A gente não pode brincar no quintal.’

‘Pede para Ilusão ajudar vocês.’ Espelho sugeriu.

Sono voou até Espelho. ‘Eu posso fazê-la dormir? O mestre deixou da última vez!’

Espelho soltou um suspiro. ‘Não. Isso vai dar confusão. Pede para Ilusão criar uma barreira mágica e fazer a velha chata pensar que o quintal está vazio. Assim vocês podem brincar lá fora, certo?’

‘Oba! Oba! Oba!’ Pequeno passou pelo corredor e desceu as escadas pulando e já chamando por Ilusão, sendo acompanhada pelas outras Cartas que estavam em volta de Kazuo.

Espelho olhou para Kazuo e sorriu. ‘O mestre o está esperando lá embaixo.’ Ela falou com a voz suave. ‘Não precisa ter medo.’ Ela falou, já caminhando pelo corredor.

‘Eu não estou com medo.’ Kazuo respondeu, contrariado. ‘Só estranhei tantas criaturas mágicas num mesmo lugar.’ Falou seguindo-a.

Espelho sorriu. ‘Oras… de onde você veio também tinha várias criaturas mágicas.’

‘Sim… mas elas não estavam brincando.’ Ele respondeu devagar. Enquanto descia as escadas, viu Nuvem e Chuva voando pela casa. ‘Nem tão felizes…’ Completou baixinho.

‘Os mestres nos deixam sempre livres, contanto que não façamos mal nenhum para os humanos.’ Ela explicou.

‘Certo… é um acordo, então?’ Kazuo falou, descendo as escadas e ainda olhando as diversas criaturas que faziam algazarra pela casa.

Viu o grupo que o estivera cercando até minutos atrás tentando convencer um ser que tinha a aparência do pai a fazer alguma coisa.

Espelho deu de ombros. ‘Mais ou menos.’ Ela voltou-se para ele. ‘Aqui é muito melhor do que no Mundo das Trevas. Você pode relaxar que ninguém vai lhe fazer mal.’

Kazuo olhou desconfiado para ela e depois para a casa. ‘É tudo muito estranho.’

Espelho sorriu. ‘Mas é um estranho bom.’ Falou de forma animada. ‘Venha.’

Kazuo caminhou atrás dela, ainda observando a confusão pela casa. Não era bem assim que havia imaginado uma comunidade de seres mágicos. Os seguidores de Midoriko apenas ficavam bajulando-a e não se divertindo daquela maneira. Todos tinham muito medo.

Parou na porta da cozinha e viu Syaoran discutindo com uma criatura amarela que estava sentada na mesa, comendo.

Assim que Syaoran percebeu a aproximação de Kazuo parou de falar com Kero e olhou para o rapaz.

‘Depois a gente termina essa conversa, bola de pelo.’ Ele falou e apontou para a mesa. ‘Pode se sentar, eu já trago o seu café da manhã. Deve estar com fome.’ Syaoran falou, vendo o rapaz hesitar. ‘Senta.’ Falou de forma mais firme e, desta vez, Kazuo o obedeceu.

Kero olhou para Kazuo e estreitou os olhos no rapaz. ‘Tem a mesma cara feia que você.’ Falou antes de colocar mais um pedaço grande de bolo na boca.

‘Humph.’ Kazuo resmungou, olhando para Kero. ‘E quem é você?’

‘Sou o poderoso guardião do sol, Kerberus.’ Kero se apresentou. ‘A fera de olhos dourados. Protetor das Cartas Sakura.’

‘Título pomposo para uma criatura tão pequena.’

‘E é petulante igual a você, também.’ Kero comentou, batendo as asinhas e voando em frente ao rosto de Kazuo. ‘Tem inclusive a mesma presença ruim que você tinha antes.’

Syaoran rolou os olhos e deu um cascudo em Kero que reclamou. ‘Por que não vai jogar videogame?’ Intimou o bichano enquanto colocava um prato a frente de Kazuo.

Kero passou a mão no cabeção. ‘Agora vão ser três Kozous nesta casa. Assim vou ter que pedir abrigo com Clow.’ Falou, reclamando enquanto voava para longe de Kazuo.

Kazuo acompanhou o bichano voar para fora da cozinha. Olhou em volta e viu Bolhas lavando a louça. O pai colocou um copo com suco a frente dele antes de se sentar na cadeira do outro lado da mesa da cozinha.

Syaoran fez um gesto em direção ao prato. ‘Pode comer. Aqui você precisa comer, senão fica com dor. Entendeu?’

Kazuo acenou com a cabeça, informando que tinha entendido e começou a comer o que tinha no prato. Era estranho ter que comer agora, independente de fazer ritual ou coisa assim.

‘Isso é bom.’ Não conseguiu evitar o comentário.

‘É um dos prazeres de se viver fora do Mundo das Trevas. É ruim porque você precisa fazer de forma frequente, mas também, dependendo do que se esteja comendo, é prazeroso.’ Syaoran falou, encostando-se na cadeira e cruzando os braços enquanto observava o rapaz.

Sorriu de leve, pensando na conversa que teve com a esposa ontem, antes de dormir. Ele realmente parecia um bom garoto.

‘Acho que sim.’ Kazuo falou, dando de ombros enquanto comia.

‘Então, você… foi criado por Arthas?’ Syaoran perguntou.

Kazuo levantou os olhos para ele e franziu a testa de leve; era estranho estar na frente do pai daquela forma. Até porque achava que ele estivesse morto.

Quer dizer, pelo jeito, tecnicamente ele tinha morrido mesmo e estava ali na frente dele, não como o demônio de quem sempre lhe contaram, mas como um humano.

‘Acho que sim.’ Respondeu novamente.

‘Tem que parar de achar as coisas e começar a ter certeza.’ Syaoran retrucou. Respirou fundo e desviou os olhos do garoto por um instante, voltando a encará-lo em seguida. ‘Quando apareceu estava ferido, por quê?’

Kazuo ficou um tempo, observando-o calado. Droga! Ele podia ser humano, mas ainda era intimidante. ‘Eu tinha lutado contra um tal de Choronzon… eu a…’ Reteve-se, olhando para Syaoran. ‘Devia ser esse o nome dele. Foi o que Arthas me contou.’

‘E por que estava lutando contra ele?’

‘Porque é isso que demônios fazem.’ Kazuo respondeu. ‘Eles… nós lutamos.’

‘Todos lutam por alguma coisa. Não lutam simplesmente por lutar. O que você queria dele ou o que ele queria de você?’

Kazuo franziu a testa. ‘Por que está me perguntando isso?’

‘Para tentar entender… Embora…’ Syaoran deu um longo suspiro. ‘Seja fácil deduzir que, pelo jeito, Midoriko mandou que você lutasse contra este tal de… Este demônio aí, para conquistar o território dele, não?’

O rapaz desviou os olhos. ‘Ela quer conquistar todo aquele monte de areia inútil.’ Encolheu os ombros. ‘Não sei muito para quê, mas… Eu tenho que fazer o que ela manda.’

Syaoran ficou calado, observando o rapaz e controlando a vontade de falar todos os palavrões que conhecia xingando Midoriko. Ela simplesmente, teve a audácia de ter um filho dele para obrigá-lo a sair lutando pelo mundo das trevas e conquistar aquela merda toda como sempre ambicionou e lhe propôs inúmeras vezes enquanto ele esteve lá.

Kazuo voltou a fitar Syaoran que se mantinha calado. Percebeu que a aura dele tinha expandido bastante e chegou a assustá-lo, mas estava com o rosto sério, apenas o fitando.

‘Eu preciso voltar.’ Kazuo falou, quebrando o silêncio.

‘Voltar?’ Syaoran perguntou, estreitando os olhos nele. ‘Para quê?’

Kazuo desviou os olhos novamente. ‘Porque lá é o meu lugar.’

Ouviu um barulho surdo na mesa e voltou a olhar para o pai que se inclinou aproximando dele. ‘Aquela…’ Ele reteve-se para evitar xingar Midoriko. ‘Aquele demônio só o teve para conquistar aquela merda. Você não volta para lá.’

‘Eu só estou vivo por causa dela.’ Ele rebateu.

‘Você está vivo, por enquanto. E enquanto ainda for útil para ela.’

Kazuo se levantou e encarou Syaoran. ‘Aqui não é meu lugar.’

‘Senta.’ Ele mandou.

‘Você não manda em mim.’ Kazuo falou, trincando os dentes.

Syaoran estreitou os olhos nele. ‘Olha aqui, Garoto, ou você senta na boa para terminarmos esta conversa ou o obrigarei a fazer isso.’

Kazuo desviou os olhos dele, suspirou de forma pesada e voltou a se sentar. ‘Não tem mais o que conversar.’ Falou entre os dentes. ‘Meu lugar não é aqui. Eu sou um demônio e o meu lugar é no mundo das trevas e não convivendo com humanos.’

‘Para seu azar, você é meu filho e apareceu na minha vida agora. Então, demônio ou não, você não volta para aquele inferno se eu puder evitar.’

Kazuo arregalou os olhos de leve, pego de surpresa pela afirmação do pai. Ajeitou-se na cadeira. ‘Até onde eu saiba, demônios são perseguidos fora do mundo das trevas.’

Syaoran levantou a mão e apontou para Bolhas que tinha parado de lavar a louça e olhava para os dois. ‘Ela era um demônio… e eu acho que você já se encontrou com os outros aqui em casa. Então, este negócio de ser perseguido e tal… depende mais das suas ações que dos humanos. Não terá muitos problemas, contanto que se controle.’

Kazuo sorriu ironicamente de leve. ‘E você quer o quê? Que eu viva aqui com você, a sua fêmea e o seu filho?’

Syaoran franziu a testa, olhando sério para ele novamente. ‘Primeiro, eu não tenho uma fêmea, eu tenho uma esposa; e o nome dela é Sakura. Segundo, o meu outro filho é seu irmão. E o nome dele é Shaolin. E em terceiro, é exatamente isso que eu tenho em mente. Por quê? Você tem uma ideia melhor?’

Kazuo ficou em silêncio encarando o pai, até que, por fim, balançou a cabeça de leve informando que não.

Syaoran bateu de leve na mesa e se levantou. ‘Termina de comer seu café da manhã. Tenho que ir para o trabalho agora. Espelho ficará com você aqui em casa. Pode perguntar o que quiser e pedir ajuda para ela.’ Ele falou, encarando o rapaz. ‘Estarei de volta no final do dia, quando o céu começar a ficar avermelhado. Seu irmão deve chegar…’ Syaoran fez uma pausa e soltou um suspiro. ‘Espero que ele chegue um pouco antes.’

‘Ele não gosta de mim.’

‘Ele não sabe o que está acontecendo direito.’ Syaoran rebateu. ‘Eu vou conversar com ele à noite.’

Kazuo abriu um sorriso irônico. ‘Pelo jeito você manda em tudo aqui, não é?’

‘Não. Quem manda aqui é a Sakura.’ Sorriu de leve. ‘É bom tratá-la bem.’ Disse, bagunçando o cabelo do rapaz antes de sair da cozinha.

Kazuo observou por onde o pai tinha saído. Olhou para Bolhas, que estava parada, olhando fixamente para ele, e a viu abrir um sorriso. Sorriu de leve, vendo-a voltar a lavar a louça. Passou a mão pelo cabelo que o pai tinha acabado de bagunçar e alargou o sorriso. Talvez não fosse tão ruim ficar ali… Por um tempo, pelo menos.

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Kasumi desviou os olhos do professor que explicava a lição de matemática e virou-se para Shaolin que olhava o céu pela janela. O garoto estava naquela posição desde que tinha chegado, dado um “bom dia” quase inaudível e sentado à carteira. Nem o material havia tirado da pasta. Apenas se sentou e ficou olhando para a janela. Às vezes, olhava para frente, abaixava a cabeça, repousando-a entre os braços e voltava a virar para olhar através da janela.

O professor, sentindo-se incomodado pelo pouco caso do menino, chamou-o duas vezes para responder perguntas. Na primeira vez, teve que chamá-lo mais de uma vez para que o garoto se desse conta de que estavam falando com ele. Shaolin havia se levantado, inclinando a cabeça com um suspiro pesado para ganhar tempo e fazer os cálculos antes de responder.

Tinha acertado, como sempre. Shaolin era ótimo em matemática, totalmente diferente dela que era péssima.

O professor continuava a se sentir incomodado e irritado. Ainda fez isso mais uma vez e, mesmo o menino acertando a resposta, alertou-o para prestar atenção à aula ou, caso estivesse se sentindo mal, a ir para a enfermaria.

Kasumi pensou até em se levantar e se oferecer para levá-lo à enfermaria, mas Shaolin apenas se sentou, respondendo que estava bem. Desculpou-se, pedindo para ser deixado em paz. Talvez a intenção do garoto não fosse ser irônico, mas foi bem petulante.

A resposta provocou um murmurinho pela sala de aula, que teve de ser controlado pelo professor. Depois que a turma voltou a ficar quieta, o professor passou a procurar outras vítimas para responder suas perguntas. E entre elas estava Kasumi, claro.

Kasumi se levantou e pigarreou antes de responder a pergunta. Olhando de esguelha, viu que Shaolin tinha deixado de olhar pela janela para prestar atenção nela quando o professor chamou seu nome. Depois que ela respondeu, sentindo-se satisfeita de ter acertado, percebeu que o menino voltou a olhar para o nada.

Não gostava de vê-lo daquela forma. Olhou para o professor que estava explicando a matéria, sentindo-se cada vez mais incomodada. Respirou fundo, soltando o ar devagar e tentando controlar a vontade de levantar e ir até a mesa do amigo perguntar o que tinha acontecido.

Voltou a olhar para o quadro onde o professor continuava a explicar a lição. Ela olhou para o relógio de pulso e bateu os dedos de leve para controlar a agonia. Faltavam menos de 15 minutos para o horário do almoço. Praticamente ficou o final da aula olhando para o relógio insistentemente, como se aquilo ajudasse os ponteiros a andarem mais rápido. O sinal tocou, fazendo os alunos se levantarem animados.

Kasumi levantou e caminhou até a carteira de Shaolin que, indiferente à algazarra da sala, mantinha o olhar vago para fora. Antes dela se aproximar, ela ainda o viu soltar um suspiro e abaixar o rosto novamente, apoiando a testa sobre os braços que estavam sobre a mesa.

‘O que está acontecendo?’ Ela falou, parando ao lado dele.

‘Nada.’ Ele respondeu sem levantar o rosto. ‘Estou sem fome, Kasumi. Vou ficar aqui.’

‘Está com sono?’ Ela voltou a perguntar, preocupada. ‘Por que não dormiu?’

‘Não estou a fim de conversar.’ Ele falou, sem levantar o rosto. Pegou a lancheira com o almoço dele com uma das mãos e estendeu para a menina. ‘Toma… Pode ficar com o meu almoço.’ Ofereceu.

‘Tem certeza?’

‘Absoluta. Foi kaasan quem fez, então deve estar muito gostoso.’

Ela pegou da mão do menino e deu de ombros. Se ele queria lhe dar, então tudo bem. Olhou para trás e viu o professor saindo da sala, estavam finalmente sozinhos.

Ela se sentou na carteira a frente da de Shaolin e tocou na cabeça dele, mas ele ainda não levantou o rosto. ‘Você não está bem… O que aconteceu?’ Perguntou com a voz doce.

Shaolin não respondeu, não queria mentir para a amiga, mas também não queria falar sobre o assunto. Ele só tinha ido para a escola para não ficar em casa. Não queria ver o pai, não queria ver a mãe e, principalmente, o “novo” irmão. A mãe ainda tentou conversar com ele e insistiu para tomar o café da manhã. Tomou a contragosto.

Quando o pai chegou na cozinha, simplesmente levantou-se, largando o café da manhã pela metade e falando que estava atrasado para a aula. Não conseguiu nem olhar para ele direito. Ouviu os pais ainda discutindo sobre ele antes de sair porta afora.

Cerrou os punhos e trincou os dentes. Inferno! Por que aquilo estava acontecendo na sua vida agora? Queria apenas ser normal! Agora tinha um irmão do nada que veio sabe-se lá de onde.

Kasumi levantou a mão e tocou novamente na cabeça dele, mordeu o lábio inferior e passou os dedos pelos cabelos de Shaolin com carinho. Sorriu de leve ao perceber que ele não se importou.

Shaolin conseguiu sorrir de leve, sentindo o afago que a menina fazia. Fechou os olhos, apreciando-o. Estar ao lado dela daquela forma era bom. Ficaram em silêncio por alguns minutos.

‘É sobre magia, Shaolin?’ Ela perguntou depois de um tempo.

‘Não.’ Ele respondeu num sussurro. ‘Tousan…’ Ele começou a falar, mas se reteve. Levantou o rosto e fitou Kasumi que estava próxima a ele. Ela corou e desviou os olhos dele. ‘Deixa para lá.’ Ele falou e se afastou, encostando-se na cadeira. Soltou um suspiro e olhou a amiga. ‘Não quero preocupá-la, mas não me peça para explicar o que eu ainda não consegui entender direito, por favor.’

Kasumi concordou com a cabeça e viu o amigo novamente olhar para o nada. Ficaram em silêncio por um tempo.

‘Kasumi…’ Ele a chamou de repente. ‘Você é boa aluna em biologia, né?’

A menina sorriu. ‘É muito mais fácil que matemática.’

Ele franziu a testa. ‘Hum…’ Murmurou e se virou para ela que o fitava. ‘Reprodução sempre envolve se-…’ Ele desviou os olhos, sentindo o rosto esquentar. Pigarreou e pensou por alguns segundos em como os professores costumavam falar naquele tipo de aula. ‘Envolve troca de gametas, não é?’ Conseguiu perguntar.

Kasumi ergueu uma sobrancelha olhando para Shaolin. A prova de biologia seria apenas no próximo mês e não era esta matéria que estavam estudando. Inclinou a cabeça, observando-o corar e desviar o olhar dela. Soltou um suspiro.

‘Nem sempre.’ Ela finalmente respondeu. ‘Tem algumas espécies que são assexuadas.’

Shaolin se ajeitou na cadeira. ‘Não… Mas quando tem macho e fêmea.’

‘Eu não sei. Acho que depende da espécie…’ Ela falou, encolhendo os ombros. ‘Hum… Você está falando de quê exatamente? Vegetais? Animais?’ Ela estreitou os olhos nele. ‘Humanos?’

Shaolin arregalou os olhos e corou de forma violenta. Virou o rosto sem conseguir encará-la. Não tinha coragem de perguntar para ela. Sentia-se encabulado demais para isso. ‘Deixa pra lá.’ Sussurrou.

Kasumi ainda observou o amigo. ‘Você não vai comer nada mesmo?’

‘Não estou com fome. Melhor você ir. Daqui a pouco recomeça a aula.’

‘Acho que sim.’

Ela ainda ficou parada, olhando para ele. Queria perguntar novamente e insistir para saber o que tinha acontecido, mas como ele pediu para não o fazer, então achou melhor ficar quieta.

Shaolin sentiu a presença da prima se aproximando, levantou-se e olhou pela janela da escola, vendo Marie que, pelo jeito, tinha faltado a aula, pois estava sem uniforme. Ela parou perto da grade da escola dele e levantou o rosto.

Ele suspirou e desviou os olhos dela. Não queria falar com ela também, mas não podia negar que tinha ficado preocupado com o estado em que a deixara ontem, antes de voltar para casa. Pegou a pasta que estava pendurada na sua mesa.

‘Vai embora?’ Kasumi perguntou.

‘Sim’ Ele respondeu, começando a caminhar para a saída da sala.

Kasumi foi atrás dele. ‘Vai sair como?’

‘Vou pular o muro.’ Ele esclareceu.

‘Pular o muro?’ Ela franziu a testa de leve e colocou um dedinho no queixo. ‘Shaolin!’ Chamou o menino que se virou para ela. ‘Pule a cerca do lado esquerdo. É mais fácil e não tem perigo de você cair em cima das latas de lixo.’ Ela recomendou e sorriu.

Shaolin olhou desconfiado para ela. Kasumi era como uma caixinha de surpresas. ‘Como você sabe disso?’

Ela deu de ombros. ‘Sempre é bom saber onde existe uma rota de fuga, não?’

‘Acho que sim.’ Respondeu sorrindo. ‘Obrigado, Kasumi.’ Falou e já estava para se afastar quando voltou-se para ela e a abraçou.

Ela arregalou os olhos, surpresa pela atitude dele, sentiu as bochechas esquentarem e apertou mais forte a lancheira dele que tinha na mão direita. Shaolin se afastou, caminhando em direção à saída da sala de aula.

Kasumi piscou os olhos algumas vezes, voltando à Terra. Soltou um suspiro antes de abaixar o rosto, abrindo a lancheira de Shaolin e vendo o que teria a mais para o almoço.

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Shaolin desceu as escadas com pressa. Caminhou rápido pelo pátio até a parte de trás da escola, olhou para um lado e depois para o outro, jogou a pasta, fazendo-a voar por cima da grade e, sem muitos problemas, saltou com agilidade .

Achou que alguém o tivesse chamado, mas não se importou nem em se virar para ver quem era. Assim que pousou no chão, pegou a pasta e voltou a caminhar, afastando-se da escola. Logo encontrou a prima, que estava encostada numa mureta com os braços cruzados, esperando por ele.

Ele parou a frente dela e franziu a testa. Ainda estava pálida e tinha os olhos tristes e vermelhos.

‘Pulou mesmo o muro da escola, pirralho?’ Ela falou, forçando um sorriso para ele.

‘Pulei a grade. As latas de lixo ficam perto do muro. A Kasumi me deu a dica.’

‘A pirralha gulosa?’ Marie perguntou, erguendo uma sobrancelha. ‘Como ela sabia disso? Ela anda cabulando aula, é?’

Ele deu de ombros. ‘Não faço ideia. Kasumi sempre consegue me surpreender.’

Marie balançou a cabeça de leve. ‘Tenho que concordar com você.’

Shaolin voltou a fitá-la. ‘Você está com a aura mais forte, mas sua cara ainda não está boa.’ Ele olhou para trás pelo ombro direito. ‘Daqui a pouco kaasan vem atrás de mim, percebendo que eu me afastei da escola.’

‘É verdade… Mas acho que ela vai perceber que você está comigo e deixar passar dessa vez.’ Marie comentou. ‘Só não pode ficar cabulando aula o tempo todo.’

‘Acho que sim.’ Ele deu de ombros.

Começou a caminhar e a ruiva foi ao lado dele. Ficaram em silêncio enquanto se afastavam da escola.

‘Ontem…’ Ela começou a falar baixinho, fitando o chão. ‘Eu me lembrei de tudo.’

‘De quando era uma Carta?’

‘De antes de me tornar uma…’ Ela esclareceu. ‘Eu me lembrei de quem nos transformou em Cartas, ou melhor… De quem nos aprisionou naquela forma.’

‘Aprisionou?’ Shaolin perguntou, erguendo uma sobrancelha. ‘Não estou entendendo. As Cartas não estão presas.’

Marie suspirou e chutou uma pedrinha do chão. ‘As coisas estão melhores agora por causa da sua mãe. Mas nem sempre foi assim. Ela é uma pessoa muito especial.’

Shaolin sorriu de forma irônica. ‘Especial demais. Compreensiva demais, inclusive.’

Marie olhou para o primo que caminhava ao seu lado. O rosto dele era duro, realmente nunca pensou em vê-lo assim. Ele sempre parecia ter uma cara de bobo, de pirralho. ‘Acho que vou ter que explicar para você as coisas desde o começo para que entenda.’

‘Sabe, nee-san…’ Ele falou. ‘Eu nem sei se quero entender mais nada.’

‘Mentiroso.’ Ela soltou uma risadinha.

‘Você não veio me procurar para me contar de novo aquela história absurda de… Invasão de sonhos.’ Ele falou, levantando a mão à frente do rosto.

Ela suspirou e meneou a cabeça. ‘Também.’ Respondeu. ‘Estou com problemas.’

‘É, estamos.’ Ele concordou. Olhou para a prima. ‘Está tão triste assim porque lembrou exatamente de quê, nee-san?’

Ela ficou em silêncio e comprimiu os lábios de leve. Shaolin percebeu a apreensão e desconforto da prima. Estava sendo difícil para ela.

‘Da pessoa que a transformou… que a aprisionou…’ Ele repetiu o que ela tinha lhe falado. ‘Você lembrou quem foi?’ Ela concordou com a cabeça. ‘E quem foi?’

‘Foi otousan.’ Ela respondeu, fazendo-o arregalar os olhos. Balançou a cabeça. ‘Quer dizer, na verdade, foi o Mago Clow…’

Shaolin olhou de esguelha para a prima que se mantinha calada.

‘Então foi Clow-sama quem aprisionou todos… Hum… Faz sentido. Kaasan falou que ela teve que capturar as Cartas quando criança junto com tousan e, depois, transformá-las em Cartas dela.’

‘Isso.’

‘Mas porquê ele aprisionou vocês?’

Marie virou à esquerda e começou a entrar no parque do Rei Pinguim acompanhada pelo primo. ‘Ele tinha medo da gente.’

‘Medo? Não tem porque ter medo das Cartas.’

Marie sorriu de leve. ‘Você fala isso porque foi criado junto delas. Mas a maioria dos humanos têm medo de criaturas mágicas… Principalmente de criaturas vindas das trevas.’

Shaolin parou de caminhar.

Marie deu ainda dois passos antes de perceber que o primo estacou Voltou-se para ele devagar e o encarou. ‘Nós éramos demônios.’ Ela explicou com um semblante sereno. ‘Na verdade… as Cartas ainda são. Elas estão um pouco modificadas porque tiveram suas essências transformadas, primeiro por Clow-sama e depois pela Mes… Sakura-ba-san e seus poderes ainda estão contidos. As lâminas são como prisões.’

‘Prisões?’ Ele repetiu assustado. Nunca tinha imaginado que as suas companheiras de diversão estivessem naquela condição.

‘Exatamente. Sua mãe e, também, o seu pai foram quem afrouxaram esta prisão, mas não sei se elas poderiam ser libertadas.’

Marie voltou a caminhar e Shaolin a seguiu. Como estavam em horário de aula o parque estava vazio.

‘E por que você deixou de ser uma Carta e é minha prima agora? Você é humana.’ Ele perguntou, depois desviou os olhos dela. ‘Apesar de que…’ Ele reteve-se. Agora era fácil perceber que a presença mágica da prima era das trevas, sendo parecida com a do “irmão”.

‘É isso que está pensando mesmo.’ Ela falou e parou perto de uma árvore. Olhou para cima e começou a subir, sentando-se num dos galhos. Shaolin largou a pasta com o material escolar no chão e subiu, sentando-se em outro perto dela.

‘Você deve estar bem chateada com o seu pai.’ Ele falou.

Marie fechou os olhos por alguns segundos. ‘Eu… Eu, sinceramente, não sei direito o que sinto por ele agora.’

‘É complicado.’ Ele falou e ela concordou com a cabeça.

Ela suspirou profundamente e eles se mantiveram em silêncio por alguns minutos. Sorriu de leve, vendo uma nuvem passar vagarosamente pelo céu azul, tão diferente do céu de fogo do mundo das trevas. Olhou de soslaio para Shaolin que ainda tinha o rosto sério, tentando digerir o que ela havia lhe contado.

Aquilo era só a ponta do iceberg e ela estava determinada a tentar fazer com que o primo cabeça-dura aceitasse a verdade sobre a aparição do meio-irmão.

‘E o que você vai fazer agora?’ Shaolin perguntou para a prima. ‘Não pode simplesmente deixar de gostar do seu pai.’

Marie sorriu de leve. ‘Você deixou de gostar do seu?’

Shaolin fechou os olhos brevemente. ‘Eu estou decepcionado com ele. Mas… Não foi ele quem me trancou em uma carta.’

‘Bem colocado.’ Marie falou. ‘E nem o deixou numa “solitária” por mais de 500 anos.’

Shaolin virou-se para a prima, quase caindo do galho em que estava sentado. ‘Eriol-ji-san fez isso?!’ Arregalou os olhos novamente quando a viu acenar que sim com a cabeça. ‘Mas por que ele fez isso? Ele é louco por você!’

‘Para você entender isso, eu precisaria contar sobre como era a vida no Mundo das Trevas e não seria uma história muito agradável.’

Shaolin olhou para a prima sério. ‘É bom começar a me explicar, nee-san. Senão… Não tem como eu entender. Meus pais me falaram que possuem duas existências, mas não me contam tudo. Tem uma lacuna e, pelo que eu consegui entender daquela conversa de quando o... aquele cara lá apareceu… tousan ou o pai dele, ou sei lá… Morreu. Então…’ Shaolin franziu a testa de leve. ‘Está na hora de alguém me contar o que realmente aconteceu.’

‘Acha que aguenta, pirralho?’ Perguntou abrindo um sorriso debochado, tentando aliviar um pouco a tensão, mas o primo continuou encarando-a seriamente.

‘Prefiro aguentar isso do que continuar a acreditar que tousan é um cretino e kaasan é uma tonta. Desembucha.’

Marie suspirou fundo. ‘A história é longa.’

‘Temos a tarde inteira.’ Ele retrucou e a viu assentir com a cabeça.

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Kazuo observava, sorrindo de leve, as criaturas fazendo algazarra no quintal dos fundos da casa. Coçou a cabeça, olhando sem jeito para elas. Realmente não era assim que imaginava uma comunidade de seres como aqueles.

Ele podia sentir o alto nível de magia que emanava deles. Eram todos demônios superiores, mas, ao invés de ficarem disputando por território ou pela liderança do grupo, conviviam sem muitos problemas, aparentemente. Apenas eram extremamente barulhentos.

Sentiu quando uma criatura do tamanho de uma criança passou ao seu lado, tinha cabelos cacheados, rosto sério e parecia ter luvas de boxe nas mãos. ‘Hei! Luta!’ Ela gritou. ‘Você está me devendo uma revanche!’

Uma das criaturas que estava no quintal virou-se para ela e deu alguns passos em direção a sua desafiante. Tinha traços orientais e um sorriso debochado nos lábios. Ela inclinou o corpo em direção à baixinha que a chamou. ‘Você acha mesmo que pode comigo, Tempestade?’

‘Os mestres não estão aqui agora para proteger você de mim.’ A menina falou cruzando os braços e encarando Luta. Ela voltou-se para trás e fitou Kazuo que estava encostado no batente da porta que dava acesso ao quintal. Depois voltou-se para Luta. ‘Só está o novo filho do mestre, mas ele não vai se importar. Ele deve entender questões de honra entre guerreiros.’

Luta tirou os olhos de Tempestade e fitou Kazuo que franziu a testa de leve, observando as duas. Ela balançou o corpo de leve e sorriu para a pequena. ‘Se ele liberar, então você terá a sua revanche.’

Tempestade fechou mais o rosto. ‘Você é impossível.’

‘Você é teimosa.’ Luta rebateu.

Tempestade caminhou com passos duros até Kazuo e parou a frente dele. Levantou o rosto encarando-o. ‘E então, tá liberado?’

Kazuo coçou a cabeça sem graça. ‘Para vocês duas…’ Ele apontou para Tempestade e depois para Luta e voltou a fitar a pequena. ‘...lutarem?’

‘Claro, né? Não dá se você não liberar.’

‘Mas eu não tenho nada a ver com isso.’ Kazuo falou, confuso.

‘Você é o filho do mestre, então está na hierarquia. Anda logo.’ Ela falou enfezada.

Luta se aproximou saltitante e sorriu para Kazuo, depois voltou-se para Tempestade. ‘Você anda muito tempestuosa.’ Ela falou, dando uma risadinha.

‘Humph.’ Tempestade resmungou. ‘Você anda muito metida.’

Luta olhou para Kazuo novamente e cruzou os braços, encarando-o. ‘E aí?’

‘Parem já, vocês duas!’ Ouviu-se uma voz serena se aproximar.

Kazuo voltou-se para trás e deu espaço para a figura de um ancião aproximar-se. Ele tinha uma ampulheta em suas mãos.

‘Não perturbem o jovem mestre. Ele está confuso ainda. Acertem esta disputa boba de vocês quando os mestres estiverem de volta.’ Ele falou com a voz firme, fazendo as duas criaturas concordarem de leve. Tempo parou perto do rapaz e franziu a testa de leve. ‘Tempo é algo relativo, não? Sente-se como se tivesse séculos de existência, mas sua aparência é de um menino de 16 anos.’

‘Do que está falando?’

‘Aqui o tempo passa mais devagar do que de onde viemos, meu rapaz.’ Ele suspirou. ‘Aqui tudo é mais lento… Porque aqui os prazeres vão muito além dos carnais e materiais, porém há dores mais dolorosas do que apenas ferimentos na carne.’

Kazuo observou-o, voltar a entrar na casa. As duas criaturas que antes estavam prontas para brigar estavam agora conversando junto com as outras.

Balançou a cabeça de leve, definitivamente não era assim que imaginava uma comunidade de seres daquele nível de poder. Aquele mundo realmente era muito estranho.

Encontrou Espelho que estava conversando com outra criatura. Na verdade, parecia estar tendo aulas de canto com ela. Aproximou-se, sentindo-se um pouco encabulado, principalmente quando as duas sorriram para ele. Todos pareciam gostar dele ali. Sem nem ao menos conhecê-lo. A primeira atitude de um demônio era sempre a hostilidade e não um sorriso aberto daquela forma. Claro que reparou que existiam algumas que eram mais sóbrias e mais sérias, mas estas também não tinham uma postura agressiva com ele, muito pelo contrário.

‘O que quer, jovem mestre?’ Espelho perguntou, sorrindo.

Kazuo olhou rapidamente para a companheira de Espelho e depois voltou-se para ela. ‘Será que… Eu gostaria de andar um pouco por aí.’

Espelho arregalou os olhos de leve.

‘Acho que seria interessante o jovem mestre conhecer a cidade.’ Canção falou com a voz suave.

Espelho meneou a cabeça de leve, ainda indecisa.

‘Não dá para eu ficar preso aqui dentro, não é?’ Kazuo falou, franzindo a testa de leve.

Espelho concordou. Uma névoa mágica envolveu-a, fazendo Kazuo piscar os olhos ao ver a imagem da esposa do pai. Ela sorriu. ‘Está bem. Eu acompanho você.’

‘Assim?’ Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha.

Espelho deu de ombros. ‘Qual o problema?’

‘Nenhum… só que é estranho.’ Ele suspirou. ‘Tudo aqui é estranho.’

Espelho sorriu. ‘Mas como eu falei antes, é um estranho bom, não é?’ Ela se despediu de Canção, caminhando em direção à porta da frente. Voltou-se para o rapaz e franziu a testa. ‘Criatividade! Pode me ajudar aqui?! Tem como criar umas roupas que sirvam no jovem mestre?’

Kazuo viu-se envolvido por uma névoa mágica também e estranhou. Logo estava com roupas diferentes das que estava antes. ‘Hei! Para que serve isso?’

‘Oras… Agora não parece que você está usando as roupas de outra pessoa!’ Espelho falou, rindo e abrindo a porta. ‘Vamos lá, acho que vai ser divertido.’ A voz dela estava animada.

Kazuo ainda se olhou e estranhou, mas caminhou seguindo a figura de Sakura. Ela saltou os degraus animada e sorriu. Kazuo inclinou a cabeça de leve, reparando que a tal Feiticeira realmente era bonita como Arthas contava. Espelho voltou-se para ele que desviou os olhos, caminhando atrás dela.

Andaram pela cidade. Kazuo olhava com espanto e interesse para as construções, os carros, as pessoas que caminhavam de forma livre e distraídas. Ninguém parecia estar em estado de alerta ou com medo, apenas apressadas. Uma jovem esbarrou nele e ele se voltou para ela, vigilante. De onde vinha, quando se esbarrava em alguém sempre era para se iniciar uma luta. Reparou que a menina abaixou os olhos, vermelha.

‘Desculpe-me. Estava distraída.’ Ela falou, encolhendo os ombros.

Kazuo franziu a testa. Olhou para Espelho que riu baixinho. Voltou-se para a jovem. ‘Tá tudo bem.’ Falou ainda incerto e a viu levantar o rosto corado com um sorriso.

‘Vamos?’ Espelho o chamou, voltando a caminhar. Kazuo foi atrás dela ainda sem entender.

‘Então quando se esbarra não quer dizer que você quer lutar?’

Espelho sorriu. ‘Duvido que ela gostaria de lutar com você.’ Falou, soltando risadinhas.

Kazuo coçou a cabeça. ‘É muito estranho.’

‘Você vai precisar de um tempo até entender. Quando a mestra me liberava para que eu ficasse no lugar dela, Touya sempre me ajudava a entender como as coisas funcionavam.’

‘Touya?’ Kazuo perguntou e a viu abaixar os olhos e corar.

‘É o irmão da mestra.’ Ela falou e desviou o rosto para que Kazuo não percebesse que ela estava corada ao mencionar o homem.

‘Ele é humano?’

‘Sim.’ Ela respondeu. ‘Foi ele quem me explicou com paciência como tudo funcionava aqui.’

‘Então os humanos não perseguem mesmo os demônios como ele falou hoje pela manhã.’

‘Depende muito mais de você. Claro que humanos ruins existem, assim como demônios bons também existem. Quando o mestre se tornou um demônio todos ficaram muito apreensivos pela segurança da mestra, mas no final quem realmente fez mal a ela foi um humano.’

‘Como assim?’

‘A mestra morreu depois de ter sido atingida por um humano muito ruim. Mas depois ela voltou para nós.’

Kazuo ficou em silêncio, caminhando ao lado de espelho e observando com curiosidade a cidade.

‘Então ela ficou com ele, mesmo ele sendo um demônio?’ Voltou ao assunto.

‘Ela foi atrás dele no Mundo das Trevas quando ele foi obrigado a voltar para lá.’

‘Ah, sim… Aquela história das brechas. Arthas me contou.’ Kazuo falou, fazendo a correlação.

‘Eles se amam muito.’ Espelho falou, sorrindo abertamente.

Kazuo ergueu uma sobrancelha. ‘Amam…’ Repetiu devagar, olhando desconfiado para ela que confirmou com a cabeça.

No Mundo das Trevas, o senso comum era de que os sentimentos humanos apenas serviam como fraquezas a serem exploradas. Ele nunca ouviu falar de tais sentimentos como se fossem algo positivo, mas, do jeito que Espelho havia falado, até parecia que o amor entre o pai e a esposa era a fonte do poder deles. Será que era isso que Arthas queria dizer quando afirmava que o Garoto e a Feiticeira tinham uma “ligação” muito poderosa?

Ele desviou os olhos dela, voltando a olhar em volta. Caminharam por um bom tempo, sem direção; apenas observando a cidade. Kazuo perguntava para Espelho tudo o que achava curioso e ela respondia pacientemente, sem se incomodar, mesmo quando ele pensava que as perguntas eram meio óbvias e bobas.

O rapaz, de repente, sentiu a presença do irmão próxima a outra presença das trevas. Parou de caminhar e olhou para o lado em direção ao parque do Rei Pinguim.

‘Ah! Shaolin está aí com Esper…. Hum…’ Ela reteve-se. ‘Com a jovem Marie.’ Ela completou, mas então franziu a testa. ‘Ele ainda deveria estar na escola a essa hora.’ Caminhou decidida em direção ao parque, encontrando os dois sentados no gramado, olhando para o lago.

Shaolin sentiu a presença da Carta e virou-se para trás. Soltou um longo suspiro ao ver a imagem da mãe se aproximando, mas sabia que não era ela. Kazuo vinha logo atrás.

Espelho parou perto dele com as mãos na cintura. ‘Shaolin! Você não deveria estar na escola?’

O menino soltou um longo suspiro, virou-se para a prima e depois se levantou. ‘Não vem agir como kaasan agora, Kagami.’ Ele falou contrariado.

Espelho franziu a testa. ‘Duvido que ela tenha permitido que você saísse da escola no horário de aulas.’

Shaolin olhou para ela e depois desviou os olhos para Kazuo que se aproximava, parando ao lado dela. ‘Não enche, Kagami.’ Falou entre os dentes, indo até a árvore onde tinha deixado a pasta para buscá-la.

Ela não se deu por vencida. ‘Hei, rapazinho… O que está acontecendo com você?’ Foi atrás dele, pisando duro.

Marie se levantou e encarou Kazuo. Ergueu uma sobrancelha, observando-o vestido com roupas de jovens normais e não os trapos com que tinha vindo do Mundo das Trevas. Ela observou ainda o primo caminhar contrariado com Espelho no encalço dele. Sorriu de leve.

Kazuo observou o sorriso da jovem e virou o rosto, vendo o irmão se afastar com o rosto contrariado e Espelho atrás dele. ‘Ele é sempre assim?’

Marie fitou Kazuo. ‘Não. Ele está assim porque ainda não consegue engolir a história sobre você.’

‘Ele realmente deixa claro que não gosta de mim.’ O rapaz comentou.

‘É que…’ Suspirou profundamente, balançando a cabeça, cansada. ‘Acho que tenho que explicar para você como as coisas funcionam aqui.’ Tentou relaxar os músculos do pescoço.

Tivera uma conversa longa com o primo sobre o mundo das trevas e sobre a época em que o pai dele fora um ser das trevas. Não sabia bem até onde Shaolin tinha compreendido. O primo era cabeça-dura e estava ressentido também.

Kazuo viu Shaolin, encarando-o com a testa franzida antes de se afastar. Espelho foi atrás dele. Dava para ver que ela gostava muito do garoto e que estava preocupada. Era muito estranho ver este tipo de relacionamento.

Será que ela bateria nele como Midoriko fazia quando se sentia contrariada? Não. Não parecia que o irmão recebia este tipo de castigo. Reparou na atitude do menino quando se trancou no quarto no dia anterior, batendo a porta com força e se recusando a abrir para qualquer um.

Marie caminhou devagar e Kazuo foi atrás dela.

‘Sua aura está mais forte agora. Recuperou-se bem rápido.’ Ele mencionou, observando-a.

Ela olhou para ele de esguelha. ‘Ainda me sinto cansada, mas não acho que a causa seja gasto de magia.’

Kazuo ainda observava Shaolin caminhando rápido para a saída do parque com Espelho atrás dele. A aura do garoto estava bem agitada, tão agitada quanto a do pai quando ele explodiu pela manhã, conversando com ele. Bem, os dois eram humanos, não?

Marie observou o rapaz ao seu lado que tinha os olhos fixos no garoto. Também tinha reparado que a aura do primo estava instável desde ontem.

‘Não é que ele não goste de você.’ Ela comentou.

Kazuo arregalou os olhos de leve, não gostou dela ter percebido que ele estava observando o meio-irmão, abaixou os olhos e franziu a testa de leve. ‘Se ele gosta ou não de mim… Isso é problema dele.’ Encolheu os ombros de leve. ‘E eu também não gosto dele.’

Marie sorriu de forma irônica. Todos cabeças-duras os homens daquela família. ‘Realmente o problema é dele mesmo.’

‘Exatamente.’ Kazuo concordou e virou-se para o lago, mas ainda reparava na aura do irmão se afastando.

Marie soltou um suspiro. ‘Shaolin-kun não gosta do que você representa. Ele saber da sua existência faz a imagem que ele tem do pai ser manchada.’

Kazuo balançou o corpo de leve. ‘Humanos são muito complicados.’ Olhou para Marie de esguelha. ‘Você é humana… Sabe melhor sobre isso.’ Ele respirou fundo e esticou as costas. ‘Eu, daqui a pouco, estarei voltando para o Mundo das Trevas… Então é melhor nem tentar entender.’

Marie sorriu de forma irônica. ‘Você é um péssimo mentiroso.’ Ela caminhou, afastando-se dele. ‘Está na cara que você está curioso.’ Voltou-se para ele rapidamente. ‘E que está bem chateado porque o pirralho está se esquivando de você.’

‘Humph.’ Kazuo resmungou, cruzando os braços e observando a garota se afastar.

A aura dela vinha das trevas, não tinha como ter dúvidas sobre isso. Mas como uma garota humana poderia ter uma presença tão forte proveniente das trevas daquela maneira? Não fazia muito sentido para ele.

Ela, em parte, estava certa, estava realmente curioso. Curioso para entender porque o pai agora se importava se ele estivesse aqui ou no mundo das trevas. Curioso para entender porque a feiticeira era gentil com ele. Curioso para entender porque aquele monte de seres com alto nível de poder conviviam daquela forma harmônica na casa deles. Curioso para saber mais sobre aquela garota ruiva e por que ela tinha aberto aquela brecha para ele passar. E, tudo bem… Estava mesmo curioso para saber por que o pirralho, como ela chamou o meio-irmão, não conseguia nem olhar para ele.

Caminhou até ela que tinha se sentado embaixo de uma árvore, com as costas apoiadas no tronco.

‘Já que você parece ter todas as respostas sobre tudo.’ Ele começou a falar, estreitando os olhos nela. ‘Poderia começar, então, a me explicar?’

Ela levantou o rosto, encarando-o. ‘E o que você quer que eu explique primeiro?’

‘Que tal sobre o pirralho?’ Perguntou, forçando o tom despretensioso.

Marie sorriu de leve. Totalmente previsível, pensou para si. ‘Acho que a primeira coisa que você precisa entender é que, normalmente, há um envolvimento emocional entre humanos quando eles têm filhos. Não é apenas reprodução.’

Ele respirou fundo, tentando entender. ‘Não faz sentido isso.’

Ela ergueu uma sobrancelha. ‘Não é questão de fazer sentido ou não. Estou apenas lhe informando como é entre os humanos… ou, pelo menos, para a maioria deles.’

Kazuo concordou com a colocação dela. ‘Então o pirralho acha que o pai dele teve um envolvimento…’ Ele fez uma pausa pensando na tal palavra. ‘...emocional com a Midoriko?’ Ele não conseguiu evitar uma risada irônica. ‘Ele realmente não tem ideia de como as coisas funcionam.’

‘Shaolin-kun é humano. É bem complicado para ele entender. Até porque Syaoran-ji-san e Sakura-ba-san realmente se amam muito.’ Ela abaixou levemente o rosto, esboçando um sorriso doce e levando a mão ao peito. ‘É um amor que supera qualquer adversidade. Diferente de tudo o que eu já vi.’ Voltou a encarar Kazuo com o semblante sério. ‘E você coloca em xeque, pelo menos na cabeça dele, esse sentimento que os pais dele têm um pelo outro.’

Kazuo ficou em silêncio por um tempo, pensando no que ela falou. Balançou a cabeça de leve. ‘Ainda não faz sentido.’ Falou por fim.

Ela deu um longo suspiro e franziu a testa pensando em como explicar de forma que ele entendesse. ‘Syaoran-ji-san é casado com Sakura-ba-san. E isso é como um compromisso de honra, entendeu?’

‘Um compromisso?’ Ele repetiu meneando a cabeça.

‘É, como um compromisso. Ele deu a palavra dele de que ficaria sempre com ela. Só com ela. Se fosse se reproduzir, seria com ela e mais ninguém.’

‘Mas este compromisso é… idiota.’ Kazuo comentou.

Marie estreitou os olhos nele. ‘Simplesmente aceita a informação, okay? Não questiona.’

Ele concordou com a cabeça.

Marie continuou. ‘Então, se ele teve um filho com uma outra fêmea, quer dizer que quebrou esse compromisso de honra.’

‘Quem mandou ele fazer um compromisso desses? As fêmeas é que decidem, não os machos.’

Marie fechou os olhos brevemente. Em parte Kazuo tinha razão. ‘É que reprodução para os humanos exige contato físico entre o macho e a fêmea, então precisa ser uma decisão dos dois.’

Kazuo começou a entender o problema. ‘Então o pirralho acha que a decisão de me ter foi do pai dele também. Mas acho que ficou bem claro que ninguém sabia da minha existência. Então não faz sentido.’

Marie respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘O simples fato dele ter tido contato físico com uma outra fêmea que não fosse a esposa dele já quer dizer que ele quebrou o contrato de honra. Entendeu?’

Ele arregalou os olhos de leve e olhou para Marie. ‘Peraí! Então quer dizer que, se tiver contato físico, pode ter reprodução entre humanos?’

‘Isso.’

‘Eu esbarrei numa fêmea humana enquanto passeava com Espelho. Então eu posso ser pai? E eu segurei você pela cintura.’ Ele abaixou o rosto, encarando-a. ‘Quer dizer que você pode ter um filho meu?’

Marie arregalou os olhos, sentindo as faces esquentarem, desviou os olhos dele. ‘Claro que não!’

‘Mas você acabou de falar que precisa de contato físico.’ Ele rebateu sem entender. ‘Eu segurei você quando estava para cair no chão. Eu não quero ter um filho!’ Ele falou contrariado.

Marie cerrou os punhos. ‘Não é nada disso, idiota!’ Ela falou. ‘E eu também não tenho a menor intenção de ter um filho com você!’

‘Não?’ Ele falou, erguendo uma sobrancelha. ‘E por que você abriu aquela brecha para eu passar, então?’

Marie arregalou os olhos e se levantou, encarando Kazuo. ‘Você realmente acha que eu abriria uma brecha e o traria do inferno só para ter um filho com você?’

‘E não foi o que você fez?’ Ele falou, levantando as sobrancelhas de leve. ‘Você abriu uma brecha e depois simplesmente me fez ter contato físico com você. Para quê?’

Marie trincou os dentes, segurando a vontade de simplesmente invocar uma magia e fazer aquele moleque petulante voar pelos ares. Tentou se manter calma. A culpa, em parte, foi dela que não explicou direito como era a reprodução humana. Fechou os olhos brevemente tentando se controlar. Olhou para Kazuo que ainda esperava uma resposta.

‘Não é qualquer tipo de contato físico. Não se reproduz apenas porque encostou em alguém.’

Kazuo soltou um suspiro aliviado. ‘Midoriko me mataria se soubesse que eu tive um filho com uma fêmea como você. E mataria você também.’

Marie trincou os dentes novamente ao ouvir o nome do demônio feminino. ‘Gostaria de vê-la tentar… eu não estaria fraca dessa vez…’

Kazuo balançou a cabeça de leve. ‘Garota, você não sabe do que está falando. Midoriko não perdoa.’

O olhar que a ruiva lançou a ele foi tão frio que ele chegou a sentir um arrepio percorrer sua espinha. ‘Eu não perdoo.’

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Ele olhou o céu começar a ficar alaranjado. Lembrou-se do pai falando que voltaria quando o céu estivesse daquela cor.

‘Então, a raiva toda do pirralho é porque ele acha que o pai teve este tipo de contato físico especial com a Midoriko depois que fez um acordo idiota com a mãe dele e quebrou a palavra de honra dele. É isso?’ Ele resumiu de forma prática.

‘É.’ Marie respondeu secamente.

‘Então faz sentido.’ Comentou, balançando a cabeça. ‘Um pouquinho.’

Marie soltou um suspirou finalmente aliviada. ‘Então você entendeu esta parte, pelo menos.’ Falou, observando o pôr-do-sol ao lado dele.

‘Sim… Esta parte, sim. Só que eu preciso saber que tipo de contato físico é este para poder evitar com as humanas. Não quero cair numa armadilha.’

Marie olhou para ele e franziu a testa. ‘Como assim?’

‘Oras… Você disse que é um contato físico específico. Que tipo de contato é este?’

‘Hã…’ Ela soltou e sentiu novamente as faces vermelhas, desviou os olhos dele. ‘Isso é… Mais complicado para eu explicar.’

‘Complicado por quê?’

‘Porque sim.’ Ela respondeu. ‘É melhor você… Este tipo de coisa você deveria perguntar para o seu pai.’

Ele riu de forma irônica. ‘Mas não é você que tem todas as respostas?’

‘Ah, vai para o inferno!’ Ela falou, dando as costas a ele e se afastando.

‘Hei! Espera aí!’ Ele correu atrás dela. ‘Eu tenho que voltar para aquela casa.’

‘O problema é seu.’ Ela murmurou, sem parar de andar.

‘Você ficou nervosa assim, por quê?’ Ele continuou atrás dela.

‘Eu não estou nervosa.’

‘Eu realmente não sei como chegar lá. Será que dá para você parar de andar.’ Falou, segurando o braço dela e fazendo-a parar.

Marie levantou o rosto, encarando Kazuo com a testa franzida. ‘Dá para me soltar?’ Pediu entre os dentes.

‘Dá para me ouvir?’ Kazuo rebateu no mesmo tom.

Ela estreitou os olhos nele. ‘Estou começando a concordar com o pirralho.’

Kazuo sorriu de lado. ‘Concordar com o quê? Que eu sou a prova do tal contato especial que o pai dele… Ah!’ O rapaz falou, soltando-a. ‘Humanos são muito complicados. Eu só quero que me diga como eu faço para chegar naquela casa, ou pelo menos me dê uma direção que eu me viro.’

‘Você se vira?’ Ela repetiu, em tom irônico.

Ele aproximou o rosto do dela e estreitou os olhos na garota. ‘É fácil perceber as várias presenças daquela casa. Eu só não quero me meter em problemas e acabar sendo perseguido pelos humanos.’

Marie desviou os olhos dele e concordou com a cabeça de leve. ‘Está bem. Eu o levo até lá. Mas você não abre a boca, entendeu?’

‘Para que eu abriria minha boca, garota?’ Ele perguntou, olhando para ela sem entender.

‘Ah!’ Marie gritou. ‘Vamos logo.’ Ela falou, começando a caminhar em direção a casa dos tios e sendo acompanhada por ele.

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Eriol olhava pela janela do escritório onde estava estudando algumas anotações de Clow. Batia de leve os dedos no batente da janela. Marie tinha saído no início da tarde e não havia voltado ainda. A presença dela estava mais forte do que nunca.

Caminhou devagar pelo escritório, pensando na filha e no porquê dela o estar evitando desde que aquele demônio apareceu. Talvez fosse porque a presença da criatura das trevas, filho de Syaoran, tivesse afetado a aura da filha, de alguma forma. Balançou a cabeça de leve.

Olhou para um dos inúmeros cadernos com a insígnia de Clow, folheando-o despreocupadamente, não estava realmente estudando, estava passando o tempo até que a filha retornasse para casa. Olhou rapidamente para o relógio e pensou que se a presença dela não começasse a se aproximar na próxima meia-hora sairia para procurá-la. Ela já estava mesmo sem falar com ele, então, se ficasse chateada porque o pai saiu no seu encalço, apenas continuariam sem se falar. Não mudaria nada.

‘Mas, pelo menos assim, eu conseguiria deitar a cabeça no travesseiro e dormir, pois saberia que ela está segura.’ Ele sussurrou.

Voltou sua atenção para a anotação de Reed Clow. Estava tentando descobrir alguma coisa que pudesse ajudar os amigos a entender quais seriam os problemas que Shaolin teria que enfrentar. Encontrara algumas profecias que agora faziam sentido para ele já que recuperara as memórias de sua outra existência.

Olhou novamente para o relógio do escritório. Mais 15 minutos e sairia atrás de Marie.

Voltou a folhear o caderno de anotações e franziu a testa de leve lendo algumas citações sobre bestas infernais e demônios que o mago tinha escrito. Provavelmente eram da época que ele estava atrás dos demônios que haviam passado pelo portal que ele e Muy Shyrai haviam aberto com o plano inferior.

Clow descrevia as criaturas das trevas como isentas de qualquer tipo de sentimento positivo. Que eram puramente ruins e causariam apenas calamidades aos humanos. Por isso a sua obstinação em capturá-las, já que se sentia responsável pela entrada delas no universo dele.

Franziu a testa de leve, lembrando da explicação que Syaoran havia dado a Shaolin na primeira aula de magia do menino.

O positivo e o negativo fazem parte de tudo, de todas as criaturas e também de toda magia. De que forma ela será utilizada, cabe ao detentor desta.

Sorriu de leve lembrando do amigo explicando o conceito do Yin-yang para as crianças. Arregalou os olhos, lembrando de quando ele falou sobre os demônios interiores e pensou que, agora, lembrando que o amigo havia se tornado um por algum tempo de sua vida, aquelas palavras começavam a ter outro significado.

Todos nós temos nossos demônios. Como nós os controlamos depende de nossos princípios e caráter.

Na época, pensou que ele tinha falado de maneira figurada, mas, pensando agora com calma, percebia que aquelas palavras eram mais que uma metáfora.

Olhou novamente para as anotações de Clow. A descrição não batia em nada com o que ele conhecia do amigo. Não fazia sentido, em nada, com as ações do rapaz que voltara para o mundo das trevas a fim de evitar uma invasão a todos os universos.

Ele era um demônio, não? Segundo Clow, não deveria ter sentimentos, certo? Então por que ele se arriscou tanto para salvar humanos; ou, de forma talvez egoísta, por que ele se arriscaria apenas para proteger a humana que ele amava. Ele era um demônio, não deveria ser capaz de amar, certo?

Nem tudo é completamente bom, bem como nem tudo é completamente ruim. Yin-Yang. Fechou os olhos, lembrando-se dele falando que uma fonte de magia poderia ser primitivamente negativa, mas que ela poderia evoluir e ser transmutada. Evolução. Este era o princípio básico da magia.

Ele sabia isso bem. Será que os demônios realmente não seriam capazes de tal evolução como Clow tão categoricamente afirmava? Mas isso seria contra o princípio básico da magia, não? Era uma contradição.

Respirou fundo, olhando para os vários cadernos de anotação do feiticeiro. Por que os estava estudando? Será que Clow tivera mesmo acesso a todas as respostas e simplesmente não soube interpretá-las? Isso seria uma excelente desculpa, não?

E, também, quem ele realmente pensava que era para afirmar de forma categórica sobre seres que ele temia mais do que qualquer outra coisa? Ele nunca havia conhecido e convivido com um demônio. Ele, simplesmente, caçou-os e aprisionou-os. Talvez os tivesse estudado e experimentado com eles, mas nunca tentou realmente entendê-los. E, verdade seja dita, ainda manipulava o poder delas para uso próprio.

Tudo o que testemunhara da interação de Sakura com as Cartas como Eriol Hiiragizawa, em suas duas existências, trazia abaixo todas aquelas afirmações feitas por Clow. A interação de Sakura e Syaoran, durante o período que o amigo fora um demônio, refutavam as crenças mais ferrenhas de sua encarnação passada.

Deixou o caderno de anotações que tinha nas mãos sobre a mesa e caminhou até a estante onde tinha um porta retrato dele com Marie. Ela estava com 5 anos na época da foto. Sorria de forma maravilhosa e o abraçava pelo pescoço. O pequeno rosto infantil estava próximo ao dele.

Semicerrou os olhos na foto e conseguiu ver uma aura fraca avermelhada contornando a filha. Desde que ela era pequena, ele tinha já reparado na aura púrpura de Marie e, mesmo assim, tinha preferido ignorar o que tão claramente sua visão mágica lhe mostrava.

Suspirou de forma pesada e fechou os olhos. Marie poderia ter a presença que fosse e, ainda assim, continuaria a ser o que ele mais amava no mundo. Humano ou demônio. Não importava.

Sorriu de leve, percebendo a presença forte da filha se aproximando. Ela estava voltando para casa. Agora poderia ir dormir mais tranquilo, sabendo que ela estava segura.

Abriu os olhos e viu aquele material todo espalhado pelo escritório. Já estava de saco cheio daquilo. Amanhã mesmo, pediria para Nakuru encaixotar e guardar… ou quem sabe… jogar tudo fora.

Continua.

Notas finais
As fichas dos novos personagens estão na página FEITICEIROS no facebook, com imagem deles e curiosidades de cada um.