FEITICEIROS

Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 63

Anjos e Demônios

Kazuo observava a paisagem pela janela do trem para voltarem ao aeroporto de Basileia. A paisagem era a mesma de quando estavam indo para a cidade francesa. O que tinha mudado, apesar do sucesso em destruir a segunda chave, era o surgimento daquele incômodo constante desde que o irmão tinha entrado naquele caixão de ferro. Olhou de esguelha para Shaolin que estava calado. Parecia realmente não ter tanto sono como antes, mas estava mais quieto.

Ele tinha visto o garoto pegar o telefone duas vezes para discar um número, mas tinha desistido. Quando perguntou para quem ele ligaria, se era para a mãe ou o pai, Shaolin tinha sorrido de leve e dito que já tinha falado com a mãe e que ela sabia que estava tudo bem como ele.

Kazuo não entendeu direito o que o irmão quis dizer com aquilo, mas Shaolin disse que também não sabia explicar direito. Apenas comentou que Sakura tinha pedido para ele se cuidar também e que estava preocupada tanto com ele como com Marie.

Desviou os olhos para Marie que estava no banco a frente. Ela também tinha os olhos fixos na paisagem, mas ele sabia que a garota estava com os pensamentos longe. Reparou que, como ele, ela volta e meia olhava para Shaolin como que para se certificar de que ele estava realmente bem.

Eles tinham insistido para ficarem mais tempo em Colmar para que Shaolin pudesse descansar um pouco mais, mas o garoto foi taxativo em dizer que preferia seguir para a próxima chave. Que estava bem. Que eram apenas arranhões. Que descansaria durante o translado.

Kazuo viu Marie olhar Shaolin rapidamente e depois desviar os olhos para a paisagem com a cabeça apoiada na mão, suspirando. Ela estava muito preocupada com ele. Como ela mesma tinha falado, eles eram bem próximos e se conheciam há anos.

Ele bateu a mão de leve no joelho e voltou a observar a paisagem tão diferente do mundo das trevas. Era bonita, não podia negar. Havia tanto o que ver e aproveitar que era estranho estar sentindo aquela apreensão toda.

Antes, quando vivia com Midoriko e Arthas, apenas tinha receio de que, de repente, surgisse um adversário que não pudesse vencer. Também receava toda vez que Midoriko se aproximava dele porque sempre vinha para cobrar alguma coisa… Que ele fosse o mais forte, ou que ele derrotasse tal demônio, ou que ele… Ele não entendia direito o que ela tanto queria. Então, no fundo, ele sempre tinha receio pela própria vida. Instinto de sobrevivência.

Agora alguma coisa tinha mudado. Ele não estava com receio de alguma coisa acontecer com ele, muito pelo contrário. Sabia que naquele universo, apesar de haver perigos, ele poderia dar conta. Os tais adversários não eram assim tão fortes.

Verdade que tinha sido bem imprudente na última luta, mas foi porque simplesmente se recusava deixar que qualquer um chegasse perto da tal “Dama de Ferro” enquanto o irmão estivesse lá. Quando um dos feiticeiros esbarrou naquele instrumento macabro, teve vontade de, literalmente, arrancar a cabeça dele. Deteve-se sabe-se lá por quê.

Na verdade, sabia o porquê. Tinha evitado aplicar um golpe fatal porque o irmão já tinha pedido e o pai tinha lhe explicado sobre ter compaixão para com o inimigo e o mais fraco. Principalmente, quando sabiam que os adversários estavam sendo manipulados por outra pessoa, como era o caso daqueles jovens feiticeiros.

Olhou novamente para o irmão que estava ao seu lado, lendo um livro que tinha trazido de casa. Estava com receio pela vida dele. Não admitiria que ele morresse. Tinha prometido para Sakura que o protegeria, o pai também havia pedido para que cuidasse dele. Ele podia ser um demônio, mas tinha palavra e a cumpriria.

O problema era que se sentiu um inútil quando a tal xamã falou que o menino tinha que entrar naquela coisa. Preferia ir no lugar dele. Seria, com certeza, muito menos dolorido sentir os cravos fincarem no corpo do que sentir aquela agonia de quando viu o irmão ser trancado lá.

Respirou fundo e soltou o ar devagar. E se a próxima chave fosse algo pior do que aquele negócio? Droga! Estava com medo e detestou constatar isso.

‘Não precisa ficar tão preocupado, Kazuo.’ Shaolin falou ao seu lado, chamando a atenção dele.

O rapaz virou-se para o irmão que agora o fitava. ‘É normal ficar preocupado. Não sabemos como será a próxima chave.’

Shaolin encolheu os ombros. ‘Preocupação não vai resolver a situação.’

Kazuo batia de leve a mão fechada no parapeito da janela agora e desviou o olhar. ‘É inevitável.’

Marie tinha tirado os olhos da paisagem, fitando os dois irmãos que estavam sentados a atrás dela. Realmente, era incrível como os dois haviam ficado tão próximos em tão pouco tempo, considerando que haviam quase se matado quando se conheceram.

Observou Shaolin soltar um suspiro e voltar a atenção ao livro que tinha trazido para a viagem, o primo sempre gostou de ler e muitas vezes conversava de forma animada com o pai dela sobre literatura. Eriol adorava emprestar livros a Shaolin para poder discuti-los depois. O primo estava mais calado e mais sério que de costume, mas não parecia estar com medo do que seria a próxima chave. Shaolin parecia ter amadurecido anos em poucos meses desde que Kazuo havia chegado do Mundo das Trevas.

No fundo, sentia saudades de quando treinavam de brincadeira ou conversavam sobre coisas banais. Adorava implicar com ele. Era com quem se sentia mais confortável para ser impulsiva, sem medo de ser julgada ou considerada boba.

Ela sempre soube que sua missão, quando reencarnasse, seria ajudá-lo, mas nunca pensou que seria tão complicado. Sabia que seu poder como Khala’a estaria restrito no corpo humano, mas mesmo que não tivesse esta restrição, não adiantaria de nada. Ela não podia ir no lugar de Shaolin para destruir as chaves.

Balançou a cabeça de leve e fechou os olhos. Aquela Dama de Ferro era um instrumento de tortura. Como seria a próxima chave? A que o menino ainda seria submetido fisicamente? Era uma agonia ter que esperar que ele voltasse do transe.

Abriu os olhos e fitou Kazuo que tinha os olhos fixos na paisagem. Sorriu de leve, lembrando-se da conversa que teve com ele na noite anterior. Não queria que ele voltasse para o mundo das trevas, não queria deixar de vê-lo. Encolheu os ombros de leve e sentiu o rosto esquentar.

Como se soubesse que estava sendo observado por ela, ele se virou e eles se fitaram.

Ela sentiu o coração acelerar e desviou os olhos para a paisagem, encolhendo mais ainda os ombros e tentando disfarçar aquela agitação que sentia no peito.

Shaolin tirou os olhos do livro e observou os dois. Olhou de um para o outro e franziu a testa de leve. As auras estavam agitadas, mas não era apenas isso que ele conseguia perceber. As auras não se misturavam, como acontecia com as auras dos pais, mas tinha alguma coisa ligando os dois. Fechou os olhos e percebeu isso mais forte.

Desviou a atenção para outras presenças que antes não lhe eram perceptíveis. Não eram presenças mágicas. Era estranho aquilo. Não lembrava de nenhuma aula de magia sobre o que estava conseguindo identificar agora. Voltou sua atenção para a prima e o irmão e sorriu de leve, balançando a cabeça. Pensou que talvez estivesse começando a entender e a distinguir aquela energia.

Suspirou. Tinha pensado em ligar para Kasumi e dizer que estava tudo bem com ele, mas desistiu. Ela provavelmente perguntaria alguma coisa sobre a destruição da chave e ele não queria mais mentir para ela. Mas sabia que, se contasse a verdade, apenas a deixaria nervosa e preocupada. Então achou melhor não ligar. Mas já estava com saudades da menina. Só queria destruir logo aquelas malditas chaves para poder voltar a ficar com ela.

Nunca tinha imaginado sentir o coração inquieto devido à separação física entre os dois. Era como se aquela dor, de alguma forma, causasse uma sensação de déjà vu. Algo que sentiu durante muito tempo. Virou-se e tirou o celular de dentro do bolso da frente da mochila. Ficou ainda na dúvida se ligaria para ela ou não. Mexeu no aparelho por alguns instantes e logo achou uma foto da menina sorrindo. Sentia-se aliviado só em ver o rosto dela. Queria voltar logo a vê-la pessoalmente.

Soltou um suspiro pensando que Kasumi deveria estar na escola e era onde ele, no fundo, gostaria de estar. Assistindo uma das aulas ou fazendo alguma atividade. Depois eles iriam para o dojo treinar. Era legal quando o pai e o tio treinavam com eles. Gostava de lutar apenas porque naquele momento poderia estar próximo do pai e, também, de Kasumi.

Franziu a testa de leve, voltando a pensar no comentário dela sobre sua técnica com o manejo da espada. Kasumi sempre se recusou a participar das aulas de armas brancas. No Kung Fu, existem algumas técnicas usadas com armas, mas Kasumi se restringia a lutar de mãos vazias. Então, como ela saberia sobre isso para fazer um comentário daqueles?

Olhou de esguelha para o irmão, pensando que ela também tinha comentado sobre a melhora da técnica dele. Era como uma instrutora falando com seus aprendizes. Era estranho constatar que tivera tanto medo de envolvê-la no mundo da magia, achando que ela o rejeitaria e agora, depois de tudo revelado, ele era quem mais se surpreendia pela reação de Kasumi.

A menina tinha ficado mais amiga ainda de Kazuo, alegando que ele deveria se sentir sozinho então era bom ela estar com ele. Eles tinham ficado amigos, ao ponto do irmão perguntar se tinha notícias dela. Se estava tudo bem com a pirralha gulosa, como ele e Marie gostavam de chamá-la. Ajeitou-se melhor no banco, sentindo-se enciumado.

Balançou a cabeça de leve, pensando que isso era idiotice. Kazuo era louco por Marie. Assim como Kasumi era louca por… alargou o sorriso, por ele.

O trem parou na estação de Basileia. Os três levantaram-se em silêncio e seguiram até o aeroporto onde se encontraram novamente com Tai Dai. Marie, logo depois de ter se encontrado com o primo pela manhã, tinha ligado para o homem informando o próximo destino deles. O eficiente rapaz rapidamente providenciou tudo conforme tinha sido orientado a fazer pelo seu patrão.

O empregado dos Tao sorriu para eles, cumprimentando-os de forma alegre. Shaolin e Marie tentaram sorrir por educação, mas Kazuo não conseguiu fazer o mesmo.

Seguiram-no até a aeronave, para fazer a viagem até Bergen, na Noruega.

Marie entrou no avião, seguida por Kazuo, que hesitou brevemente antes de passar pela escotilha, observando aquelas máquinas barulhentas no céu. Respirou fundo e entrou, seguido pelo irmão. Sentou ao lado de Marie, tentando relaxar, mas pressionava as costas tensamente contra o assento.

Shaolin observou o irmão e sorriu. Bem, pelo menos aquela loucura toda fez os dois ficarem mais próximos sem aquele teatro todo de hostilidade que adoravam fazer na frente dele. Isso quando não se juntavam para irritá-lo ou disputar quem o irritaria mais.

Kazuo olhou de esguelha para o menino e ficou sem graça, sentindo a face esquentar, mas não ligou. Já estava sendo uma droga ficar dentro daquela máquina voadora. Se ficar perto de Marie lhe dava qualquer sensação menos ruim, não tinha porque ser orgulhoso daquela forma.

O avião começou a patinar pelo aeroporto para se posicionar na pista de decolagem. Kazuo fechou os olhos, sentindo aquele maldito mal estar. Pensou novamente em como fora estúpido ao achar que ter asas deveria ser legal.

O comandante anunciou que a decolagem fora autorizada e ele sentiu a mão de Marie sobre a sua. Arregalou os olhos, mas não teve coragem de olhar para a jovem ao seu lado. Apenas virou a mão, entrelaçando, novamente, seus dedos com os dela. Sorriu de leve e sentiu o rosto esquentar. Por algum motivo, a sensação da aeronave levantando voo não havia sido tão assustadora como da primeira vez.

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Kasumi caminhava devagar pela calçada. Shaolin ainda não tinha entrado em contato com ela. Esperava que estivesse tudo bem com o amigo… Não! Namorado… Esperava que estivesse tudo bem com o namorado.

Sorriu de leve, triste. Demoraria ainda um tempo para pensar nele como namorado. Sabia que ele não estava num momento tranquilo. Estava feliz e até mais tranquila em saber que Kazuo estava com ele. Esperava que Shaolin finalmente baixasse a guarda com o irmão, como parecia estar começando a fazer. Devia ser maravilhoso ter irmãos.

Parou em frente ao Templo Tsukimine. Gostava de passear pelos jardins. Sempre lhe trazia muita paz.

Soltou um suspiro cansada, fechou os olhos por um breve momento e franziu a testa conseguindo perceber melhor a energia do templo. Isso significava que o bloqueio de Miguel estava cada vez mais fraco. E consequentemente suas lembranças estavam cada vez mais claras. Lembrou-se com um certo alívio do que realmente aconteceu em seu encontro com Shaolin no que realmente parecia ser a outra existência dos dois. Não que ela não tivesse efetivamente o atingido para matá-lo, mas ao invés da mão de Miguel, havia atingido um “símbolo sagrado” feito de madeira que acabou por protegê-lo de sua katana.

Entrou no templo, reparando o movimento dos diversos visitantes. O dia estava muito bonito, muitas crianças que haviam saído das escolas estavam lá brincando. Ela mesma tinha ido direto para lá.

Cumprimentou a mãe de Marie, que era sacerdotisa responsável pelo lugar, com um sorriso. Ela estava conversando com um grupo de pessoas. Reparou que a senhora Hiiraguizawa a observou por mais tempo que o normal.

Talvez estivesse em dúvida se deveria aproximar-se ou não para comentar alguma coisa sobre a filha. Acenou de leve com a mão e caminhou até o oratório, onde acendeu um incenso. Depois falaria com ela sobre a amiga.

Respirou fundo, sentindo o perfume gostoso do incenso. Sua mãe sempre a levou ao templo e a ensinou a orar. Todos os anos, a mãe lhe fazia um quimono novo para o festival, um mais lindo que o outro. Ela nem comentava mais que já tinha muitos, pois sabia que a mãe os fazia com carinho. Então simplesmente os aceitava agradecida pelo mimo.

O pai também gostava muito das festividades tradicionais e sempre a elogiava bastante. Sentiu o rosto corar de leve, lembrando-se que Shaolin também comentava que ela estava bonita… Na verdade, ele dizia que o quimono que ela usava era bonito. Desde pequenos, era normal os dois andarem de mãos dadas naqueles festivais para não se perderem devido a quantidade enorme de pessoas.

Corou lembrando-se que na última festividade, quando Shaolin segurou a mão dela, como sempre, foi a primeira vez que se sentiu diferente. Até entender exatamente seus sentimentos pelo menino foi um período bem complicado.

Estava perdida… Confusa. Não sabia, não entendia o que mudou. Também começou a ficar mais incomodada por saber que ele e Marie escondiam algo dela e achou melhor se afastar. Usou aquele afastamento para evitar encarar seus próprios sentimentos. Sentia falta dele, sentia falta de Marie, mas não queria ser um incômodo para eles.

Fechou os olhos pensando que, se não fosse a conversa com a mãe, não conseguiria entender o que estava acontecendo dentro de si.

Ela sempre foi assim… Apenas descobriu que amava Tatsumi quando ele não estava mais ao lado dela, quando o tinha perdido. Não entendia o que sentia, não entendia o que era o amor… Não se achava capaz de amar. Amor sempre fora sinônimo de dor e sofrimento. Desde que fora separada a força de Kurome. Havia finalmente se lembrado quem era a garota de olhos e cabelos negros com quem tanto sonhava. Kurome era sua irmã… sua irmãzinha. As duas eram órfãs e foram separadas para serem treinadas como assassinas do Império.

Juntou as mãos a frente do corpo. Orou por Kurome. Na sua outra vida, não sabia o que era orar. Não acreditava em nada. Achava que a morte era simplesmente o fim de tudo. Lembrou-se, com um gosto amargo na boca, de quando riram de Tatsumi por perguntar, esperançoso, sobre alguma Teigu capaz de ressuscitar os mortos. Todos zombaram dele. E todos estavam errados ao pensar que a vida terminaria ali. Ela esperava que todos estivessem bem, onde quer que estivessem.

Abriu os olhos, observando a fumaça do incenso subir em uma dança lânguida e sinuosa. Desejava, do fundo do seu coração, que Kurome a perdoasse e que estivesse bem… onde quer que estivesse. Miguel se recusava a lhe falar sobre o destino da jovem…

Abaixou o rosto e observou a palma da mão direita. Tinha sujado as mãos com o sangue daquela que fora a única razão de ter aguentado tanta dor e sofrimento. Tudo o que fez e suportou durante o treinamento foi para voltar a vê-la depois de terem sido separadas ainda em tenra idade.

Fechou os olhos. Não queria chorar. Levou uma mão até o rosto e a passou por ele. Respirou fundo e soltou o ar devagar. Aquelas malditas lembranças vinham em avalanches de dor e sofrimento. Eram só imagens doloridas, tristes, sangrentas… Terríveis. Tinha matado demais… Não conseguia nem contabilizar a quantidade de pessoas que viu morrer a sua frente, feridas mortalmente por sua espada. Apertou mais forte a mão no rosto e trincou os dentes.

Na noite passada lembrou-se de quando matou pela primeira vez. Teve que levar a cabeça de Martha para que o “pai” tivesse certeza que era capaz de cumprir uma missão. Doce e gentil Martha, que a presenteava com vestidos e prendedores de cabelo. Mas ela era uma traidora do Império e seu dever era eliminar aqueles que estavam contra o Império porque isso manteria a paz e a felicidade… Naquela época, achava que o Império protegia o povo. Foi descobrindo aos poucos que matava apenas para garantir a felicidade de alguns e a miséria, fome, escravidão de todo o povo.

Mudou de lado. De assassina do Império, tornou-se assassina revolucionária. Parou de matar? Não! Pelo contrário… continuou a matar e matar…

Respirou fundo e soltou o ar devagar, na tentativa de evitar aquele desespero no peito. Matou a própria irmã… Matou Kurome, durante um duelo entre as duas. Kurome ainda acreditava no Império, ainda estava dentro da lavagem cerebral a que todos foram submetidos.

Sentiu quando pararam ao seu lado, tocando de leve no seu ombro direito. Abriu os olhos e franziu a testa, encarando a figura excêntrica de Retorno.

Virou para trás e observou que havia algo errado. Todas as pessoas que estavam no templo estavam paradas como estátuas, inclusive os pássaros e outros animais. Virou para frente e reparou que a fumaça do incenso também estava parada.

‘O que está acontecendo?’ Ela perguntou com o rosto sério, voltando a fitar Retorno.

‘Pedi um favor a um velho companheiro.’ Ele respondeu, sorrindo de leve e apontando para a figura do ancião segurando uma ampulheta a alguns metros dos dois. ‘Precisamos conversar.’

Ela ainda deu uma volta em torno de si, observando com atenção tudo ao seu redor parado. Franziu novamente a testa. Tinha impressão de já ter visto este poder antes.

‘O que você comigo?’ Ela perguntou, voltando a encarar a Carta.

Ele começou a caminhar e fez um gesto para que ela o acompanhasse. Kasumi balançou a cabeça de leve e foi atrás dele. Ainda olhava com estranheza para as pessoas paradas, inclusive a senhora Hiiraguizawa.

‘Vejo que o bloqueio que tinha em torno de você não voltou a se recompor. Imaginei que tentariam reativá-lo em seguida.’ Aeon começou a falar.

‘Acho que Miguel não está conseguindo mantê-lo. Minhas lembranças estão cada vez mais claras na minha mente.’

‘Então lembrou-se de tudo?’ Ele perguntou, mostrando surpresa.

Ela negou com a cabeça. ‘Não tudo… Mas o suficiente para querer parar com este processo. Não tenho nenhuma lembrança ou sonho ou sei-lá-o-quê que seja bom e agradável. Quero que isso pare.’ Ela falou séria.

Aeon soltou um suspiro. ‘Eu sinto muito. Minha intenção quando pedi para Cadeado abrir o bloqueio que existia em torno de você foi apenas para descobrir quem você era. Não imaginei que o rompimento iniciasse este processo.’ Ele sorriu de maneira sarcástica. ‘Confesso que esperava mais de um bloqueio feito por seres celestes…’ Reteve-se e a fitou de forma intensa. ‘Ou você é mais forte do que eu sequer imaginava.’

Kasumi ainda tinha o rosto sério para Aeon. Continuou a caminhar devagar ao lado do ser mágico, desviando das pessoas paradas.

‘Então tudo não passou de curiosidade sua?’ Ela falou com o tom de repreensão.

‘Não foi curiosidade, foi preocupação.’ Ele rebateu e ficou alguns segundos em silêncio. ‘Não conseguia entender a sua ligação com Shaolin. Precisava saber quem você realmente era.’

Ela o olhou de soslaio. ‘Minha ligação com Shaolin…’ Repetiu e sorriu de maneira irônica. ‘Um demônio se preocupando com um humano?’ Balançou a cabeça de leve. ‘Todos se preocupam e se metem demais na vida de Shaolin… Que ele tem uma missão, que tem que se desenvolver… O que mais ele precisa fazer para ser deixado em paz?’

Aeon parou de caminhar em frente a árvore sagrada do templo. Kasumi tirou os olhos dele e observou a árvore, franziu a testa reparando no brilho pálido que a envolvia.

‘Não vou negar que estava realmente com receio de você e da sua forte ligação com Shaolin. Seres com a natureza dele não deveriam ter este tipo de ligação com ninguém, mas o que eu vi me fez entender mais ou menos a situação. Também me ajudou a entender melhor o futuro que eu vi e o qual me preocupou.’

Ela estreitou os olhos nele. ‘Não acha que está se metendo onde não deveria?’

‘Não!’ Respondeu de forma convicta. ‘Fui do topo do ciclo evolutivo até o ponto mais baixo dele. Por muito tempo não me importei… Não vi sentido em voltar a evoluir. Até conhecer os mestres e… Até conhecer Shaolin. Eu, verdadeiramente, importo-me com eles como pensei que não seria capaz de me importar com mais ninguém.’ Sorriu de leve, um sorriso gentil. ‘Quando Shaolin nasceu e eu o reconheci foi como se tudo fizesse sentido para mim. Vi que outros também tinham coragem e não se acomodavam presos à arrogância e à presunção por acharem que estavam mais próximos do topo. Shaolin me ajudou a entender que a estagnação é o verdadeiro inferno. A movimentação, luta, motivação e o amor são o que nos libertam.’

Ela respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Sei que se importa com Shaolin. Ele me contou sobre todas vocês… É por isso que eu lhe peço para se afastar de mim. Não tenho minhas lembranças completas e, sinceramente, não gostaria de tê-las. Está sendo doloroso demais… Minha ligação com Shaolin pertence a esta existência. Nós fomos criados juntos… Isso já basta.’

Aeon confirmou com a cabeça. ‘Sei que tem razão… e peço, humildemente, que me desculpe. Não imaginei o poder que você tinha e como ele se expandiria depois daquele enfraquecimento.’

‘Não tem como voltar a fortalecê-lo?’

‘Sinto muito… Mas não tenho como.’

Ela deu um suspiro e franziu a testa. Bem, não tinha muito o que fazer. Era esperar para tentar falar com Shaolin quando ele voltasse e talvez pedisse ajuda para os tios. Agora o momento era delicado demais.

‘Eu prevejo uma grande batalha, Kasumi. E consequências perigosas para a estabilidade de vários Universos.’ Ele falou finalmente.

Kasumi soltou um suspiro. ‘Bem… Agora dá para entender a apreensão de Miguel.’

‘Ele, assim como eu, deve ter previsto ou até mesmo já ter recebido orientações sobre isso e está se preparando… Preparando Shaolin.’

Ela abaixou o rosto, fitando seus sapatos. ‘É… acho que sim…’ Voltou a fitar Aeon. ‘E exatamente… O que você quer de mim?’ Perguntou.

Aeon levantou os braços e tocou nos ombros dela. Inclinou o corpo de leve para que seu rosto ficasse na altura do da menina.

‘Ele caiu por você. Você é a única que pode mantê-lo aqui.’

Kasumi franziu a testa. ‘Seja mais claro.’

‘Assim que tudo terminar e a missão for concluída, deve-se retornar para o lar… Esta é a regra.’ Falou devagar. ‘Mas eu sei que não é o que ele quer. Não é o que Shaolin quer.’

‘Ele me prometeu voltar. Ele vai voltar para casa para continuarmos a fazer tudo que fazíamos antes dessa confusão começar.’

Aeon sorriu satisfeito. ‘Então eu realmente espero que ele cumpra com a palavra.’

‘Ele… Shaolin nunca me faltou com ela…’ Ela baixou os olhos. ‘Pelo menos não no que realmente importa.’

Aeon bateu de leve nos ombros dela satisfeito. ‘Você fará ele voltar.’ Estreitou os olhos no olhar sério de Kasumi.

Lembrou-se que, no Mundo das Trevas, sempre existiu a lenda sobre os demônios de olhos avermelhados. Eram raros e terrivelmente resistentes. Khala'a procurava desesperadamente por eles enquanto viviam lá.

Observando com atenção o olhar daquela menina sentiu um calafrio percorrer a espinha. Não se lembrava de quando havia sentido aquela apreensão antes.

‘Tenho impressão de que, se ele não cumprir…’ Reteve-se, censurando-se pelo que tinha pensado há pouco.

Kasumi ainda o encarava com o rosto sério. ‘Se ele não cumprir…’ Ela soltou um suspiro, percebendo a mudança de energia. Virou o rosto ao mesmo tempo que Aeon ergueu o corpo e franziu a testa, observando a aproximação do ser alado.

Kasumi reparou que Miguel se aproximava com o rosto furioso. Era a primeira vez que o via realmente naquele estado. Ultimamente o anjo andava com o humor bastante oscilante. Ele parou a alguns passos dos dois.

‘O que pensa que está fazendo, Aeon? Você já teve sua chance e falhou! Agora quer atrapalhar a missão de outro?’

Aeon sorriu de leve. ‘Sempre controlador, não?’

‘Não se meta nos meus assuntos.’ Respondeu, sem disfarçar a raiva.

Kasumi se colocou entre os dois, a frente de Aeon e encarou Miguel. ‘Ele já está indo embora. Não há necessidade de usá-la, principalmente quando o inimigo não tem arma para se defender.’

O anjo franziu a testa, encarando-a e finalmente pareceu reparar que tinha levado a mão direita até a empunhadura da espada que estava presa à sua cintura. Afastou a mão devagar, ainda olhando para a menina que o encarava com repreensão. Detestava aquele olhar, já o tinha recebido anteriormente e, diferente de antes, tinha a certeza de ser merecedor dele agora. Inferno!

Desviou os olhos para Aeon que estava um passo atrás da menina e trincou os dentes, reparando no sorriso suave que ele tinha nos lábios enquanto a observava. Aeon levantou o rosto, fechando o sorriso e encarando-o.

‘Imaginei que seu bloqueio fosse mais forte.’ Comentou com sarcasmo.

Miguel estreitou os olhos em Aeon. ‘Você não deveria ter se metido nisto! Não tem ideia das consequências que seu ato irresponsável pode ter causado.’

‘Será mesmo que foi irresponsável ou apenas inconveniente para você?’

Miguel deu um passo a frente, ficando mais próximo de Kasumi sem desviar os olhos de Aeon. ‘Não interfira na missão de outro apenas porque falhou na sua.’

‘Pelo menos… eu tentei…’ Aeon encolheu os ombros. ‘Enquanto outros se acomodam nas posições que alcançaram…’

‘Que alcançaram por merecimento e caráter!’ Rebateu em tom mais alto.

‘Pode até ter sido alcançado por merecimento… mas será que, com o passar do tempo, realmente merecem permanecer onde estão ou é apenas conveniente manter-se ali?’

‘Uns permanecem, outros evoluem, outros caem…’

‘Muitos estagnam, você quer dizer.’ Aeon rebateu.

Kasumi respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Vocês dois estão discutindo coisas irrelevantes. Shaolin saberá o que quer e tenho certeza que completará a missão…’ Fitou o anjo a sua frente que baixou o rosto para encará-la. ‘A missão sempre vem em primeiro lugar.’

‘Exatamente.’ Ele rebateu.

Aeon trincou os dentes. ‘E depois de concluída, cabe a ele decidir o seu lugar.’

Miguel voltou a encará-lo. ‘Ele sabe exatamente a que lugar pertence.’

Aeon sorriu com ironia. ‘Ao lugar ao qual você quer que ele pertença?’

Ficaram em silêncio por algum tempo, até Kasumi girar os olhos entediada e começar a se afastar dos dois. ‘Os dois estão se metendo e tentando decidir por outra pessoa.’ Ela encarou Miguel e inclinou a cabeça de leve. ‘Você costumava ser mais divertido e menos mandão…’ Ela balançou a cabeça de leve. ‘Devem ser apenas minhas lembranças afetivas infantis.’ Concluiu com pesar.

Miguel a observou em silêncio e sorriu de leve com o comentário dela. Realmente, quando ela era mais nova costumava ser mais gentil. Ela era uma criança encantadora e, inclusive, gostava de encontrá-la. Por mais que não o planejasse, acabava brincando com ela ao invés de apenas alertá-la e vigiá-la.

Desviou os olhos para Aeon, que o fitava de forma intrigada, e endireitou o corpo, incomodado. Voltou a olhar de forma dura para Kasumi como ultimamente fazia. ‘Você tem que manter o nosso acordo!’

Ela soltou um suspiro e começou a se afastar dos dois. ‘Você não está cumprimdo a sua parte. Faça algo ou não faça nada, porque quando intervém nas minhas lembranças, só piora mais a situação.’ Informou a ele com o tom de reprovação.

Miguel estava pronto para rebater quando ela parou e virou-se para ele, encarando-o pelo ombro direito. ‘Não adianta ficar repetindo o mesmo discurso de sempre. Com minhas lembranças não haverá como evitar que eu me torne a mesma pessoa de antes.’ Completou, voltando a caminhar e se afastando dele.

Aeon e Miguel encararam-se novamente.

‘Não se aproxime mais dela! Isso é uma ordem!’ O anjo falou com o rosto duro.

‘Não sou seu subordinado.’ Aeon rebateu.

‘Pior… você está bem mais abaixo de mim. Sabe muito bem que o dever dos arcanjos é justamente combater demônios como você.’

Aeron ergueu uma sobrancelha. ‘Continua arrogante como sempre foi. Preocupa-me muito estar tão próximo assim de humanos. Não é do seu feitio, você sempre se manteve afastado de todos que acredita estarem abaixo de você.’

‘Meu dever é manter a ordem. Não hesitarei em eliminá-lo caso se aproxime dela, novamente.’

Aeon inclinou a cabeça, olhando intrigado para o anjo. ‘Por que tem tanto receio assim dela, Miguel? Quem ela realmente é? Você não é de se preocupar de forma tão particular com os humanos. Será que não é o orgulho, mas a luxúria a sua verdadeira fraqueza?’

Miguel trincou os dentes e segurou a mão na empunhadura da espada de prata que estava presa à cintura, chegou a começar a desembainhá-la quando o tempo voltou a correr novamente e ele reparou nas pessoas voltando a se movimentar.

Retorno sorriu para ele de forma irônica, antes de dar um passo para trás e, assim que Tempo entrou na árvore sagrada do templo, fez o mesmo desaparecendo da vista do anjo. As duas cartas tinham usado a energia do lugar para fazerem aquela intervenção sem usarem a magia de sua mestra.

Miguel ainda tiraria aquele insulto a limpo. Desviou os olhos e logo encontrou Kasumi envolta na aura púrpura, ainda fraca. O bloqueio estava a um triz de ser completamente derrubado.

A menina estava conversando com a sacerdotisa do templo. Franziu a testa, preocupado com o que exatamente Aeon havia revelado para a menina. Tinha tentado, inúmeras vezes, reestruturar o bloqueio, mas não foi capaz. A instabilidade dos universos estava tornando aquilo impossível.

Não queria que Kasumi tivesse as lembranças de sua vida passada. E, apesar de Aeon e a menina não acreditarem, queria isso para tentar poupá-la de se lembrar de todo sofrimento. Ele, verdadeiramente, importava-se com ela, de uma forma como ele mesmo nunca havia se importado com alguém antes.

Fechou os olhos, lembrando-se das palavras do Pai Maior quando tomou aquela decisão… Aquela que seria o seu único remorso.

”Você é o líder dos Guardiões Celestes, Miguel. Você, assim como todos, tem autonomia para fazer o que acha correto. Azrael teve o livre arbítrio para cair, assim como Lúcifer e outros. Lilith, para afastar-se e procurar o que acredita ser sua felicidade. Adão e Eva para agir conforme desejavam. Todos sabiam das consequências. Faça o que realmente acredita ser o correto, mas esteja pronto para lidar com as consequências desta decisão, assim como todos eles.”

Abriu os olhos e respirou fundo, soltando o ar devagar e ainda observando Kasumi. Engoliu em seco. Esperava sinceramente que ela não se lembrasse do passado. Não só por todo sofrimento que ela havia passado em sua encarnação anterior como Akame, mas, principalmente, por quando a conheceu e por todo o sofrimento que ele a fez passar quando se deixou levar pelo medo.

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Shaolin caminhava junto com Marie e Kazuo por Bergen. Assim que chegaram ao hotel, apenas deixaram as mochilas nos quartos e ele já acionou o rashinban para localizar a chave de Heimdall. Caminhavam apressados embaixo da constante chuva que não dava trégua na cidade. O tabuleiro mágico apontava para as montanhas. Então resolveram pegar o funicular Fløibanen.

Passaram pelo Bryggen que conservava uma pequena vila viking na cidade e Kazuo olhou para ela, estranhando as casas de madeira tortas que, apesar de bem conservadas, não era tão bonito quanto Colmar.

Franziu a testa quando levantou o rosto e viu, na fachada de uma das casas, a estátua de madeira de um anjo. Lembrou-se de Gabriel e na sua vontade de socá-lo por não ter sido claro quanto aos riscos que Shaolin estaria correndo na missão de destruição das chaves. Nem ele e nem Marie comentaram com Shaolin sobre suas suspeitas ao possível resultado do aumento do nível de magia dele e a permanente fragilidade do corpo.

Pegaram a última viagem do dia no funicular e se sentaram aguardando a curta viagem montanha acima que os levaria para o lugar ao qual o tabuleiro mágico apontava. Não havia muitos turistas e um senhor ainda recomendou, num inglês arrastado, que eles não se demorassem, pois a última viagem de descida partiria da estação dali a meia hora.

Caminharam pela estação, atravessaram o mirante para onde os poucos turistas se encaminhavam para tirar fotos da cidade e logo entraram por uma das inúmeras trilhas que existia. Seguiam a direção que o tabuleiro indicava, sem terem ideia de para onde exatamente estavam indo.

Marie olhou para trás e viu a vista da cidade por cima. Logo deixaram de ver o terraço onde algumas pessoas ainda se encontravam. A vegetação começava a ficar mais densa, obrigando a jovem a invocar o poder de luz para que iluminasse o caminho deles.

A chuva era contínua, fazendo a sensação de frio aumentar. Caminharam por quase uma hora até, finalmente, chegarem à uma grande construção de pedra e madeira, coberta pela mata fechada. Estava pouco iluminada, dando a impressão, no primeiro momento, de que fosse uma construção abandonada no meio da mata. O Rashinban apontava para ela.

‘Este negócio está funcionando direito, Shaolin?’ Kazuo perguntou, olhando para a construção a frente. Sentia uma presença estranha vindo do lugar.

Shaolin concordou com a cabeça, desativando o tabuleiro. ‘Está sim. Só tem muita magia em volta. Estamos dentro de uma floresta afastada da cidade. Há muitos elementos mágicos em torno.’ Comentou olhando em volta. ‘Bem, vamos lá.’ Falou, caminhando em direção à construção.

Kazuo olhava desconfiado para o lugar enquanto Marie olhava com curiosidade para um conjunto de inscrições cravadas em algumas árvores.

‘Shaolin-kun tem razão. Tem muita magia em torno do lugar.’ Ela comentou e apontou para algumas delas. ‘São inscrição de runas.’

‘Símbolos mágicos?’ Kazuo perguntou, erguendo uma sobrancelha.

‘Exatamente.’ Ela respondeu. ‘Existe um oráculo baseado nestes símbolos, mas é superstição em países nórdicos usarem para atrair sorte e tal. É comum encontrar estes símbolos até hoje em algumas construções, residências.’ Comentou, estreitando os olhos em alguns símbolos.

Tivera aulas com o pai sobre este oráculo, que segundo consta, havia sido entregue ao deus Odin depois dele se sacrificar, sendo ressuscitado através de magia. Ele tinha recebido as runas, mas precisou de ajuda da deusa Freia para conseguir entender o significado delas. A história não fazia muito sentido para ela, mas aquela era apenas uma das inúmeras versões.

Não demorou muito para a porta da frente se abrir e um homem alto e forte surgir diante dos três. Tinha o rosto duro e a testa levemente franzida. Olhou inicialmente para Shaolin que estava a frente, mas logo seus olhos cravaram em Kazuo.

‘Não deveria estar aqui neste mundo.’ Ele comentou, sem nem ao menos cumprimentá-los.

Kazuo franziu a testa, se já não estava gostando do lugar agora, encontrando com a figura a sua frente, começava a detestar.

‘Estamos aqui pela chave de Heimdall.’ Shaolin falou, chamando a atenção novamente do homem.

‘Estava esperando por você.’ Ele falou, mas voltou a fitar Kazuo e depois Marie. ‘Mas não por eles. O que você está fazendo acompanhado de dois seres com energia das trevas, garoto?’

‘É meu irmão.’ Shaolin respondeu. ‘E minha prima. Estão me ajudando. Deve saber que há outras pessoas atrás das chaves também.’

O homem concordou com a cabeça, mas ainda não se tranquilizou com a resposta. ‘Seres das trevas não são confiáveis.’ Comentou e olhou diretamente para o garoto. ‘Por que acha que eles o estão ajudando?’

Marie e Kazuo se entreolharam, começando a desconfiar daquela reticência do homem. Tao tinha lhe dito que todos os protetores das chaves estavam avisados.

Shaolin deu de ombros. ‘Como eu falei, são meu irmão e minha prima.’ Repetiu e depois fitou o homem. ‘Você sabe por que estou aqui, não?’

‘Sim. Fui avisado.’ Ele respondeu. ‘Como falei, eu já o estava esperando.’

‘Então…’ Shaolin falou. ‘Poderia nos levar até a chave de Heimdall?’

O homem ficou um tempo em silêncio, desviou os olhos do menino e voltou a fitar o casal jovem atrás dele. Acenou que sim com a cabeça. ‘Mas só você. Estes dois…’ Falou, apontando para Kazuo e Marie. ‘Aguardam aqui.’

Kazuo deu um passo à frente. ‘Nem pensar!’ Falou. ‘Você não entra aí sozinho.’ Comentou, fazendo um gesto com a cabeça. ‘Sabe-se lá como é esta chave.’

O homem encarou Kazuo. ‘Demônios não entram em minha casa.’ Depois fitou Marie. ‘Nem feiticeiros das trevas.’

Marie rodou os olhos. O cara realmente tinha a mente bem limitada. ‘Nossa magia ser proveniente das trevas não nos torna seguidores dela.’ Respondeu. ‘Deveria saber que, no mundo da magia, nem tudo é preto no branco.’

Ele franziu a testa não gostando da colocação da jovem. ‘É por isso que estamos nesta situação crítica, feiticeira. Enquanto tudo era preto no branco, não se havia dúvidas quanto às intenções. Ou o pentagrama estava para cima ou de cabeça para baixo, dividindo as intenções dos detentores de magia entre o bem e o mal.’

‘Você fala da intenção dos detentores de magia e não da origem desta magia. Está pré-concebendo que, por termos magia ligada às trevas, estamos no lado do “mal”, sendo que não nos conhece para afirmar isso.’ Marie rebateu, diferente de Kazuo, sabia que não adiantava bater de frente e tentava argumentar.

O homem cruzou os braços sobre o peito e olhou para ela. ‘Você pode até estar certa. Mas não posso correr o risco. Só o garoto tem magia branca. Vocês dois, não. Ele entra e o levo até a chave. Vocês dois ficam aqui fora. Se a intenção de vocês realmente não é lasciva, então não há porque não aceitarem isso.’

‘Meu irmão não entra aí sozinho.’ Kazuo falou. ‘Não sabemos como é a chave.’ Ele repetiu incomodado.

‘Se ele é o escolhido para destruí-la, não tem o que temer.’ Rebateu. ‘Soube que já destruiu duas delas. Inclusive a de Shamash.’

‘É… E ele teve que entrar numa caixa cheia de cravos.’ Kazuo disse. ‘Então quero saber como é essa tal chave de Heimdall!’

‘Ele saiu dela, não foi? Então não tem com o que você se preocupar.’ O Homem falou, olhando agora com curiosidade para o rapaz a sua frente. Realmente parecia bem preocupado com a segurança do garoto.

‘Qual é a sua, cara?’ Kazuo começou a perder a paciência. ‘Se não está querendo que a gente entre aí, é porque tem coisa pra esconder.’

Marie segurou o braço de Kazuo que chegou a dar mais um passo à frente. Entrar em uma briga com o protetor de uma das chaves não facilitaria nada as coisas.

‘Como é esta chave?’ Marie perguntou, encarando o homem.

Ele sorriu de leve para ela. ‘Se temem ser algo como a Dama de Ferro… Não se preocupem. A chave de Heimdall não é algo assim.’ Respondeu e olhou para Shaolin, sério. ‘Isso não quer dizer que será mais fácil destruí-la. Você acha que realmente consegue?’

‘Vim até aqui para isso. Se eu achasse que não conseguiria, não teria porque vir, não acha?’

Ele assentiu com a cabeça. ‘Espero que tenha razão. Mas isso não muda nada, apenas ele entra. Vocês dois, aguardam aqui fora.’

‘Está bem.’ Shaolin respondeu.

‘“Está bem” o caramba!’ Kazuo novamente interveio. ‘Se este cara não confia na gente, não tem porque eu confiar nele também. Além disso…’ Ele estreitou os olhos no homem. ‘Sua magia também não é assim tão branca como você afirma.’

Os dois se encararam em silêncio. Shaolin percebeu que a magia dos dois tinham aumentado e, para começarem um embate, não faltava muito. Resolveu intervir. Olhou para o irmão. ‘Kazuo.’ Ele o chamou, fazendo o irmão olhar para ele. ‘Eu vou sozinho. Você me dá 10 minutos, como da outra vez, certo?’

‘Acha que será tão rápido assim, garoto?’ O Homem chamou a atenção dele. ‘Não está sendo pretensioso demais?’

Shaolin encolheu os ombros. ‘Vocês dois estão prestes a se engalfinhar. É melhor eu ter, pelo menos, 10 minutos de tranquilidade para encontrar e… tentar destruir a chave.’

‘Justo.’ O homem falou.

Kazuo franziu a testa incomodado, olhou para Marie e a viu tão apreensiva quanto ele. Sinceramente, não sabia o que fazer.

Shaolin olhou para o irmão e sorriu de leve. ‘Está bem assim? Como da outra vez?’

Kazuo bufou. ‘Dez minutos e eu invado este lugar, entendeu?’ Falou contrariado.

Shaolin concordou com a cabeça e voltou a fitar o homem. ‘E então? Vamos?’

O homem olhou de Kazuo para Shaolin e franziu a testa. Pareciam realmente irmãos, mas tinham naturezas mágicas completamente diferentes. Isso não era comum, principalmente por se darem bem como constatava pela preocupação de um com o outro. Ele concordou com a cabeça e, finalmente, deu passagem para o garoto entrar na casa.

Shaolin deu ainda uma última olhada para o irmão e a prima e sorriu, tentando passar confiança a eles antes de entrar.

Kazuo novamente sentiu aquele incômodo ao ouvir a porta se fechar deixando ele e Marie do lado de fora. ‘Isso… isso não está me cheirando bem. Não gostei do cara.’

Marie não falou nada, estava tão tensa quanto ele ou mais. Olhava em volta, ainda se sentindo apreensiva e não era apenas pela segurança do primo, tinha alguma outra coisa.

‘Está tudo muito calmo.’ Ela comentou. ‘Gabriel-san nos mandou para cá desta vez… Ele parece estar sempre tentando nos colocar um passo à frente dos que também estão tentando pegar as chaves.’

‘Esse é outro que me paga quando eu encontrá-lo novamente.’ Kazuo comentou entre os dentes, mas depois olhou para a jovem. ‘O que está pegando?’ Perguntou, franzindo a testa.

‘Melhor ficar preparado.’ Ela comentou olhando em volta. ‘Tem uma presença se aproximando.’

O rapaz se concentrou, finalmente, conseguindo perceber a presença. Sentiu um calafrio percorrer as costas e teve a impressão de já ter encontrado a mesma presença antes. ‘Não é daqueles feiticeiros que encontramos nas outras vezes.’ Comentou, pegando a esfera negra de dentro do bolso e a apertando na mão.

‘Não mesmo. Ela é muito mais forte.’ Marie falou apreensiva. ‘E muito mais nociva. Não há dúvidas que é envolvida com o mundo das trevas.’

‘Um demônio?’ Kazuo perguntou, erguendo as sobrancelhas.

Marie balançou a cabeça de leve. ‘Isso eu já não tenho certeza.’

Kazuo olhou para a porta por onde o irmão tinha passado e depois para a floresta a frente deles. Isto já estava se tornando repetitivo e irritante. Tinha dado um tempo curto para o irmão retornar e, novamente, aparecia alguém para frustrar seu acordo com Shaolin. Parecia até que o garoto sabia disso e estava jogando com ele.

Logo surgiu, de dentro da floresta, a figura de um homem alto coberto por uma capa preta para protegê-lo da chuva constante.

Marie franziu a testa e engoliu em seco ao perceber a magia forte emanada por ele. Era muito diferente e muito mais poderosa do que a dos outros feiticeiros que haviam combatido até o momento. Olhou, rapidamente, para trás e constatou que, de uma forma muito bizarra, era bem parecida com a do homem que os havia recebido. Começou a temer novamente pela segurança do primo.

O homem parou a frente deles, olhando-os de forma interrogativa. ‘Ora, ora… não sabia que Thorbjørn tinha amigos com poderes tão peculiares como os de vocês, meus jovens.’ Comentou sorrindo de leve. Ele franziu a testa pensativo por um momento e depois voltou a fitá-los. ‘Ah! Talvez vocês sejam o casalzinho que anda frustrando os planos de Smith, não é?’

Marie e Kazuo se entreolharam, não sabiam exatamente o que esperar do homem a frente deles.

‘Não estou vendo o garoto.’ Ele continuou. ‘Então imagino que já deva estar dentro da casa com Thorbjørn. Bem, melhor eu me apressar para alcançá-lo antes dele destruir a chave de Heimdall.’ Falou, voltando a caminhar em direção a eles.

Kazuo deu alguns passos ficando a frente do caminho dele. ‘Quem é você?’

‘Wilder Englund.’ Apresentou-se de forma teatral. ‘E estou aqui para visitar meu querido amigo de infância Thorbjørn Aarhus. Então, por favor… não me faça perder tempo, preciso encontrá-lo.’ Recomendou, desviando do rapaz que voltou a se colocar à frente dele.

‘Você só entra quando o meu irmão sair, entendeu?’

Englund fechou o sorriso falso e encarou o rapaz seriamente pela primeira vez. ‘Saia da minha frente, fedelho. Você não é um demônio capaz de me derrotar. Só vai me fazer perder tempo.’

Kazuo devolveu a encarada. ‘Se sabe o que eu sou, então, como humano, é melhor cair fora.’

Marie olhou apreensiva para os dois, Kazuo já deveria ter aprendido a não subestimar a natureza humana. Havia feiticeiros tão ou mais poderosos que demônios. Não era por estarem em um corpo humano que deixavam de ser perigosos. No mundo da magia, força era algo relativo. Não era apenas a força física que contava.

‘Dá para ver que você está aqui há pouco tempo, fedelho.’ Englund comentou, estreitando os olhos nele. Sorriu de forma maliciosa. ‘E, pelo jeito, nunca encontrou um feiticeiros das trevas de onde veio, não é?’

Kazuo materializou a espada na mão. ‘E daí? Feiticeiro ou não… você não vai passar por mim.’

Englund franziu a testa de leve e, concentrando sua magia, sussurrou algumas palavras. O corpo de Kazuo foi envolvido por uma névoa branca que o deixou paralisado.

Marie arregalou os olhos e invocou disparo para tentar atingir Englund que apenas levantou a mão para o lado, formando um escudo de proteção e impedindo que os feixes de magia o atingissem. Ele se virou para a jovem com o rosto sério.

‘Você parece mais forte do que ele. Interessante encontrar uma feiticeira das trevas aqui.’ Falou, afastando-se de Kazuo que permanecia envolvido pela magia.

‘O que fez com ele?’ Marie perguntou, observando o rapaz. Deu um passo à frente e tentou usar Escudo no rapaz para protegê-lo da magia, mas foi em vão. Tentou usar Movimento para retirá-lo da névoa, mas também não conseguiu sobrepor a magia que o envolvia.

‘Nada demais…’ Englund respondeu. ‘Ele está apenas envolvido em seus próprios pesadelos.’ Falou sem dar muita atenção. ‘Para um demônio… ele tem um coração mole demais e muito medo dentro dele.’

‘Pesadelo?’ Marie falou, erguendo uma sobrancelha.

Estava pronta para usar o poder de Sonho para tirar o rapaz de dentro dos próprios pesadelos, mas, quando deu um passo na direção dele, sentiu seus pés presos ao chão. Olhou para baixo, vendo-os envolvidos pela magia de Englund.

O homem parou a frente dela com um sorriso de lado. ‘E você, minha jovem Feiticeira? Quais são seus maiores medos?’ Perguntou em tom suave.

Marie sentiu uma luz forte envolvê-la, obrigando-a a fechar os olhos para não se cegar. Quando os abriu novamente, piscou-os algumas vezes não conseguindo acreditar onde estava.

Conseguia ver o céu em chamas do Mundo das Trevas, tinha voltado para lá? Mas como?

Like an unsung melody

(Como uma canção não cantada)

The truth is waiting there for you to find it

(A verdade está esperando que você a encontre)

Tentou se mexer e percebeu que estava entre os braços de alguém. Era acolhedor e incrivelmente bom sentir-se protegida daquela forma. Olhou para a figura feminina que a acolhia, mas não conseguia ver o rosto dela com nitidez, apenas o par de olhos avermelhados que a fitavam de forma tão carinhosa. Levantou a mão e percebeu que era pequena, conseguia apenas envolver o dedo indicador daquela que lhe ninava.

It's not a blight, but a remedy

(Não é um defeito, mas um remédio)

A clear reminder of how it began

(Uma lembrança clara de como começou)

“Okaasama…” Marie pensou tão feliz por novamente sentir aquela aura tão poderosa a envolvendo. Fechou os olhos e aconchegou-se melhor.

Deep inside your memory

(No fundo de sua memória)

Turned away as you struggled to find it

(Desviado enquanto você luta para encontrar)

De repente, ouviu uma explosão, sentiu quando uma energia enorme veio na direção dela e percebeu que havia sido apertada entre os braços da mãe que tentava protegê-la. Ouviu um grito de dor, mas nada foi mais terrível do que ouvir o grito de desespero da mãe ao mesmo tempo que era puxada dos braços que antes lhe transmitiam tanto carinho e segurança.

You heard the call as you walked away

(Você escutou o chamado enquanto ia embora)

A voice of calm from within the silence

(Uma voz de calma entre o silêncio)

And for what seemed an eternity

(E pelo que pareceu uma eternidade)

You wait and hoping it would call out again

(Aguardou esperando o chamado novamente)

Sentiu aquele desespero enorme dentro do peito. Gritava, chorava, se debatia enquanto ouvia vozes desesperadas. Não entendia o que estava acontecendo. Não entendia o que diziam, o que gritavam… não entendia porque havia sido tirada daquela forma dos braços de quem sabia que havia lhe dado a vida.

Sabia que assim como ouvia o seu próprio choro, também ouvia o da mãe que se confundia com o dela. A mesma dor… O mesmo desespero… Fechou os olhos caindo uma escuridão sem fim. Sentia a energia materna tão poderosa afastando-se dela rapidamente. Queria gritar, chamar por ela, queria voltar a sentir-se acolhida daquela forma…

You heard the shadow reckoning

(Escutou a sombra considerando)

Then your fears seemed to keep you blinded

(Então parece que seus medos o mantinham cego)

You held your guard as you walked away

(Você manteve a guarda enquanto ia embora)

Quando abriu os olhos, viu-se rodeada pelo numeroso grupo de demônios que a seguiam. Engoliu em seco, tentando amenizar aquela dor sufocante de dentro do peito, como se tivesse um buraco no lugar do coração.

Caminhou com passos decididos pela areia daquele inferno sem fim e observava o seu grupo. A família que havia tentado reconstruir quando havia sido arrancada de uma.

‘Para onde vamos agora, Khala'a?!’ Ouviu uma voz suave ao seu lado e inclinou a cabeça de leve, encarando Kagami. Foi ela quem havia lhe resgatado de onde fora abandonada por aquele maldito demônio de asas.

‘Vamos para o norte. Aeon está prevendo um acontecimento perigoso.’

‘Perigoso?’

‘Estamos próximos do período que as brechas se abrem.’ Ela respondeu e soltou um suspiro. ‘Não vamos interferir no trabalho do Guardião do ciclo. Ele faz o trabalho dele e a gente não se mete.’

Kagami tocou o braço dela, chamando sua atenção. ‘Sabe que talvez os novos membros queiram atravessar uma das brechas.’

‘Não farão isso. Devem-me obediência.’ Sorriu de lado de forma presunçosa. ‘E o que eu procuro não está fora do Mundo das Trevas. Não tenho interesse nenhum no mundo dos humanos.’

Olhou para frente e estreitou os olhos em Aeon que a encarava com o rosto sério.

Subitamente, o eterno dia do mundo das trevas, iluminado pelo céu em chamas, tornou-se escuro, sem que conseguisse ver nada a sua frente. Sentia o corpo girando, como se fosse levado por um tornado. Aos poucos começou a perceber a claridade e viu seus companheiros todos, assim como ela serem tragados contra sua vontade para algum lugar.

Novamente, sentia aquela sensação de ser arrancada de um lugar acolhedor, familiar, para se ver sozinha, sem ninguém ao seu lado. Mais uma vez, tinha sido abandonada, estava sozinha. O redemoinho poderoso parou e sentiu-se caindo no nada até bater forte no chão, ou em algo que a fez parar de cair por aquele abismo. O corpo gritou de dor pelo impacto estrondoso.

When you think all is forsaken

(Quando você pensa que tudo está perdido)

Listen to me now

(Me escute agora)

You need never feel broken again

(Você não precisa sentir-se quebrado novamente)

Sometimes darkness can show you the light

(Algumas vezes a escuridão pode mostrar a luz)

Abriu os olhos devagar. Estava caída no chão. Seu corpo estava dolorido e fraco, como se suas forças tivessem sido tragadas. Esticou os braços tentando se levantar e sentiu-os tremer.

‘O que você está fazendo aqui, Midoriko?’ Ouviu novamente a voz familiar de Arthas, seu tom era de surpresa e medo. ‘Por que não está lutando contra Pazuzu com o Garoto e Tadmoth?’ Ele perguntou apreensivo.

Marie virou o rosto e viu o grande demônio com um só braço falando com a mulher de cabelos longos vermelho. Trincou o dentes reconhecendo Midoriko. Tinha voltado para aquele maldito dia.

An unforgivable tragedy

(Uma tragédia imperdoável)

The answer isn't' where you think you'd find it

(A resposta não está onde você acha)

Prepare yourself for the reckoning

(Prepare-se para reconsiderar)

For when your world seems to crumble again

(Para quando seu mundo parecer ruir)

‘Estou caindo fora!’ Midoriko falou de forma sarcástica.

‘Cobra.’ Marie falou entre os dentes, conseguindo, pelo menos, levantar o corpo e se sentar, com as costas apoiadas no pedregulho que os protegia da tempestade de areia.

‘Você realmente é um demônio traiçoeiro.’ Arthas retrucou. ‘Se não ajudar, estará quebrando seu acordo com Enma Daiyoh. Não vai receber sua recompensa!’

Midoriko riu de forma irônica. ‘O que Enma Daiyoh me prometeu não será nada comparado ao que conquistarei quando eu tiver o filho do Garotão.’ Ela falou, atacando Arthas que foi lançado longe caindo inconsciente no chão.

Don't be afraid to turn away

(Não tenha medo de virar-se)

You’re the one who can redefine it

(Você é quem pode redefinir)

Marie respirou fundo e, apoiando-se na pedra atrás do seu corpo, conseguiu ficar de pé. Levantou o rosto e encarou Midoriko que se aproximava dela com o rosto zombeteiro.

‘Você se acha realmente poderosa, não é, feiticeira?’ Midoriko falou aproximando-se dela.

‘O que você quer?’

‘Conquistar tudo isso aqui.’ Midoriko respondeu. ‘E você está no meu caminho.’ Falou, avançando até ela para atacá-la.

Marie arregalou os olhos e tentou levantar escudo à sua frente para se proteger, conseguindo apenas deter o demônio feminino por alguns instantes. Com a magia debilitada, Midoriko logo conseguiu acertá-la, fazendo-a cair ao chão novamente.

Virou-se para a inimiga e tentou invocar Disparo para acertá-la, mas os poucos projéteis de magia apenas a atingiram de raspão.

Midoriko trincou os dentes, voltando seus olhos negros para ela, irritada por ter sido machucada. Pegou Marie pelo pescoço, levantando-a do chão e a encarando com o rosto a centímetros do seu.

‘Odeio você. Frustrou todos os meus planos iniciais.’ Midoriko falou, apertando o pescoço de sua vítima.

Marie levantou as mãos, segurando os punhos dela e tentando concentrar sua magia para protegê-la do ataque ao mesmo tempo que tentava não romper a conexão com sua mestra.

‘Você nunca deveria ter vindo atrás dele.’ Ela falou e afastou uma das mãos, encompridando suas unhas como garras afiadas e prontas para dilacerá-la enquanto a outra ainda a prendia pelo pescoço.

Marie arregalou os olhos, vendo as garras avançando em sua direção. ‘Através.’ Sussurrou, escorregando da mão que a segurava e evitando o golpe certeiro. Caiu no chão fraca, respirando com dificuldade. Levantou o rosto, vendo Midoriko pronta para dar um novo bote. ‘Fogo.’ Usou suas últimas forças para desferir um golpe mais potente no demônio e se proteger.

Uma bola de fogo atingiu Midoriko que deu alguns passos para trás, soltando um grito irado de dor.

‘Não vai ficar no meu caminho!’ O demônio falou, olhando-a com raiva.

Marie sentiu, novamente, o desespero. Em situações normais, Midoriko não seria adversária para ela, mas ainda estava completamente debilitada pela terrível luta que travou com Illska.

Sentiu uma dor no peito sem saber o que fazer enquanto olhava Midoriko se aproximando dela e sabendo de suas intenções. Olhou em volta, pedindo aos céus que Syaoran estivesse de volta, mas ele ainda lutava contra Pazuzu. Engoliu em seco.

‘Logo terei a melhor arma para conquistar a tudo e você…’ Midoriko sussurrou próxima a Marie. ‘Deixará de existir.’ Falou novamente pronta para atacá-la.

Marie levantou o escudo, novamente, para se proteger e fechou os olhos concentrando suas últimas forças, sentiu os olhos arderem por não ser capaz de proteger Sakura e um sentimento intenso de culpa se apoderou de seu corpo, chegando a sentir o peito comprimido de dor. Os segundos se passaram, porém, e ela não sentiu o impacto do golpe de Midoriko.

Franziu a testa e abriu um olho, observando agora com surpresa o rosto de seu pai à sua frente. Não… Não era seu pai. Era Clow.

Don't let hope become a memory

(Não deixe a esperança tornar-se uma memória)

Let the shadow permeate your mind and

(Deixe a sombra permear sua mente e)

Reveal the thoughts that were tucked away

(Revelar os pensamentos escondidos)

So that the door can be opened again

(Para que a porta seja reaberta)

‘Você é a mais forte e foi a mais difícil de ser capturada. Como é a líder, deverá ser afastada das outras.’ Ele falou, olhando-a com o rosto sério.

Não! De novo, não! Marie pensou em desespero, arregalando os olhos. Encontrava-se com o corpo paralisado, sem conseguir se mexer. Tentou, desesperadamente, mover qualquer músculo do corpo ou invocar qualquer magia para impedir o que estava para acontecer.

‘Tousan… Não!’ Ela conseguiu gritar, sentindo as lágrimas rolarem pelo seu rosto. ‘De novo, não!’

Within your darkest memories

(Dentro de suas lembranças mais escuras)

Lies the answer if you dare to find it

(Está a resposta se você se atrever a encontrar)

Don't let hope become a memory

(Não deixe a esperança tornar-se uma memória)

O rosto de Clow tornou-se mais nítido e, agora, Marie conseguiu identificar os detalhes do rosto dele. Conforme ia notando e registrando as pequenas diferenças entre o rosto do famoso Mago e o de Eriol, o homem à sua frente se transformava, ficando mais e mais parecido com seu pai. Ela esboçou um sorriso, sabendo que ele a reconheceria e não a lacraria novamente. Ele era seu pai, nunca faria isso com ela.

‘Você foi um demônio.’ Eriol falou para ela com a voz séria. ‘Foi uma Carta! Não é mais.’

‘Sim!’ Ela respondeu, sentindo lágrimas nos olhos. ‘Solte-me, por favor… Por favor, tousan.’ Ela suplicou, tentando se mexer, mas ainda sentindo o corpo paralisado.

Levantou o rosto, encarando-o novamente e sentindo apenas a dor aumentar em seu peito. A imagem do pai se misturava à de Clow com cada vez menos nitidez, até que ela não conseguiu mais distinguir um homem do outro. Ela viu o homem pronto para lacrá-la, como da outra vez. Ele estava com o rosto sério, encarando-a.

‘Você sabe o que fazer, Marie.’ Ele falou de forma calma.

Ela arregalou os olhos, acalmando-se o suficiente para entender o que estava acontecendo com ela.

Ele fez um leve gesto com a cabeça, como se pudesse ler sua mente, informando que ela estava certa. ‘Isso não é real. Isso é apenas um…’ Ele continuou.

‘Sonho!’ Ela sussurrou, lembrando-se de onde estava e o que estava acontecendo antes de ser sugada por aquele pesadelo. Nada daquilo era real.

When you think all is forsaken

(Quando você pensa que tudo está perdido)

Listen to me now

(Me escute agora)

You need never feel broken again

(Você não precisa sentir-se quebrado novamente)

Sometimes darkness can show you the light

(Algumas vezes a escuridão pode mostrar a luz)

Fechou os olhos, concentrando sua magia ao máximo. Sua mandala formou-se aos seus pés e finalmente os poderes de sonho rodearam-na, permitindo que seu corpo novamente obedecesse ao seu comando. Abriu os olhos e encarou Englund à sua frente que olhava para ela surpreso.

‘Vento.’ Ela ordenou, fazendo a rajada forte atingir o corpo do feiticeiro que foi jogado para longe dela, batendo com força em uma das árvores nos arredores da casa de Thorbjørn.

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Ela caminhou devagar em direção a ele com o rosto sério. ‘Você não tinha o direito de entrar na minha cabeça.’ Falou com raiva para Englund que tentava se levantar.

‘Como… Como conseguiu quebrar a magia?’ Ele perguntou atordoado, assustando-se com o nível de magia que envolvia a jovem.

‘Nunca... nunca mais tente fazer isso!’ Falou com raiva, levantando os braços e formando o arco mágico a sua frente. ‘Flecha.’

A flecha mágica cortou o ar, atingindo Englund que inutilmente tentou ainda se proteger com um escudo mágico. Ele caiu no chão, trincando os dentes de dor.

‘Trovão.’ Marie atacou-o novamente, fazendo a descarga elétrica circular o corpo do feiticeiro.

Sickening weakening

(Adoecendo enfraquecendo)

Don't let another somber pariah consume your soul

(Não deixe outra sombra de inferioridade consumir sua alma)

You need strengthening, toughening

(Você precisa reforçar-se, endurecer)

It takes an inner dark

(É preciso uma escuridão interior)

To rekindle the fire burning in you

(Para reacender o fogo ardendo em você)

Ignite the fire within you

(Acenda o fogo dentro de você)

Ela ouviu um grito atrás de si e virou-se, vendo Kazuo abaixado com as mãos na cabeça. Ele ainda estava envolvido na magia do feiticeiro. Ela voltou-se para Englund novamente. ‘Desfaça a magia!’ Ela ordenou.

Englund levantou o rosto machucado e sorriu para ela. ‘Só ele pode sair dos próprios pesadelos.’

Marie estreitou os olhos nele. ‘Ou você cessa a magia agora, ou eu a cessarei.’

‘Não tem como fazer isso, garota.’

Ela sorriu de lado, ameaçadoramente. ‘Matando você, a magia termina.’

When you think all is forsaken

(Quando você pensa que tudo está perdido)

Listen to me now

(Me escute agora)

Ele arregalou os olhos e engoliu em seco, observando-a. Tentou se levantar novamente, mas apenas conseguiu se apoiar na árvore que havia atingido anteriormente de forma desengonçada.

‘Agora.’ Ela ordenou entre os dentes.

Englund desviou os olhos dela e fitou Kazuo, fazendo a magia em torno dele cessar.

Marie caminhou até o rapaz, ajoelhando-se a sua frente e segurando-o pelo ombro.

You need never feel broken again

(Você não precisa sentir-se quebrado novamente)

Sometimes darkness can show you the light

(Algumas vezes a escuridão pode mostrar a luz)

‘Kazuo! Foi apenas um sonho!’ Ela tentou chamar a atenção dele. Olhou para trás, reparando que o feiticeiro estava se levantando e franziu a testa. ‘Bosque.’

Ele foi envolvido completamente pelos ramos. Ela o viu tentar se livrar das plantas, em vão, e considerou se valeria a pena ou não esmagá-lo de uma vez. Voltou-se para Kazuo quando sentiu o corpo do rapaz tremer a sua frente.

‘Nada foi real.’ Ela tentou, novamente, chamar a atenção dele. ‘Não é real, Kazuo!’ Foi obrigada a gritar para que ele finalmente conseguisse ouvi-la e levantasse o rosto, encarando-a.

Don't ignore, listen to me now

(Não ignore, me escute agora)

You need never feel broken again

(Você não precisa sentir-se quebrado novamente)

Ela sentiu o peito fisgar ao reparar nos olhos desesperados dele.

Ele abriu a boca para falar algo, mas não conseguiu. Ainda estava em estado de choque com o que quer que tivesse sonhado.

Ela franziu a testa e se aproximou dele, envolvendo-o nos seus braços e apoiando a cabeça no ombro dele. ‘Nada daquilo foi real.’ Ela repetiu baixinho, perto do ouvido dele. Sentiu o corpo dele ainda tremendo e a respiração entrecortada, mas que aos poucos foi se acalmando.

Sometimes darkness

(Algumas vezes a escuridão)

Kazuo fechou os olhos e a abraçou, tentando se convencer de que as imagens tão vívidas que ainda via ao fechar os olhos realmente tivessem sido apenas um pesadelo. Respirou fundo, inalando o perfume dela e sentindo a aura dela envolver seu corpo, acalentando-o. Depois de alguns minutos, finalmente, conseguiu soltar um suspiro aliviado e voltar a respirar normalmente.

Can show you the light

(Pode mostrar a luz)

Continua.

Notas finais
Notas Específicas: Música do capítulo: The Light (A Luz) by Disturbed "Funicular" é um carro de cabos que circula sobre trilho; a sua principal função é o transporte de passageiros ou carga ao longo de encostas. Uma linha de funicular é normalmente constituída por dois carros puxados por um cabo de aço, um em cada extremo da linha; partem ao mesmo tempo numa linha única, ao meio do percurso a linha divide-se em duas permitindo o cruzamento. De maneira geral, o trem que sobe usa a energia potencial gravitacional transformada em energia mecânica do trem que desce.