FEITICEIROS
60 Abrindo o Coração
.
FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 60
Abrindo o Coração
Kasumi parou em frente a residência dos Li. Ajeitou a mochila nas costas antes de tocar a campainha. Tinha decidido visitar Shaolin para saber como o amigo estava. Saiu do treino de kung fu e foi direto para a casa dele. Estava preocupada demais, depois de tudo que tinha presenciado dias atrás e do que Marie tinha lhe contado de forma bem aberta sobre os problemas de Shaolin.
Ela tentou se manter afastada, já que ele tinha pedido. Soltou um suspiro, deixaria ele só a par das matérias da escola para que não entrasse naquele desespero como nas últimas provas e voltaria a tentar se manter afastada.
Além disso, tinha seus próprios problemas para enfrentar e resolver, e verdade que também não gostaria de envolver Shaolin neles. O amigo estava já com muitos problemas e ela não era tonta, percebia a maneira como o menino se comportava com ela, sempre achando que tinha que “protegê-la” de tudo como se ela fosse de porcelana. Agora usava como desculpa que “Ela não tinha magia. Era perigoso… blá, blá, blá…”. Abaixou os olhos e percebeu a aura fraquinha púrpura em torno da mão direita. Era melhor deixar Shaolin fora disso por enquanto, sabia que o garoto surtaria. Conhecia-o bem demais.
Ouviu o barulho da porta se abrindo e voltou a levantar o rosto. Logo viu o rosto de Kazuo. Ele sorriu de leve para ela, mas era um sorriso bem forçado, a menina percebeu.
‘Olá, Kasumi. Entre.’ Falou, fazendo um gesto com a mão.
A menina empurrou o portão de ferro e cruzou o pequeno jardim, subindo os degraus da casa e parando em frente ao rapaz. Levantou o rosto, encarando-o. ‘Oi, nii-san. Eu… Eu vim ver Shaolin. Trouxe os cadernos para ele se colocar a par das matérias também. Ele está faltando muitas aulas.’ Ela falou, já informando o motivo de estar ali.
Kazuo passou a mão na cabeça dela e aumentou o sorriso. ‘Vamos ver se você tem sorte de ele acordar.’ O rapaz falou, dando espaço para a menina entrar na casa. ‘Ou, quem sabe… Você não consegue acordá-lo.’
Ela arregalou os olhos de leve. ‘Ele ainda está dormindo?!’ Perguntou assustada.
Tinha ligado para falar com o amigo no dia anterior, mas a tia lhe dissera que ele estava muito cansado e tinha ido dormir mais cedo. Ligou para ele pela manhã para saber se ele iria para a escola, mas foi a vez do tio lhe dizer que o amigo não poderia ir.
Kasumi fitou Kazuo com a testa levemente franzida. ‘Eu sei que tem alguma coisa errada. Ele está doente? Os machucados dele não eram tão graves assim para ele ficar de cama desta forma… O que está acontecendo?’
Kazuo respirou fundo e fitou a menina. ‘É complicado explicar.’
‘É mais complicado não saber o que está acontecendo.’ Kasumi retrucou, tirando os sapatos para entrar na casa. Observou que ela estava silenciosa.
Syaoran apareceu na porta da cozinha, ele e Kazuo estavam preparando o jantar. Sakura e Shaolin estavam descansando.
‘Boa noite, Kasumi.’ Ele a cumprimentou, forçando também um sorriso. ‘Kazuo deve ter lhe alertado que Shaolin está dormindo.’
‘Boa noite, ojisan!’ Ela o cumprimentou. ‘Sim, nii-san já me disse.’ A menina fez uma pausa, fitando Syaoran. ‘Ele está doente?’
Syaoran e Kazuo se entreolharam.
Ela olhou aflita para eles. ‘O que está acontecendo com ele?’
Syaoran franziu a testa percebendo que a oscilação da aura mágica em volta da menina estava mais frequente. Principalmente agora que ela se mostrava agitada. Desviou os olhos para Kazuo e reparou na aura púrpura em torno do rapaz. Voltou a fitar a menina, eram da mesma coloração, tinham bastantes afinidades.
Desviou os olhos, perguntando-se por que a magia dela estava oscilando de forma frenética invés de vibrar de forma contínua? Aquilo não fazia sentido no mundo mágico e não podia negar que preocupava-o demais. Adorava Kasumi. Caminhou até a menina que não desviou os olhos do tio, passou a mão na cabeça dela e se inclinou para beijar o topo da cabeça de Kasumi como sempre fazia quando a encontrava.
‘Ele só está cansado.’ Syaoran falou com a voz suave e forçou um sorriso novamente. ‘Apenas isso, Kasumi. Não se preocupe tanto, por favor...’ Tentou ainda.
Ela ainda olhava desconfiada. ‘Ele não vai ao colégio desde que aquela confusão aconteceu. Já faz dias. Ele está perdendo aula. Todos estão preocupados com ele.’
Syaoran concordou com a cabeça. ‘É, eu sei. Mas… As coisas estão complicadas. Quando Shaolin acordar, ele vai gostar de conversar com você.’
Kasumi desviou os olhos do tio. Sabia que o certo era simplesmente dar boa noite e ir para sua casa. Olhou em direção ao segundo andar onde sabia que era o quarto do amigo e depois voltou a olhar a mochila que tinha colocado no corredor frontal.
Syaoran sorriu de leve observando-a. ‘Não quer jantar conosco hoje, Kasumi? Ligo para falar com seus pais.’
‘Não quero atrapalhar…’ Falou de maneira tímida e sentiu quando Kazuo se aproximou e passou a mão na cabeça dela, chamando sua atenção.
‘Estamos preparando sukiyaki.’ Kazuo falou, sorrindo. ‘Fiz bastante e fiz como você me ensinou.’ Acrescentou.
‘Mesmo?’ Ela perguntou desconfiada olhando o rapaz.
‘Claro!’ Kazuo respondeu ainda sorrindo. ‘Eu falei que aprendo rápido as coisas, não?’
Kasumi abriu um sorriso. ‘Está bem. Adoraria, ojisan. Muito obrigada pelo convite.’ Ela agradeceu, inclinando o corpo.
Syaoran sorriu para a menina. ‘Vou ligar para Kurogane.’ Disse indo até o telefone.
Kasumi olhou para Kazuo que estava sozinho agora com ela. Estreitou os olhos no rapaz que quase deu um passo para trás. ‘Nii-san! Desembucha! O que está acontecendo aqui?’
‘Hei, pirralha gulosa. Olha como fala comigo!’ Mostrou-se contrariado. Cruzou os braços sobre o peito e olhou desconfiado para ela.
Ela não se intimidou. ‘Eu sei que você sabe o que está acontecendo com Shaolin, então é bom me contar. Verifiquei que nee-san também não tem ido para as aulas, então tenho certeza que você sabe exatamente o que está acontecendo.’
Ele franziu a testa, olhando para ela ainda mais contrariado. ‘E o que eu tenho a ver com aquela ruiva metida?’
‘Não se faça de sonso como o seu irmão. O que está acontecendo?’
Kazuo endireitou o corpo. As fêmeas eram realmente muito perigosas, até mesmo as pequenas. A pirralha gulosa olhava para ele com tanta intensidade que, por alguns segundos, pensou que ela pularia no seu pescoço apertando-o até que ele começasse a falar o que ela queria ouvir. O rapaz ergueu uma sobrancelha e levantou o queixo de forma desafiadora. Ela estava muito enganada se pensava que conseguiria intimidá-lo daquela forma.
‘Olha… Você se acerta com o Shaolin quando ele acordar.’ Falou por fim. ‘Se ele quiser contar, ele conta.’
Kasumi deu um passo à frente do rapaz, encarando-o mais de perto ainda, reparou que ele desviou os olhos dela. ‘Só me diga se é aquele lance louco das chaves que ele tem que pegar. Aquilo que os tais Anjos falaram.’
Kazuo suavizou o semblante, ela estava preocupada com o irmão, não podia negar que no fundo sentia um pouco de inveja ainda de Shaolin por ter tantas pessoas preocupadas com ele daquela forma. Soltou um suspiro e balançou a cabeça, afirmando e finalmente respondendo a pergunta dela, mas com cuidado para não emitir nenhum som. ‘O resto você pergunta para ele.’ Falou rapidamente.
Kasumi soltou um longo suspirou e se afastou de Kazuo. ‘É… Bem que nee-san me falou que esse lance de magia não é tão legal como se pensa.’ Disse encolhendo os ombros.
‘Tudo tem o lado bom e o lado ruim, né?’ Kazuo ainda falou sem graça.
Kasumi inclinou a cabeça e o fitou por alguns segundos. ‘Você também deve se cuidar. Está com um machucado novo no ombro.’
Ele arregalou os olhos de leve e franziu a testa pensando em como ela sabia disso. Virou o rosto e olhou para o ombro machucado e com um curativo por baixo da manga da camiseta.
‘Não é porque tem este poder de cicatrização que pode sair se arriscando desta forma. Você não é imortal.’ Ela falou fazendo-o voltar a fitá-la e sorriu de leve. ‘Muitas pessoas ficariam muito tristes se alguma coisa grave acontecesse com você. Pense nelas antes de se jogar na linha de frente em uma batalha.’
Kazuo endireitou o corpo e desviou os olhos da menina sentido o rosto corado. Sentiu quando ela se aproximou mais dele e a olhou desconfiado quando percebeu o sorriso presunçoso dela.
‘Principalmente Marie-nee-san. Ela ficaria muuuuito triste se alguma coisa acontecesse com você.’ Falou cantarolando de leve e não segurou o riso ao ver o rapaz vermelho como um tomate maduro.
‘Humph! Eu não tenho nada com aquela ruiva metida.’ Kazuo não passou credibilidade nenhuma em suas palavras.
Kasumi ficou na ponta dos pés e o puxou de leve pelo ombro que não estava machucado para depositar um beijo na bochecha dele. ‘Tem muita gente que gosta de você, cabeça dura.’ Ela falou, afastando-se dele e começando a caminhar em direção às escadas para o segundo andar sem fazer cerimônias. Desde que se conhecia por gente frequentava a casa dos tios. ‘Vou dar uma olhada no seu irmãozinho que é tão ou mais cabeça-dura que você.’ Falou.
Kazuo acompanhou a menina subindo as escadas. Sorriu e passou a mão de leve onde ela tinha lhe beijado. Endireitou o corpo achando bem interessante aquela demonstração das fêmeas. Tinha recebido um beijo no rosto de Sakura e também tinha gostado bastante. Franziu a testa de leve pensando se todas elas agiam daquela forma.
Talvez fosse algo específico das fêmeas humanas, já que Midoriko nunca nem mesmo lhe afagou os cabelos alguma vez, quanto mais lhe dar um beijo daqueles. Por algum motivo sentiu-se mais feliz ainda em não estar no Mundo das Trevas com ela. Caminhou até o sofá e o pulou de forma divertida sentando-se nele e pegou o controle para ligar a televisão. Estava com vontade de ver um daqueles filmes a que Sakura assistia algumas vezes com Marie, Kasumi e Tomoyo-ba-san.
‘Hei, Kazuo.’ Syaoran apareceu na porta da cozinha. ‘Até existe magia para o jantar ficar pronto, mas acho que estamos em tempos de nos pouparmos disso.’
Ele sorriu sem graça, levantando-se e se direcionando até a cozinha para ajudar o pai a finalizar a janta. ‘Acho que é melhor aumentar a quantidade. Com Kasumi e a bola de pelo… Melhor dobrar a receita.’
‘Verdade.’ Syaoran concordou sorrindo de leve. ‘Mas você pareceu bem animado em convidá-la.’
Kazuo sorriu. ‘Perder a chance de ver um embate entre aquela bola de pelo e a pirralha gulosa? Nem pensar! Já sei que vou me divertir muito neste jantar.’
Syaoran balançou a cabeça de leve, sorrindo. Realmente era cômico apenas observar a interação de Kasumi com as Cartas e Kero. A menina conseguia fazer algumas perguntas e observações sobre magia que o deixava desconcertado com a simplicidade que encarava o que acontecia à sua volta.
Na verdade, fora a atitude dela que surpreendeu a todos. Não só sobre magia, as Cartas, mas sobre Kazuo. O filho ficava feliz por Kasumi não dar importância ao fato dele ser um demônio. Ela não o tratava diferente, olhava-o atravessado caso ele pedisse para dividir o lanche, como fazia com todo mundo, e adorava mandar no rapaz enquanto estava ensinando-o a cozinhar. Inclusive, ralhava com ele da mesma forma que o fazia com Shaolin.
Não podia negar que ele e Sakura sempre tiveram receio do caçula falar com a filha dos amigos sobre magia pela própria segurança da menina. Tomoyo quase havia morrido por ter se envolvido neste lado da vida deles. Não era apenas Shaolin que não se perdoaria caso algo acontecesse à menina, mas a atitude dela foi importante para que Kazuo percebesse que viver entre os humanos seria completamente possível. Que não precisava ter receio e poderia, inclusive, criar laços de amizade.
Olhou em direção a escada por onde a menina tinha subido. Ela tratava Kazuo por “nii-san” de forma tão carinhosa que sentia o coração se aquecer, sabendo o quanto isso fazia o rapaz feliz. Kasumi era gentil, assim como Tomoyo. Lembrava-se com carinho da amiga de infância e de todo apoio que ela sempre deu tanto para Sakura como para ele. Assim como a esposa, sentia falta de Tomoyo e suas palavras sempre sábias e bem colocadas.
Soltou um suspiro, gostaria que Shaolin pudesse tratar o irmão mais velho da mesma forma que Kasumi. Olhou para o rapaz, ainda com o sorriso nos lábios. Os dois já estavam se dando bem, mas o caçula era orgulhoso, precisava de mais tempo para derrubar aquela barreira que ele colocou inicialmente entre os dois pela situação bizarra que Midoriko criou para todos.
‘Fico feliz em saber que se dá bem com Kasumi.’ Falou, por fim, sorrindo de leve para o filho.
‘Ela está bem preocupada, queria contar para ela o que está acontecendo, mas...’ Deixou morrer a frase, soltando um suspiro.
‘É, eu sei.’ Syaoran concordou e voltou a olhar para a escada que levava ao segundo andar. Pensou, por um momento, que estava ficando velho. ‘Mas a decisão de contar ou não o que está acontecendo a ela é do Shaolin.’ Esclareceu. ‘Na idade dele… Eu ainda escondia muita coisa de Sakura. Espero que seu irmão não cometa o mesmo erro que eu.’
‘Vocês dois se conheceram desde que eram do tamanho deles?’ Kazuo perguntou, voltando ao preparo e incremento da refeição que tinha deixado de lado quando a campainha tocou.
‘Sim. Quando conheci Sakura era mais novo que Shaolin é agora…’ Ele deu um suspiro. ‘É uma longa história.’
Kazuo olhou de esguelha para o pai. ‘Ainda falta muito para finalizar a janta.’ Falou. ‘Acho que dá tempo para o senhor me contar… pelo menos uma parte.’
Syaoran concordou com a cabeça. ‘Talvez… Se estiver realmente interessado.’
Kazuo olhou para o pai diretamente. ‘Pode ser…’ Ele encolheu os ombros. ‘Tenho curiosidade.’
Syaoran sorriu novamente antes de voltar sua atenção ao preparo da janta e começar a contar como conheceu a esposa. Lembrou-se de quando contava estas mesmas histórias para Shaolin e riu ao perceber que o caçula tivera reações bem parecidas com as de Kazuo. Bem… os dois eram seus filhos.
Não havia convivido com Kazuo como gostaria e sabia que não teria como recuperar o tempo que passou longe dele, mas estava se esforçando para que se tornassem uma família. Depois que esta loucura toda terminasse, acertaria a vida do rapaz corretamente. Já tinha conversado isso com a esposa. Kazuo poderia ser até um demônio, mas era, antes de tudo isso e, principalmente, seu filho.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Kasumi empurrou a porta do quarto de Shaolin e espiou. A tia estava sentada numa cadeira perto do menino, olhando para ele. Kero estava dormindo no colo dela. A menina caminhou até Sakura e tocou de leve no ombro dela que se virou para Kasumi e sorriu.
‘Você veio vê-lo, pequena.’ Ela falou e Kasumi franziu a testa de leve. Há muito tempo a tia não a chamava assim. Sorriu para ela, já a reconhecendo.
‘Olá, Kagami-ba-san.’ Kasumi a cumprimentou, fazendo a Carta abrir um sorriso enorme.
Como gostava de encontrar com a menina agora e ouvi-la chamando-a pelo seu nome.
‘Sakura-ba-san está bem?’ Kasumi perguntou, ficando séria.
‘A mestra está descansando no quarto dela. Ainda está tentando se recuperar. Assim como ele.’
Kasumi franziu a testa preocupada com a tia. Tinha visto como ela ficara fraca. ‘Espero que ela se recupere logo.’
Kagami assentiu com a cabeça e se espreguiçou um pouco. ‘Já que você está aqui, pode ficar um pouco com ele...’ Falou, levantando-se com Kero nos braços.
‘Claro.’ A menina respondeu, sorrindo para ela.
Kasumi observou Kagami dar um beijo carinhoso na cabeça do menino que ainda dormia na cama antes de se afastar.
Kagami parou a frente da menina e beijou o rosto dela com carinho. ‘Sinto falta das brincadeiras de vocês dois. Cresceram muito rápido.’ Comentou sorrindo. ‘Quando ele acordar ficará feliz em ver você.’
A menina observou a imagem da tia passar pela porta do quarto, desaparecendo por ela. Ela voltou-se para Shaolin, que estava dormindo de forma tranquila, e sorriu de leve.
One, two, three and
(Um, dois, três e…)
Estendeu a mão e tocou os cabelos dele, afagando-os. Ele se mexeu um pouco, fazendo-a retrair-se, mas não acordou, apenas virou-se na cama. Franziu a testa, era estranho agora vê-lo dormir. Eles já tinham dormido várias vezes um no quarto do outro quando eram mais novos, brincavam juntos quase as férias inteiras quando seus pais ainda estavam trabalhando. E muitas vezes viajavam juntos com os pais ou em excursões da escola e do dojo.
Mas agora havia algo diferente. Sentiu o rosto quente por estar no quarto do menino a sós. Passou os dedos nos fios castanho-claros e sorriu de leve, porém logo o fechou franzindo a testa, pensando no que a tia Kagami tinha lhe falado. Talvez ele não ficasse tão feliz quando acordasse e a visse, mas não dava para se manter afastada como ele havia pedido. Ou melhor, exigido. Soltou um suspiro triste.
Lembrou-se de quando tinham quase 11 anos e, voltando da escola, um menino mais velho tinha resolvido implicar com as crianças menores. Shaolin se aproximou e pediu para ele não fazer isso e acabou levando um soco do garoto, entrando numa briga.
Franziu a testa lembrando que, naquela ocasião, o amigo tinha imobilizado o grandão, enquanto falava algo para ele em voz baixa que ninguém mais ouviu. Depois o soltou e acabou levando outro soco, mas o menino se afastou, deixando todos em paz, após deixar Shaolin com uma bela mancha roxa do rosto. A tia Sakura tinha ficado uma fera, mas Shaolin deu de ombros, dizendo que não era nada.
Depois de vê-lo lutando intensamente com Kazuo e com um grupo de malucos, deduzia que ele seria bem capaz de vencer o adversário naquela ocasião, mas não fez isso. Ele sempre escondeu o próprio potencial. Sempre escondeu a magia e a força que possuía. Inclusive e, principalmente, dela.
Stop playing with my heart the way you're doing
(Pare de brincar com meu coração desse jeito)
You keep pushing me away, then you're pulling me right back in
(Você me afasta, então você me puxa de volta)
Playing these games when you know I'm already falling
(Jogando este jogo quando sabe que eu já perdi)
Será que ele tinha realmente lhe contado tudo no dia que lhe revelou sobre magia? Ou será que tinha alguma outra coisa e por isso tinha lhe pedido para se manter afastada. Desviou os olhos dele, pensando que ele tinha contado a verdade sobre irmão que tinha surgido de repente.
Virou-se para trás, observando a porta e voltou a sorrir de leve. Gostava muito de Kazuo, era difícil de acreditar que ele era um demônio, ser das trevas ou qualquer um destes nomes que são usados para aterrorizar as pessoas. Kazuo era um doce, apesar de saber lutar muito bem e de forma bem violenta. Voltou a admirar o amigo de infância.
Eles não tiveram tempo ainda para conversar sobre aquela confusão que acontecera na escola dias atrás.
Quando ele lhe contou sobre magia, tinha dito não ter nenhum outro segredo. Ela deveria confiar, não é? Ele tinha prometido não guardar mais nenhum segredo dela.
Sentiu as bochechas vermelhas ao lembrar que, quando ele perguntou se ela guardava algum segredo dele, ela se confessou, mas ele não entendeu. Ele nunca entenderia. Ele sempre a olharia como uma irmã e amiga, nada além disso.
Desviou os olhos pensando que também gostaria de conversar com ele sobre o que estava acontecendo com ela, mas achava que o amigo estava com tantos problemas que não seria justo aumentar seu fardo. Colocou uma mão no rosto e fechou os olhos, sentindo-se subitamente cansada.
Estava tendo pesadelos cada vez mais frequentes, escapes de realidade nos quais não sabia exatamente para onde ia. Desde que esbarrara em Retorno, era como se algo que sempre a protegeu estivesse, aos poucos, enfraquecendo e fazendo-a experienciar aquelas cenas horríveis que a faziam acordar em pânico. Precisava dividir aquela angústia com alguém, mas não era hora para falar com Shaolin. Ele estava com problemas suficientes.
Pensou, de forma triste, que sempre escondiam algo um do outro. Ele, provavelmente, ficaria tão triste quanto ela se sentira antes dele lhe revelar sobre magia. Soltou um suspiro dolorido. Logo, tudo estaria resolvido. Logo, não precisaria manter segredo do amigo sobre o que estava acontecendo com ela.
Stop speaking through the lines and say it bluntly
(Pare falar nas entrelinhas e diga logo sem rodeios)
I'm tired of reading through your smiles to see the truth behind
(Estou cansada de ter que ler a verdade através do seu sorriso)
This circle of two that's leaving me always hoping
(Ficar andando em círculos me deixa sempre esperançosa)
Ele se mexeu novamente, virando-se e fazendo-a dar um passo para trás. Agora ela conseguia ver o rosto dele que estava com alguns machucados, alguns que ela mesma cuidou alguns dias atrás. Doía vê-lo assim. Tinha tratado os machucados dele e não arredou o pé da casa até saber que ele estava bem.
Na verdade, gostaria de ter ficado ao lado dele o tempo todo, mas Marie insistiu em levá-la para casa e bem… Ele tinha brigado com ela para que ela se mantivesse afastada, né? Achou melhor fazer o que o amigo tinha pedido. Ele já estava com problemas demais, não queria ser mais um.
Tinha saudades das conversas e do tempo que passavam juntos cozinhando, conversando sobre os treinos de kung fu, passeando pela cidade, nas atividades da escola, vendo filmes melosos ou estudando. Dele tentando explicar matemática para ela, de forma paciente, e ela o ajudando em outras matérias. Tinha saudades daquela convivência diária, mas também não podia negar que descobrir outra parte dele, sobre a qual não tinha conhecimento antes, era bastante fascinante. Estava feliz por saber que o amigo teria fibra para enfrentar tudo. Mas gostaria que ele contasse com ela, que a deixasse apoiá-lo, mesmo que não tivesse magia.
O menino respirou fundo e soltou o ar devagar. Murmurou alguma coisa, fazendo-a franzir a testa de leve. Teve impressão de que ele a chamara. Talvez tivesse percebido que ela estava no quarto.
Inclinou o corpo a frente, tentando entender o que ele estava murmurando. Talvez estivesse se sentindo mal, com dor ou algo assim, pensou preocupada.
‘Shaolin?’ Ela o chamou e o viu abrir os olhos devagar. Ele sorriu de leve.
‘Kasumi...’ Ele murmurou novamente, fazendo-a sorrir para ele.
And I wait for you to come and save me
(E eu espero por você para vir me salvar)
And I hope that you will come and show me
(Eu espero que você venha e me mostre)
And tell me…
(E me diga…)
O menino levantou o braço e tocou de leve o rosto da amiga a sua frente, alargando o sorriso. Tirou uma mecha da franja negra que cobria parte dos olhos castanho-avermelhados. Ela era linda. Tinha o rosto tão bonitinho e a pele tão clarinha. Os cabelos negros lisos contrastavam de forma tão maravilhosa com os grandes olhos que agora o fitava. Era bom demais sonhar com ela.
Segurou a nuca da menina e a puxou devagar enquanto se apoiou no cotovelo com o outro braço e levantou parcialmente o corpo para se aproximar de Kasumi e finalmente tocar seus lábios nos dela.
Kasumi arregalou os olhos, não sabia se estava mais surpresa com a atitude de Shaolin ou pela sensação de sentir os lábios do menino contra os dela.
That you can't take me off your mind
(Que você não pode me tirar da sua cabeça)
That you were just scared to read the signs
(Que você estava assustado pra ler os sinais)
That we could actually be something more than…
(Que a gente realmente poderia ser mais que…)
And then I would tell you all the things
(E então eu te diria todas as coisas)
That I have been down to let you know
(Que eu quero que você saiba)
And we could actually be something more than…
(e a gente realmente poderia ser mais que…)
Friends in love
(Amigos apaixonados)
‘Hei, Kasumi… O Shaolin acordou?!’ Ela ouviu a voz de Kazuo atrás de si e desequilibrou-se, literalmente, caindo em cima de Shaolin, que ao sentir o impacto do corpo dela sobre seu peito, finalmente, despertou por completo.
Shaolin piscou algumas vezes, ainda sem se dar conta do que fizera pensando que estava sonhando. Arregalou os olhos, ficando vermelho ao reparar que Kasumi estava por cima dele, com o rosto levantado e igualmente vermelho. Os narizes quase se tocando.
Ela tentou se levantar de forma atrapalhada, se apoiando no garoto em cima de um dos machucados dele. Ele gemeu e fechou um dos olhos.
‘Desculpa… Desculpa…’ Ela falou, voltando a tentar se levantar e se apoiando na cama, finalmente saindo de cima dele.
Ainda pisou no pedaço da colcha quase indo ao chão. Droga! Como estava atrapalhada. Conseguiu, enfim, afastar-se da cama do menino, parando de costas para Shaolin que erguia o corpo devagar, ficando sentado na cama. Ele levou a mão esquerda ao ferimento que Kasumi tinha sem querer usado como apoio e que estava dolorido ainda.
‘O que vocês estavam fazendo?’ Kazuo perguntou na porta do quarto, olhando para o irmão e a menina.
Kasumi olhou para Shaolin e depois para Kazuo e voltou a olhar para Shaolin que estava mais vermelho escarlate, parecendo ter se dado conta do que realmente fizera alguns segundos atrás. Fitou novamente Kazuo e respirou fundo, tentando ganhar tempo para uma desculpa. Não era boa de inventar desculpas. Normalmente falava o que era simplesmente e pronto, mas como explicar para Kazuo o que nem ela entendia?
‘Eu… Eu vim… Ver se o Shaolin estava bem, aí Kagami-ba-san pediu para eu ficar aqui… E aí… Eu pensei que ele tinha me chamado e quando me aproximei…’ Parou de falar, sentindo o rosto esquentar ainda mais. ‘Aí quando você me chamou, eu me assustei e acho que tropecei… Foi isso...’ Kasumi explicou rapidamente; rápido demais. Recebeu um olhar desconfiado de Kazuo. O rapaz abriu um sorriso de lado e passou a mão na cabeça da jovem.
‘Sabia que a pirralha gulosa conseguiria acordar você.’ Kazuo falou, desviando os olhos para o irmão ainda com o mesmo sorriso.
O menino estava sentado na cama, parecendo confuso e bem envergonhado. Estava com o rosto tão vermelho que parecia que explodiria daqui a pouco.
‘Oyaji está chamando para jantar. Você deve estar com fome. Dormiu um dia inteiro.’ O rapaz completou.
Kasumi respirou fundo e fechou os olhos rapidamente, sabia que estava com o rosto vermelho de vergonha. Virou-se para Shaolin e tentou sorrir. ‘Você se sente melhor?’ Sabia que a voz tinha saído trêmula, mas era melhor disfarçar.
Shaolin levantou os olhos, fitando a amiga por alguns segundos e depois desviou o olhar dela, sentindo ainda o rosto quente. ‘Acho que sim… Eu… Eu… Pensei que estava sonhando...’ Murmurou, levando uma mão ao rosto e balançando a cabeça de leve.
‘Ótimo!’ Kazuo falou, virando-se para se afastar. ‘Então levanta e vamos jantar! Porque eu estou com fome e hoje a Kasumi vai jantar aqui. Não vou ficar disputando a comida com aquela bola de pelo.’ Olhou para a menina e piscou para ela. ‘Kero anda mais olho grande do que o normal.’ Avisou antes de sair pela porta, deixando os dois sozinhos.
Kasumi abriu a boca para falar duas vezes sem conseguir, levantou a mão e voltou-se para a porta. ‘Eu… Eu vou descer… E…’ Ela olhou para Shaolin rapidamente e desviou o olhar de novo. ‘Espero você lá embaixo.’ Disse, caminhando rápido até a porta e sentindo o coração acelerado.
Shaolin observou Kasumi se afastando e desaparecer porta afora. Franziu a testa novamente, tentando entender o que tinha acontecido. Levantou-se da cama. Sentia-se melhor. Voltou-se novamente para porta por onde Kasumi havia passado e sorriu de leve. Os lábios dela eram tão macios como sempre imaginou. Sentia-se, na verdade, muito melhor mesmo.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Kazuo seguiu pelo corredor em direção ao quarto do pai, ao invés de seguir na direção da escada, e bateu na porta de leve, antes de abri-la e espiar lá dentro. Viu que Sakura ainda parecia estar dormindo e hesitou um pouco antes de entrar. O pai havia pedido que ele a chamasse, então era melhor acordá-la.
Ela, assim como Shaolin, dormira por muito tempo durante o dia. A aura dela estava instável, às vezes expandia-se e retraía-se em questão de segundos, fazendo-o até se sentir zonzo, e dando vários sustos no pai.
Virou-se para o lado, vendo Kasumi sair do quarto do irmão com o rosto mais vermelho que um tomate maduro. Ela desceu correndo as escadas para o primeiro andar. Ele sorriu de lado, observando a menina e riu lembrando-se de como a assustou. Era melhor não fazer o mesmo com a esposa do pai.
Caminhou devagar até a cama de Sakura, pensando em como poderia acordá-la sem dar aquele susto todo. Coçou a cabeça e se aproximou devagar da cama onde ela estava dormindo.
Sorriu de leve, lembrando do pai falando de como a conheceu quando eles disputavam as Cartas. Era estranho imaginar alguém disputando alguma coisa com ela. Ela era sempre tão gentil. Franziu a testa de leve, pensando que isso não era bem verdade, ela realmente parecia uma loba brava quando discutiu com aqueles anjos babacas.
Estendeu a mão e tocou no ombro dela, balançando-a de leve.
‘Hei…’ Ele tentou chamá-la. Cada vez mais ele pensava que gostaria de poder chamá-la de “kaasan”, como Shaolin o fazia, mas ela provavelmente não aceitaria que ele fizesse isso. Não era verdade, além disso, quem gostaria de ter um demônio como filho? ‘Hei… Sakura.’ Falou com a voz calma e logo a viu se espreguiçar e abrir os olhos devagar. Afastou-se e desviou os olhos dela. ‘Hum… oyaji pediu para chamá-la. Para jantar.’ Ele informou.
Ela sorriu para ele e abafou um bocejo. ‘Acho que dormi muito.’ Falou envergonhada.
‘Sua aura está instável.’ Ele falou, voltando-se para ela e vendo-a se sentar na cama. Estava com o rosto abatido e, mesmo tendo dormido bastante, parecia cansada. ‘É normal…’
‘É… Acho que sim.’ Falou e fitou o rapaz sorrindo de leve. ‘Obrigada por me chamar, Kazuo-kun.’
‘Hum…’ Ele murmurou, saindo do quarto sem graça. ‘Por nada.’ Falou, voltando-se para ela e sorrindo de leve antes de passar pela porta.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Shaolin caminhava devagar ao lado de Kasumi. Depois do jantar, a menina o tinha deixado a par das matérias do colégio e alertado sobre as provas. Todos da escola estavam muito preocupados tanto com ele como com Sakura que havia solicitado alguns dias de licença por problemas de saúde.
O garoto insistiu em acompanhar Kasumi até a casa dela. Sakura achou que seria muito esforço para o filho depois que ele permaneceu dormindo por mais de 24 horas direto, mas Shaolin insistiu. Inclusive Syaoran interveio na questão, pois Kazuo estava pronto para ir junto e foi praticamente obrigado pelo pai a deixar os dois sozinhos.
O rapaz não fazia por mal, gostava de Kasumi e conversava com ela com entusiasmo, principalmente, sobre comidas e curiosidades do mundo.
Ela tinha muita paciência na hora de explicar as coisas para ele. Realmente tinham se dado muito bem. Não teria problema nenhum do irmão ir junto, só que queria conversar com Kasumi sozinho. Shaolin pensou que, talvez, devesse agradecer ao pai mais tarde.
Kasumi também tinha insistido em dizer que ele não precisava acompanhá-la, mas o garoto era tão ou mais cabeça dura que ela. Agora, os dois caminhavam em silêncio pela calçada e a menina, volta e meia, olhava-o de esguelha, vendo-o com as mãos nos bolsos, caminhando devagar. Ele mantinha o olhar para frente e ela percebeu que, duas ou três vezes, chegou a se virar para ela, como se quisesse falar algo, mas desistiu.
Ela também não tinha coragem de perguntar ou falar sobre o que tinha acontecido no quarto do menino antes de Kazuo entrar.
Stop making me a fool to think you need me
(Pare de me fazer de idiota pensando que precisa de mim)
I've been true to your life through the ups and downs
(Eu sempre fui verdadeira nos seus altos e baixos)
I'm waiting for moments I'm scared it might never happen
(E espero por momentos que receio nunca acontecerão)
‘Hum…’ Ela começou a falar, chamando a atenção dele. ‘Você então não vai para a escola amanhã de novo?’ Perguntou, brincando com as mãos a sua frente.
‘Acho que não. Amanhã vou começar a procurar a segunda chave. Gabriel me falou que devemos receber ajuda.’ Ele falou. ‘Acho que vamos viajar. Eu, Kazuo, Marie e os meus pais até a outra chave.’ Ele esclareceu.
‘E acha que volta quando?’
Ele encolheu os ombros de leve. ‘Não faço ideia.’ Respondeu com sinceridade.
‘E vocês vão novamente encontrar aquele pessoal maluco?’ Ela perguntou apreensiva.
‘Provavelmente. Gabriel falou que eles devem estar atrás delas também.’ Respondeu.
‘Isso é um problema.’ Falou, soltando um longo suspiro. Olhou para frente, vendo a poucos metros a sua casa. Instintivamente, diminuiu o passo, não queria chegar ainda ao seu destino e ter que se separar dele. ‘Eu gostaria de poder ajudar você de alguma forma.’ Ela falou e virou-se para ele. ‘Eu sei que você pediu para eu me manter afastada… Mas… Mas a gente sempre fez tudo juntos. Desde... Sei lá… Acho que desde que éramos bebês.’ Ela completou, rindo.
Shaolin a fitou por alguns segundos em silêncio. Franziu a testa. ‘Kasumi... Não deveria nem ter ido atrás de mim quando saí da sala de aula naquele dia.’ Ele falou, encarando-a sério. ‘Você podia ter se machucado.’
‘Você saiu de repente no meio da aula. Nunca fez isso. Não podia simplesmente ver aquilo e continuar lá como se nada tivesse acontecido.’ Ela respondeu, encolhendo os ombros de leve. ‘Também não adiantava estar na sala de aula e não prestar atenção no que Tanaka-sensei tentava explicar.’
‘Mas era o que deveria ter feito.’ Ele retrucou e parou de caminhar.
Kasumi desviou os olhos dele e observou sua casa. Os pais deveriam estar esperando por ela. O tio tinha ligado informando que ela jantaria com eles, ela passaria as matérias para o Shaolin e depois a levaria para casa.
‘Eu não suporto saber que não tem como eu ajudar você em nada disso.’ Ela falou sem encará-lo.
Shaolin virou-se para ela, observando o perfil delicado e sorrindo de leve ao reparar como ela era bonita.
‘Eu nunca pensei que este tipo de coisa existia. Isto é…’ Kasumi o fitou, fazendo-o desviar os olhos dela e com o rosto vermelho por ela tê-lo pego admirando-a. ‘Eu nunca imaginei que magia, anjos, demônios, estas coisas existissem de verdade. Sempre achei que fossem lendas. Histórias de livros. Cinema. Coisa de sonhos… Fantasia da cabeça da gente.’ Ela falou, balançando a cabeça de leve. ‘E, de repente, eu descubro que você, que sempre esteve ao meu lado, convive com tudo isso.’
Shaolin encolheu novamente os ombros. ‘Eu não podia contar, por mais que eu quisesse. Meus pais sempre me alertaram que seria perigoso para você.’ Esclareceu e voltou a fitá-la. ‘Você viu a confusão em que estamos agora. Eu não quero que nada machuque você, Kasumi.’
‘Perigoso para mim?’ Ela perguntou, inclinando a cabeça de leve. ‘Quem está todo machucado e ficou na cama, dormindo o dia inteiro, não fui eu!’
Shaolin desviou os olhos dela. ‘Kasumi… Você é uma garota normal.’ Ele falou devagar e suspirou. ‘Eu… Tenho muitos problemas. Coisas que nem sei como vou resolver ainda.’ Ele levantou o rosto, fitando a casa dela.
Kasumi balançou o corpo de leve. ‘Você vai resolver tudo, Shaolin. Tenho certeza disso.’ Ela falou, sorrindo para ele.
And I wait for you to come and save me
(E eu espero por você para vir me salvar)
And I hope that you will come and show me
(Eu espero que você venha me mostre)
And then you tell me…
(E então você me diga…)
Ele deu um longo suspiro, tinha apenas uma ideia do que tinha acontecido com ele no processo para destruir a primeira chave. Não sabia com certeza o que realmente a destruiu, mas sabia das consequências que seu corpo sofreu. E teria mais seis chaves pela frente.
‘E eu vou estar esperando você.’ Ela falou, ainda sorrindo apesar de sentir o rosto esquentar. ‘Eu tenho certeza que esta confusão logo vai se resolver.’
‘Esperando…’ Ele repetiu, franzindo a testa de leve.
‘É.’ Ela desviou os olhos dele. ‘Para passar toda a matéria que você vai perder… Na escola… né?’ Ela falou sem graça e comprimiu de leve os lábios. ‘Para ajudar você a se recuperar e não ter problemas com as notas.’
Ele balançou a cabeça de leve. Perder aula realmente era a última das preocupações dele ultimamente. ‘Sim… É muito importante isso.’ Falou, sorrindo para ela.
‘Não é importante.’ Ela retrucou, sabia que ele tinha lhe dito isso para ser gentil, como sempre. Tirando a vez que o viu brigando com o irmão e com aquele grupo de malucos, Shaolin sempre era gentil com todos. Soltou um longo suspiro. ‘Mas é a única coisa em que posso ajudá-lo.’ Falou chateada. ‘Não posso… quer dizer, não tenho magia, né?’
Shaolin arregalou de leve os olhos com a colocação dela. O que ele mais queria era ser normal, continuar com uma vida normal como levara até aquela confusão toda começar.
‘Kasumi... Não deveria pensar dessa forma.’ Ele falou devagar, olhando para a garota. ‘Meus pais sempre enfrentaram problemas demais por não serem normais. Você viu que até um irmão eu ganhei há poucos meses por causa da loucura que foi e voltou a ser a vida deles.’
‘Ah!’ Ela o interrompeu, sorrindo. ‘Mas isso é muito legal! Nii-san é um ótimo irmão mais velho!’
Shaolin franziu a testa de leve. ‘Você realmente não se importa dele ser um demônio?’
‘Por que eu me importaria?’ Ela perguntou, inclinando a cabeça de leve. ‘Ele é um demônio legal.’
O garoto sorriu e balançou a cabeça. Realmente, Kasumi era uma caixinha de surpresas.
‘Além disso, ele é filho do Syaoran-ji-san. Então não tem como ele não ser legal.’
Shaolin observou a menina por um tempo em silêncio. Ele fez um gesto com a cabeça em direção a casa dela. ‘Kurogane-ji-san e Tomoyo-ba-san a estão esperando. Você não precisa se preocupar que alguma coisa completamente inimaginável aconteça, de repente. Você vai chegar em casa, encontrar seus pais, conversar sobre o seu dia e sobre assuntos normais e depois vai dormir para amanhã ir a escola. Eu gostaria que minha vida tivesse essa estabilidade.’
That you can't take me off your mind
(Não pode me tirar da sua cabeça)
That you were just scared to read the signs
(Que você estava assustado pra ler os sinais)
That we could actually be something more than…
(Que a gente realmente poderia ser mais que…)
And then I would tell you all the things
(Aí eu te diria todas as coisas)
That I have been down to let you know
(Que eu quero que você saiba)
And we could actually be something more than…
(e a gente realmente poderia ser mais que)
Friends in love
(Amigos apaixonados)
Kasumi soltou um suspiro. Como gostaria de contar para o amigo o que estava acontecendo com ela. Abaixou os olhos ficando em silêncio, Shaolin tinha que resolver os problemas dele primeiro. Contar para ele só o deixaria mais nervoso e poderia desviar o foco da missão que lhe foi dada.
O cumprimento da missão sempre deveria vir primeiro.
‘Mas eu preferiria trocar esta estabilidade toda que você falou por poder ajudá-lo a sair desta confusão.’ Falou, balançando o corpo de leve. 'Sempre que a gente se metia em confusões quando pequenos, um ajudava o outro.’
Ele concordou com a cabeça, sorrindo de leve, lembrando-se da infância que passou com a menina. Realmente, eles se metiam em muitas confusões juntos. E sempre saíram delas juntos. ‘Mas agora é diferente.’
‘Você prefere resolvê-los sozinho, né?’
‘Não é isso! É que eu nunca vou me perdoar se alguma coisa acontecer com você. Não gosto de vê-la sofrendo, não quero fazer você sofrer.’
Shaolin trincou novamente os dentes. Marie e Kazuo disseram que ele tinha quase morrido e, talvez, assim como o pai morreu tentando cumprir a sua missão, o mesmo pudesse acontecer com ele.
‘Não quero que me espere, Kasumi.’ Ele voltou a falar, fazendo-a arregalar os olhos surpresa. ‘Não sei se conseguirei voltar.’ Foi sincero com ela. O que mais queria era voltar, mas depois do que aconteceu com eles nestes últimos dias não tinha mais certeza de nada.
‘Do que você está falando?’ Kasumi perguntou, franzindo a testa.
Shaolin a encarou com o rosto sério e tenso. ‘Eu posso não voltar.’ Falou e a viu arregalar os olhos de leve e empalidecer. ‘Estou tentando ser o mais honesto com você agora, Kasumi. Contar toda a verdade.’ Disse. Ele sorriu de leve. ‘Eu prometi que não esconderia mais nada, lembra?’
A menina confirmou com a cabeça em silêncio, sentindo o peito doer ao ouvi-lo admitir, de forma tão clara, que o seu maior medo desde que presenciou aquela terrível luta dias atrás poderia se concretizar. Deu um passo à frente, encarando-o séria.
‘Você vai voltar, sim!’ Ela falou de forma assertiva apesar da voz denunciar que ela estava nervosa. ‘Eu vou estar esperando você, Shaolin Li. Se você pensar em não voltar para casa desta vez, eu vou atrás de você, entendeu?’
O menino piscou os olhos algumas vezes, observando-a em silêncio.
‘Entendeu, baka?!’ Perguntou com a voz mais alta e tentando não chorar na frente dele.
Shaolin assentiu com a cabeça de leve.
Ela deu um passo para trás e respirou fundo, tentando controlar aquele incômodo. Sorriu para ele que ainda a observava em silêncio.
Ele sorriu de volta, coçando a bochecha. ‘Acho que não tenho escolha, né?’
‘Não mesmo.’ Respondeu e virou-se novamente para a casa onde os pais a estavam esperando. ‘Sabe, Shaolin… Eu sei que você vai enfrentar algo muito, muito perigoso mesmo, mas eu também sei que você conseguirá superar tudo. Alguém sempre é designado para cumprir a missão e ela deve ser cumprida acima de tudo.’ Ela voltou-se para ele com o olhar sério. ‘Mantenha-se vivo e volte para casa.’
Shaolin estreitou os olhos na menina. Era estranho ter aquela sensação de que já a ouviu pedindo a mesma coisa antes. Manter-se vivo… Voltar para casa… Abaixou o rosto, fitando seus pés.
‘Confia tanto em mim assim?’ Perguntou num sussurro.
‘Claro!’ Ela respondeu de forma firme, fazendo-o levantar o rosto e admirá-la.
Ficaram em silêncio algum tempo, apenas contemplando-se. Ela soltou um suspiro cansado e virou-se para sua casa. Era melhor entrar logo. Levantou a mão para abrir o portão quando sentiu Shaolin segurando seu pulso.
Ele deu um passo a frente. ‘Gosto de você!’ Ele falou de repente.
Ela sorriu de forma triste. ‘Eu sei… Somos como irmão. Você já me disse isso.’
‘Não!’ Shaolin falou mais alto do que queria.
‘O que você disse?’ Achou que tinha ouvido mal, mas sentiu o coração disparar parecendo que ele queria sair pela boca.
'cuz I can't stop thinking about our future
(Pois eu não consigo parar de pensar no nosso futuro)
And if you can't start telling me your feelings
(E se você não consegue começar a falar-me dos seus sentimentos)
I'm gonna have to find someone that completes me
(Terei de achar outra pessoa que me complete)
If you won't tell me that you…
(Se você não me fala que…)
Shaolin sabia que agora não podia mais voltar atrás. Tinha que ir até o final, pois se alguma coisa acontecesse a ele, gostaria de ter sido honesto com seus sentimentos pela amiga de infância.
Deu mais um passo à frente, aproximando-se dela. Soltou a mão que tinha segurado o pulso da menina para impedi-la de abrir o portão e passou os dedos de leve pelo rosto dela.
Kasumi fechou os olhos sentindo o toque suave dele no seu rosto. Sentiu quando duas lágrimas teimosas saíram do canto dos seus olhos e sentiu quando Shaolin as secou com carinho.
‘Eu gosto de você, Kasumi.’ Ele finalmente falou com a voz suave. ‘E não como uma irmã.’ Completou e a viu abrir um sorriso. ‘Irmãos não sentem o coração acelerar quando se aproximam. Irmãos não se beijam. Não da maneira que eu sonho em beijá-la.’
Kasumi abriu os olhos, fitando-o. Sentiu o rosto novamente esquentar.
‘E eu posso estar enganado, mas eu acho que...’
‘Você sabe que eu também gosto de você.’ Ela o interrompeu. ‘Da mesma maneira…’
Shaolin concordou com a cabeça. ‘Acho que alguma coisa mudou entre a gente, não foi?’ Sorriu, sem graça e sentindo o rosto ainda quente.
Ela encolheu os ombros. ‘Acho que sim.’ Respondeu, sorrindo abertamente. ‘Será que é o normal?’ Perguntou, voltando a fitá-lo e o vendo sorrir.
‘Não sei.’ Respondeu, dando de ombros. ‘Talvez. Mas sinceramente… Acho que se isso é normal ou não, não faz muita diferença.’
‘Não mesmo.’ Ela concordou e balançou a cabeça de leve sem conseguir acreditar no que tinha ouvido.
Tinha sofrido tanto desde que começara a perceber que não era apenas um amor fraternal o que sentia por ele e ouvi-lo falando que sentia o mesmo era como um sonho. Ela o abraçou pela cintura, apoiando sua cabeça no ombro dele.
Shaolin sorriu de leve e a abraçou com carinho, sentindo-se incrivelmente bem por ter conseguido falar o que tanto havia escondido dela e de si mesmo. Respirou mais fundo e sentiu o perfume floral suave que emanava dos cabelos negros dela. Fechou os olhos apenas aproveitando aquele momento.
‘Eu vou estar esperando por você, Shaolin.’ Ela repetiu, ainda abraçada a ele. ‘Como sempre.’
Ele a apertou mais forte entre os braços. ‘Eu vou voltar.’ Prometeu, por fim, e Deus sabia que faria de tudo para cumprir. Agora que tinha compreendido o que sentia, tinha que voltar. Ainda tinha muita coisa para viver.
‘Isso é uma promessa?’ Ela perguntou.
‘Sim. É uma promessa.’
‘Quando se faz uma promessa, pedir desculpas por não poder cumpri-la não diminui a dor.’ Ela rebateu e o sentiu abraçá-la com mais força, antes de beijar-lhe a cabeça, de forma demorada.
‘Eu vou cumpri-la.’ Ele falou de forma firme. Kasumi sorriu feliz em ouvir aquilo. ‘Eu vou cumpri-la porque quero voltar a ficar com você. Não quero deixar de vê-la e não quero deixar de fazer o que sempre fizemos juntos.’
‘A minha vida ficaria muito sem graça sem você, Shaolin.’
‘E a minha não teria sentido nenhum sem você.’
A menina sentiu o rosto esquentar ainda mais. Shaolin se afastou dela e contemplou o rosto da menina que sorria para ele de forma meiga.
‘Eu posso beijar você?’ Ele perguntou sussurrando, fazendo-a arregalar os olhos e fechar o sorriso, tensa.
Can't take me off your mind
(Não me consegue tirar da sua cabeça)
That you were just scared to read the signs
(Que estava apenas demasiado assustado para ler os sinais)
That we could actually be something more than…
(A gente poderia ser algo mais que…)
Kasumi mordeu de leve o lábio inferior, desviou os olhos, sentindo-se envergonhada, mas também curiosa. Ela tinha sido pega de surpresa mais cedo, não conseguiu aproveitar a sensação de ser beijada. Voltou a fitá-lo e acenou de leve com a cabeça.
Shaolin a viu fechar os olhos devagar e sorriu. Pegou o rosto dela entre as mãos e se aproximou também fechando os olhos e encostando seus lábios nos da menina. Sentiu o coração bater de forma acelerada, num compasso completamente diferente de qualquer situação que ele tivesse vivido antes. E, apesar de também sentir o rosto quente, ele queria mais. Queria sentir mais o gosto dos lábios dela. Começaram a se beijar devagar, com calma, com carinho. Apenas queriam sentir o gosto dos lábios um do outro, entender aquelas sensações que estavam descobrindo juntos.
Shaolin entendeu agora porque tantas e tantas vezes havia visto os pais namorando. A sensação era maravilhosa.
Afastaram-se devagar e tocaram as testas, os dois sorrindo de forma envergonhada pelo que tinham feito.
‘Gosto muito de você... Kasumi.’
‘Eu também gosto muito de você. Volte logo, por favor.’ Ela pediu. ‘Não quero mais ficar longe de você, Shaolin.’
‘Não ficaremos... Não ficaremos longe um do outro. Vou apenas resolver isso e volto.’ Disse e afastou-se apenas para fitar o rosto que tanto amava e sorrir.
And I would tell you all the things
(E eu diria-lhe todas as coisas)
That I have been down to let you know
(Que eu quero que você saiba)
And we could actually be something more than…
(E a gente poderia ser algo mais que…)
Aproximou-se novamente e beijou os lábios da menina. Se pudesse gostaria de ficar beijando-a até ser obrigado a viajar atrás das malditas chaves. Como se arrependia de ter demorado tanto para perder o medo de se declarar para ela.
Era tão óbvio que mesmo que não confessasse seu amor por ela, continuaria a amá-la. Pensando agora sua atitude fora ridícula.
Estava tentando protegê-la da sua magia, mas o que estava realmente fazendo era destruir-se por dentro, remoer-se de ciúmes quando qualquer menino chegava perto dela e até mesmo quando ela conversava com Kazuo.
Afastaram-se novamente e sorriram um para o outro. Kasumi olhou para sua casa e depois voltou-se para o menino.
Shaolin fez um gesto com a cabeça na direção da casa. ‘É… é melhor você entrar agora.’ Ele falou. ‘Quando eu voltar, eu conversarei com ossan.’
‘Conversar com tousan?’ Ela perguntou sem entender.
‘Acho que tenho que falar para ele que a gente está namorando, né?’ O menino franziu a testa de leve. ‘Você quer ser minha namorada?’ Perguntou e a viu sorrir envergonhada.
Ela balançou a cabeça confirmando. ‘Quero sim.’ Respondeu e ele abriu de novo um sorriso.
‘Então, quando eu voltar, converso com os tios.’
Ela concordou com um gesto. Era estranho se imaginar como namorada do amigo de infância, mas também era algo bem óbvio agora.
‘A-acho melhor eu entrar…’ Kasumi falou de forma tímida e ele concordou. ‘Cuide-se, por favor.’ Pediu.
‘Você também.’ Ele falou e beijou a testa dela com carinho, antes de finalmente dar um passo para trás. Se continuasse perto da menina tinha impressão que não conseguiria resistir e a beijaria novamente.
Kasumi abriu o portão de ferro e entrou, fechando-o. Acenou de leve com a mão e caminhou devagar em direção a porta da residência. Ela virou-se para ele e acenou, sorrindo de forma magnífica, fazendo-o sorrir de volta.
Ela entrou e Shaolin virou-se, refazendo o caminho de volta a casa. Sorriu e balançou a cabeça de leve, pensando em como fora bobo em tentar esconder seu coração por tanto tempo. Ele não tinha ideia de como era bom destrancar aquele sentimento.
Friends in love
(Amigos apaixonados)
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Sakura estava sentada no sofá da sala, olhando para a televisão. Balançava a perna de leve e olhou para o relógio da sala.
‘Shaolin já deveria ter chegado.’ Comentou em voz alta. ‘Na verdade, ele não deveria nem ter saído.’ Completou, sem conseguir esconder o tom preocupado.
Syaoran estava sentado ao lado dela, mas lendo alguns relatórios do trabalho. Tinha solicitado uma licença para Kurogane sem entrar muito em detalhes, mas o amigo tinha lhe pedido para ajudar a resolver algumas questões. Syaoran não estava muito com cabeça para isso, mas não pôde negar.
Ele tirou os olhos dos papéis e olhou para a esposa, sorriu de lado e balançou a cabeça de leve. Achou melhor não comentar nada.
Ela tirou os olhos do noticiário e olhou para o esposo. ‘Por que você não deixou que o Kazuo-kun fosse com eles? Eu me sentiria mais tranquila.’
Syaoran respirou fundo e voltou a fitar a esposa. ‘Porque Shaolin queria conversar com a Kasumi a sós.’
‘A sós?’ Ela perguntou, erguendo uma sobrancelha e viu o marido assentir com a cabeça.
Balançou a perna de forma mais frenética, mostrando que estava ou preocupada ou nervosa ou contrariada ou os três ao mesmo tempo. Sakura franziu a testa de leve, olhando para o esposo.
‘Acha que Shaolin também percebeu a oscilação da presença mágica de Kasumi-chan?’ Ela perguntou preocupada.
Syaoran respirou fundo e soltou o ar devagar. Já não estava com cabeça para trabalho e a esposa tocar naquele assunto deixava-o ainda mais nervoso. ‘Sinceramente… Não sei… A mandala dele evoluiu… Ele não está mais apoiado na minha magia, mas realmente não sei se está desenvolvido a ponto de perceber.’
Sakura fitou o marido de maneira profunda. ‘Quando Kasumi-chan estava ao lado de Kazuo-kun era clara a afinidade das duas presenças.’
Ele assentiu. ‘Ainda mais que a oscilação parece estar mais frequente.’
‘Retorno... Aeon me falou que a magia dela foi bloqueada… Por que isso?’ Ela indagava-se. ‘Tomoyo-chan nem Yuo-kun possuem magia.’
‘Tomoyo sempre foi muito perceptiva.’ Syaoran a lembrou.
‘Sim… Realmente…’ Ela concordou imediatamente. ‘Tenho certeza que, no fundo, ela sabe que alguma coisa está diferente nesta nova existência… mas nunca percebi magia em torno dela… Nunca mesmo. Isso não faz sentido…’
Os dois ficaram em silêncio alguns minutos.
‘Mas… Mesmo que, na família de um deles, houvesse alguma… afinidade mágica.’ Syaoran começou a falar devagar. ‘Não faz sentido ela ter sido artificialmente bloqueada. E por quê?’
‘Aeon me garantiu que ela nunca fora um demônio como Marie-chan…’
‘Tive este tipo de presença apenas quando era um demônio, depois que voltei a ser humano deixei de tê-la.’
‘E como se explica uma humana ter aquele tipo de presença?’
‘Eu realmente não sei como…’ Ele falou com sinceridade. ‘Por mais que tente me lembrar das aulas de magia, inclusive de magia negra, ou dos estudos que fazíamos… Não sei como é possível… A não ser…’
Sakura se aproximou dele, sentando-se na beirada do sofá. ‘A não ser o quê, Syaoran?!’
Ele comprimiu os lábios mostrando-se nervoso. ‘Retorno falou que a alma dela era temida por demônios e anjos, não?’
‘Sim… foi a última coisa que ele falou antes de literalmente fugir de qualquer explicação…’
Syaoran inclinou a cabeça de leve, ainda fitando a esposa. ‘Algumas almas humanas são tão fortes que podem subjugar almas inferiores… O senso comum é que demônios subjugam almas humanas, mas o inverso, em casos raros, hipoteticamente, talvez possa existir…’
Sakura franziu a testa de leve. ‘Marie-chan sempre foi ressabiada com Kasumi-chan, em compensação, Kazuo-kun a adora… Isso não faz sentido.’
‘Mas Marie sempre demonstrou imenso carinho por Kasumi. Uma coisa é sentir respeito, a outra é temer… Elas sempre se deram bem.’
‘Sim… Isso é verdade.’ Sakura concordou. ‘Inclusive Marie-chan se queixava bastante em manter magia em segredo de Kasumi-chan. Não era apenas Shaolin.’
‘Exatamente…’
‘Syaoran… Alguma coisa não está se encaixando e estou com receio por Shaolin… Ele gosta demais de Kasumi-chan… Desde praticamente bebês, os dois sempre se deram bem. Brigavam, entendiam-se...’ Ela balançou a cabeça de leve, desviando os olhos do esposo. ‘Eram como irmãos, mas de uns tempos para cá… Está claro que não é só isso…’ Completou, voltando a fitá-lo.
Ele assentiu com a cabeça. ‘Também estou preocupado, mas… Não consigo… por mais que eu saiba que…’ Suspirou, balançando a cabeça. ‘Tudo é possível no mundo da magia, mas não consigo realmente aceitar que Kasumi seja um perigo… Ela… Ela é só…’ Ele fechou os olhos de forma dolorida. Não podia negar que adorava a garota. Era como uma filha, assim como Marie. Kasumi, inclusive, era mais próxima, pois tinha segurado a menina, ainda bebezinha, nos seus braços. Não conseguia vê-la como uma ameaça, mas não sabia porque outro motivo ela teria seus poderes bloqueados. ‘Ela é só uma menina…’ Concluiu com pesar.
Os dois voltaram a ficar em um silêncio incômodo. Preocupados com Kasumi, preocupados pela segurança do filho.
‘Espera!’ Sakura falou de repente, chamando a atenção do marido. ‘Por que ela seria temida por anjos? Por demônios poderia até realmente ter uma explicação sobre subjugá-los… Mas o que anjos temeriam?’
Syaoran sorriu de maneira sarcástica. ‘Por mim… parece que Gabriel teme a tudo.’
‘Estou falando sério, Syaoran! Gabriel-san não é parâmetro…’
Ele deu de ombros. ‘Realmente não sei… Sempre estudamos sobre seres e magia das trevas que era o que enfrentávamos, nunca o seu oposto.’
Sakura franziu a testa. ‘Oposto…’ Repetiu devagar.
‘Acho que seria interessante tentar novamente falar com Retorno.’ Ele sugeriu.
‘Talvez…’ Ela murmurou ainda pensativa quando percebeu a aproximação da presença do filho.
Shaolin entrou na casa e tirou os sapatos. Passou pela sala e olhou para os pais que o fitaram como se esperassem que falasse algo. O menino franziu a testa de leve, olhando desconfiado para eles. ‘Está tudo bem?’ Perguntou. ‘Você está bem, kaasan?’ Completou, observando que a aura da mãe parecia mais estável agora.
Sakura balançou a cabeça de leve. ‘Está tudo bem, querido.’ Ela fez uma pausa. ‘Hã… você levou Kasumi-chan até a casa dela?’
Ele assentiu com a cabeça. ‘Sim… eu falei isso antes de sair, não?’
‘Claro.’ Sakura respondeu rapidamente. Olhou de esguelha para o marido e voltou a fitar o filho. ‘E está tudo bem com vocês?’
O menino abriu um sorriso e abaixou o rosto, envergonhado. ‘Tudo bem, sim, kaasan.’
Ela arregalou os olhos de leve e olhou para Syaoran que sorria, balançando a cabeça.
‘Eu vou para o meu quarto…’ Ele falou, caminhando até a escada. Voltou-se rapidamente e olhou para Syaoran. ‘Hã… Tousan…’ Chamou, fazendo-o olhar para ele. ‘Obrigado por… por ter…’ Coçou a cabeça sem graça. ‘Por ter interferido com o Kazuo.’
Syaoran assentiu com a cabeça. ‘Por nada.’ Encarou o filho, sério. ‘Só espero que saiba o que está fazendo, Shaolin.’
Ele sorriu e concordou. ‘Eu sei sim, tousan. Nunca tive tanta certeza.’ Falou, começando a subir as escadas.
Sakura observou o filho se afastando e olhou para o marido, séria. ‘Ele parece saber bem mesmo o que quer.’
Syaoran sorriu de leve. ‘Shaolin apenas hesita demais, mas fico feliz em saber que, quando entende o que quer e o que sente, não tem medo de enfrentar.’
‘Não acha que eles são muito novos?’
‘Ou nós estamos ficando velhos?’ Ele falou e Sakura conseguiu esboçar um sorriso com a colocação do marido.
‘Eles crescem rápido demais.’ Ela falou ainda rindo, mas franziu a testa de leve, parando de rir ao perceber a aproximação de outra energia.
Syaoran observou a reação da esposa. ‘O que foi?’ Perguntou sério.
Ela ficou ainda um tempo tentando entender se realmente estava certa ou não. Já tinha sentido a presença dele se aproximando mais cedo, mas estava com tanta dor que mal conseguia se concentrar direito. Agora que sentia-se melhor conseguia distingui-la.
‘Eu acho que…’ Ela reteve-se e levantou do sofá.
Syaoran agora também percebia a aproximação, mas, diferente de Sakura, sentiu aquele maldito arrepio pela coluna. Detestava a aproximação daquela energia. Franziu a testa contrariado e não precisou esperar muito antes de ouvir a campainha tocar. Entreolharam-se já sabendo quem era.
Sakura caminhou até a porta da frente e a abriu. Sorriu de leve ao ver o xamã no portão de ferro, encarando-a sério. Ao lado dele estava o guerreiro chinês que sorria abertamente para ela.
Sakura balançou a cabeça de leve. ‘Não sou boa em poesia como você.’ Brincou, observando-o e ele sorriu de lado.
‘As estrelas se escondem aqui na cidade.’ Ele falou, olhando para o céu. ‘Não é muito inspirador.’ Rebateu.
‘Acho que tem razão. Entre.’ Ela convidou.
Ele abriu o portão e caminhou até ela, parando a sua frente. ‘Como você está?’
Sakura desviou os olhos dele e soltou um suspiro. ‘Não está sendo fácil.’
‘Eu sei… também é por isso estou aqui.’
Ela voltou a encará-lo e forçou um sorriso. ‘Não estou surpresa, mas é bom vê-lo. Entre…’ Convidou-o novamente.
Syaoran e Ren se encararam novamente e cumprimentaram-se de forma polida.
‘Não esperava vê-lo novamente, mas, se está aqui, é porque sabe o que está acontecendo, não é, Tao?’
‘Sim.’ Ele respondeu. ‘Anna e a minha esposa já estavam prevendo o que está acontecendo. Estou aqui para ajudar.’
‘Eu sei.’ Syaoran falou, olhando sério para ele. Olhou para esposa e depois se voltou para Ren.
‘A Anna pode ajudar sua esposa a se estabilizar até conseguirem parar o ataque que está resvalando na energia dela.’
‘Anna Asakura?’ Syaoran perguntou para confirmar.
‘Sim. Acho que já ouviu falar dela, não?’
‘Já.’ Ele olhou para esposa e franziu a testa de leve. ‘A Sakura confia muito nela.’ Falou e reparou no sorriso da esposa para ele.
Não era orgulhoso a ponto de colocar a família dele em risco por conta de besteiras. Se os xamãs estavam ali para ajudá-los aceitaria a ajuda e agradeceria.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!‘Também sei da missão do seu filho.’ Ren falou. ‘Sobre destruir as chaves. Não vai ser fácil para ele.’
Sakura sentiu o corpo tremer e caminhou até o marido. ‘Ele vai conseguir.’ Ela falou, forçando um sorriso. ‘É um menino muito forte. E vai ter a ajuda do irmão.’
Ren franziu a testa de leve e olhou para o segundo andar. ‘A presença esquisita então é de um filho de vocês? De quando você ainda era um demônio.’ Perguntou, olhando para Syaoran e estranhando.
Syaoran balançou a cabeça de leve, negando. ‘Não… é uma história complicada. Ele é apenas meu.’
‘Mas é um bom rapaz.’ Sakura adicionou.
Ren ficou um tempo olhando para os dois e acenou, aceitando a informação. ‘Isso é bom.’ Falou por fim.
Shaolin e Kazuo apareceram no alto da escada, olhando para a visita. O menino olhou para Ren e coçou a cabeça.
‘Gabriel é rápido.’ Comentou para o irmão.
‘Não é um anjo.’ Kazuo sussurrou de volta. ‘Energia estranha.’
‘Sei lá. O Gabriel me falou que ele ajudaria a achar as outras chaves.’ Shaolin falou.
‘Este Gabriel só sabe mandar os outros fazerem as coisas por ele.’ Kazuo rebateu, batendo de leve no ombro do irmão e descendo as escadas. Estava curioso para saber quem era a visita.
‘Ele não é má pessoa.’ Shaolin comentou, descendo atrás do irmão.
‘Você acha todo mundo legal. Por isso que ele só aparece para você. Se aparecer na minha frente, eu sou capaz de socar ele.’
‘Ele só aparece para mim em sonho.’
‘Socava ele em sonho também sem problema nenhum.’
Ren observou os dois garotos que conversavam em voz baixa se aproximarem. Sorriu de leve, reparando na energia tanto de um quanto do outro, eram bem diferentes, porém igualmente fortes. Fitou Kazuo por um tempo e depois observou Shaolin. Era mesmo o garoto que Anna tinha comentado. Não pôde deixar de sentir receio, mas pensou que ele mesmo já tinha passado por vários desafios quando tinha a idade dele.
Sakura se aproximou dos dois. ‘Estes são Kazuo-kun…’ Falou passando o braço pelas costas do rapaz. ‘E Shaolin.’ Falou colocando a mão no ombro do filho. Sorriu para Ren e depois olhou para os dois. ‘Ren Tao é um amigo meu.’
Os dois perceberam o pai rodando os olhos, mas se mantendo quieto. Não parecia ser amigo dele também. Entreolharam-se e estavam doidos para começarem a falar suas suposições um para o outro. Sakura percebeu e sorriu, vendo-os interagirem. Era bem diferente de quando se conheceram.
Shaolin olhou para Ren e franziu a testa de leve. ‘Então o senhor deve ser a ajuda que o Gabriel mencionou…’ Disse e olhou para o pai. ‘Para achar a chave de Shamesh.’
Ren assentiu com a cabeça. ‘Ela está sob a proteção de uma xamã.’ Ele esclareceu. ‘Na França.’
Shaolin arregalou os olhos. ‘Tão longe?’ Olhou para a mãe e sentiu que ela segurou mais forte o seu ombro.
‘Você a conhece?’ Sakura perguntou.
‘Sim. Ela está aguardando pelo seu filho.’ Ele respondeu. ‘Todos os protetores estão avisados sobre a missão dele e estão esperando.’ Esclareceu. ‘Apenas uma das chaves, além da sua, não está com os xamãs.’
Syaoran se aproximou. ‘Você sabe com quem ela está?’
‘Há suposições.’ Respondeu. ‘Acredita-se que esteja no Vaticano.’
‘É… isso vai ser um problema.’ Syaoran comentou, olhando para Shaolin e forçou um sorriso. ‘Mas vai dar tudo certo no final.’
Shaolin concordou com a cabeça. ‘Sim. Tudo vai terminar bem.’
Ren sorriu de leve para ele. ‘Esse tipo de pensamento… pode salvar sua vida.’
O menino encolheu os ombros. ‘Se eu pensar que não vou conseguir, não adianta nem tentar.’
‘Exatamente.’ Ele respondeu e olhou para Sakura. ‘Ele precisa encontrar as chaves e destruí-las antes dos idiotas sem noção do perigo alcançá-las. Eu posso ajudar…’ Falou voltando-se para Syaoran. ‘Eles podem usar o meu avião. As chaves estão espalhadas pelo mundo. Será mais rápido e seguro para eles viajarem desta forma.’
Syaoran concordou com a cabeça. ‘Nós vamos com eles.’
Ren franziu a testa e olhou para Sakura, depois voltou-se para Syaoran. ‘Acha que ela vai aguentar?’
Sakura se afastou dos garotos e se aproximou de Ren. ‘Hei! É claro que eu vou. Estou me sentindo melhor.’
Syaoran olhou para a esposa depois para Ren. Trincou os dentes. ‘Não sei.’ Respondeu com sinceridade.
‘Eu já falei que estou melhor!’ Sakura falou com o tom mais alto, olhando de um para outro. Era só o que faltava eles começarem a concordar um com o outro agora para deixá-la de molho.
Syaoran respirou fundo e fitou a esposa. ‘Asakura pode ajudar você a se estabilizar. Talvez seja melhor ouvi-la primeiro e depois decidir isso.’
Sakura estranhou. ‘Agora não tem mais receio dos xamãs?’
Syaoran fitou-a intensamente por vários segundos, antes de soltar lentamente a respiração. ‘Tenho muito mais receio de perder você.’
Continua.
Fale com o autor