FEITICEIROS
8 A Mulher Fugaz
FEITICEIROS
Por Kath Klein
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiraguizawa
Capítulo 08
A Mulher Fugaz
Sakura rolava na cama preguiçosa. Ainda sentia dor em algumas partes do corpo resultado da luta contra os vampiros ontem. Pensou que, se estava dolorida, Syaoran deveria estar muito mais. Fechou os olhos novamente e afundou o rosto no travesseiro pensando no guerreiro chinês, ele fora incrível ontem. Nunca em sua vida tinha visto tanta agilidade, força e técnica em uma só pessoa. ‘Ele nem parece que é humano’. Pensou em voz alta.
‘Está falando de Syaoran, Sakura?’ Era a voz de Tomoyo. A ruiva se recriminou por ter deixado seus pensamentos saírem pela boca. Rolou novamente na cama e observou a amiga que já estava levantada preparando o café.
‘Não’. Mentiu descaradamente para a amiga. Sentou-se na cama e fitou Meilyn que dormia ainda como uma pedra. A jovem tinha chegado bem tarde ontem, Sakura pensou que ela tivesse até convencido o pessoal da irmandade KΩε de dormir no mesmo apartamento do primo. ‘Estava pensando que aqueles vampiros realmente não pareciam humanos.’ Ela manteve sua mentira por dignidade.
Tomoyo rolou os olhos, Sakura era péssima mentirosa. ‘Ah sim... não sabia que agora você andava suspirando por vampiros.’
‘Quem disse que eu estava suspirando? Você tá ficando maluca, Tomoyo.’ A jovem falou um pouco irritada. Levantou-se e foi em direção ao banheiro.
A morena ainda ficou um tempo observando a porta por onde a prima tinha sumido. Ela sorriu constatando que se Sakura recuperasse ou não a memória, ela já estava completamente envolvida pelo chinês novamente. Voltou sua atenção para o café da manhã quando bateram na porta com força. Quem seria àquela hora da manhã? Tomoyo pensou intrigada.
Meilyn acabou acordando com as batidas violentas. ‘Oh pessoal sem educação aqui no Japão, hein? Assim acabam com o sono de beleza de qualquer mulher.’ Falou mal humorada.
Tomoyo caminhou até a porta e olhou pelo olho mágico, viu um rapaz alto, forte, estava de terno. Tinha cabelos negros e os olhos castanhos. Franziu a testa pensando que não o conhecia, mas não lhe era estranho. Bateram na porta novamente com violência. ‘Mei Ling! Abra esta porta agora.’ Ele gritou impaciente.
‘Ah por Buda!!! É HyoLing... o que ele está fazendo aqui? Ele vai me matar. Não abra a porta, Tomoyo!’ Meilyn falava e caminhava de um lado para o outro como se procurasse um lugar para se esconder no quarto.
Sakura saiu do banheiro com a toalha secando os cabelos e perguntando que confusão era aquela que estava acontecendo. Tomoyo olhou para amiga e fez que não com a cabeça, respondendo que também não tinha a menor ideia do que estava acontecendo.
‘Mei Ling, abra esta porta ou eu vou derrubar.’ O rapaz ameaçou.
Meilyn estava completamente desnorteada, deixando as duas amigas sem saberem o que fazer.
‘É melhor abrir a porta.’ Ponderou Tomoyo.
‘NÃO!’ A chinesa gritou. ‘Ele veio aqui para me buscar. Devem ter contato para ele o que eu fiz ontem, que eu fui na festa e dancei... ele deve estar muito bravo comigo. Não abre, Tomoyo.’ A chinesa choramingou.
A morena não sabia o que fazer. Estava parada perto da porta olhando assustada para a amiga.
‘Vou contar até três e vou derrubar esta porcaria de porta, Mei Ling. E você sabe que um Li não ameaça em vão.’
‘Li?’ Sakura franziu a testa. ‘Droga, Meilyn, quem é o idiota?’
‘É... é meu noivo.’ A jovem respondeu tremendo.
‘Noivo?’ As duas repetiram abismadas.
‘Um....’ O rapaz começava a contar.
‘E você está com medo do seu noivo?’ Sakura olhava abismada para a jovem sem conseguir entender ainda. ‘Como assim? Você está tremendo igual vara verde, com medo do cara com quem você vai se casar, Meilyn?’
‘Dois....’
‘Você não entende, Sakura. Hyo Ling é o segundo na linha de sucessão depois do Xiao Lang.’
Sakura e Tomoyo continuaram com cara de que não estavam entendendo como uma coisa ligava a outra. Não deu mais tempo para a chinesa explicar.
‘Três.’ O rapaz falou já chutando a porta que se abriu batendo na parede com força e voltou fechando-a novamente. As três gritaram. Tomoyo e Sakura pelo susto, Meilyn de medo.
Hyo Ling entrou arrumando o terno alinhado e tentando relaxar. Sabia que tinha chutado a porta mais forte do que era necessário, mas precisava extravasar a raiva em alguma coisa. Depois pagaria uma nova para substituírem por aquela. Hyo Ling era um rapaz lindo. Via-se nele a mesma postura de Syaoran, mas diferente do rapaz, que tinha o ar mais jovial, ele usava os cabelos longos e o rosto era mais sóbrio. Parecia mais velho não só pela aparência, mas pelo semblante duro. Ele vasculhou com os olhos, o pequeno alojamento feminino. Meilyn estava de camisola e correu para se cobrir com o lençol da cama de Sakura, era o pedaço de pano mais ao alcance da jovem. A ruiva percebeu que a amiga, tão dona de si, agora parecia um animalzinho assustado. Não gostou daquilo.
‘Arrume-se, MeiLing. Vamos voltar para China.’ Foi uma ordem, não um pedido.
Meilyn tentou sorrir para ele sem conseguir.
Ele deu um passo na direção da jovem, mas Sakura parou a sua frente encarando-o com fúria. Que se dane se não lembrava que Meilyn era realmente sua amiga de infância. Agora isso não importava mais. ‘Ela só sai daqui se ela quiser.’ Falou sem rodeios. Se ele era mal educado de invadir um dormitório feminino daquela maneira, não precisava ter boas maneira com ele também.
Hyo Ling desviou os olhos da noiva e encarou a jovem a sua frente. Tinha aparência frágil, os cabelos estavam molhados e emanavam um cheiro maravilhoso de cerejeira. Seus olhos tinham um tom esverdeado lindíssimo, e eram duros e sérios. Havia força vindo deles. Não tinha dúvidas: estava em frente à desgraça da vida do primo.
‘Oras, então você é a mestra das cartas.’ Falou sorrindo de lado. ‘Impressionante Xiao Lang perder as cartas para você.’
‘Olha não sei do que está falando, mas se não cair fora agora do meu quarto, vou chamar a polícia.’ Ela desviou os olhos dele e viu um grupo de jovens da irmandade Kαβ se aglomerar na porta do apartamento das duas para ver a confusão. ‘Hei, bando de fofoqueiros, já chamaram os seguranças do campus?’ Ordenou e foi prontamente atendida.
‘Não quero confusão. Vou apenas pegar minha noiva e sair daqui.’ Hyo Ling falou de forma controlada.
Sakura voltou sua atenção para o rapaz novamente. ‘Ela não é mercadoria para você vir aqui e pegar. Ela só vai se quiser ir contigo, entendeu?’
‘Está me ameaçando, Kinomoto?’ Ele falou inclinando o corpo um pouco a frente e a encarando no fundo dos olhos. Não tinha como não concordar com o primo, era lindíssima.
Sakura ergueu uma sobrancelha. ‘Estou lhe ensinando como tratar uma mulher direito, senhor Li.’ Falou em tom de nítida reprovação pela atitude dele, dando um passo à frente, devolvendo a encarada.
Hyo Ling afastou-se dela. Não tinha tempo para aquilo, queria logo cumprir sua missão que era buscar tanto a noiva quanto o primo desmemoriado e levá-los para a China no primeiro avião daquele dia. Ele sabia que o certo era primeiro falar com o Syaoran, mas estava morrendo de saudades da noiva, queria vê-la o quanto antes. Desviou da jovem e em dois passos parou em frente a Meilyn que tremia.
‘Vamos, MeiLing.’ Ele falou. Ela concordou com a cabeça.
‘Senhorita Kinomoto, Daidouji! O que está acontecendo aqui?’ Eram os seguranças do campus que entravam pela porta do apartamento das jovens.
‘Este senhor invadiu nosso dormitório.’ Tomoyo respondeu prontamente, apontando para o chinês.
‘Vamos rapaz, aqui é um dormitório feminino. Não pode receber rapazes.’ Um dos guardas esclareceu para Hyo Ling que trincou os dentes. Não era este tipo de confusão que queria criar, mas quem mandou ter cabeça quente. Sua noiva estava envolvida num lençol, não era assim que ela deveria se apresentar aos outros.
‘Cai fora.’ Sakura repetiu séria.
O rapaz sentiu o sangue circular mais rápido pelo seu corpo. A mestra das cartas era realmente muito petulante, não tinha ideia de com quem estava falando. Aquela atitude era culpa do primo que não soube colocá-la no seu lugar perante os representantes do clã.
‘Por favor, Hyo Ling. Espere-me lá fora.’ A chinesa falou com um fio de voz. O coração do jovem fisgou ao se deparar com o olhar de súplica da amada.
Amava Meilyn desde que se entendia por gente, o amor de criança apenas aumentou exponencialmente quando tornaram-se jovens. Tentou de todas as formas esquecer da prima, pois sabia que ela era completamente apaixonada por Syaoran. Ela fora capaz de ir contra todos para estar ao lado dele, quando veio ao Japão tentar recuperar as cartas Clow. Depois que o primo falhou, envergonhando todo o clã, Hyo Ling teve a esperança de que com aquela vergonha Meilyn esquecesse de seu amor por ele. Ledo engano. Ela manteve-se ao lado dele o tempo inteiro. Cuidava com carinho de seus ferimentos, sempre estava próxima a Syaoran. Sempre em torno dele.
Lembrava-se claramente da conversa que teve com o primo em que fora aconselhado a assumir o amor que sentia por ela. Syaoran convenceu os anciões com balelas para voltar ao país estrangeiro para que pudesse ficar próximo do seu amor. Recomendou ao primo mais velho fazer o mesmo.
Como um lobo traiçoeiro, ele tinha plantado a semente da esperança no coração do rapaz e saiu de cena. Finalmente Hyo Ling confessou seu amor a Meilyn e a pediu em casamento. Sabia que a chinesa só tinha aceitado para não se tornar uma sheng nu, literalmente mulher sombra, isto é, uma mulher incompleta, não casada, mas não importava. Queria-a de qualquer maneira.
Não teve namoro, foi logo para o noivado. Ele estava confiando que faria Meilyn feliz. Só não contava que, como um cãozinho, a jovem largaria tudo, inclusive ele, para ir até o Japão, saber o que tinha acontecido com o primo que desapareceu da face da terra. E pior, mesmo depois que ele reapareceu, ela estava enrolando para voltar para casa. Não era homem de aceitar esta humilhação. Num rompante, comprou as passagens e pegou o primeiro voo só com a roupa do corpo.
Ele suspirou. ‘Está bem, Mei Ling. Estarei lhe esperando lá embaixo.’ Ele falou e finalmente a chinesa conseguiu voltar a respirar. O rapaz rodou os calcanhares e estava saindo em direção à porta informando aos seguranças que estava tudo bem, mas reteve-se alguns segundos encarando Sakura que não se intimidou. Desviou os olhos, finalmente saindo do apartamento das jovens.
Tomoyo tentou fechar a porta em vão, estava com a tranca quebrada, aproveitou para falar com alguém para poder ajudá-la a consertar aquilo. Sakura voltou-se para Meilyn que estava literalmente desnorteada, tentando arrumar-se o quanto antes para encontrar com o noivo.
‘Você não precisa fazer isso se não quiser. Pode ficar aqui conosco.’ A ruiva falou segurando as mãos da jovem e reparou que ela tremia levemente. ‘Ouviu bem, Meilyn? Você não precisa ir com ele.’ Falou mais alto do que queria, numa clara tentativa de fazer a amiga parar para lhe ouvir.
Meilyn levantou os olhos e fitou-a. Ela era tão corajosa, tão decidida, tão amorosa. Tentou sorrir. ‘Você não entenderia, Sakura. Preciso ir com ele, é meu noivo.’
‘Seu noivo. Não seu dono.’ A ruiva foi taxativa.
‘Não quero ser uma sheng nu, Sakura. Hyo Ling é minha esperança.’ Tentou explicar, afastando-se da jovem e voltando sua atenção em preparar sua mala o quanto antes.
‘Sheng nu?’
‘Sim, uma mulher sombra. Uma mulher incompleta. Uma mulher à margem da sociedade.’ Meilyn suspirou. ‘Uma mulher solteira.’
Sakura arregalou os olhos surpresa. ‘Você está maluca? Desde quando uma mulher solteira é uma mulher incompleta ou sei lá mais o que você falou. Você será uma mulher incompleta é casando com um cara destes que te trata assim!’ Sakura agora tinha o tom de voz mais alto sem se importar, mostrando a sua total incapacidade de aceitar as palavras da amiga.
‘A China é muito diferente daqui. Lá uma mulher solteira aos vinte e cinco anos é uma vergonha para os pais. Sou de um clã importante do meu país, tenho que estar casada.’
‘Só se você quiser estar casada, Meilyn. Casada com um homem destes você será a verdadeira sombra dele e nunca, nunca terá luz própria.’
A chinesa parou de arrumar a mala e apertou mais forte a roupa que tinha nas mãos. A amiga estava certa, as mulheres viviam sempre à sombra de seus maridos. Desviou os olhos da peça de roupa e fitou Sakura que estava próxima.
‘Olha, eu não tenho poderes mágicos como vocês me falam? Vamos lá que eu vou aprender rapidinho e vou pulverizar este seu noivo da face da Terra.’ Falou em tom de brincadeira, mas a chinesa percebeu pelos olhos decididos que brincadeira aquela ameaça estava longe de ser. Largou o que tinha nas mãos e abraçou a amiga com carinho. Sakura tinha sido a pedra em cima da sua felicidade, mas não conseguia odiá-la.
Sakura devolveu o abraço da jovem com carinho. ‘Pode chorar, Meilyn, não precisa ser forte aqui.’ Falou fazendo um carinho na cabeça da amiga que chorava abraçada a ela.
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Hyo Ling estava andando de um lado para o outro como um animal enjaulado, enjaulado em sua raiva por Meilyn não o amar, por humilhá-lo daquela maneira. Reparou que alguns estudantes observavam-no e cochichavam, com certeza falavam sobre sua invasão ao dormitório feminino. Olhou de esguelha e reparou que dois seguranças do campus universitário estavam-no observando. Fechou os olhos e levantou a mão pressionando levemente a têmpora esquerda. Maldita dor de cabeça. Pensou irritado. Estava pronto para explodir, tamanha era sua irritação pelas atitudes da noiva.
‘O que você está fazendo aqui?’ Reconheceu a voz do primo que olhava para ele intrigado. Syaoran estava com uma aparência jovem, leve, tinha alguns arranhões nos braços e no rosto, mas havia um brilho intenso nos olhos. Franziu a testa, nunca tinha visto aquela jovialidade e felicidade emanando do primo quando estavam juntos fazendo o treinamento pelo clã. Syaoran era quase cinco anos mais jovem que ele, mas parecia o mais velho. Também era o mais cobrado, o mais forçado. Não ignorava o fato de saber que os anciãos pegaram pesado com o primo, mas no fundo sentia tanta raiva dele por ter o coração de Meilyn nas mãos, que tentava não se importar. Observou o primo ajeitando a mochila nas costas e aproximando-se. ‘O que está fazendo aqui, Hyo Ling?’ Repetiu verdadeiramente assustado com a presença familiar.
‘Vim buscar você e Mei Ling.’
‘O quê?!’ Syaoran falou franzindo a testa. ‘Nem pensar, que eu volto para Hong Kong.’ Esclareceu de uma vez.
‘Você tem obrigações com o Clã...’
‘Que se dane o Clã.’ Syaoran interrompeu o primo que olhou irritado para ele.
Quem aquele fedelho achava que era para faltar com o respeito ao poderoso clã chinês? Syaoran seria o futuro patriarca deste, era inadmissível este tipo de pensamento e, principalmente, de atitude.
Ele pegou o pulso do primo e o encarou com os olhos em chamas de tanta raiva. ‘Escute bem, Xiao Lang, não sei o que você anda fazendo aqui com a mestra das cartas para ficar com a cabeça oca desta maneira, mas você tem obrigações que não podem ser ignoradas desta maneira. Se voltar a faltar com respeito com o nosso clã, vou lhe dar uma surra muito pior do que aquelas que você levou quando moleque.’
Syaoran empurrou o primo, afastando-se dele e fazendo-o soltar seu pulso. Sorriu de lado de forma debochada. ‘Não preciso de babá para ficar tomando conta da minha vida, Hyo Ling. O que eu faço com ela, é problema meu.’
‘Correção: é problema do Clã.’
‘Já disse: que se dane o clã!’ Syaoran gritou irritado. Foi acabar de falar e sentiu o punho potente do primo no rosto. Caiu no chão sentindo que agora tinha um pequeno corte na boca. ‘Você me paga.’ Trincou os dentes. Soltando a mochila, levantou-se partindo na direção do primo que deu dois passos para trás, afrouxando a gravata e abrindo o botão do colarinho. Estava na hora de tirarem as diferenças.
Os dois chineses se encararam com raiva. Os seguranças aproximaram-se, mandando os dois pararem, mas foram ignorados. Hyo Ling avançou para cima de Li que desviou do soco, pegou o braço do primo que tentava golpeá-lo e girou o corpo, levantou-o junto com o primo que ao golpeá-lo foi ao chão. Rapidamente o mais velho se levantou e atacou o primo com fúria, os dois trocaram socos e pontapés sistemáticos, ora se defendendo, ora atacando. Os seguranças já tinham pedido reforços e estavam parados assistindo, assim como vários alunos, de boca aberta, a luta mortal entre os dois chineses.
Syaoran se abaixou evitando um ataque sequenciado de Hyo Ling, conseguiu desferir dois socos potentes na altura das costelas do primo que gemeu de dor sem reação, abaixou-se mais dando uma rasteira e vendo-o cair de costas. Hyo Ling arregalou os olhos vendo primo pronto para atingi-lo novamente e rolou pelo chão evitando assim o golpe do rapaz. Afastou-se dele e quando conseguiu uma brecha com um pulo voltou a ficar em pé, em posição de luta.
Syaoran tinha o semblante pesado encarando primo, há muito tempo não lutavam para valer e percebeu que Hyo Ling estava com raiva e cometia muito erros bobos. Ele já não tinha mais a roupa alinhada, observou o rapaz tirando o terno e jogando-o no chão. Hyo Ling estava com o rosto marcado por um golpe que o primo mais novo tinha lhe acertado no rosto e que também lhe rendera um pequeno corte no canto da boca. ‘Sua raiva o está tornando mais lento.’ Syaoran falou não com deboche, mas com preocupação.
Hyo Ling trincou os dentes e cerrou os punhos. Já estava de saco cheio de Syaoran. Gritou voltando a atacá-lo quase de forma insana, Li desviava percebendo que o primo não estava bem, mas não tinha como ficar só se esgueirando. Pelos movimentos já sentia o ferimento profundo do abdômen lhe arder mostrando que daqui a pouco poderia arrebentar os pontos.
‘Se acha superior só porque é filho de Shang Li, mas não passa de um garoto mimado.’ Hyo Ling começou a falar tudo que estava entalado na sua garganta por anos. ‘Você não merece o posto de patriarca do nosso clã.’
Li franziu a testa pensando que o primo realmente estava no seu limite. Num ataque frustado pegou o punho do oponente, torceu seu braço, girou parando às costas de Hyo Ling e chutou com força atrás de suas pernas, fazendo-o cair de joelhos. Li apertou mais forte o braço dele, imobilizando-o.
‘Você não é digno do amor de Mei Ling.’ Hyo Ling falou por fim.
Syaoran ainda tinha o braço do primo bem preso, levou uma das mãos na altura do seu ferimento resultado da noite passada e percebeu que ele sangrava.
‘Ela é sua noiva.’
‘Mas ela ama você!’
‘Ela acha que me ama! Ela colocou isso na cabeça dura dela e, por teimosia, continua com isso.’ Não falou para melhorar a situação com o primo de quem, no fundo, gostava; falou de forma sincera o que pensava do interesse da jovem por ele. ‘Ela ama a imagem e a fantasia que ela idealizou sobre mim. Você é que tinha que quebrar isso!’ Finalmente soltou o primo, empurrando-o para frente e deu um passo para trás com a mão no ferimento que ardia. Hyo Ling voltou-se para ele e já começaria a luta novamente, se não observasse a enorme mancha de sangue. Mal tinha acertado o primo para ele estar ferido daquela maneira, na verdade percebeu claramente que o primo só esquivara o máximo de seus golpes.
‘Syaoran!!!’ Sakura gritou, vendo o rapaz machucado. Correu até ele e empurrou com toda força Hyo Ling para se afastar de Syaoran. ‘Se encostar nele novamente, eu te mato!’ Ameaçou com os olhos em chamas e fazendo o chinês dar um passo para trás. Ela parou a frente do rapaz e segurou seus ombros. Percebeu que ele trincou os dentes, aquilo estava doendo. ‘Vamos para o hospital.’ Ordenou.
‘E ouvir o enfermeiro Taniguchi reclamando que não fomos comedidos? Acho que não.’ Ele falou brincando, observou a jovem arregalar mais os olhos e as bochechas claras ficarem rosadas. ‘Melhor você cuidar disso daqui sozinha.’
Ela engoliu em seco. ‘Acho que os pontos arrebentaram. Mas o que deu em você para brigar com seu primo!’ Sakura desviou os olhos de Li e fitou Hyo Ling que estava sendo ajudado por Meilyn. ‘Seu noivo é um idiota, Meilyn. Brigar com um cara machucado é muita covardia.’
Hyo Ling observou a jovem mestra que estava ajudando o primo. Ele poderia afirmar que conseguia ver duas labaredas de chamas esverdeadas perigosíssimas saindo dos olhos dela. Os seguranças se aproximaram, observando que os dois chineses tinham se acalmado com a presença das namoradas. Isso que dá trabalharem num lugar onde os hormônios estavam em ebulição. Os estudantes que acompanharam a luta afastaram-se comentando o ocorrido entusiasmados.
‘Venha. Tenho material de emergência lá em cima.’ Falou empurrando delicadamente Li, parou só para pegar a mochila do rapaz e colocá-la no ombro. ‘Melhor tratar os ferimentos do seu noivo, Meilyn. Ele está bem machucado.’ Ela gritou já subindo as escadas com Syaoran.
Hyo Ling observou o rosto pálido da noiva lhe estendendo o terno. A mala da jovem fora abandonada na porta da irmandade assim que viu os dois duelando. ‘Não deveria ter vindo, Hyo Ling.’ Ela sussurrou.
‘Acho que sim.’ Ele falou pegando o terno das mãos dela e tentando relaxar, sentia o corpo todo doendo. O primo estava mais forte e mais rápido. ‘Melhor eu ir embora.’
‘Não, vamos tratar seus ferimentos e depois vamos conversar de forma civilizada.’ A voz dela era enérgica agora, como nunca pensou que um dia seria quando se dirigisse ao seu noivo. Hyo Ling encarou-a. ‘Sakura tem razão, você está se comportando como um idiota desde que chegou. Venha.’ Ordenou puxando o noivo em direção ao apartamento da amiga onde poderia tratá-lo. Olhou para um grupo de estudantes que cochichavam. ‘Vocês não têm mais o que fazer, não?’
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Syaoran e Hyo Ling estavam sentados em duas cadeiras, um de frente para o outro encarando-se. Sakura tratava o grande ferimento que o rapaz tinha no abdômen, enquanto Meilyn limpava os ferimentos do rosto do noivo. Estavam em silêncio, não eram muito de se falarem. Não tinham muita intimidade até por causa das tradições e coisa e tal do clã.
Tomoyo trouxe um chá para todos, obviamente de camomila; se pudesse, e se sua moral não a tivesse impedido, teria jogado calmante no líquido esfumaçante. A tensão era palpável entre os dois, pareciam que estavam prontos para pular um em cima do outro e inciar uma nova luta.
Li gemeu. ‘Desculpe-me.’ Sakura falou rapidamente. ‘Isso aqui está feio, Syaoran.’ A ruiva falou com o rosto preocupado. ‘Prefiro aguentar o senhor Taniguchi, a você não se tratar da forma devida.’ Ela falou com sinceridade.
‘Onde se machucou desta maneira, Xiao Lang?’ Hyo Ling perguntou observando o grande ferimento do primo, não sabia que ele estava ferido daquela maneira, se soubesse tentaria se controlar mais, para não iniciar uma briga com ele.
‘Rá! Agora está preocupado com ele.’ Sakura falou de forma irônica. ‘Estou comovida.’ Sabia que estava sendo agressiva, mas vendo o ferimento de Li prestes a se abrir e observar o corpo levemente trêmulo do rapaz indicando, apesar dele tentar disfarçar ao máximo, que estava sentindo dor, deixava-a louca. Louca de raiva.
Syaoran repousou uma mão sobre a da jovem e sorriu. O primo reparou naquele sorriso espontâneo do rapaz. Nunca o tinha visto sorrir daquela maneira antes. Era um sorriso de pura felicidade. Abaixou os olhos, e sentiu-se pior, constatando que estava invejando-o novamente. Inferno. Não gostava daquele sentimento, mas não poderia negar que gostaria de experimentar um pouco daquela felicidade. Seus olhos voltaram-se para Meilyn que finalizava seus curativos. Ela tinha o rosto duro agora, provavelmente o estava odiando. Ótimo, agora além do desprezo da prima tinha o ódio dela também. Trincou os dentes de revolta pelo que o sangue quente o levara a fazer. Tinha sido mesmo um idiota.
‘Onde está doendo, Hyo Ling?’ A voz de Meilyn foi em tom de urgência. ‘Tem certeza que você, ou melhor, vocês dois não querem ir ao hospital?’
‘Não.’ Responderam os dois chineses ao mesmo tempo, fitaram-se e desviaram os olhos um do outro, mas logo Hyo Ling voltou a fitar o casal a sua frente. Aceitou o chá oferecido por Tomoyo, ela fez questão de indicar que era para ajudar a acalmar os ânimos. Semicerrou os olhos, observando como os dois se tocavam de forma casual, trocavam sorrisos cheio de carinho, era tão claro o amor que eles sentiam um pelo outro que custava a acreditar naquela estória de que eles estavam desmemoriados. Ele percebeu as faces rubras da feiticeira quando teve que enlaçar o corpo do rapaz para enfaixar o abdômen deste, e percebeu que o primo fechou os olhos inalando o ar e o perfume dos cabelos da jovem que estava tão próxima a ele. Nunca tinha tido intimidade daquele nível com nenhuma mulher, quer dizer, já tinha estado com algumas mulheres antes, fitou Meilyn que também observava o casalzinho completamente enamorado a sua frente e talvez reparasse o mesmo que ele. Uma cena de intimidade aquela seria repudiado pelo clã. ‘Que se dane o Clã.’ Ele soltou levantando-se e parando em frente da noiva, que se assustou ao ouvir o que o rapaz tinha dito. O que estava acontecendo com o centrado noivo? Não teve tempo de pensar em mais nada quando sentiu sua cintura ser abraçada e bater no peito forte do chinês a sua frente.
‘Desculpe-me.’ Ele sussurrou levantando uma mão e acariciando o rosto tão amado.
A chinesa sentiu as pernas tremerem, e desta vez não foi de medo. O que Hyo Ling queria agora? Primeiro ela estava tremendo de medo dele, agora estava tremendo... de prazer por sentir o leve carinho que o rapaz lhe fazia no rosto. Como noivos, eles não poderiam nem ao menos estar sozinhos num cômodo e principalmente estarem tão perto um do outro.
O chinês abaixou o rosto e finalmente fez o que deveria ter feito há muito tempo, beijou os lábios tão amados e tão desejados. Meilyn bem que tentou afastar-se do jovem, mas não podia negar que era maravilhoso sentir os lábios quentes do noivo contra os seus e, quando deu por si, já tinha enlaçado a nuca dele, simplesmente com medo que ele se afastasse dela.
Sakura e Tomoyo observavam como bobas os noivos se beijando, Syaoran pigarreou e recebeu dois olhares de reprovação pela intromissão na bela cena que estavam assistindo. Ele deu de ombros, se não fizesse isso para interromper o beijo tinha a impressão que eles não se separariam nunca e, apesar de não estar em condições de criticar ninguém, também não se mostrava confortável com o atrevimento dos primos, era contra as normas do clã Li, não?
Hyo Ling afastou-se de Meilyn e a jovem sentiu como se um vento polar invadisse seu corpo ao deixar de sentir a quentura do noivo contra si. Abriu os olhos e, com um sorriso bobo, levantou uma das mãos tocando os lábios inchados de prazer, depois do ardente beijo. Foi seu primeiro beijo. As mulheres do clã eram completamente proibidas de ter qualquer tipo de intimidade com um homem. Não existia namoro. Era noivado. Intimidade, só depois de já estarem casados. A atitude de Hyo Ling a pegou completamente desprevenida. O certo era sentir ódio do futuro marido pelo atrevimento que ele teve, mas não... de repente, parecia que aquele beijo tinha acendido uma luz fraquinha lá no fim do túnel de sua imensa infelicidade. Uma luz fraca, morna, mas uma esperança de que ainda poderia ser feliz.
‘Não vou me desculpar, pois era isso que eu mais queria no mundo.’ Hyo Ling falou sério.
‘Se fizesse isso, eu juro que eu te bateria, Hyo Ling.’ Meilyn falou com o olhar tão sério quanto o do noivo. Ele sorriu de lado observando aqueles dois rubis brilhando de determinação para ele.
‘Ótimo. Agora, acho que podemos conversar de forma civilizada.’ Syaoran falou e recebeu um empurrão de Sakura informando que ele estava por demais desmancha-prazeres hoje. O rapaz deu de ombros novamente. ‘Hei, o que eu fiz agora?’
Sakura bufou, Tomoyo sorriu, e Meilyn e Hyo Ling se afastaram um do outro, mas, diferente da primeira vez, agora ela estava ao lado do noivo com um semblante diferente do que tinha quando reconheceu sua voz por detrás da porta.
Hyo Ling observou o primo que vestia a camisa agora, depois que o curativo fora finalizado pela mestra das cartas e sorriu de lado. ‘Você está muito bem, Xiao Lang.’
Li ergueu uma sobrancelha. Caramba! O primo estava era de sacanagem com ele, mesmo. Tinha acabado de ver o ferimento enorme que tinha no abdômen.
‘Defina bem?’ Perguntou ajeitando-se melhor numa cadeira. Ele passara ali para ver como estava Meilyn antes de ir para a aula; na verdade ele estava indo mesmo era ver a ruiva, mas o fato de Meilyn estar no mesmo dormitório que ela, seria uma ótima desculpa para não ficar muito na cara que estava louco pela garota de olhos esmeraldinos.
‘Nunca o vi, tão feliz.’ Continuou. ‘Tem certeza que não lembra de nada sobre magia?’
‘Ah sim... magia?’ Syaoran perguntou fazendo pouco caso. ‘Você também acredita nisto?’
Hyo Ling ia abrir a boca para retrucar, mas o celular de Sakura tocou chamando a atenção do grupo, ela se desculpou. ‘É meu irmão.’ Esclareceu caminhando para um canto do dormitório.
‘Ele não lembra de nada. Ele e Sakura nem se reconheceram dois dias atrás.’ Meilyn falou em tom preocupado.
O chinês de cabelos negros não pôde deixar de soltar um risinho. ‘Não se lembra da mestra das cartas, mas estava este tempo todo olhando para ela com esta cara de bobo? Realmente Xiao Lang, não é possível.’
‘Hei... peraí... eu tô falando a verdade, não tenho a menor ideia de quem é aquela garota, quer dizer, eu acho que não... enfim... deixa para lá.’ Não sabia o que falar, realmente e sinceramente não lembrava de Sakura, mas simplesmente estava envolvido demais com ela.
‘Onde estão os guardiões da mestra das cartas?’ Hyo Ling perguntou de repente.
‘Como você sabe de Kero e Yue?’ Tomoyo indagou assustada.
‘Todos do clã sabem dos guardiões, Kerberus e Yue. Não conheço este Kero.’
Meilyn sorriu para o noivo. ‘É um apelido carinhoso quando ele está na sua forma disfarçada.’ O noivo olhou para ela incrédulo, então o poderoso guardião do sol tinha um apelido? Isso era ridículo.
‘Aqui está ele.’ Tomoyo falou mostrando um bichinho de pelúcia nos seus braços. Ele estava dormindo. Dormindo demais. Mesmo com a confusão toda de hoje pela manhã, o bichano estava na sua gaveta quarto e de lá não saiu. ‘Estou muito preocupada com ele. Está dormindo de forma que parece que está desmaiado. Será que está doente?’
Hyo Ling se aproximou da morena e fitou o bichano. Franziu a testa, não era bem assim que imaginava o poderoso guardião do sol. Olhou para Meilyn como se buscasse uma confirmação que realmente aquele bichinho de pelúcia era quem o clã tanto temia. A jovem apenas acenou com a cabeça que sim. Não pôde disfarçar a decepção. Pensou em como o primo tinha perdido as cartas Clow para uma garota que transformou seu poderoso guardião num bichinho de pelúcia.
Sakura desligou o telefone e tinha o rosto mais sério ainda do que o do primo de Syaoran. ‘Yukito não está bem.’ Falou e engoliu em seco. Tomoyo caminhou até a amiga com Kero ainda aninhado em seus braços como um bebê. ‘Touya me falou que ele não consegue acordá-lo. Está como se parecesse morto.’ Falou sentindo os olhos marejados.
‘Yukito?’ Hyo Ling indagou à noiva, para se manter a par do que estava acontecendo.
‘É a forma falsa de Yue, o guardião da Lua.’
‘Hum... entendo.’ O rapaz falou colocando uma mão no queixo pensativo. Observou Syaoran caminhando até Sakura que, assim que percebeu a aproximação do rapaz, virou-se e abraçou-o pela cintura. O chinês abaixou o rosto tocando seu queixo na cabeça da jovem. ‘Eles estão fracos porque você simplesmente não está mais usando magia, Mestra das cartas.’
Sakura tirou o rosto do peito de Li e fitou o rapaz. ‘Como assim?’
‘Os guardiões são parte da sua magia, se você não a usa, não tem como eles se manterem fortes.’ Explicou sentindo-se um pouco irritado por constatar que estava querendo ajudá-la. Droga, sua missão era só pegar Meilyn e Syaoran, colocá-los no primeiro avião e levá-los para Hong Kong.
O casal se afastou e Sakura caminhou até o noivo da amiga. Ela tinha o olhar penetrante demais, pensou o jovem chinês. Se não fosse tão loucamente apaixonado por Meilyn, não duvidaria que fosse se encantar por aquelas duas esmeraldas olhando para ele de forma decidida. ‘Como faço para consertar isso?’ Ela perguntou com sinceridade.
Hyo Ling deu de ombros, não ajudaria mais, não era isso que queria e não era isso que faria. Porém sentiu a mão suave de Meilyn tocando a sua. Desviou os olhos da feiticeira e fitou a noiva de forma profunda. ‘Por favor...’ Ela sussurrou pedindo para que ele ajudasse na questão.
Ele ficou ainda um tempo numa guerra interna. Seu dever ou o que achava que era o certo a fazer. Por fim, deu um longo suspiro pensando que agora é que estaria frito quando voltasse. “Que se dane o Clã”, pensou pela segunda vez. ‘Não dava muita importância para as aulas de magia porque não sou detentor dela, mas lembro-me que os seres mágicos são ligados aos seus mestres pela magia. Se o mestre, por algum motivo, não mais utilizar magia os guardiões, assim como as cartas e todos os outros elementos mágicos ligados ao Feiticeiro, vão trancando-se, ou caindo em sono indefinido até o sucessor assumir.’
Tomoyo ponderou que o rapaz tinha razão. Era uma ótima explicação, foi até a cama de Sakura e pegou o livro com as cartas e a chave que a jovem tinha deixado guardados não dando muita importância. Estendeu para a amiga e a fitou de forma séria. ‘Precisa fazer isso, Sakura.’
‘Eu não sei, Tomoyo. Eu sinceramente não sei como fazer isso.’
‘Por que não tenta?’ Hyo Ling perguntou, porém com o tom de ordem. ‘Se alguma situação mágica fez com que vocês perdessem a memória de tudo que está ligado à magia e, consequentemente, dos sentimento que um tem pelo outro, embora, pelo visto, estejam com mais fogo do que um casalzinho em lua de mel...’ ele não resistiu fazer o comentário para deixar tanto Syaoran quanto Sakura envergonhados. ‘...invocar sua magia pode destruir o feitiço.’ Concluiu cruzando os braços.
Sakura pegou o livro das mãos de Tomoyo e tirou as cartas. Levantou a mão com a chave pendurada entre seus dedos, era um pingente bonitinho, mas tirando isso não via nada demais, semicerrou os olhos reparando numa leve aura rosada circulando o objeto. ‘Bem, não custa tentar, não é?’ Falou fitando Li que também concordava. ‘Vamos lá... Como é que eu faço isso?’
Hyo Ling sentiu-se agora como um traidor. Se o Clã descobrisse que ele estava ajudando a sucessora de Clow e não aproveitando aquela loucura toda para pegar as cartas e devolvê-las ao clã, provavelmente teria um castigo muito similar ao que o primo teve. Tremeu internamente ao se lembrar pelo que o primo passou e fitou o rapaz por alguns segundos pensando que era sacanagem sentir inveja dele depois de tudo. Abaixou os olhos fitando a jovem mestra e não pôde deixar de sorrir de lado. Syaoran tinha feito tudo e sofrido tudo aquilo que sofreu desde que falhara miseravelmente na sua missão de card captor apenas porque a amava. Era um sentimento tão louco que ele muitas vezes se perguntou se realmente valeria a pena. Seus olhos novamente voltaram-se para a noiva. Franziu a testa, pensando que faria o mesmo para ter o amor de Meilyn. Soltou um longo suspiro. ‘Tem que invocar seus poderes, proferir as palavras mágicas para que a chave se abra e sua magia flua.’ Respondeu com raiva do que estava fazendo, mas sabendo que era o certo.
Sakura mordeu de leve o lábio inferior, estava se sentindo estranhamente nervosa. Apertou a chave nas mãos e não teve como não procurar as duas esferas ambares. Estar com ele lhe dava uma confiança única de que tudo terminaria bem; não era possível sentir-se tão ligada ao chinês só porque tinha trocado dois beijos com ele. Era uma ligação mais forte, ela sabia disto, só não se lembrava. ‘Abracadabra será que funciona?’ Perguntou incerta.
Hyo Ling não teve como não rir com gosto e acabou acompanhado pelo primo, que colocou uma mão no abdômen que doía com a risada gostosa. Tomoyo e Meylin também riram da pergunta inocente da amiga.
‘Hei! Eu sei lá como faz isso! Não riam de mim!’ A jovem falou, mas sentiu-se tentada a rir também da sua pergunta. Tomoyo caminhou até ela.
‘Repita comigo: Chave que guarda o poder da minha estrela...’
A jovem repetiu e olhou assustada para a chave que agora flutuava a sua frente. Os dois chineses tinham os olhos vidrados nela.
‘...mostre seus verdadeiros poderes sobre nós....’ Tomoyo continuou e Sakura repetiu, observando ainda mais assustada para a imensa mandala dourada que iluminou-se aos seus pés. Não teve como não dar uns pulinhos achando que aquilo pegaria fogo .
‘... e mostre para a valente Sakura que aceitou esta missão...’ A prima continuou sendo obrigada a proteger o rosto pelo vento forte que soprava pelo pequeno cômodo.
Agora Hyo Ling estava com a queixo caído no chão, enquanto Li franzia a testa, sentindo um formigamento estranho dentro do peito. Sim, já tinha visto aquela cena antes, já tinha visto aquela mandala. Numa questão de segundos, podia jurar que ao invés da jovem de quase vinte anos, quem estava ali era uma menina de cabelos curtos. Balançou a cabeça tentando se lembrar, tinha que se lembrar.
‘Liberte-se!’ Sakura gritou não precisando ser cantada por Tomoyo. A chave se transformou no báculo que ela prontamente segurou, cortou o ar e o rodou algumas vezes como sempre gostava de fazer. A prima sorriu percebendo que ela já agia por instinto.
‘Poder inacreditável.’ Hyo Ling sussurrou, observando a jovem mestra. Não era detentor de magia, mas conseguia senti-la e podia jurar que nem mesmo o mais poderoso ancião de seu poderoso clã tinha uma presença tão poderosa quanto a da jovem namorada do primo.
Sakura sorriu observando o báculo em suas mãos, fitou Li que olhava abismado para ela. Ela pegou uma das cartas sem precisar ver a figura e jogou a lâmina mágica para cima que ficou girando no ar esperando ser libertada. A jovem levantou o báculo. ‘Esperança!’ Falou incerta fazendo a carta parar de rodar e transformar-se em pura energia, uma luz verde inundou o ambiente, envolvendo tanto ela quanto Syaoran, que a olhou assutado, sendo circulado pela magia da jovem.
‘Hei, o que é isso?’ Falou quando sentiu-se flutuar, um redemoinho forte envolvia seu corpo e aproximava-o de Sakura que também flutuava envolvida pela própria magia. Ela estava assustada com o que tinha feito sem saber direito como. ‘O que você fez?’ Ele perguntou.
‘Eu não sei.’ Foi a resposta sincera dela. ‘Eu só fiz.’
Quando estavam mais próximos uma enorme bola de energia envolveu os jovens, obrigando todos a fecharem os olhos pela forte luz. Durou alguns segundos, mas para os que estavam no pequeno apartamento pareceram horas. Tomoyo apertava Kero nos braços enquanto tinha a cabeça baixa evitando se cegar. Sentiu o amiguinho finalmente se mexer e sorriu aliviada, Sakura tinha conseguido.
Meilyn estava abraçada ao noivo que a envolveu em seus braços, ele piscou apenas para que a forte luz não o cegasse, mas a curiosidade, a fascinação e a beleza daquela explosão de magia poderosíssima fazia com que ficasse imóvel não querendo perder nem um detalhe sequer. ‘Poder inacreditável.’ Repetiu embasbacado.
A bola de energia explodiu obrigando-o a proteger a noiva das rajadas de vento e de objetos que voavam por todos os lados no quarto feminino. Quando finalmente o rapaz conseguiu abrir os olhos observou o casal de costas um para o outro, mas de mãos dadas. Nunca imaginaria que num corpo tão pequeno e frágil como o daquela garota haveria tanto poder. Os anciões não tinham ideia do que acabara de presenciar.
Sakura abriu os olhos e observou a janela do quarto, sentia Li às suas costas e a mão quente do guerreiro com os dedos enlaçados ao seu. ‘Eu te amo, Syaoran.’ Falou, lembrando-se absolutamente de tudo agora. Sentiu o coração acelerar na dúvida se a magia da carta, que anos antes salvara os sentimentos do garoto por ela, novamente tinha feito o seu trabalho. Apertou mais forte a mão dele na expectativa.
‘Eu também te amo, Sakura.’ Ela ouviu-o sussurrar e não pôde conter o sorriso de felicidade e alívio. Viraram-se um para o outro e fitaram-se de forma profunda. Syaoran enlaçou a cintura fina da jovem puxando-a para perto dele e abaixou o rosto alcançando os lábios tão doces da sua mestra das cartas.
Desta vez foi HyoLing quem pigarreou, avisando aos enamorados que eles não estavam sozinhos. Observou o primo se afastar da jovem e encará-lo. Pela primeira vez, sorriram um para o outro.
Continua.
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