Fênix da Noite Estrelada

25 Durma, Durma, Sonhador...


Notas iniciais
Quão maravilhosa é a Morte. A Morte e seu irmão Sono. kkkkk Uma amiga minha ficou toda feliz falando que é uma referência ao Sandman sendo que eu tirei essa frase da HQ O Corvo kkkkk Ganhei o dia com essa, vocês não tem noção de como foi engraçado kkkkkkkkkk Tenham uma boa leitura :)

Não mentiria e diria que achou normal, porque foi muito estranho ver seu Papa se transformar em uma mulher em pouco mais do que três dias, e uma mulher muito bonita, diga-se de passagem, que atraia olhares por onde passava — o bom é que se tinha Shun para ocupar o lugar de seu querido Nii-san como marido ciumento. Foi muito estranho não saber como chamá-lo e nem ter certeza que era mesmo seu Papa, mas agora, dois meses depois, nem mais se incomodava. Ainda era o seu Papa, só estava passando por uma fase complicada como dizia seu bunic Milo. O engraçado foi ter que ensiná-lo a ser mulher, definitivamente, nesse caso havia sobrado para si, que até ensinar a tomar banho teve que ensinar. Como dito sabiamente — o que é muito raro — por Milo, era uma fase complicada.

Seus bunics tinham mudado um pouco também. Milo nem tanto, continuava o mesmo, só estava mais bobo que o normal, e vivia mimando os pequenos, não perdia uma única oportunidade de curtir os netos. Agora, a verdadeira transformação foi com o Cavaleiro de Aquário. Camus quase perdeu a cabeça quando soube de tudo que ocorrera durante o parto, era um verdadeiro descontrolado, mas assim que viu os bebês, todo o gelo de seu coração derreteu. Camus não tinha por habito sorrir, e quando o fazia era o clássico sorrisinho de canto, então é claro que todos se assustaram ao vê-lo sorrir e até mesmo rir tão abertamente.

Camus era o mais babão pelos netos. Ele já fazia isso quando só tinha a pequena libriana, mas isso se tornou muito mais frequente quando os bebês nasceram. O aquariano, sem que os outros dessem conta, levava os pequenos para o escritório que dividia com Milo — o escritório, na verdade, era mais dele do que do escorpiano. Criava um cercadinho de gelo, enchia de cobertas, almofadas e ursinhos, e deixava os pequenos dormirem nele. A libriana por outro lado, corria para as estantes de livros, tirava um, escalava a escrivaninha do francês e ficava sentada na beirada lendo enquanto este trabalhava. Ele ficava na companhia dos netos por horas, fazendo das tripas a coração por eles e ai de quem o incomodasse quando estivesse com os pequenos no escritório. Sua alegria era parar de trabalhar e ficar admirando-os em sono durante a tarde, e isso incluía a libriana, que sempre pulava o cercadinho e ia dormir junto aos bebês como quem zela por eles. Milo era um babão também, mas parecia um cara sem coração perto do aquariano nesses momentos.

Também não mentiria e diria que não sentiu ciúmes dos irmãos no começo. Para quem antes detinha toda a atenção do mundo, ser quase que ignorada por conta de dois bebês foi estranho, para não falar incomodo e irritante. Foi estranho e irritante, porém, logo compreendeu que era o magnetismo daqueles dois, além, é claro, de suas necessidades como dois seres que acabaram de ingressar em uma longa jornada pela vida, e dos quais passou a defender com unhas e dentes. Eram seus irmãozinhos, lembrava com nitidez do dia em que chegaram e mesmo eles não sendo exatamente "normais" — principalmente por terem nascido de um homem -, ainda eram seus irmãozinhos e os amava em demasia. Tinha o habito de chamá-los de Aurum e Argertum, Ouro e Prata, sendo a menina o Ouro e o menino a Prata. Ninguém sabia o porque, nem mesmo ela, mas gostava de chamá-los assim, era algo só deles, só dos irmãos.

Faria tudo por eles. Tudo. Estava determinada a não deixar os monstros que agora andavam pelo mundo tocá-los e nem que os horrores da guerra os alcançassem. Custasse o que custasse, ela os protegeria.

A base estava sendo atacada novamente. Todos estavam lutando lá fora, mas ela permanecia no mesmo lugar, tentando a todo custo acalmar os irmãos. Eles choravam a plenos pulmões de medo e ela estava perdida por não ter ideia do que fazer.

O teto soltava poeira, dava para ouvir os gritos e disparos de onde estavam, dava para sentir a vibração decorrente das explosões e ataques. A terra estava sussurrando o banho de sangue para suas profundezas e, inevitavelmente, para os ouvidos das crianças ocultas em seu ventre.

Seu semblante era sério e carregado enquanto balançava o berço feito de gelo, tentando abrandar o medo daqueles que foram arrematados sem nem entender. Nunca ousou subir para ver o que acontecia, mas sempre conseguiu ver e sentir tudo em seus sonhos e, algumas vezes, enquanto acordada. Sangue, choro, dor, fogo, gelo, medo, solidão, ódio, amor, raiva, vida, morte, sono e muitos outros sentimentos. Era tudo o que via, era tudo o que sentia. Se perguntava o porque de ter tal dom, como sua Bunica dizia, seria mesmo um presente dos deus ou um castigo deles? Porque daquelas visões estranhas? As vezes, com todo o sofrer que via, pensava que a morte e o sono eram um presente para os mortais, para que assim seu sofrimento pudesse se acabar e ser esquecido. A Morte acabava com o sofrimento para sempre. O Sono acabava com o sofrimento temporariamente, fazia os mortais esquecerem dele. Existe presente maior do que não sentir dor?

Como queria que seus irmãozinhos dormissem agora. Se dormissem, eles esqueceriam todo aquele sofrimento, não o viveriam nem nada, apenas dormiriam serenamente sem que a dor os alcançasse.

¬ Quão maravilhosa é a Morte. — pensou ter sentido uma presença, mas ali nada havia. — A Morte e seu irmão Sono.

¬ Suas conclusões são um tanto extremistas.

Virou-se para a porta e encontrou alguém que definitivamente não esperava ali, queria abraçá-lo, mas não sairia de perto dos pequenos por nada no mundo, então apenas lhe dirigiu um sorriso.

¬ Como chegou aqui, Kiki? — o ariano correspondeu o sorriso e sentou-se ao lado dela, também tentando acalmar os pequenos.

¬ Por teleporte. — respondeu como se fosse óbvio. — Senti que você estava inquieta, então eu vim te fazer companhia. — o pequeno sagitariano segurou-lhe o dedo indicador com força. — Deve ser difícil para eles dormirem com tanto barulho lá fora. Aliais, quem são?

¬ Meus irmãos. — respondeu com simplicidade. — Sarah e Miguel.

¬ Hyoga os encontrou? — sua curiosidade era bem disfarçada, apesar de ainda estar ali.

¬ São um presente. — respondeu ainda balançando o berço sem que eles parassem de chorar e sem que a batalha terminasse. — Shu diz que eles foram um presente dos deuses para que Papa conseguisse seguir.

¬ Hun...

Os sons da batalha e o choro mais uma vez se tornaram soberanos naquele lugar. Podia parecer que o clima ficou ainda mais tenso, porém não, a presença do ariano acalmava-a muito, sem contar que, mesmo em tão pouco tempo, eles eram amigos o bastante para saber que as vezes tudo o que precisavam era do ombro, não da palavra.

¬ Ainda acho que a Morte e seu irmão Sono são maravilhosos. — comentou.

¬ Porque diz isso?

¬ Há presente maior do que não derramar mais lágrimas por uma guerra como a de agora? — volveu. — Os mortos não tem mais o que se preocupar além de seus pecados na hora em que estiverem sendo julgados e nem mais precisaram chorar pela dor que lhes for infligida, a menos que se julguem merecedores dessa dor. Sabia que as pessoas só sofrem após a morte se elas quiserem? — o mais velho negou. — Pois é, elas só sofrem porque querem, porque acreditam que suas vidas foram miseráveis ao ponto de não merecerem a paz, isso é o que suas consciências os fazem pensar. A morte é bondosa, Kiki. Nós só a julgamos ruim por termos medo da nossa própria consciência, ela nos protege e não pune.

¬ E o sono?

¬ O Sono é como sua irmã Morte. — explicou. — A diferença é que dele nós podemos acordar e por ele somos julgados. Os pesadelos nada mais são do que o Sono nos alertando de nossos erros ou coisas ruins que acontecem, aconteceram ou acontecerão. Os sonhos são a prévia do paraíso que nos aguarda após a Morte vir nos buscar. — os pequenos ainda choravam, parecia que nunca parariam. — Por isso eu quero que eles durmam. Para que possam ter uma visão do paraíso enquanto eu os defendo do sofrimento.

Não tinha o que falar, ninguém teria o que falar. Ela possuía essa incrível capacidade de deixar os outros sem argumentos. Então o que fazer além de ficar em silencio? Passou a ajudá-la com os pequenos, sentindo sua inquietação aumentar conforme eles não paravam de chorar e a batalha lá fora se estendia.

Balançava gentilmente o berço, ainda tentando acalmá-los, suspirou como se acabasse de tomar uma decisão um tanto dolorosa. Ela então se levantou, pegou um dos bebês do berço, a menina, e o colocou delicadamente nos braços do mais velho, que o arrumou em seu colo um tanto desajeitado. Pegou o outro, o menino, e puxou o maior pela camisa para que assim levantasse.

¬ Faça como eu. — pediu.

Começou a balançar de um lado para o outro bem devagar, sendo seguida pelo mais velho, então passou a cantarolar para começar uma música de ninar logo em seguida.

"Balança, balança, balancinho..."

"Entre as estrelas que caem..."

"Brilhe, brilhe, brilhante..."

"E as vozes se esvaem no ar. Será que almas sonhadoras também cantam? Elas dormem nas nuvens gentis."

"Durma, durma, sonhador..."

"Durma pequeno rei de sonhos. Durma pequena rainha de luz."

"Durma, durma, sonhador..."

"Durmam em berço de ouro. Durmam em cobertas de prata. Durmam em nuvens gentis."

"Balança, balança, balancinho..."

"Entre as estrelas que caem..."

Os pequenos agora dormiam serenos, mas a batalha ainda seguia acima de suas cabeças. Ela pousou os pequenos com todo o cuidado possível no berço e começou a balançá-lo gentilmente.

¬ Obrigado por vir, Kiki. — sorriu com lágrimas presas. — Como sempre, você é de grande ajuda, mas penso que Mu vai ficar bravo quando descobrir que você saio. — ele riu.

¬ Você tem razão. É melhor eu ir, do contrario Mestre Mu irá usar meu coro para lustrar as armaduras. — sentiu ela segurar sua mão.

¬ Promete que vai se cuidar?

Podia ver nos olhos da menina que havia algo errado, então voltou a se sentar ao lado desta. Anna parecia preocupada com algo, talvez esse fosse um dos motivos de sua inquietação.

¬ O que você viu?

Sabia que a menina via coisas. Sabia de tudo, pois ela escolheu lhe contar o que via, escolheu lhe contar de seu dom e sempre pedia-lhe para ouvi-la com paciência por acreditar que nenhum outro lhe daria ouvidos. Ele nunca negou escutá-la, se ela pedia para ser ouvida era porque sabia que se não contasse para alguém sua sanidade estaria comprometida. Já ouviu aquela menina falar muitas coisas e nenhuma delas era apropriada para uma menina saber. O mais incrível de tudo era que ela simplesmente sabia essas coisas e não sabia como explicá-las. Só as via.

¬ Apesar de achar o Sono e a Morte bons. Eu lhe peço que não vá dormir hoje. Peço que não esqueça da dor de hoje, pois vai precisar dela para sobreviver as dores de amanhã. — explicou. — Não deixe as sombras lhes consumirem. Não deixe a sua Resistência cair. Não deixe a sua Resistência ser subjugada e muito menos aniquilada durante o sono. — "Resistência" era o apelido do batalhão em que estava com seu Mestre. — Eu... Eu vi vocês todos morrerem se fossem dormir, mas também vi que se ao menos um de vocês ficar acordado, ainda há chance de lutar e vencer. — uma lágrima escorreu. — Eu não quero que vocês morram. Eu gosto muito de vocês e me sentiria o ser mais infeliz do mundo se algo acontecesse. — ela apertava sua mão com força. — Então, promete que vai ficar bem? — ele sorriu, nunca duvidou da menina em momento algum, secou as lágrimas que escorriam com carinho.

¬ Prometo. — ela o abraçou e depois deu um beijo em seu rosto.

¬ Promessa é divida.

¬ Que irei pagar. — concluiu. — Mas agora eu devo mesmo ir. — beijou a cabeça dela. — Te vejo outro dia, Anna. E se cuide, hein?!

Do mesmo jeito que apareceu, ele sumiu. Agora estava sozinha novamente com os pequenos, que dormiam profundamente apesar do caos lá fora. Sorriu tristonha ao voltar para sua tarefa de balançar o berço.

¬ Quão maravilhoso deve ser o paraíso deles...

Notas finais
Mano... Esquece tudo! Quem é fã de verdade de CDZ sabe que hoje não foi dia para o tipo de frase que eu soltei no começo. Sério. Dessa vez eu chorei... Bem, eu espero que tenham gostado. Bjs. L