Fênix da Noite Estrelada

18 Disso Eu Sempre Me Lembro


Notas iniciais
Desculpe gente, mas tive problemas e só deu pra postar agora XP Cap especial com a narração da Anna :) Depois vocês me contam o que acharam. Tenham uma boa leitura ;)

Hun... Não sei bem como começar. Não sei nem porque estou escrevendo isso na terra. Falta do que fazer talvez, mas eu senti a necessidade de escrever.

Bem, meu nome é Anna Sortillegio e tenho 5 anos, e sim, eu sei escrever. Papa e Outou-san vão tentar mudar meu nome para Anna Sortillegio Yukida Amamiya, mas isso não vem ao caso. Ah, já estava até esquecendo. Meu Papa se chama Alexei Hyoga Yukida e ele é um Cavaleiro de Atena, protegido pela constelação de Cisne. Meu Outou-san se chama Ikki Amamiya e ele também é um Cavaleiro de Atena, protegido pela constelação de Fênix. Na verdade, toda minha família é de Cavaleiros de Atena, mas isso novamente não vem ao caso, não estou escrevendo para falar da minha família, estou escrevendo para falar de algo estranho que me ocorreu, mas antes disso, eu tenho a obrigação de me apresentar direito.

Como dito antes, meu nome é Anna Sortillegio e tenho 5 anos, sim, eu sei escrever e falar em diversos idiomas. Eu sei que não parece, mas eu tenho alguns segredos. A começar que eu tenho sonhos e pesadelos estranhos e que geralmente se tornam realidade, minha Bunica dizia que era um dom dado pelos deuses, nunca tive razões para duvidar. Eu falo grego, romeno e a língua dos deuses, pelo menos era isso que a Bunica dizia, fluentemente; também falo japonês, alemão, russo, francês, inglês, espanhol, mandarim, árabe e suaíli, mas é bem amador. Na verdade, com tão pouca idade, eu sei fazer muitas coisas, só porque minha Bunica insistia em me ensinar essas coisas e acredite se quiser, não foi algo forçado, foi natural, eu aprendia em meu dia a dia. Como eu disse, segredos. Pelo menos terminei minha apresentação. Voltando ao assunto.

Não faz muito tempo que estou nessa família que chamo de minha. Antes dela eu tinha outra, sabe? Mas Otou-san sempre me abraça e pede desculpas por tudo ter sido tirado de mim. Voltando ao assunto (como pode perceber, não sou boa em me manter focada).

Esses dias, Papa me deu um livro de presente. Ele disse que eu, talvez, me identificasse com a personagem e visse uma luz em meio ao caos. E sim, ele estava certo, mas eu não me identifiquei com a personagem e sim com frase que se inicia o livro, é isso que me tira o sono.

Sabe?! Antes de chamar Papa de Papa e Otou-san de Otou-san, eu tinha uma família. Era eu, Bunica, Mia, Linda, Sophia, George, Sauron, Christian e Agatha. Nós éramos o que Bunica chamava de "comunidade", vínhamos todos de lugares diferentes do mundo, menos eu e Bunica que éramos parentes mesmo e descendentes de uma linhagem muito antiga, segundo a Bunica, nossa família se originou na Grécia Antiga, passou a integrar a sociedade cigana da Itália, França e Alemanha por um tempo e depois se instalou na Romênia. Voltando!! Vivíamos em uma fazenda muito linda e éramos muito unidos apesar de não possuirmos nenhum laço de sangue, mas acho engraçado que todos eles possuíam o símbolo de uma águia na nuca, todos os dias eram como um conto de fadas para mim. A vida era maravilhosa e os dias sempre belos, para mim aquele era o paraíso. Um bem do qual eu não trocaria por riqueza alguma.

Foi quando tudo aconteceu. Foi no mês de Dezembro...

Era noite, faltava 10 dias para o Natal. Eu, Bunica, Agatha e Mia estávamos na dispensa, tirando os enfeites e os ingredientes estocados para fazer os pratos. Riamos sem parar uma da outra pois sempre encontrávamos alguma coisa estranha no meio dos enfeites, lembro até hoje o susto que Mia levou ao encontrar um morcego morto. Aliais, como aquele morcego foi parar ali? Eterno mistério.

Lá fora reinava uma pequena tempestade, cuja neve caía graciosamente dos céus. Linda, Sophia, George, Sauron e Christian estavam guardando os animais, dava para ouvir o relinchar dos cavalos ao longe. Disso eu sempre vou lembrar. Depois de tudo pronto, nós iríamos jantar juntos, Mia pegaria seu violoncelo e logo estaríamos dançando em frente a lareira no ritmo suave do instrumento por um bom tempo antes de ir dormir. Tudo o que me recordo desses dias de felicidade são os cavalos na tempestade e as imagens a dançar.

Então, do nada, Sauron entrou correndo, seguido de Linda e Sophia, mandou desligarmos os lampiões e entrarmos no compartimento secreto da dispensa. Até hoje não tenho ideia de como aquilo existia sem eu saber, mas ainda sim, nós, as mulheres entramos e ficamos em total silencio. Acho estranho até hoje que a forma com que ficamos lá dentro era como que para me proteger.

Na época eu tinha 4 anos e não tinha ideia do que estava acontecendo, fazia um tempo que percebi que os mais velhos estavam tensos, que meus pesadelos aumentaram a frequência e que as pessoas da cidade estavam diferentes. Mas eu jamais vou esquecer o que aconteceu naquele mês de Dezembro.

Muito tempo passou e o fogo da lareira ficou na memoria. Disso eu sempre vou lembrar. Sempre vou lembrar da canção que Sauron cantava para mim desde que me entendo por gente e que cantou uma última vez naquele mês de Dezembro. Foi no mês de Dezembro.

Ouvi alguém gritar com Christian e George, ouvi uma briga e depois sons de explosões pequenas juntamente com o protesto de nossos animais. Nunca mais ouvi a voz de Christian e George. Tinha um pequeno buraco no "abrigo", por onde eu pude ver a porta sendo estourada e Sauron segurando a arma de caça que ficava sobre a lareira. Vi homens feios, com armaduras feias e intenções feias derrubarem a porta, Sauron tentou confrontá-los, mas eu vi seu corpo ser empalado pelo braço de um e ele foi arremessado contra a porta do abrigo. Pouco depois comecei a sentir algo quente vindo de fora manchar minha saia de vermelho. Foi no mês de Dezembro.

Eu queria gritar, eu queria chorar e, principalmente, eu queria socorrer Sauron, mas me seguraram e tamparam minha boca. Tudo o que ouvi por um tempo foi o som de nossa casa sendo revirada misturado ao nosso choro baixo e desesperado. Foi no mês de Dezembro.

Vi os homens saírem decepcionados de nossa casa, mas não antes de pegar uma "tocha" da lareira e usá-la para colocar fogo na cortina. O fogo da lareira na memoria ficou. As labaredas subiam impiedosas e devoravam nossa casa, e pelo que eu podia ver através da janela quebrada, devoravam também nosso celeiro e animais, mas tudo aquilo não mais me importava, eu só conseguia ouvir Sauron cantado enquanto Mia e Sophia tentavam empurrar a porta que estava bloqueada por seu corpo. Nem lembro mais a letra direito. Queria tanto lembrar dela inteira.

"Balança, balança, balancinho..."

"Entre as ondas..."

Foi no mês de Dezembro. Quando saímos, os homens estavam nos esperando. Eles pegaram Linda, Sophia, Mia e Agatha, rasgaram suas roupas e depois Bunica tampou meus olhos, tentando me esconder. Os gritos delas ecoaram em minha mente. A risada daqueles monstros também. O sangue manchando a neve continua a me assombrar em pesadelos. Disso eu sempre me lembro.

Mia deve ter feito alguma coisa, pois um dos homens rugiu e ela nos mandou correr numa língua que só nós daquela casa falávamos, a língua dos deuses. Lembro de correr por quilômetros sem parar, de minhas pernas latejarem, de meus joelhos serem lacerados quando eu caia e do meu pulmão queimando por mais ar. Lembro do desespero e medo que senti, das trevas tentarem me engolir, dos galhos quebrados que sempre me davam a entender que havia alguém atrás de nós, das vezes que olhei apavorada por cima do ombro e das noites sem lua. Lembro da fome e do frio, do meu estômago me corroendo, de minha roupas úmidas que mais nada aqueciam e de meus dentes rangerem quando o vento soprava. Lembro do conto de fadas se desmanchar e virar um pesadelo cheio de monstros com sorrisos cruéis. Foi no mês de Dezembro.

Desde então, esse mundo de monstros e dor foi tudo o que eu conheci. Sobreviver era uma luta, viver era uma luta maior ainda. Foi no mês de Dezembro.

Os monstros atacaram novamente. O sangue manchando chão, paredes e neve que só existia em minha mente. O fogo de lareiras destruindo tudo em seu caminho. Os gritos dos inocentes ecoando. Crianças como eu chorando pelo que perderam. Disso eu sempre me lembro. A fuga. A perseguição. A morte. A dor. O abandono. O medo. O mês de Dezembro. Disso eu sempre me lembro.

Que horror! As pessoas devem pensar isso se lerem o que escrevi agora e no mínimo iriam querer que eu fosse mandada para fazer tratamento, mas são apenas memórias. Mas sabe? Tem algo que também nunca vou esquecer. Foi no mês de Abril. Braços me protegendo de todo mal. Olhares azuis como o céu da manhã e o céu da noite me motivando. Sorrisos límpidos me dando coragem, me chamando de filha. E mãos estendidas me oferecendo uma nova chance. Disso eu sempre me lembro.

Nunca vou esquecer o dia em que Papa e Otou-san me acharam, nunca vou esquecer o quanto eles me amam, nunca vou esquecer o que eles são para mim. Eles são as minhas luzes, meus guias, minha família.

O livro que Papa me deu se chama A Menina Que Roubava Livros. E ele começa com a seguinte frase: “Independente da nacionalidade, as dificuldades de quem passa por um processo desses são sempre as mesmas, uma adaptação ao novo e uma imensa saudade de tudo que teve de ser deixado para trás”.

Bem, estou chorando agora e não sei bem o porque, nem você vai saber, porque quando eu descobrir, a chuva que já esta ameaçando cair vai apagar tudo o que escrevi e a essa hora eu, provavelmente, estarei brincando com Kiki — ele é meu amigo e confidente, gosto muito dele, ele sempre me visita e me é muito importante — e com certeza estarei sorrindo para minha família. Disso eu sempre me lembro.

Bunica — Avó

Notas finais
E ai? Mereço o que? Só não me matem, ainda tem muita história pra contar ;) Espero que tenham gostado ^.^ Bjs. L :3