Fênix da Noite Estrelada
11 Cala Boca!!
Notas iniciais
¬ Ficou louco?! — rosnou o mais velho pela ousadia do menor em apontar para ele.
¬ Fiquei! — bradou de volta, agarrando a camisa social de Ikki e o empurrando de volta a arena de treinamento, onde caíra sentado. — Você é idiota, ou o que?! Não! Você não é idiota, eu sou idiota! Como eu fui capaz de me apaixonar por você?! — apontou com o dedo em riste para o leonino, que agora estava mudo. — E o pior é que eu tive que engolir você falando que estava apaixonado por alguém! Não sei dizer se grito ou choro!
Ikki até tencionou falar algo, mesmo que as palavras travassem algumas vezes, ele tencionou falar, mas tencionar falar e falar eram duas coisas completamente diferentes.
¬ Eu tentei, eu tentei, eu tentei! Mas de nada adiantou! — ele andava de um lado para o outro como um animal enjaulado. — Eu tentei me esconder e continuou sem resultado algum. Eu tentei me afastar e continuou sem resultado algum. Eu tentei achar razões para te odiar e continuou sem resultado algum. Eu tentei ficar com outras pessoas e continuou sem resultado algum. Eu tentei virar um eremita e quase enlouqueci no processo, ou seja, continuou sem resultado algum. Eu tentei exorcismo e continuou a mesma merda! Eu tentei de tudo! E quão grande foi minha surpresa ao descobrir que nada surtiu efeito?!
¬ Hyoga...
¬ CALA BOCA!! — Ikki chegou a se encolher com o berro do aquariano, nunca o vira tão irado. — E quanto mais eu tentava, mais você em sua profunda arrogância e libertinagem, me atraia. Eu me sinto oco quando não estou perto de você e me sinto vivo quando você está por perto. Isso não é normal! — ele parecia estar brigando era com os deuses de tanto que gesticulava e olhava para cima. — De início, pensei que fossem apenas os hormônios, como todo bom livro sobre adolescência diz, mas não... Isso perdurou e fortificou-se! Se transformando em algo que me machuca e me torna feliz. Isso não faz sentido! Porque logo você?! Porque logo eu?! — ele só parava de andar momentaneamente para se dirigir ao leonino. — Eu seria capaz de mover montanhas para te alcançar e o mar do tempo para não te deixar! Eu quero estar sempre com você! Eu quero poder te abraçar! Eu quero secar suas lágrimas! Eu quero lhe dar força e apoio quando você precisar! Eu só quero te proteger! E o que eu puder, eu farei por você! Estou começando achar que eu sou doente! Masoquista, para ser mais especifico! — o aquariano chutou um equipamento de treino, que voou longe, bem longe, não queria nem imaginar se aquilo caísse em algum pobre desavisado. — Eu quero ficar com você, mas a única coisa que consigo fazer é sofrer vendo você com outros! Por conta disso, eu sempre me sinto fraco, mas quando você chega... AHHHHHHHH!!! A VIDA É UMA MERDA!!! — se certo escorpiano estivesse ali, estaria chorando de alegria ao ver tamanha eloquência por parte de seu mais novo filho de criação, o aquariano tinha falado muito mais nesses últimos minutos do que falara a vida inteira.
Novamente, o Cavaleiro de Fênix tentou falar alguma coisa, qualquer coisa, mas veio a descobrir que interferir um aquariano fora de si era impossível, era mais fácil passar pelas Doze Casas sozinho, sem os sentidos e sem armadura, do que interferir Cisne.
¬ E o pior, é que eu sinto, não, eu sei, que o amor que lhe prometi, mesmo que inconsciente e antes mesmo de tomar consciência de algo, ninguém mais vai dar, ninguém mais conseguir te dar. — tudo que o aquariano via era congelado, ou voava longe, menos o leonino que continuava inteiro e nem sabia como. — O que sinto por você é tão forte, que eu sinto que nada seria capaz de quebrar. Mas por mais que eu tente, por mais que eu tenha coragem, nada represento pra você! E quanto mais eu quero deixar de te amar, mais você me atrai e me repele ao mesmo tempo!
Hyoga parou e escondeu o rosto com as mãos. Sentia seu coração sangrando, não porque tinha se confessado – se confessar foi como tirar o mundo dos ombros – e sim porque Ikki não correspondia à aquele sentimento. Idiota.
¬ Hyo...
¬ CALA BOCA, IKKI!! — ergueu o rosto banhado em lágrimas que fundiam tristeza com ódio. — Eu já nem sei mais o que fazer... Me pergunto, toda hora, se ao invés de sorrir pra agradar alguém, agradar VOCÊ, eu sorrir só pra mim, isso me fará bem? Se ao invés de sofrer tentando amar alguém, amar VOCÊ, eu me amar um pouco mais, isso me fará bem? Parece que nada vai funcionar, que ninguém vai me ajudar, nem a Saori me salva! Mas eu faço o meu melhor para superar e não me entregar para esse aperto em meu peito. Isso só me machuca!
¬ Hy....
¬ CALA BOCA!! — tomar nota, aquarianos nunca devem ser contestados em uma discussão, ainda mais um que pode te congelar, literalmente, só com o olhar.
Hyoga tocou o próprio peito, no local onde sua cicatriz residia, o local onde, alguns anos atrás, Fênix lhe atingiu e pensou ter esmagado seu coração, porém falhou e mesmo assim, mesmo agora, Hyoga sentia uma mão esmagando seu frágil coração.
¬ O sinal da ferida que sangrou, a ferida que você abriu ao transpassar minha armadura e meu peito, já fazem parte de mim, como a luz que me ilumina, e como a dor que não tem fim. — ele tinha que lembrar justo desse episódio? — Eu tento não me afogar nas mágoas que chorei e que ninguém, apenas seu irmão, em volta viu, pois cada gota já secou. E abençoado seja Shun Amamiya! — gritou aos céus. — Porque pra me aguentar em todos esses anos de mal humor e lamuria tem que ter um puta dum saco! — Hyoga voltou a fitar as íris azuis do outro. — Porque é tão fácil se sentir só? — a falta de reação o irritou. — PORQUE É TÃO FÁCIL SE SENTIR SÓ, IKKI?!
Ikki começou a se aproximar de Hyoga com cuidado, o aquariano podia ter outro “ataque” e isso não seria nada bom, não queria passar o resto de seus dias como flocos de neve. Agora estava frente a frente com o aquariano, que parecia nem ligar para curta distancia entre eles, na verdade o leonino não sabia nem dizer qual era o estado do russo, os olhos eram as janelas da alma, pelo menos esse era o dito popular, e aquela alma certamente era muito confusa. Em um rompante o aquariano começou a socar o seu peito, como se aquela fosse uma forma de descarregar todos os seus sentimentos, os socos não eram para machucar, era bater por bater mesmo.
¬ Porque é impossível viver sem você? — prosseguiu enquanto batia no peito do mais velho sem fazer dano algum. — Porque meu coração só sabe me trair? Como pude me apaixonar pro alguém como você? — o leonino prendeu os pulsos dele, de forma que o parasse de bater, mas não de falar. — Como posso amar alguém como você? Como pos...
¬ Alexei!! — mirou o leonino que já apresentava sinais de irritação. — Cala Boca!!
Ikki não esperou resposta ou reação, apenas tomou os lábios do mais novo, que em choque, demorou um pouco para corresponder ao beijo cheio de carinho e desejo. Uma das mãos do leonino segurava sua cintura, fazendo os corpos se aproximarem ainda mais, e a outra estava na sua nuca, não dando espaço nem se quer para se respirar. Já o aquariano, tinha enlaçado o pescoço do mais velho e não dava sinais de que soltaria tão cedo.
Quando o ar se fez absurdamente necessário, é que os corpos se afastaram.
¬ Olha... — começou o leonino ofegante. — Eu poderia passar o dia inteiro e a noite inteira também, falando o que eu sinto por você. — mesmo sem ar, o moreno não perdia tempo, beijava todo o rosto e pescoço do aquariano, marcando-o, fazendo-o seu bem aos poucos. — Mas que tal eu demonstrar ao invés de falar?
Ikki tentou investir mais uma vez, mas foi freado pela razão do aquariano, que insistia em gritar com o mesmo: Vocês estão no meio da arena de treinamento e é O CASAMENTO DO SEU MESTRE, Ô ANIMAL, TENHA A MÍNIMA DECÊNCIA E VÁ PARA UM LUGAR MAIS DISCRETO!! A consciência podia ser chata de vez em quando, porém não dava para negar que estava certa.
¬ Ikki... — sussurrava entre beijos. — Aqui não... estamos expostos.
¬ E...?! — eu com isso?
A pouca importância que Fênix dava a situação, era mais do que justa. Mas Hyoga encheu tanto o saco para que eles fossem para outro lugar, que, mesmo com um pouco de contra gosto, Ikki o atendeu e começou a arrastá-lo. O leonino o guiava pela floresta que tinha junto ao Santuário, ele não conhecia aquela floresta e nunca se aventurou a explorá-la, mas sabia que o moreno sempre se enfurnava nela apenas para treinar.
Eles pararam em uma pequena clareira bem longe do Santuário, onde tinha uma pedra, que certamente era banhada pelo sol que passava por entre os galhos densos das arvores, qualquer um que se sentasse nela teria uma visão privilegiada do mar distante. Mas não houve muito tempo para se analisar o lugar, pois, mais uma vez, o moreno atacara sua boca.
O leonino se via beijando a boca inchada do rapaz e usufruindo a doçura de seus lábios. Sem estar muito consciente ou sem fazer esforço, despiu Hyoga até que o corpo musculoso e rijo estivesse exposto ao seu olhar.
A carne era perfeita, com músculos visíveis e uma única cicatriz visível. A única imperfeição, uma cicatriz na altura do coração, um lembrete do que Fênix um dia foi capaz de fazer até mesmo com aqueles que amava, mesmo que na época desconhecesse o sentimento, a cicatriz no peito alvo era um aviso mudo do quanto amar alguém como o leonino poderia ser doloroso e até mesmo penoso. Algo nele quis chorar ao ver aquela marca que ele mesmo causara, mas não devia se apegar ao passado, devia abraçar o presente. E foi exatamente isso que fez, ao deitar-se na relva com o aquariano.
Quanto tempo Ikki desfrutou Hyoga? Uma hora? Um dia? Eles nunca saberiam. Hyoga foi generoso e doce, entregando-se livremente com uma alegria contida. Ikki foi carinhoso e cuidadoso como jamais tinha sido antes, amando-o com intensidade. Se amavam tanto, que por vezes acharam que o sentimento lhes destruiria o coração ou uniria eternamente os corpos, amavam-se como precisavam, amavam-se como jamais seriam capazes de amar outra pessoa ou coisa.
Semivestidos, Ikki usou as margaridas em volta para tecer uma coroa para o aquariano, depositando-a sobre os fios loiros com um beijo. Hyoga sorriu para ele com olhos brilhantes, repletos de alegria e amor, e o leonino teve vontade de protegê-lo, acarinhá-lo e amá-lo mais uma vez, embora soubesse que logo teriam que voltar para o Santuário.
¬ Como posso eu me sentir tão em paz perto de ti? — indagou com um olhar apaixonado. — Como posso me sentir tão confortável em seus braços, loiro? — dessa vez a provocação vinha em tom de brincadeira. — Como posso me sentir tão em casa quando estás perto de mim?
A mente do leonino se encheu com devaneios de seu próprio chalé na França, Hyoga ao lado do fogo com um livro em mãos, um ou dois cães deitados à seus pés, e talvez, quem sabe, crianças pequenas se agitando em seu lar. O aquariano viu claramente os sonhos dele nos brilhantes olhos azuis e não pode deixar de sorrir.
¬ Eu não sei. — respondeu no mesmo tom. — Mas quando estiver distante, lembre-se de mim quando as margaridas florirem, e eu ficarei feliz.
¬ Você é sentimental, Cisne. — ralhou o mais velho, e beijou-o como se o amanhã fosse apenas uma ilusão.
Não sabiam dizer como, mas ao mesmo tempo que esse sentimento os fez sofrer, agora os fazia sorrir.
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