Fênix da Noite Estrelada
10 Agora Ou Você Me Escuta, Ou Você Me Escuta!
Notas iniciais
Ikki estava sentado na arquibancada da arena de treinamento e parecia estar com a cabeça bem longe dali. E como não estar quando se tem um problema como o dele? Estar apaixonado e nem saber como falar. Maldito seja o amor! Só serve para fazer os outros sofrerem e definharem, porém quando correspondido era algo tão bom...
Hyoga não teve problema algum em se aproximar sem ser notado, chegando ao ponto de se sentar ao lado do mais velho sem chamar atenção alguma, somente quando tocou-lhe o ombro é que conseguiu chamar a atenção do leonino.
¬ Ah... — ele parecia triste. — É você.
Ele ergueu o rosto, mirando as estrelas e suas respectivas constelações com um suspiro. Como a vida pode ser tão cruel ao colocar o motivo de seu sofrer justamente ao lado dele? É em horas como essa que frases como "a vida é uma merda" faz sentido. Hyoga apenas seguiu seu olhar, mas seus pensamentos não eram tão diferentes dos do Amamiya.
¬ Eu não fiz aquilo porque quis. — justificou-se.
¬ O que? — Hyoga o olhava sem entender.
¬ Eu não matei aqueles animais porque quis. Nem te fiz matá-los por que quis. — ah, ele estava falando da chacina na selva vietnamita. — Eu preferia ter usado seres humanos, presos condenados, mesmo a Saori dizendo que era antiético, mas aqueles animais... Eu não sou um carniceiro, como você deve estar pensando! Eu... eu só tentei ser clemente.
¬ Ikki... — foi cortado antes mesmo de começar.
¬ Aqueles eram animais contrabandeados. Eu os encontrei pelo acaso, dei um jeito em seus carcereiros e tentei ajudar todos, mas tinha alguns que não tinha como. — o leonino fechou os olhos e se encostou na arquibancada. — Saga é formado em veterinária, por mero querer, entre outras coisas. — já dizia o ditado, mente desocupada é oficina do diabo, ou no caso de Saga, Ares. — Ele examinou os animais e disse que era loucura tentar integrar alguns deles ao habitat natural, isso se eles não morressem antes. Ele disse que o melhor a fazer era sacrificá-los. Isso aconteceu daquela vez que eu fiquei sumido no meio do treinamento.
Hyoga se lembrava disso. Ikki disse que iria procurar alguma coisa para comer e acabou sumindo por 5 dias, no dia seguinte ao seu retorno, o leonino o fez passar por aquele absurdo.
¬ Os animais que você matou ou que eu matei, estavam muito machucados, ossos quebrados, feridas infeccionadas, envenenados, mal alimentados, doentes ou tudo junto. Até os que a gente acabou comendo, pouco eu pude pegar. Se era para matá-los, então... — ele suspirou. — Foi cruel? Foi! Eu sei que foi. Mas eu tinha que te testar e eu ainda me senti na obrigação de acabar com o sofrimento deles, mesmo que sofrendo um pouco antes de morrer, eles ainda estariam em paz. Mesmo que eu não tivesse intervindo, eles teriam sofrido até morrer. — ele abriu os olhos com um sorriso tristonho. — Você deve me achar um carniceiro não é?
¬ Não. — a resposta surpreendeu o moreno. — Eu não acho isso. Se você diz que estava apenas tentando ajudar, eu vou acreditar. Se você diz que estava tentando unir o “útil ao agradável”. — o jovem aquariano fez aspas com as mãos. — Eu vou acreditar. Afinal, você pode até ter seu lado negro, mas você jamais foi um monstro, Ikki. Mas... porque me contou isso? — Ikki desviou o olhar.
¬ Eu senti a necessidade de contar. — podia-se ver um leve tom de vermelho nas bochechas de Fênix. — Não queria que pensasse algo ruim.
Hyoga sentiu o coração bater mais forte no peito, mas não podia se deixar levar, então, mesmo que levasse um soco, decidiu cutucar só um pouquinho a onça, ou melhor, o leão com vara curta.
¬ Está dizendo que se preocupa com a minha opinião? — brincou e recebeu uma língua em troca.
Os dois riram, nem pareciam “inimigos”, pareciam dois velhos amigos rindo da vida. Logo estavam mirando as estrelas mais uma vez, dessa vez um pouco mais alegres, e conversando animadamente.
¬ Sabia que Eu e Shun somos franco-japonêses?
¬ Quer dizer que mais alguém além de mim é mistura? — sorriu travesso.
¬ Ah, vá! Vai dizer que ter dupla nacionalidade é ruim? — Hyoga negou avidamente com um sorriso. — Então! A melhor coisa que posso fazer é gritar aos quatro ventos que sou franco-japonês, só vejo vantagem nisso. Pelo menos eu posso dizer que só a metade de cima é japonesa. — mais risos.
Mas agora que tocou no assunto...
¬ Se você pudesse escolher, onde viveria? Na França ou no Japão?
¬ Mas eu já vivo. — a resposta colocou um ponto de interrogação gigante sobre a cabeça do aquariano. — Tenho uma casa na França, numa floresta ao norte do país, bem longe das cidades, afinal, eu prezo e muito a privacidade. É lá que eu fico quando não estou aqui ou em missões impostas pela nossa querida ChAtena. — isso explica muita coisa.
¬ Me senti humilhado agora. — Hyoga fez bico. — Quando eu não estou aqui no Santuário, eu tô na mansão da Saori no Japão ou na cabana que eu uso quando vou para Sibéria, que não é lá essas coisas. Mas se eu pudesse escolher, eu daria um bom tapa naquela cabana, sou mais adepto de lugares isolados. — ele parecia pensativo. — O que com herança da minha mãe, seria facinho.
¬ Herança? — indagou curioso o leonino.
¬ Minha mãe era advogada e tinha um bom cachê. Quando ela se foi, me deixou milhões de euros em propriedades, seguros e dote. Enquanto eu não atingisse a maioridade a fundação ficaria responsável por administrar minha herança, mas agora, ela só permanece intocada porque eu quero. — o jovem russo olhava torto para o moreno. — Mas sabia que a curiosidade matou o gato, Amamiya?
¬ Vai se achando, patinho, vai se achando. — respondeu. — Meus pais também deixaram algumas coisas para mim e meu irmão, não são Milhões, mas dá para viver muito bem. A faculdade de medicina do Shun, por exemplo, não há problema alguma na hora de pagar. E mesmo que houvesse dificuldades, eu preferiria ficar preso em um dos Seis Mundos do que pedir ajuda para Saori, ela podia usar isso contra mim mais tarde. — ele fingiu um calafrio. — A ChAtena consegue ser má de vez em quando. — o que conseguiu arrancar uma risada do loiro.
¬ Eu sei que a Saori é bem chatinha quando quer, mas você não acha que vai dar problema se alguém ouvir? — perguntou em tom de brincadeira.
¬ O que?! — perguntou com uma incredulidade forjada. — Se é assim aqueles “Santos” estão todos na água de salsicha. — essa é velha. — TODOS!! Chamam a Saori de ChAtena pelas costa!
¬ Oh, meu Zeus! — fingiu surpresa. — Até o Seiya e Jabu? — recebeu um aceno animado em resposta. — É só uma questão de tempo até Saori se juntar a Júlio César. Que Brutus...
Mais uma vez riram. Era tão bom conversarem daquela forma. Sem provocações, sem xingamentos ou insultos, sem arrogância, sem aquele jeito de superioridade de se portar e falar. Aquela era apenas uma conversa entre duas pessoas “normais” que falam das amenidades da vida, tal como o tempo que fazia naquele dia.
Agora eles estavam deitados na arquibancada, o aquariano estava deitado no degrau de cima e o leonino estava no de baixo, apenas olhavam as estrelas e conversavam, chegaram a ver uma estrela cadente cruzar o céu noturno.
¬ Ei. — chamou Ikki. — Quando mais novo, o que você queria pro seu futuro?
¬ Nossa! — Hyoga coçou a cabeça. — Eu acho, porque eu nem lembro direito, que eu queria ser bombeiro, depois quis ser advogado, mas ai eu voltei pro bombeiro, mas no geral, eu nunca pensei muito no meu futuro, eu sempre pensei no presente, no que eu estava vivendo no momento, talvez tenham sido esse tipo de pensamento que me fez fazer tanta besteira anos depois, já que eu não pensava nas consequências de meus atos. — a cicatriz no peito dele que o diga. — E você?
¬ Ah, certamente eu era mais sonhador. — afirmou o mais velho. — Eu sempre pensava no que eu faria para ter um bom amanhã, para não depender dos meus pais, para poder cuidar do Shun em momentos de dificuldade, para ter uma boa vida. E, talvez por culpa de minha mãe, que dava muito valor a família, eu sempre quis constituir uma família. — ele suspirou. — Mas a vida nunca é como a gente quer não é?
¬ Isso devia ser uma verdade universal. — concordou o mais novo. — Mas e agora? O que você deseja para o futuro?
¬ O que vier é lucro! — ditou. — Isso é o que eu espero para o meu futuro. Mas eu ainda quero ter uma família e quero dar uma boa vida ao Shun, ele merece mais do que tudo.
¬ Você também merece ter uma boa vida, Ikki. — o aquariano agora estava na beirada do degrau, para que assim pudesse ver melhor o leonino.
¬ Você acha? — ele viu o mais novo confirmar e sorriu. — Se você diz, eu acredito. E você? O que deseja para o futuro?
Era agora. A deixa perfeita. O vai não vai. O agora ou nunca. Não conseguiria oportunidade melhor que essa ou igual, nem em um milhão de anos. Então, ele apenas respirou fundo e deu a resposta em meio a um suspiro.
¬ Ser amado.
¬ Hãn?! — Ikki o olhou confuso.
¬ Eu me apaixonei, Ikki, mas parece que essa pessoa não me ama. — confessou, porém, não no sentido desejado. — Eu só queria ter coragem para me confessar e assim aquietar meu coração, mesmo que a resposta fosse negativa por parte dessa pessoa, eu poderia fazer alguma coisa quanto a esse sentimento e não deixá-lo apenas me ferir. — suspirou. — Mas eu tenho medo. Medo que meu coração se quebre e nunca mais possa ser consertado. Medo que a ferida fique maior do que já é. — outro suspiro.
¬ Eu também me apaixonei. — mesmo sem saber, Hyoga sentiu as lágrimas queimarem. — Estou passando pelo mesmo que você e isso está me deixando louco. Eu não consigo interpretar essa pessoa, ela se esconde sobre tantas barreiras que chega a me deixar doente, eu quero alcançá-la, mas quando eu tento parece que ela se esconde ainda mais. As poucas vezes que ela expressa algum sentimento, parece que ela até gosta de mim, mas na maioria das vezes, a impressão que dá, é que ela quer me ver morto. — confessou. — Certa vez, eu acreditei ter amado uma pessoa e ela morreu, me deixando sozinho e cheio de ódio. Pensei que nunca mais seria capaz de amar, mas quando eu encontrei a pessoa por quem sou apaixonado, percebi que o que eu sentia era o mesmo sentimento que tenho por Shun e meu sofrer era um luto fraternal. Essa pessoa que eu percebi amar, me fez sofrer inconscientemente e eu a fiz sofrer com total consciência. — ele colocou a mão sobre o peito e segurou a camisa que usava com força. — Tenho tanto medo dela me odiar. Tenho tanto medo que ela tenha roubado meu coração apenas para rir de minha dor. Tenho tanto medo de não ser amado.
Um silencio desconfortável pairou sobre os dois, chegava a ser sufocante.
¬ Posso saber quem é essa pessoa? — por fim, Hyoga rompeu o silencio sem quebrar o contato visual com Ikki.
Cisne viu quando Fênix se erguer com os cotovelos, ficando perigosamente perto. Ele podia sentir a respiração quente contra a sua, podia ver o olhar de desejo e carinho desenharem-lhe o rosto, podia sentir os lábios macios roçarem os seus, sentia-se confuso e absurdamente tentado a ceder à aquele sentimento avassalador que lhe tomava o peito e à aquele sensação engraçada que sentia na barriga, e por pouco o fez. Mas do nada, Ikki se afastou, levantou-se e começou a descer a arquibancada, algo o fez refrear a vontade, algo chamado Razão. Mesmo aturdido, Hyoga não perdeu tempo, mandou a razão e a vergonha tomarem naquele lugar, e correu atrás do moreno.
Ikki provocou e agora iria ouvir, querendo ou não, estando bravo ou não. Hyoga o alcançou e puxou seu braço com violência, fazendo-o se virar abruptamente, apontou para o mais velho e ditou furioso:
¬ Agora ou você me escuta, ou você me escuta!
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