Fênix
3 Conclusões
Minha cabeça bate no chão com muita força. Estou tonta. Tentando ficar em pé, vejo os olhos azuis de Natalie sobre mim. Estão escuros e percebo que me fixam com muita raiva. Ela estava parada na minha frente e seus braços estavam cruzados. Apesar de Natalie não ser alta e musculosa, ela tem uma força inacreditável. Seus cabelos pretos só faziam com que os olhos parecessem mais escuros. Natalie puxa meus cabelos, me forçando a ficar em pé. A dor na minha cabeça era grande, mas não derramei lágrimas. Não queria dar motivos para ela desconfiar que eu tivera visto mais do que deveria.
— Sua mãe não ensinou que é feio bisbilhotar? — me recordo da frase em um dos meus exemplares de Harry Potter — Ah é, esqueci que ela morreu antes que você soubesse pronunciar a palavra.
Sinto um aperto no coração. Lágrimas querendo cair de meus olhos. Me contenho.
— O que você viu? — Natalie grita —
— Nada, eu não vi nada. Só estava passando pelo corredor em direção ao meu quarto. — resmungo —
— Fala logo — ela grita mais uma vez, puxando meu cabelo com mais intensidade.
Não sei o que fazer. Não vou simplesmente chegar e falar "Ah, acabei de ver você guardando uma arma em uma caixa de sapato no mesmo quarto que meu pai dorme e a vi falar no telefone com um tal de Vitor, que presumo ser seu amante", mas também não poderia mentir, considerando a hipótese do que ela poderia fazer usando a arma.
— Vi você guardando um objeto que não consegui identificar — minto, tentando não parecer nervosa para que ela de nada desconfie — em uma caixa de sapato e a vi falar no telefone. Foi só isso. — finalizo.
— Não minta para mim! — ela grita e suspira com os olhos arregalados.
— Eu não estou mentindo! — grito de volta gemendo de dor.
Ela hesita, desconfiada de minhas respostas. Me olhou por mais alguns segundos e fechei os olhos na espera de mais algum chute, mas ela só puxou meu cabelo mais uma vez e falou:
— Você pode sair intacta dessa. Mas da próxima não vai ser assim. Aconselho que você cuide da sua vida. Se me espionar de novo, você irá sentir na pele o limite do que eu posso fazer.
— Você pode ter se safado dessa, mas dá próxima não vai ser assim. É melhor você cuidar da sua vida. E se você ficar me espionando de novo vou te bater até seu coro cair. Está avisada, inútil.
Por fim, ela solta meu cabelo e me cuspe na cara. Fecho os olhos, e ouço a porta se fechando atrás de mim. Lembro do que Natalie havia dito em relação a minha mãe. Agora começo a chorar. Não consigo mais conter as lágrimas.
— Eu não posso viver assim.
Deito na cama a fim de descansar e deixar que o vento entre pela janela e leve todos os pensamentos. Pouco tempo depois, ouço algo que identifico como alguém descendo a escada. Levanto e desço a escada. Me escondo na parede onde atrás fica a cozinha e ouço Natalie conversando com alguém. A voz era grossa e percebo que é um homem.
— Você tem que acabar com isso agora — falou o homem.
— Estou esperando o momento certo, Vitor — respondeu Natalie.
Vitor. Esse deveria ser o homem com quem vi Natalie falar ao telefone algum tempo atrás. Depois de alguns segundos ouvindo a conversa, recuada na parede por trás da cozinha, observo-os. O homem era um pouco alto, cabelos castanhos e olhos verdes. Era um pouco musculoso. Bonito, para ser sincera. Suas mãos e as de Natalie estavam entrelaçadas. Neste momento, me veio a cabeça a imagem de Natalie, e as palavras que foram ditas ecoando em minha mente. Não podia estar ali, não deveria. Se fosse descoberta, estaria morta. No mínimo.
Corro de volta pro meu quarto, fazendo o mínimo de barulho possível. Entro e fecho a porta. Pensando no que Vitor tinha dito. “Você tem que acabar com isso agora!”. O que ele quis dizer com isso?
Tudo o que fora dito por Natalie horas atrás e nesse exato momento, martelavam em minha mente, à procura de uma resposta. Então lembro-me da arma e do que Natalie dissera quando falava ao telefone:“Eu não seria burra a ponto de te chamar para minha casa se aquele idiota estivesse aqui”. Ela só poderia estar referindo-se ao meu pai. Pois além de Natalie e eu, ninguém mais morava na casa. “A garota só vive trancada naquele quarto, só sai dali para ir ao banheiro e comer”. Ela estava escondendo algo que eu não poderia saber. O modo como ela ficou preocupada com o que eu poderia ter visto. “Você pode sair intacta dessa. Mas da próxima não vai ser assim”. Recordo-me do modo como as mãos dos dois estavam entrelaçadas. E tudo começa a fazer sentido. Meu pai não estava em casa nesta noite. Um homem fora convidado para ela na mesma noite. Uma arma. O desespero ao perceber que eu poderia ter visto além do que deveria. As mãos entrelaçadas. Como se fossem um...
Eu paro e hesito.
– Natalie tem um amante – falo bem baixo, o suficiente para que só meus ouvidos possam absorver as palavras.
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