Ezreal e Lux

1 Piltover, a Cidade da Chatisse!


Um frasco preenchido de um liquido esverdeado voara em sua direção e fora imediatamente atacado por projéteis.

Certamente não é o que acontece em manhãs de nenhuma das pessoas que vivem na Cidade do Progresso, o lugar com a melhor segurança de toda Runeterra. Mas Ezreal não era uma pessoa normal, como todas as outras de Piltover. Ele era um aventureiro, e nada é mais perigoso para alguém do seu tipo que o tédio de ficar proibido de deixar a cidade por uma semana inteira.

Você já deve estar pensando em como essa seria uma situação impensável. Afinal, qual a possibilidade de impedir que alguém deixasse uma cidade tão grande? Ainda mais se tratando daquele garoto, que possuía inúmeras artimanhas para conseguir se safar das mais difíceis emboscadas? E qual o motivo disso? Por quê privar um espirito aventureiro da sua busca eterna por explorações e descobertas?

Vou tentar explicar. Começando pelo porquê. Sabe-se que o explorador pródigo Piltoveriano havia acabado de voltar de mais uma de suas muitas viagens. E essa sua ausência eterna em suas terras preocupava e muito a Xerife, Caitlyn. Até porque a cidade estava recebendo cartas de ameaça, frequentemente. Jinx. Aquela psicopata.

Não acha motivo suficiente? Então acho que você deveria colocar-se no lugar de uma autoridade civil. Da maior delas. E pensar melhor. Afinal, de todo mal seria uma viagem de Ezreal naquele momento. Várias coisas poderiam acontecer. Um novo ataque de Jinx causaria estragos maiores sem o conhecimento perfeito para conseguir encontrar qualquer ponto da cidade, sem nem mesmo precisar abrir os olhos, que só Ezreal tinha. Mas o que mais preocupava a carrasca da criminalidade era o que poderia acontecer com aquele cabeça de vento com uma ameaça tão insana e imoderada a solta por aí.

Claro que dizer isso pro Ezreal seria de utilidade completamente desprezável. O motivo que o conselho de inteligência de Piltover encontrou para prendê-lo na cidade foi a apreensão da sua mais importante descoberta e todos os seus mapas. Eu sei o que você está pensando. Ele não entregaria simplesmente todas suas coisas assim. Mas, acredite, quando você olhar de perto para os braços mecânicos da Vi, muito perto mesmo. E ouvir daquela pessoa assustadora algo do tipo “você ficaria muito bonito com alguns dedos marcados nessa sua carinha de bebê”. Além do mais importante, porém que muito menos convincente que a ameaça da Vi, Heimerdinger havia feito uma grande descoberta e estava muito animado em ajudar aquele moleque. Por isso precisaria de todas aquelas coisas.

Obviamente, e quando digo isso é obviamente mesmo, Ezreal não ficaria sossegado por uma semana inteira, mesmo que estivesse completamente desarmado. Por isso, Caitlyn designou à Jayce e Vi a difícil, talvez mais que isso, missão de vigiarem-no. E quando digo vigiar, é um vigiar ao nível que o garoto mereceria ser vigiado. Com turnos de 12 horas, dois dos grandes símbolos da cidade ficariam o tempo inteiro, desde o acordar até o adormecer, na cola dele. Ainda bem que eram dois. Um só, nunca conseguiria. Ezreal era sempre o último Piltoveriano a adormecer e o primeiro a acordar.

Tentou por diversas vezes suas fugas. Foi sempre caçado. Pelo menos se divertia. As coisas eram menos chatas quando havia alguém com uma marreta de descomunal tamanho correndo atrás dele. Ou uma Vi. Que dispensa qualquer descrição. Acho que se pedissem para Ezreal descrever o ser mais assustador que um dia já pode conhecer, com certeza aquela mulher estaria centenas de posições à frente de polvos monstros dos mares de Runeterra ou dos insetos gigantes que encontrara em Shurima.

Ezreal, entretanto, era arisco. Utilizou-se muito bem dos períodos que fingira ter dormido e fizera com que seus guarda-costas o dessem-lhe algum tempo e espaço para que lentamente construísse em seu quarto uma passagem para o subterrâneo. Lugar que mapeara enquanto ainda criança. E conhecia como nenhum outro.

Naquele dia, Ezreal acordou antes que o Sol iluminasse a cidade de menor taxa de criminalidade em toda Runeterra. Seu túnel estava terminado. Seu destino, único. Faria o que mais gostava de fazer enquanto estava em Piltover. Se divertir com o seu “amigo” de Zaun.

O turno era de Jayce. Ele não ficara nem um pouco feliz quando levantou o lençol da cama de Ezreal e se deparou um boneco feito de algodão, bambu, EVA, palha, algumas roupas e um melão no lugar cabeça. Ok. O defensor do amanhã, de certa forma, se sentiu orgulhoso pelo boneco humanoide construído com perfeição pelo garoto. Aquilo significar que ele fora engando, porém, não era motivo nenhum de orgulho. Ele se sentira burro e idiota.

Vasculhou todo o quarto e enfim encontrou. Uma passagem que levava direto ao subterrâneo. Desceu por ali e se deparou com uma selva de encanamentos. Inúmeras entradas. Inúmeras opções. Se você fosse o Ezreal, guiar-se-ia por ali de olhos fechados e chegaria exatamente aonde quisesse em poucos minutos. Se não o fosse, poderia se perder por horas. Dias, talvez. Jayce não era um explorador, era um cientista. E não teria tempo de explorar, precisaria encontrar todas as entradas na primeira tentativa.

Utilizou-se do Martelo de Mercúrio como fonte de luminosidade. O problema era maior do que imaginava. Ele sabia que estava em busca de alguém perspicaz, que possivelmente não deixaria pistas de como ser encontrado. O problema porém era exatamente outro. Haviam pistas. O que não significava qualquer imprudência de Ezreal. Muito pelo contrário. Deixara pegadas e rastros de palha. Mas fora muito prudente. Já que as pistas deixadas pelo Explorador Pródigo de Piltover estavam espalhadas para TODOS os caminhos possíveis.

Confiar na sua intuição. Era a única opção de Jayce. O que era algo extremamente difícil para ele, já que outrora confiara cegamente em sua segurança e fora golpeado e apagado pelas costas. Sim, eu sei que só uma ocasião pode parecer insuficiente para tamanho trauma. Porém, o que perdeu nesta situação foi um cristal arcano raro, que caíra não nas mãos errada, mas nas piores. Viktor. Se o próprio Jayce não tivesse de invadir Zaun com a cara, a coragem e o Martelo de Mercúrio para evitar que o psicótico cientista Zaunita fizesse o pior uso possível daquele cristal. Se o próprio Jayce não tivesse se sagrado herói ao defender o amanhã. Talvez hoje, não só Piltover, como Runeterra inteira, estariam sofrendo nas mãos da “gloriosa evolução” que Viktor defendia.

Mas ele precisaria trazer Ezreal de volta àquele quarto. Não poderia nem ao menos deixá-lo ter saído. Quanto tempo fazia que o garoto estava passeando pelo subterrâneo? Jayce não fazia ideia. Deveria ter levantado aquele lençol muitas horas antes do que fizera. Ezreal nunca acordaria tão tarde. Mas Jayce estava cansado de correr por Piltover 5 dias seguidos. Deixou-se enganar pela possibilidade do garoto também estar cansado. Mas Ezreal parecia nunca se cansar. Toda aquela correria e perseguição parecia dar mais energia ainda praquele cabeça de vento. Como Jayce poderia se dizer o Defensor do Amanhã ou se dizer a prova viva de que Piltover poderá suprimir qualquer ameaça. Se não conseguia nem ao menos acompanhar o poder da juventude que exalava daquele garoto.
Estava quase começando a comparar a vitalidade de Ezreal com a explosão de Jinx. Quando percebeu que estava perdendo algo muito precioso, talvez mais precioso que o cristal que lhe fora roubado por Viktor. Estava perdendo tempo. Isso era óbvio. Mas como não o perder? Por onde ir. Eram tantos caminhos que se ramificavam infinitamente. Poderia passar meses ali se escolhesse uma única via incorreta.

Desistiu. Engoliu o orgulho que o impedia de assumir que Ezreal havia fugido embaixo de seu nariz. Não se sentia bem em assumir aquilo. Se sentia impotente. Mas era a única coisa sensata a se fazer. Informar a Xerife de Piltover que o seu protegido havia fugido. Orientar para que ela fechasse todas as saídas da cidade, mesmo não parecendo muito útil quando se procura alguém embaixo da cidade. E solicitar uma equipe de busca.

Jayce nunca se puniu tanto, e nem puniria um dia, em toda sua história. Por ter demorado tanto para seguir o único caminho seguro. Ligar para Caitlyn. Claro que ela resolveria tudo facilmente. Por que não fizera aquilo antes? Por que demorara tanto para receber a notícia que todas as roupas de Ezreal portavam rastreadores? Por que não acreditara na capacidade de sua Xerife de estar um passo à frente até mesmo do mais perspicaz dos exploradores.

Enquanto Jayce enfrentava sua guerra contra o orgulho. Já estava fora dos domínios de Piltover o jovem caçador de aventuras Ezreal. Ele havia construído uma ponte subterrânea em explorações passadas, que levava direto aos esgotos de Zaun. Sempre que estava em Piltover, utilizava-se deste atalho que ele mesmo fizera, para se divertir fazendo companhia a um rato assassino que se isolava por aqueles cantos. Twitch. Uma aberração originada de toda a ciência porca Zaunita.

O rato não gostava da companhia, nunca gostou. Ezreal parecia não se importar com a opinião dele. Sempre ia lá, sempre era expulso, mas sempre continuava indo. Já levara algumas vezes comida para seu “amigo”. Twitch, obviamente recusava, mas quando era deixado só novamente, corria eufórico para devorar o presente. Isso não mudava a forma como sempre recebia aquele importuno visitante. Tacava-lhe uma garrafa de vidro com um liquido de odor tão detestável que chegava a doer. Nos esgotos de Zaun, porém, aquele cheiro era só um doce complemento do cenário.

Desta vez não foi diferente.

- Oi Tw!! Quanto tempo? Aposto que estava morrendo de saudades. – Dizia Ezreal, quando percebeu, quase que por foto-percepção pela baixa luminosidade, uma garrafa chegando na sua direção. Seguida por algumas setas pontudas e envenenadas. O garoto abriu um largo sorriso e se desviou rapidamente de todas as agressividades.

- Tava demorando. Achei que tinha me livrado desse incomodo pra sempre. – Um rato aparecia no meio de toda aquela poluição. Sua pele era verde e tão suja e fedida quanto o esgoto, por isso vê-lo era uma questão de fé. Você só o veria se soubesse ou acreditasse que ele estava ali. Caso contrário não conseguiria encontra-lo nem se passasse um ano a sua procura, sem que ele se mexesse. Para te ajudar.

Ezreal, no entanto, via-o muito bem. Sabia exatamente de onde vinha aquela voz. Onde estava aquele rato. Talvez seja um pouco de exagero, mas creio que até o odor de Twitch seria diferenciado pelo garoto. Ele gostava do rato. Enxergava-o como um amigo. Era o lugar que mais gostava de ir quando não podia estar se aventurando.

Claro. Todo aquele ambiente fechado e todo aquele fedor faziam mal à ele. Ele não gostava daquilo. Mas era uma aventura sem igual desviar de setas envenenadas, enquanto tentava-se criar uma amizade. Ele não se importava nem um pouco com o que ouvia. Na opinião dele, eles eram amigos e pronto. E pode parecer uma visão equivocada de minha parte, mas acho que Twitch não via o garoto limpinho do mundo sem sujeira como as outras pessoas limpinhas do mesmo mundo. Twitch gostava de Ezreal. Gostava daquela companhia irritante e incômoda. Ele também enxergava um amigo quando olhava pra Ezreal. Só não poderia agir como tal.

- Desculpe-me pela demora. É que estão me vigiando o tempo inteiro em Piltover. Não vejo a hora de fugir logo daquele lugar chato que já explorei tudo. – O garoto tentava puxar assunto, quando novas setas avançaram em sua direção e ele esquivou com maestria.

- Já explorou tudo por aqui também. Agora me deixe em paz.

- É diferente. Aqui é tipo Piltover. Eu gosto de vir aqui, assim como gosto de ficar lá. Mas não por muito tempo, saca? Curto lugares novos, explorações, aventuras.

- Explore Noxus então e tente, por favor, morrer por lá.

Aquela ideia era simplesmente a mais absurda de todas. Noxus e Zaun eram historicamente terras aliadas. E a população de Piltover não só odiava os Zaunitas, como tinham nojo da forma porca e nem um pouco sustentável que os cientistas daquela terra guiavam a sua “evolução tecnológica”. A aliança dessas duas cidades não era o único fator a se levar em consideração. A geografia também estava contra aquela aventura. O caminho mais rápido para se chegar em Noxus quando se sai de Piltover. É por Zaun. Por dentro de Zaun.

As palavras de Twitch, entretanto, causaram o efeito contrário do que deveria no garoto. Em vez de receoso. Seus olhos brilharam em excitação. Em vez de amedrontado. Estava extasiado. Em vez de abandonar seu “amigo” pela péssima ideia. Aproximou-se. E questionou. Perguntou todos os detalhes da viagem. Conversaram por horas. O rato tentava desfazer aquilo. Apontava impossibilidades. Apontava o alto grau de periculosidade naquela viagem. Mas Ezreal não se importava. Estava decidido. E absolutamente nada. NADA mesmo. O iria fazer mudar de ideia.

Nunca, em todas as visitas de Ezreal àquele lugar, eles conversaram tanto e tão “civilizadamente” (isto é, sem que Twitch atacasse seu “companheiro” todo o tempo). Como os ditos populares têm o dom de estragar os melhores momentos. Tudo que é bom, dura pouco!

Ouviu-se um grande barulho. Pequenas rachaduras ficaram visíveis no escuro teto daqueles esgotos. Pequenos estilhaços começaram a despencar. Outras porções pareciam se esfarelar. Um grande campo estático se tornava visível nos vãos que se formava logo acima daquela reunião inusitada.

- Não sei como. Mas me acharam, Tw. Rápido, se esconda. Eu vou ficar bem, prometo.

- Como se eu me importasse. – Twitch sussurrara enquanto se movia sorrateiramente por entre o lixo que se confundia com sua própria existência.

O teto se abriu. E caiu.

Junto do teto, aterrissaram naquele bueiro fedorento três pessoas.

Jayce, Caitlyn e Vi.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.