Eyes of a Demon
17 Oh God!
Notas iniciais
Pegamos a estrada para Indiana durante a tarde, ao que parece os Deuses iriam usar o mesmo hotel. Inclusive já estavam lá há alguns dias para pegar pessoas que usariam como jantar... Mesmo que o combinado tenha sido de “apenas conversar”, nós tentaríamos livrar o máximo de pessoas que conseguíssemos.
Claire ficou no bunker, mesmo insistindo que estava recuperada, não queríamos colocá-la em um local tão perigoso e mesmo estando fisicamente perfeita, o psicológico dela ainda precisava ser trabalhado. A Sophie ficou fazendo companhia para ela e tentando traduzir aquele maldito livro... Quem diria que ela sabia um pouco de latim?
Mesmo com toda ajuda, aquela tradução estava indo devagar demais e por mais que tivéssemos prometido não fazer aquilo... Tivemos que recorrer ao Kevin. O coitado já estava com a vida retomada, havia entrado para a faculdade e até reatou o namoro! Eu não queria envolvê-lo, mas já estava com pena do pobre Sam perdendo noites em claro... Ligamos para o profeta, ele ficou surpreso, porém disse que ajudaria e pediu que mandássemos fotos do livro por email e ele mandaria as traduções assim que pudesse.
Então, eu fui no Impala com os garotos e ao chegarmos em Muncie, encontramos com Castiel, de cara emburrada, e Gabriel em um posto de gasolina. Ah, pelo amor de Deus! Tudo que eu queria era que eles conversassem um pouco! Era pedir demais? Parece que era!
– Olá... – Os cumprimentei quando saí do carro.
– Hey, cherry pie! – Gabriel acenou animadamente.
– Olá, Meghan. – Castiel assentiu.
Ah, eu estava me remoendo por dentro... Castiel estava sendo teimoso e infantil de novo!
– Er... Então, eles estão no Elysian Fields Hotel? – Sam perguntou.
– Sim, vamos lá? Eles já devem estar começando a reunião! – Gabriel olhou para o relógio.
– Será que ainda terá aquela torta deliciosa quando chegarmos lá? – Dean perguntou.
– Sim, tenho certeza! Com recheio de olhos e coração! – Dei um tapa na cabeça dele.
– Ai... – Dean resmungou – Não posso nem perguntar mais nada...
Gabriel e Cass nos levaram até a frente do hotel, já estava escuro e começara a chuviscar.
– Pelo menos não é aquele dilúvio que aconteceu da última vez. – Sam ressaltou.
– Ok, antes de entrar, quero relembrar os riscos e que vocês estão aqui para informações. – Gabriel falou seriamente e todos nós assentimos.
Da última vez que os garotos encontraram com esses Deuses, eles queriam destruí-los e lutar contra Miguel e Lúcifer, não tinham uma boa lembrança dos Winchesters... Além de tudo, ainda foram “mortos”, mesmo conseguindo reviverem, deve ter sido desconfortável.
O fato era que nós estávamos dando nossa cara à tapa por uma informação, o mais provável era que saíssemos de lá em pedaços e mãos abanando. Mas novamente o desespero estava tomando conta da minha vida e era questão de tempo até que Abaddon ou Crowley retornassem... Eu não tinha muita escolha.
Entramos no hotel e o lobby estava completamente vazio, não havia ninguém na recepção, a TV estava desligada e não era possível se ouvir nem um mísero barulho. Pegamos nossas armas, estacas banhadas em sangue e apesar de não sabermos bem o quê os matava definitivamente, pelo menos poderíamos atrasá-los.
– Posso ajudá-los? – Um homem com um sorriso aberto, usando um uniforme vermelho com gravata borboleta preta e um crachá de identificação escrito “Olá, meu nome é: Mercúrio” surgiu na nossa frente, do nada!
– E aí, Mercúrio! Quanto tempo, hein? – Gabriel tomou a frente do grupo e deu um abraço no homem – Continua rápido, não é? Bom saber que aquele pequeno incidente há alguns anos não te afetou!
– Loki... Ou melhor, Arcanjo Gabriel. – Mercúrio empinou o nariz e olhou Gabriel de cima a baixo – Não está na lista de convidados...
– Eu nunca estou! Vim para ter uma conversinha com meus bons amigos! – Ele deu de ombros.
– E trouxe os Winchesters, um anjo e uma... garota. – Ele nos olhou, mantendo a mesma face de cínico – Devo encarar como uma ameaça ou oferta de paz?
No mesmo milésimo de segundo, ele brotou ao meu lado e ficou me encarando, estreitou os olhos e ergueu as sobrancelhas como se estivesse surpreso com alguma coisa. Percebi que Castiel o fuzilava com o olhar e já havia tirado sua espada da manga do sobretudo.
– Nós só queremos conversar! – Gabriel chamou a atenção do homem – Seria bom se você anunciasse a nossa chegada, para não entrarmos de surpresa e gerar um certo... Conflito.
– Tudo bem, irei fazer isso. Sigam-me. – Mercúrio olhou para mim novamente e sumiu.
– O que foi isso? – Perguntei.
– Esse era o mensageiro, Mercúrio! – Sam me informou.
Gabriel foi na frente e o acompanhamos pelos corredores. Ao passarmos pela porta da cozinha, Dean a indicou com a cabeça e eu entendi que lá era onde eles guardavam suas vítimas. Teríamos que dar um jeito de tirá-los de lá.
Nós adentramos o salão de bailes do hotel, onde havia uma mesa gigante em formato de “U” com várias pessoas sentadas. Todos se voltaram para nós no mesmo instante, ao fundo estava Mercúrio conversando com uma mulher de pele morena, cabelos escuros na altura dos ombros e que usava um vestido vermelho justo, deduzi ser a Kali pela descrição dos outros.
Os Deuses na mesa começaram a se agitar, alguns se levantaram ao ver o Gabriel e outros resmungaram, mas uma coisa era certa: Ninguém estava feliz com a nossa presença. Naquela agitação, pude ver alguns nomes e entre eles estavam Odin, Barão Samedi, Ganesh, Zao Shen e Baldur.
– Se acalmem, senhores! – Kali pediu e os outros ficaram quietos – O que você pensa que está fazendo, Gabriel? – Ela pronunciou seu nome de forma rude.
– Visitinha! Colocar o papo em dia! – Ele foi andando daquela forma despreocupada, acenou para um senhor que usava uma jaqueta com gola recoberta por lã – E aí, Odin? – Depois se voltou para um homem de feições asiáticas – Zao Shen, como vai a tartaruga?
– Onde nós fomos nos meter? – Falei entre dentes – Eles vão acabar com a gente.
– Não duvido nada... – Dean concordou.
– Não temos nada para conversar com você! Então é melhor você pegar seus bichinhos de estim... – Kali parou de falar quando pôs os olhos em mim – Tirem essa criatura daqui! Agora!
– O quê? Eu? – Dei um passo para trás.
Castiel me puxou para trás e se colocou na minha frente, com sua espada angelical a postos e olhos brilhando.
– Se afastem... – Ele falou com a voz baixa.
– Ei! Calminha aí, meus amigos! – Gabriel pediu – Kali, qual o problema com a ruiva?
– Você sabe exatamente qual o problema dela! É a casca Dele! – Kali praticamente rosnou para o arcanjo.
– Sim, ela é... Mas não se preocupe, Deus está sumido e ninguém aqui corre risco algum... Só queremos algumas informações.
– Que tipo de informação? – Baldur se pronunciou pela primeira vez.
– Sobre Caim.
Todos na mesa se viraram abruptamente para o Gabriel, ninguém disse uma palavra.
– Pauta interessante para a reunião... Fiquei curiosa. – Kali sentou-se em sua cadeira – Mas tire os humanos daqui, essa ruiva está me dando nos nervos... O anjo fica! Não quero surpresas.
– Como assim o anjo fica? – Levei minhas mãos à cintura.
– Meghan... O que está fazendo? – Sam tentou me puxar pelo braço.
– É o seguinte, moça. – Dei um passo à frente – Acho bom a senhora manter suas mãos longes do meu anjo... Todas elas! Ou eu mesma irei decepá-las!
– Meghan, queridinha! – Gabriel me empurrou para fora do salão – Ninguém vai tocar no Castiel, eu prometo.
Os Winchesters também saíram e logo a porta foi trancada, não conseguíamos ouvir nada que viesse lá de dentro.
– Bom, vamos aproveitar e tirar a galera do freezer. – Dean olhou ao redor – Por aqui.
– Dá pra acreditar naquela lá? Se achando a poderosa? – Fui resmungando o caminho todo – Ela vai ver só, vou arrancar aquela língua enorme dela!
– Meghan, quieta! – Sam me repreendeu.
Nós entramos na cozinha, havia algumas panelas no fogo e, graças a Deus, estavam tampadas, não queria nem imaginar o que tinha ali. Dean localizou o freezer e lá dentro as pessoas gritavam desesperadas.
– Calma, já vamos tirá-los daí. – Ele tentou puxar a alavanca, mas estava emperrada.
As pessoas lá dentro esmurravam a porta e a empurravam de todo jeito.
– Sam, você não tem algo para abrir? – Perguntei.
O Winchester mais novo pegou sua carteira e tirou algumas hastes de metal para tentar destrancar a porta, depois de alguns cliques, ele finalmente conseguiu puxar a alavanca. Então a porta foi empurrada com força, atingindo a testa dele e o derrubando para trás.
– Ah! Consegui! – Uma mulher saltou para fora do freezer comemorando.
Sam resmungou de dor, levando sua mão para a testa onde escorria um filete de sangue. As pessoas saíram desesperadas, Dean tentou acalmá-los e pediu para que fizessem o máximo de silêncio que ele os tiraria dali. Ele levou a multidão para fora da cozinha.
Ajudei o Sam a se levantar, ele tirou um lenço da jaqueta e pressionou onde havia cortado.
– Alguém anotou a placa do que me atropelou? – Ele me perguntou.
– Ah, me desculpe! – A mulher que tinha aberto a porta e o atingido ainda estava ali e veio até nós – Eu não vi que você estava lá.
– O que ainda está fazendo aqui? – Me virei para ela – Precisa sair logo!
– Desculpa aí, ruiva... Mas eu tenho trabalho a fazer aqui. – Ela cruzou os braços.
– É caçadora?
– Oh! Vocês também são? – Ela abriu um largo sorriso – Meu nome é Audrey. – Ela estendeu as mãos e eu a cumprimentei. Ela era bem simpática, tinha cabelos castanhos e lisos, olhos verdes bem expressivos e era quase tão alta quanto eu.
– Sim, nós somos... Sou a Meghan...
– E você aí, grandão? Tem um nome? – Ela repetiu o gesto para Sam, ele hesitou um pouco, mas também retribuiu o cumprimento.
– Sam.
– Então, Meghan e Sam, eu soube que as pessoas estavam sumindo ao pegarem essa estrada e decidi vim investigar – Ela olhou ao redor -, parecia o meu tipo de problema, mas para minha surpresa, quando eu cheguei aqui, o recepcionista me apagou!
– E quando acordou, estava no freezer... – Deduzi.
– Sim, não faço idéia do que me atingiu... Mas creio que está se alimentando de pessoas.
– Ok, não sei o quanto você viu desse mundo, há quanto tempo é caçadora... – Sam começou a falar – Mas nós estamos lidando com Deuses aqui, eles são extremamente perigosos e algo me diz que ficarão ainda mais irritados quando notarem que soltamos as pessoas.
– Ah! Achei que vocês não sabiam dos Deuses, estava com um pouco de preguiça de explicar... Mas vejo que são bem informados. Devem ter passado por muita coisa...
– Você nem imaginaria, agora pode sair daqui e nós cuidamos do resto. – Eu indiquei a saída.
– Não vai rolar, eu sou uma caçadora de Deuses, não sairei daqui até terminar meu trabalho. – Audrey remexeu nas panelas – Eles tiraram a estaca de mim, tem que estar em algum lugar.
– Caçadora de Deuses? Você caça uma criatura específica?
– Pode-se dizer que sim. – Ela deu de ombros – Eu gosto deles e gosto ainda mais de matá-los.
– Tudo certo, já tirei todos daqui! – Dean voltou para a cozinha e deu de cara com a Audrey – Quem é essa?
– Dean, essa é a Audrey, caçadora de Deuses. Audrey, esse é o Dean, meu irmão. – Sam apresentou um ao outro.
– Então a beleza é de família... – Ela olhou o loiro de cima a baixo e assentiu em aprovação.
– Gostei dela, inteligente! — Dean sorriu – Mas como assim é Caçadora de Deuses?
– Eu tenho um tipo de fixação com as divindades. – Audrey explicou e voltou a procurar sua estaca pelos armários.
– Olha só, nós realmente não podemos te deixar matar esses Deuses, nós precisamos dele. – Sam foi até ela.
– Ela é pirada... – Dean sussurrou para mim e eu concordei.
Naquele instante, Castiel surgiu no meio da cozinha, o barulho de suas asas batendo acabou assustando a Audrey e ela deu um salto para trás, se apoiando no balcão.
– Minha nossa! Que susto... É um deles... – Ela levou a mão ao coração e em seguida estreitou os olhos em direção ao anjo.
– Não, ele não é. – Sam a explicou – Esse é o Castiel, ele é... Um anjo.
– O que houve, Cass? – Fui até ele.
– Já temos a informação sobre Caim... – Ele respondeu olhando a “estranha” um tanto confuso.
– Espera, para! – Audrey pediu – Anjo? Caim?
– É complicado de explicar... – Eu falei.
– Oh meu Deus! Sam e Dean! Vocês são os Winchesters! – Ela ficou olhando de um para outro. Então, sem que ninguém esperasse, ela deu um tapa na cara do Sam – Isso é por trazer Lúcifer e o Apocalipse!
– Mas fazem anos! – Ele reclamou, com a mão sobre o lugar que ela tinha estapeado.
– O tempo passou e não deixou de ser burrice!
– Tá bom! Cass, cadê o Gabriel? – Me voltei para o anjo.
– Ele está distraindo os outros, temos que sair daqui antes que descubram que vocês soltaram os humanos.
– Já estamos saindo! – Dean anunciou e saiu na frente, seguido por Sam e Audrey.
– Aquele projeto de polvo não se insinuou para você, certo? – Puxei Castiel pelo ombro e perguntei.
– Não, Meghan. – Ele revirou os olhos – Ela estava ocupada prestando mais atenção no Gabriel.
– Ótimo. – Eu dei um sorriso e ele continuou sério – Tá na cara que precisamos conversar.
– Está? Eu não lembro de ter colocado nada no meu rosto... – Castiel tocou o próprio rosto à procura de algo, aquilo me fez rir.
– Não, Cass... É uma expressão! – Eu segurei sua mão – Vamos sair logo daqui.
Quando chegamos do lado de fora do Hotel, Sam e Dean conversavam com Audrey encostados em um Ford Fusion preto. Olhei ao redor procurando pelo Arcanjo, mas não vi nem um sinal dele.
– Gabriel nos encontrará na estrada. – Castiel me falou, como se soubesse o que eu estava pensando.
– Então... – Audrey puxou a mão do Sam e anotou algo lá – Esse é meu número, caso precisem de ajuda com os mocinhos lá de dentro. – Ela apontou o hotel – Ou se apenas quiser conversar... Ah! E desculpe pela sua testa e pelo tapa.
– O-Obrigado. – Sam gaguejou um pouco ao respondê-la.
Naquele momentinho uma nova faísca se acendeu no meu cérebro... Eu não sabia ficar calada.
– Ele vai ligar sim, pode deixar! – Fui até os três – Foi bom te conhecer, Audrey! Tenho certeza que ainda nos encontraremos por aí.
– Ah, obrigada! Também adorei conhecer vocês! Os famosos Winchesters... Achei que o Dean fosse mais alto pelo o que ouvi falar... E que o Sam fosse menos... Bonitão. – Ela sorriu para os dois – Como são as coisas, não? Agora tenho que ir! – Ela entrou no carro e acenou para o Cass – Bom te conhecer também, anjinho!
Os dois irmãos olharam para o carro que logo sumiu na estrada com feições surpresas, um tanto confusas e levemente assustadas.
– Ela é louca! – Dean falou com convicção.
– E gostou do Sam... – Dei uma cotovelada no Alce.
– O quê? – O irmão mais novo se virou para mim.
– Perfeito! Assim ela me deixa em paz em relação à loirinha! – Dean se virou e seguiu para o Impala.
– Não mesmo! – Eu ri o acompanhando.
Nós entramos no carro e pegamos a estrada, como eu disse, não sabia ficar calada e fui o caminho todo importunando os irmãos sobre as meninas. Eles estavam sozinhos há tanto tempo e até determinada época, eu entenderia e apoiaria isso... Mas depois do Cass, passei a ver as coisas por uma perspectiva diferente e comecei a acreditar que sim, era possível ter um relacionamento sério naquela vida.
– Meghan! Cale a boca, só um pouquinho! – Dean me pediu.
– Tudo bem, não falarei mais nada... Só na hora de dizer “eu sabia”. – Cruzei meus braços e me recostei no banco.
Depois de algumas horas de estrada, Gabriel surgiu no carro, no meio do banco traseiro.
– Cheguei. – Ele anunciou.
– Que demora foi essa? – Dean perguntou.
– Eu tive que me esforçar para distrair a Kali. – Ele ergueu as sobrancelhas de forma divertida.
– Claro que teve... – Balancei a cabeça negativamente — Agora vamos ao que interessa, o Cass ainda não me disse a informação que conseguiram.
– Você não calou a boca e me deixou falar! – Castiel se defendeu.
– Ah sim! Vocês não vão acreditar... O homem virou apicultor e agora mora em uma fazenda afastada da sociedade, a qual nós temos a localização exata. – Gabriel tirou uma taça de sundae de dentro da jaqueta, não sei como.
– E nós vamos lá? – Sam questionou.
– Claro, nos prepararemos para isso. – Eu respondi antes que alguém abrisse a boca para destruir o meu plano de encontrar Caim.
Pela primeira vez, eu estava ansiosa e com medo do que estava por vir. Precisava de Caim, mas ele iria se dispor a nos ajudar? Na verdade, era o mínimo que ele devia fazer, uma vez que seu trabalho de acabar com os Cavaleiros do Inferno falhou... O que me preocupava seriamente eram as consequências da minha ousadia.
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