Eyes

1 Primeira vista


Notas iniciais
Como você pode ver, o capítulo foi dividido em duas partes. Uma delas é um flashback. Alguns capítulos serão assim, até um acontecimento importante. Boa leitura!

Nova Iorque, 31 de Outubro de 1999. Noite de Halloween. Acompanhei Gael, meu colega de classe, até o local onde residia um de seus amigos da família rica. Em uma cobertura em Manhattan, acontecia uma bagunçada festa, com a música alta que eu sempre odiei e as luzes escuras que te impossibilitam de reconhecer os rostos ao seu redor, mas que também te fazem sentir mais confortável por não te excluir do efeito de ficar invisível. Me perdi de Gael nos primeiros cinco minutos desde o momento em que colocamos os pés no lugar.

Apenas me sentei no primeiro espaço de sofá que encontrei e abri minha garrafa de cerveja. Enquanto um casal se agarrava há um palmo de distância de minha pessoa, busquei a distração mais idiota possível. Observei a decoração da festa. Morcegos, teias de aranha, abóboras risonhas e véus pretos transparentes que pendiam do teto e caiam sobre todos os lugares. Os convidados, em sua parte masculina, não estavam mais fantasiados do que com uma mascara, um chapéu ou um colar bobo. As mulheres trajavam quase roupa nenhuma, transitando de cômodo para cômodo apenas de lingerie como se estivessem em suas próprias casas. Gael me dissera que o dono da festa contratara esse monte de modelos para fazer a alegria dos rapazes com a regra dessa fantasia igual. Algumas delas chegavam a ser assustadoras, para ser sincero, com couro, algemas e chicotes.

Lá pela terceira garrafa de bebida, senti a coragem necessária para explorar mais aquele lugar. Dirigi-me para onde uma comprida escada revelava um segundo andar. E havia ainda mais uma escada, com uma porta entreaberta por onde podia-se espiar o céu da noite. Eu a subi depressa. A vista era desnorteante, uma sacada fantástica. Parecia uma cena de filme. Todas as incontáveis luzes brilhando abaixo de nós, enquanto trocávamos o primeiro olhar. Sim, nós. Sozinha ali, como uma criança perdida que sabia exatamente qual era seu lugar, uma garota estava sentada no parapeito da sacada, sem se importar com os metros de altura que poderiam dragá-la para baixo com o mínimo deslize. Ela se levantou quando me notou, o corpo apoiado em uma pilastra. Meu coração martelou como um gongo, com medo e pouca fé no salto alto que sustentava o seu corpo lindo e franzino. Assim como as outras, ela não trajava nada além de uma lingerie de estampa de onça, com um corselet preto envolto na cintura. Uma máscara de mesma cor cobria boa parte do rosto, mas os olhos mais bonitos que eu já tivera o privilégio de observar estavam bem visíveis, presos em minha pobre e desajeitada figura.

— Conhece a história do Phasianidae? — uma voz suave e delicada escapou-lhe os lábios. Apenas fiz que não com a cabeça. — É um pássaro que experimenta tudo em um só instante. Ela canta um canto de amor, ódio, medo, alegria e tristeza, tudo de uma vez. — Ela se agachou de novo, o corpo virado em minha direção, de costas para a cidade que brilhava apenas para ela. — E essa ave… Quando encontra o amor da sua vida… Fica feliz, e também triste. Feliz porque ela vê que é só o começo. E triste… Porque ela sabe que isso já tem um fim.

O vento frio brincando com seus cabelos loiros claríssimos, um minúsculo sorriso desenhado em seus lábios cujo sabor eu descobriria em breve.

— Desça daí. Venha até aqui.

Ela não disse nada. Continuou a me encarar com aqueles olhos hipnóticos, azuis e verdes, cheios de um poder e magnetismo que pareciam querer me sugar para dentro daquele universo. Pareciam conhecer os meus. Pareciam conhecer-me profundamente. Poderia dizer que os olhos daquela mulher estavam chamando pela minha alma, se eu acreditasse possuir uma. Eu precisava capturá-los, e instintivamente minhas mãos buscaram pela câmera pendendo abaixo do meu pescoço. Nem tinha percebido o quanto já havia sido atraído para perto dela.

— Posso… Tirar uma foto dos seus olhos?

— Pode.

A loira se inclinou perigosamente em minha direção, seus olhos focando a câmera que, eu tinha certeza, estava imensamente feliz pela oportunidade de capturar aquela beleza. Uma foto do olho esquerdo, outra do olho direito.

Em um segundo, ela pulou para dentro da varanda, puxando-me pela mão. Não sei explicar como minhas pernas se moveram, mas eu já estava com ela no quarto quando me dei por mim. Ela tirou a câmera do meu pescoço. Me beijou. Se inclinou sobre mim enquanto eu estava incrédulo demais para me mover. Veja bem, sou um homem bonito. Sempre fui. Não estou sendo egocêntrico e sim honesto. Há poucos meses atrás, ainda fazia bicos como modelo fotográfico. Mas ultimamente estou mergulhado e completamente submerso no meu adorado trabalho. Oh, sinto muito pela falta de educação. Sete parágrafos, e nenhuma apresentação. Bem, nesta cena que lhes narro, eu era o jovem Jake Saunders. Ainda sem o “doutor”. Um estudante de biologia, brilhante, diziam meus professores, em meus vinte e dois anos, e com um grande projeto em fase inicial. Mas vamos deixar para especificações durante os próximos capítulos que lhe trará os dezesseis amargos anos onde desenvolvi esse gigantesco projeto. Vamos voltar à ela. A misteriosa garota loira, com o par de olhos mais fantásticos do mundo inteiro.

Continuava a perguntar-lhe o nome, mas a moça não parava. Ela só prosseguia, e continuava prosseguindo. Nós não nos conhecíamos nem a vinte minutos, e eu já me sentia como um adolescente apaixonado e bobo, e não queria seguir pelo caminho ao qual ela estava me levando. Queria conhecê-la, saber quem era, se eu a veria de novo depois daquilo.

— Espera. Você não vai se arrepender? — Perguntei.

Subitamente, ela parou. Eu não entendi porquê, mas havia certa tristeza em seus olhos naturalmente tristes, com o aspecto de uma criança inocente e adorável. Não era a forma natural de seu olhar, aquela com a qual ela me atingia agora. A moça ficou realmente desapontada, e correu para fora do quarto ignorando meus gritos de protesto. Cheguei na calçada diante do edifício bem no momento em que seu táxi estava dando a partida. Para longe de mim.

* * *

Não dormi mais do que uma hora e meia. Pronto o suficiente, sentei-me na cama e suspirei. Senti-me um completo idiota por perceber as mãos trêmulas e as palmas suadas com a expectativa. Olho no relógio de pulso, ponteiros indicando exatas onze e vinte quatro da manhã. Minha acompanhante, Erin, já está me esperando no saguão. Mas estou com medo. Estou com medo do que vou encontrar, com o que vou me encontrar. De repente, o cientista fugiu das minhas mãos. Tudo o que consigo ver no espelho é uma versão mais velha do mesmo garoto de vinte e dois anos devastado por uma dor incalculável. Tenho que lutar muito para me encontrar novamente, então pego minha bolsa e minha câmera, e deixo o frio e solitário quarto com a mesma expressão de sempre: Nenhuma.

Quando vejo Erin, comprimento com um aperto de mão. Durante nosso caminho, dentro do táxi, descubro que ela é uma mulher simpática, mas um pouco irritante. Costuma falar muito mais do que deveria. Quando me perguntou se eu era religioso, apenas ri. Erin conhece a história completa: O porque deixei Nova Iorque e vim parar em Melbourne, na Austrália. Atrás de um par de olhos. Atrás de respostas. Atrás de Mia Wust. Não posso sentir nada além de gratidão por Erin, já que fora a responsável por encontrar essa garota que estou procurando.

Entrar nessa história significa revirar uma parte do meu passado com a qual não me sinto capaz de lidar. Mas Lucy insistiu, insistiu demais. E eu me rendi. Mesmo sabendo que este provavelmente seria meu fim. Todas as esperanças na veracidade, todas as esperanças na farsa. Não sei mais quem eu sou. Erin disse que a jovem Mia é órfã — a mãe sucumbiu à uma doença quando ela tinha dois anos, o pai morrera recentemente em um acidente na estrada. Vive num centro comunitário, numa cidadezinha isolada nos arredores de Melbourne. Quando eu lhe mostrei a foto dos olhos de Aime, ela assentiu entusiasmada.

— São os olhos dela. Mas não são os olhos dela.

De alguma forma, eu a entendi. Porque eu estava prestes a ver por mim mesmo.