Eyes
4 Eu conheço você?
Notas iniciais
Nós voltamos para o café. O garoto do balcão estava lá, e pareceu feliz por mim. Não fez nenhum comentário desconfortável, como eu temia que faria. Apenas saudou Aime, que se mostrara uma dessas pessoas extrovertidas e diferentes de mim, parecendo realmente interessada enquanto perguntava sobre os outros funcionários aos quais eu não dava muita atenção. Nós procuramos um lugar longe do balcão, junto com as outras mesas. Eu estava com meu caderno e minha caneta, e ela com seu capuchino e um pedaço de torta de morango. Agora, o céu não estava mais nublado. Alguns raios do pouco sol que encontrara espaço entre as nuvens iluminava seu cabelo dourado. Ela havia retirado o capuz, arrumado os cabelos para mais uma foto que pedi. Não apenas dos olhos. Uma foto normal, de uma bela garota. Eu lhe disse que fazia parte da pesquisa. Era só uma desculpa e, no fundo, eu sabia que ela sabia. Essa era a parte engraçada.
—- De onde você é?
—- De tantos lugares. Não sei dizer.
—- Que lugares?
—- Nasci na Argentina, e com onze anos de idade me mudei para a França. Com a minha avó.
—- E os seus pais?
Ela rolou os olhos, terminou de engolir a torta.
—- Próxima.
—- O que você faz?
—- Próxima —- Repetiu, com uma pontada de tédio.
Respirei fundo, um pouco frustrado. Então cuspi:
—- Por que quis ficar comigo naquela noite?
—- Falta de juízo —- Respondeu sem hesitar. Ri um pouco. —- Fiquei sozinha durante muito tempo —- Ela pareceu um pouco triste. Sua expressão se converteu rapidamente para algo como uma profunda indagação. —- E quando eu te vi naquela noite, tive a sensação de que já te conhecia. Na verdade… Eu senti que você me conhecia.
Estou imergido nos olhos dela de novo. Não consigo olhar para outro lugar.
—- Como assim?
—- Como se fossemos conectados de outras vidas.
—- Eu não acredito nisso —- Falei, seco.
—- No que você acredita?
—- Sou um cientista, acredito em dados.
—- Cientista? —- Aime pareceu empolgada. Eu podia enxergar um brilho novo em seus olhos sempre que isso acontecia. —- Que tipo de cientista?
—- Biologia molecular. Sou fascinado pelo olho.
—- Por que os olhos?
—- O olho é o ponto crítico que as pessoas religiosas usam para desacreditar a evolução. Usam como prova de um designer inteligente.
—- Designer inteligente?
—- Deus. Eu quero acabar com o debate de uma vez por todas. Mostrar dados de cada estágio da evolução do olho.
—- Por que colocar tanto esforço pra contestar Deus?
—- Contestar? E quem foi que atestou que Deus existe?
Ela apenas sorriu e balançou a cabeça para os lados, como se eu fosse um idiota.
Naquela noite, Aime estava comigo na cama. Estava deitada de bruços, as pernas indo e voltando no ar. Eu estava escrevendo suas respostas à minhas perguntas. Foram muitas. Nunca na vida eu pensei que as usaria para o fim de uma pesquisa cientifica. Naquele momento, eu só estava tentando descobrir tudo sobre a garota que eu amava. Eu deveria ter dito à ela mais vezes. Que eu a amava, quero dizer.
***
Erin não estava mais lá. Eram apenas eu e Mia agora. Ela parecia menor dentro do meu casaco surrado. Em certo ponto da viagem, sua mão se aproximou de mim, e seus dedos cuidadosamente arrumaram os óculos tortos no meu rosto. Sorri. A garota havia acabado de acordar de um cochilo. Eu realmente não sei se ela estava dormindo, na realidade. Como também não sei se era o que estava fazendo quando a encontrei deitada no jardim. Acho que Mia só gosta de fechar os olhos e se desligar, de alguma forma. Consigo finalmente sentir verdadeira empatia por ela, sem ligá-la à Aime. Como uma garota órfã, que parece tão cheia de medo mas, ao mesmo tempo, pronta para ter coragem. Sua expressão se fechou um pouco, quando eu lhe contei que os testes teriam de ocorrer no hotel em Melbourne. Senti sua mão tocando meu braço, enquanto caminhávamos até o carro. Ela não ergueu os olhos para o motorista do táxi e nem respondeu quando Erin se despediu. Mas ela parece enxergar em mim alguma coisa que ela almeja, e fico feliz por ver sua confiança demonstrada nesses pequenos gestos.
Chegamos ao hotel. Ofereço a minha mão, e Mia segura. Seus olhos correm por toda a estrutura do prédio, até o céu. Seus lábios estão separados. Sei que esta tentando, mas ela não consegue agir de forma natural. Cada pequeno detalhe luxuoso perto de sua antiga vida chama sua atenção, e ela admira cada uma dessas coisas. Vejo o evangelista de pé esperando pelo elevador no saguão, rolo os olhos, e puxo a jovem garota na direção das escadas. Estamos no terceiro andar, de qualquer modo. Abro a porta, e deixo que Mia entre primeiro. Ela parece um pouco desconfortável, mas, depois de perceber que eu não a estou olhando muito, o ambiente parece finalmente estar começando a ser aceito. Nós nos sentamos na mesa, de frente para o notebook.
Mia está rindo divertindo-se com o conceito de chamada por vídeo que eu havia acabado de explicar, quando uma Lucy perplexa surge na tela. Seus olhos, antes sonolentos, estão mais abertos do que nunca. Eu sei o que minha mulher está pensando. "Fantástico, impossível, inacreditável." Mesmo os olhos do meu filho, azuis, não eram exatamente iguais aos olhos do fazendeiro, que eram castanhos. Sua estrutura era a mesma, mas não sua cor. É diferente com Mia e Aime. As cores são exatamente, perfeitamente iguais.
Mia está olhando para a imagem de Lucy, e acena quando eu digo para dar um “oi”. Volto a câmera para mim, retirando os papéis da bolsa. Era hora de começar o teste. Peço à Lucy uma palavra para cada letra inicial do nome de Mia.
—- M de Minha nossa. I de Impossível. A de Além da vida.
Espremo os lábios, e olho para a menina confusa ao meu lado.
—- Certo, Mia. É algo bem simples. Eu vou te mostrar uma folha, com três imagens. E você terá de escolher uma delas. Bem simples, não é?
Lentamente, ela assentiu.
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