Extraterrestres -interativa

16 A Garota de Cabelos Cor de Rosa


Nate Booms

Eu já estava chegando em Indianapolis, no estado de Indiana, quando a gasolina da minha moto preta acabou de vez. Graças á algum milagre do santo Deus, foi bem em frente ao posto de gasolina. Só havia um pequeno problema: Eu não tinha nem um centavo no bolso. Isso me deixava com duas opções: Primeira, eu poderia ficar ali na cidade, me entregando de bandeja para os homens de terno. Segunda, eu tentaria roubar um veículo, de preferência uma moto. E o pior de tudo é que eu não estava disposto á realizar nenhuma das duas, pois ambas eram horríveis.

Fiquei um tempo parado em frente ao posto de gasolina, pensando veementemente em outra saída que não fosse roubar. Achava aquilo tão desonesto, desprezível, as pessoas poderiam investir a mesma energia que investem roubando tentando trabalhar, ou estudar. Mas lá estava eu, prestes á cometer o ato que eu sempre desprezei, para conseguir manter a minha família a salvo.

Pensei se algum ladrão tenha um bom motivo para roubar. Proteger a família, não ter condições de estudar, ser obrigado por outra pessoa á fazê-lo, só conhecer esse tipo de coisa. Não, não deviam ter nenhum motivo razoável para justificar tirar coisas de pessoas que os tem por direito, de bem com a vida.

Fitei por um momento a Lua, que iluminava com leveza o céu escuro com o seu brilho branco prateado, fonte de milhares de poemas e histórias. Eu vinha dirigindo desde Chicago até ali sem parar, nas únicas vezes em que eu sequer pensava em desacelerar um pouco, imaginava uma multidão enorme de homens de terno preto me seguindo, e aí aumentava a força do meu pé contra o acelerador. No entanto, agora não dava mais para pisar fundo e deixar poeira para trás. Eu tinha que tomar uma decisão, entre agir ou não. E bem rápido, pois eu não sabia de onde podiam surgir aqueles homens, ou se eles vinham me seguindo disfarçados, me observando. Acredite em mim, é assustador pensar que podem haver olhos fixos em você, mesmo que não consiga vê-los. Me deixava nervoso, tentava á todo o tempo me convencer de que aquilo era coisa que a minha cabeça inventara. Obviamente que eu não acreditava nisso.

Passei meus olhos pela calçada, como se eles buscassem uma lâmpada mágica, em que me realizasse três desejos ou qualquer coisa impossível desse gênero. Entretanto, somente encontrei uma embalagem de Ruffles de cebola e salsa vazia e amassada, um cigarro meio consumido e a tampa de uma garrafa de cerveja. Aquilo não melhorou o meu ânimo.

Olhei para o posto de gasolina mais uma vez e andei até lá, empurrando a moto ao meu lado silenciosamente, meus passos não faziam barulho algum sem esforço. Percebi que uma garota fazia o mesmo que eu, um pouco mais á frente. Como eu não percebera ela passando por mim? Não faço ideia, estava muito distraído mesmo, envolto em meus próprios pensamentos para perceber qualquer coisa no mundo real, que eu nem mais reconhecia.

Á menos de vinte e quatro horas, a minha realidade era ir ao cinema ver algum filme, ir para a escola ver se eu enfiava alguma matéria na minha cabeça, receber o mesmo suéter amarelo e azul escuro da minha avó* no Natal, tentar de alguma maneira vencer o meu tio no xadrez, que eu reaprendia todo dia de Ação de Graças, ouvir a mesma ladainha da minha mãe na Páscoa de que era melhor não dar chocolate para ela pois estava ficando gorda. Meus maiores problemas eram arranjar uma maneira de deixar o meu quarto um pouco apresentável, tentar fazer com que o Connor se declarasse para a Samantha, uma colega de classe que ele gostava á anos, descobrir um modo gentil e educado de dizer para o meu avô que o peru assado que ele fazia era uma droga.

Aquilo tudo me parecia tão bobo e superficial, como se nem fossem problemas de verdade. E não eram. Eu daria de tudo para voltar á vida costumeira em que eu tinha, para que o vôo para Roma tivesse sido mais cedo, antes do homem de terno chegar, assim eu passaria as minhas férias tranquilamente olhando ruínas que eu não entendia, mas que fascinavam os meus pais. O entediante, o mónoto, me parecia tão agrádavel agora. Como o abraço acolhedor de uma mãe após uma longa e desgastaste viagem, como o cheiro de livro novo. Pela primeira vez, quis poder ficar sentado em uma cadeira em um avião, tentando superar pela milésima vez o meu medo terrível, mas nunca conseguindo.

Voltei para o presente, e me aproximei ainda mais do posto, onde agora eu conseguia ver a mesma menina de frente a um homem enorme de macacão cinza sujo de graxa. Pude ver bem ela na luz da lâmpada fraca pela primeira vez.

Seus cabelos cor de rosa da raíz ás pontas estavam duros, como se ela tivesse se banhado no mar e não houvesse lavado eles ainda, caindo pelas suas costas, sua estrutura era baixa e magra, a pele branca como a neve (isso está me lembrando alguma coisa), e os olhos de um azul bem escuro, suas sobrancelhas negras e finas despenteadas próximas aos olhos.

Ela não dizia nada, e eu pude perceber pelo meu dom que ela estava bastante concentrada em alguma coisa. Mas o que seria? De repente, os olhos do homem ficaram enevoados, e ele começou a se mover como um robô, colocando gasolina na moto prateada da desconhecida. Olhei para ela surpreso. Era só ligar os pontos, e...

-Como você fez isso? -Perguntei, e ela deu um gritinho, se virando para mim, surpresa.

-Isso... Isso o quê? Eu não fiz nada. Nada mesmo. -Ela gaguejou, se entregando. Primeira regra para mentir bem: Não repita a mesma coisa três vezes.

-Tudo bem, eu sou que nem você. Consigo sentir as emoções das pessoas. Os homens de terno também foram atrás de você, não é? -Perguntei, e ela assentiu, já se recuperando do choque. -Quer vir comigo procurar outros como nós?

-Beleza. -Ela sorriu, seus olhos agora brilhavam. -Mando ele encher a sua moto também? -Ela questionou, e eu dei de ombros. -Aliás, sou Jacke. E você?

-Nate. -Sorri e ela apertou a minha mão firmemente, ao contrário do que eu havia esperado.

Eu tinha a impressão de que existia mais do que apenas um de nós por aí. Quem sabe?

Teria que esperar para ver. Mas por enquanto, era hora de continuarmos a viagem.

Notas finais
*Inspiração na Sra. Weasley.