Extras - A Revolução
3 Quarto
“E a criação olhou ao infinito e disse: ‘Eis que o fim se aproxima’, e os céus se fecharam, a terra tremeu e os mares se secaram”.
Anos depois, fim do quinto ciclo.
Aiden não era mais um simples garoto. Com os Extras, ele cresceu e se tornou forte. Forte o bastante para se tornar um grande líder, e assim se sucedeu. Dentre todos os líderes que os Extras já tiveram, Aiden era um dos mais engenhosos. Era muito inteligente, forte e tinha uma poderosa essência, Fúria. Com essas e outras qualidades, Aiden guiou os Extras para algumas vitórias, mas para muitas derrotas. Os planos de Aiden eram astutos, mas exigiam sacrifícios. Os Extras, que até então ocupavam todo o globo, agora só dominavam três grandes países, os Estados Unidos da América, o Japão, e a Inglaterra. O foco acabou dando aos Extras o controle quase que total dessas potências, e Aiden afirmava que somente essas três eram o suficiente para vencer a guerra. Existiam aqueles que duvidavam.
Já se passavam horas desde que Aiden se fechou em sua sala, colado em sua poltrona. A sede Extra se situava em um grande prédio no centro de Londres; ali destruições em massa eram planejadas, guerras eram tramadas e conspirações definhadas. Mas para quem passava pelo lado de fora, era simplesmente um prédio de setenta e dois andares feito quase completamente de vidro reflexivo, onde uma empreendedora cuidava de seus negócios. Mal imaginavam os humanos que sua destruição estava situada ali, e que passavam por baixo dela todos os dias, em suas vidas atarefadas e caminhos corridos para o trabalho. E ali no meio, no andar 49 estava a sala de Aiden. Único andar que não tinha vidraças, mas sim grossas paredes de concreto, reforçadas, e a prova de som.
E Aiden estava ali, afundado em sua poltrona, com os cotovelos sobre a mesa e com as mãos traçadas em frente a sua boca. Pensativo, os olhos fechados os ajudavam a se concentrar em suas memórias, mais especificamente no dia em que conhecera toda a verdade sobre os Extras, o dia que mudou toda a sua vida. Mas ele não conseguia se lembrar. Não conseguia se lembrar do que aconteceu depois. Depois que levou aquele golpe na cabeça. Pra onde foi? O que viu? Aquelas perguntas sempre batiam em sua mente. O que aconteceu ali? Somente se lembrava de ser treinado pelos Extras, de quando já havia se tornado um deles. Mas e o resto?
Estava claro que Aiden não se lembraria naquele momento, já que fora interrompido com o barulho da sua porta se abrindo e passos apressados e pesados andando em direção à sua mesa, que ficava distanciada em alguns metros. A luz vinda de fora agora iluminava a sala, que até então estava completamente escurecida. A luz não se refletiu muito, já que todas as paredes eram pintadas da cor mais negra já criada. Não havia muitos móveis espalhados pelo cômodo, que tinha uma mesa no centro, uma grande poltrona e algumas plantas artificiais nos encontros nas paredes. A falta de cadeiras adjacentes mostrava que o anfitrião não gostava de receber muitas visitas. O homem se aproximava cada vez mais da mesa central, mas quase se assustou ao ver que não havia ninguém sentado na grande poltrona, o deixando calado por alguns instantes. O silêncio foi então quebrado com o som da porta se frechando lentamente, erradicando totalmente a iluminação ali dentro.
— Eu realmente queria que você não fizesse mais isso Jamie. – dizia uma voz provinda da direção da porta
— E eu queria que você parasse de me chamar assim, mas parece que nenhum dos dois terá o que deseja Aiden.
James era um velho amigo de Aiden. Conheceram-se na concentração de treinamento dos jovens, esquadrão trinta e nove, responsável pelo treino de novos recrutas, futuros soldados Extras.
— Eu estava ocupado. – a voz agora vinha da direção oposta, da mesa, na frente do visitante, mesmo ele não tendo ouvido nenhum som de passos ao seu redor.
— Sabe que não conseguirá se lembrar de nada. Ninguém consegue. Um dia somos recrutados e no outro estamos aqui dentro. É assim com todos. Contente-se.
— Enfim, o que veio fazer aqui? Tenho certeza que não veio somente para amolar a língua com conversa fiada.
— De fato. – agora se ouviam sons de alguns papéis de mexendo nas mãos do visitante – Seria melhor com um pouco de luz. Você sabe, só pra poder enxergar um pouco.
Aiden somente mantinha o silêncio
— Tudo bem então, vai no escuro mesmo. Não consigo ler onde é a localização exata, mas nós o encontramos. Está em um pasto de ovelhas, aqui mesmo na Inglaterra.
— Aqui?
— Sim, temo que ele foi rastreado por que queria isso. Pode ser uma armadilha.
— Ele é esperto demais pra isso. Reúna um piloto e uma pequena equipe, partimos em duas horas. Se ele realmente quer ser rastreado não irá sair do lugar, não se necessita pressa.
James acena positivamente com a cabeça, mas depois, em um gesto discreto, balança aleatoriamente seus olhos, já que sabia que Aiden não havia visto seu sinal de confirmação. Ele vira as costas e segue até a porta, fazendo com que um feixe de luz iluminasse a poltrona de Aiden por alguns segundos: ela estava vazia.
Agora em pé em um canto, Aiden refletia em seus pensamentos novamente, com seus olhos fechados e a cabeça inclinada em trinta graus para cima, Aiden voltava mais alguns anos em suas memórias. E se tivesse alguém ali além de Aiden, com alguma dificuldade poderia ouvir ele quase cochichar entre os lábios: ‘Lars, no que você se tornou?’
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