Extinção

9 Segundo Circulo



Segundo Circulo

Aqui estão os nove círculos cavados
nessa terra umedecida com lágrimas e sangue
de todos que não se ergueram, tiveram seus fins, aqui acorrentados.
Depois do erro de ir contra as regras de sempre,
aos que baniram as almas,
aos que deixaram as virtudes de lado
e com o desejo, as mãos ataram...
Apenas a terra para absorver seus restos, a vida que já não tinham.

A menina ouve os sons abafados que vão aumentando,
ela pensa “Eles estão chegando”.
Ela não sabe quem são eles, mas algo em seu intimo lhe diz não têm boas intenções.
Agora nada adiantava,
nada mudaria aquilo: nem os séculos que haviam passado, ou as novas invenções.
Por terra nada mais caminhava.
A terra treme e abre-se uma grande fenda a alguns centímetros do corpo da menina,
é um abismo sem fim como o que existe dentro de si.

O corvo pode ver a expressão de desespero na face que era sempre calma e sorridente.
Ele continuava com seus voos baixos, o mais próximo possível dela,
como se quem ronda uma possível presa, mas não era essa sua intenção...

A menina olha o nada,
sabia que não pertenceria a ninguém que não fosse ele,
seu pássaro de plumas negras e reluzentes olhos negros que mostravam o vazio que vinha de dentro.

Seres com crostas sobre o que deveria ser pele formam filas; lado a lado esperando
uma ordem, em ordem entre o caos que vinha de todos os lados.
“Que o corvo vele por sua menina” as almas submersas clamavam em coro.

O Corvo viu,
homens alados caindo por terra,
com asas quebradas, só lhes restava o calor da guerra.
Sem ter por quem clamar,
sem poder chorar...

Não havia motivos para se arrepender.

A menina arrastou-se para longe do precipício,
não queria cair, perder-se no mar de fogo e escuridão.
Seriam nove círculos de volta para casa, para o pássaro...

Os voos foram ficando cada vez mais baixos,
até que ele pousou deixando seus movimentos desajeitados tomarem conta de si.
Não foi criado para ficar em terra,
seus pés foram projetados para perfurar peles, para fazer sua presa sangrar,
Suas asas para alçar altos voos.

No ar era seu verdadeiro lugar?
Alguns animais podem adaptar-se, a vontade de existir faz isso:
Torna todos mais flexíveis aos ambientes e as situações,
todos sofremos adaptações, transformações.
Ele poderia adaptar-se aos climas,
podia encontrar os melhores lugares para caçar
ou penas encontrar algum animal que já fora abatido e deixado para apodrecer.
Seus olhos enxergam qualquer presa,
seus ossos, seu coro por baixo da plumagem;
foram criados ou adaptados para serem resistentes,
para aguentar qualquer disputa por um território ou uma presa.
Mas em terra, em terra tornava-se facilmente uma presa.

Para o corvo só restava abrir suas belas asas.
Mostrar o quanto podia ser forte,
mostrar que não podiam pensar que seria fácil.

A menina sorri, um sorriso triste, mas ainda sorri
ao ver que ele está lá, da mesma forma que ela esteve quando era criança,
quando cuidou de seu pássaro que ainda não sabia se defender,
que ninguém tinha esperança de que iria crescer.

Saber que não foi deixada era bom,
ela ficava mais segura, minimizava o desespero em seu peito.
Saber que podia ser responsável pela condenação dele não era nada bom,
aumentava seu desespero, seu medo agora é duplicado juntamente com o aperto no peito.

O segundo circulo se formou, era a culpa dentro de uma mulher.