Extinto
1 "Não existe mais"
Notas iniciais
— Que isso, hein, pretinha!
— Ô, uma morena dessa lá em casa!
— Ei, morena! Que delícia você! Psiu, morena! Olha, que metida… Ela não quer olhar. Essa nega tá se achando demais! Vai, macaca! Bem que o fulano falou: Pretas se acham…
Respirou.
Seguiu.
— Ah, mas você não é tão preta, sabe? Olha aqui, você é quase da minha cor.
— Morena clara…
— Mulata.
— Uma negra bonita.
— Beleza exótica, né?
— Ela tem traços finos.
— Nem toda preta é bonita assim.
— Pois é. Tem umas meio…
Respirou fundo.
Fingiu.
Sentiu.
— Seu cabelo não é ruim. É cacheado.
— Você deve gastar uma fortuna com creme, né?
— Ah, por que você não escova? Uma progressiva só e ficaria baixinho!
— Posso tocar? Nossa, é tão macio!
— Cheiroso também!
— Você penteia?
— Agora virou moda ter o cabelo assim, né? Só hoje vi umas seis…
— Mas o seu cabelo não é duro. Só meio cheio. Vi uma no metrô ontem que só Deus na causa!
— Você não sabe dançar? Mas toda negra tem gingado!
— Não escuta rap? Sou mais negro que você!
— Essa cor combina com você. Vi uma escurinha usando sombra prata… Será que ela não tem nenhuma noção de moda?
— Já vi uma usando blusa dourada de dia! Cara, que brega! E outra que combinação zero com o tom de pele, né?
— Esmalte fúcsia em pele escura não fica legal.
— Dê preferência a cores neutras senão fica chamativo demais.
— Turbante? Você é da macumba?
Se empertigou.
Explicou.
— Ah, mas é só minha opinião. Relaxa.
— Puxa! Racismo? Calma aí. Eu só me expressei. É proibido?
— Racismo não é só com gente preta não, tá? Eu já sofri muito com…
— Nada contra, mas…
— Preconceito não, é minha opinião. Você tem que respeitar.
— Eu já namorei uma pretinha. Ela até que era uma boa moça.
— Negras são boas de cama. É o que dizem.
— Já peguei umas, mas namorar firme… não. Sei lá, acho que é questão de gosto, né?
— Opa, calma aí! Ninguém tá falando que não gosta de negros aqui.
— A empregada da minha tia é negra e é uma ótima pessoa!
— Eu tenho amigos negros!
— Negros também são racistas. Vê só aqueles filmes de gangue e note que eles não gostam de gente branca.
Desacreditou.
Brigou.
— Você diz isso como se sofresse algum preconceito!
— Não sou a favor das cotas. Nos matamos de estudar pra vir um desinteressado e roubar nossa vaga? Brincadeira, né.
— A gente tem culpa que a maioria dos negros não querem estudar?
— Cotas são vantagens que vocês têm em cima de nós. Tá reclamando de que?
— Pretos podem estudar pra passar como qualquer um.
— Funk é uma droga. Já viu funkeiros brancos? Muito difícil.
— Que cor era o bandido? Preto? Claro, né.
— Tem que matar mesmo. Se estava roubando tem que matar.
— Cada um faz suas escolhas. Se um negro escolhe roubar, que culpa eu tenho?
— Escravidão já acabou há anos. Para de se vitimizar.
— Já viu traficante branco? Quase não existe.
— Cara, eu até entendo porque eles escravizaram os negros.
— Veja por esse lado. Se não tivesse acontecido, você não estaria aqui agora.
— É. Foi cruel, mas necessário.
— Mas agora já acabou.
— É, já acabou.
— Afinal, racismo não existe mais.
— São só opiniões.
Chorou.
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