Exspectare
4 Capítulo 4
Antes, ele quase nunca aparecia no terraço. Não que o trabalho permitisse esse tipo de pausa, mas, em raríssimos dias, daqueles que se contam nos dedos, ele subia até lá para respirar fundo e tentar acalmar os ânimos depois de mais uma jornada de trabalho impossível de atravessar sem sentir vontade de socar uma parede.
Atualmente, ele sobe quando precisa adaptar a terapia à sua rotina, e as sessões são pelo celular com Jeff. Hoje, Elliot precisa falar com ele, porque não esperava ter tão pouco tempo. Quando pediu transferência, Cragen disse que poderia levar até seis meses para abrir uma vaga em outro departamento, e isso o deixou quase tranquilo, pois era tempo suficiente para resolver as coisas com Olivia antes de ir.
Ele precisava contar a ela, precisava preparar o terreno. Por mais que tivesse certeza de que não sentia isso sozinho — não depois de Gitano —, Elliot estava mais do que disposto a arriscar tudo para ter a liberdade de amar Olivia, e ele iria provar para ela que eles conseguiriam, apesar de saber que Olivia poderia ser resistente, ainda mais se ele começar essa conversa agora, na atual conjuntura do relacionamento deles. Ela vai odiá-lo.
Elliot precisa elaborar um plano sem que tudo exploda na cara deles. Mas como ele vai resolver tudo em cinco dias? Ele precisa falar com Jeff.
“Alô, Elliot.”
“Minha transferência é em cinco dias, e eu não resolvi as coisas com ela ainda.”
“Você está falando de Olivia?” Elliot não respondeu de imediato. “Sim.” Elliot fecha os olhos, assentindo.
“Essa conversa será uma despedida?”
“Não, na verdade, muito pelo contrário.” Elliot respira fundo. “Estou apaixonado por ela.” Ele sabia que Jeff havia percebido, mas dizer isso em voz alta foi algo. “Eu quero que ela saiba disso antes que eu vá embora.”
“Então é um até logo. Só vira despedida se você tratar como uma.” Elliot franze a testa.
Uma pausa.
“Eu preciso falar com ela antes de qualquer coisa acontecer. Não depois.” Elliot passa a mão na nuca, tenso.
“Antes ela me pediu distância, e eu dei.”
“E você vai continuar respeitando isso”, Jeff responde. “Mas distância não é silêncio absoluto, principalmente quando existe algo não dito desse tamanho.”
Elliot fica quieto.
“O que você diria para ela… se não estivesse indo embora?”
A pergunta o desmonta por um segundo.
“Que…” Ele respira fundo. “Que eu não consigo mais fingir que ela é só minha parceira.”
“Então é isso que você diz. Ela merece sua honestidade.”
“Às vezes eu penso que é melhor ir e deixar para conversar depois, quando a poeira baixar.”
“Se você não contar que ela é o motivo da sua partida… e deixar isso evoluir”, Jeff continua, “você está decidindo por ela.”
Elliot aperta as mãos.
“E se eu contar… ela pode se afastar de vez.”
“Pode.”
A resposta vem sem suavizar.
“Mas aí é uma escolha dela, não uma consequência da sua omissão.”
Isso fica no ar.
“Elliot, você não está tentando evitar um erro”, Jeff conclui. “Você está tentando evitar dor. E, nesse caso, não existe caminho sem isso.”
Elliot encara o chão por alguns segundos até ouvir a porta se abrindo, seguida de passos — e, pela forma como o som ecoa no chão, ele sabe quem é.
“Ei, eu preciso desligar. Muito obrigada.”
“Se precisar marcar essa semana, estou disponível.”
“Ok, obrigada.” Elliot desliga o celular bem em tempo de Olivia surgir por entre as antenas.
“Quando você ia me contar?”
Oh, não.
Merda, ela sabe.
Eles tinham um talento especial para começar conversas difíceis do pior jeito possível. Se isso fosse uma competição, já teriam medalha.
Olivia se aproximou em passos pesados. “Você estava prestes a ir embora sem se despedir, não é?” Ele está de costas para ela, o que a deixa ainda mais irritada. “Olhe para mim, Elliot”, ela diz com autoridade, mas ele permanece no mesmo lugar.
“Eu soube hoje.”
“Quando você iria me contar?”
“Estava pensando sobre isso antes de você chegar.” Ele se vira e a encara. “Por quanto tempo você pensou em trocar de parceiro?”
“Não, você não vai mudar de conversa.”
“Desculpe, não estou.” Ele a está provocando, pois precisa de mais tempo. “Você pensou sobre isso naquele dia e decidiu?”
“Pare com isso. Responda à minha pergunta.”
“Você nunca me perguntou por quê.” Elliot diz, tentando começar essa conversa desde o início.
“Quê?”
“Você nunca me perguntou por que eu pedi transferência.” Esse olhar, com essa mistura de raiva e cansaço.
Ela ficou em silêncio.
“Eu estava planejando meses antes de decidir.” Ele conseguiu roubar a atenção dela exatamente para o ponto onde deveriam começar. “Não sei se foi assim com você também, até porque eu não tenho certeza absoluta se seus motivos realmente foram só sobre a situação de merda em que eu meti a gente.” Ela parecia incomodada.
“Por que você nunca conversou comigo?” A voz dela sai magoada.
“Você não era a melhor pessoa para ouvir meus porquês.” Droga, escolha de palavras péssimas.
“Besteira, eu te apoiaria.”
“Isso é diferente.”
“Diferente como?” Ótima pergunta. Sem resposta segura. “O que você pensa que eu faria?” Ela se afasta dois passos para a direita dele. “Eu sou sua parceira. Se tem alguém que entenderia você, sou eu, Elliot. Quando você começou a pensar assim de mim?” Ele não queria magoá-la mais do que já fez sem intenção.
“No começo até pensei em falar com você sobre isso, mas depois parecia loucura — porque é. Não era o tipo de coisa que conversamos em uma quinta à noite, no bar, depois do expediente. Se fosse qualquer outro motivo, você me apoiaria… mas esse faria você pedir um novo parceiro.”
“É ridícula a forma como você tem uma visão totalmente errada de mim.” Ele precisa ir com calma.
“Talvez seja da mesma forma que você, quando tomou aquela decisão antes de conversar comigo.” Ele não consegue sair desse rodeio.
“Você não entende…” Ele hesita, apenas um segundo, mas é tarde demais para recuar. As palavras já estavam vivas dentro dele, exigindo liberdade.
“Porra, Elliot, me faça entender essa merda!” ela grita.
“Estou apaixonado por você, Olivia.”
Os olhos dela se arregalam, o peito imóvel, como se o próprio corpo tivesse esquecido como respirar.
“Não sei exatamente quando começou”, ele continua, a voz mais baixa. “Mas, com absoluta certeza, é tempo suficiente para começar a prejudicar meu trabalho… para me fazer hesitar quando não posso hesitar… para me fazer escolher você mesmo quando não deveria. Eu morreria por você.” As palavras tomam conta dele, e tudo vai saindo. Elliot dá um passo mais perto.
Depois outro.
Sem perceber… ou talvez percebendo demais.
A distância entre eles deixa de ser segura.
Passou a ser… elétrica.
Ela está com os olhos marejados.
“Eu precisava dizer.” Ele olhou para os próprios pés por um segundo, buscando um pouco de autocontrole. Quando ergueu o olhar de novo… já não havia volta.
“Elliot, eu…”
Mas ela não terminou, porque ele viu a forma como ela olhou para os olhos dele e depois para os lábios. Viu a respiração irregular, viu o conflito… e algo mais quente, mais impossível de negar.
O silêncio entre eles estava tirando o ar.
Elliot se aproximou centímetros dela, mas ela não se afastou.
“Me diga para me afastar”, ele murmurou, a voz rouca, perigosamente baixa. “Diga que eu sinto isso sozinho.”
Ela abriu a boca, e nenhuma palavra saiu. Só respiração.
“Olivia…” Os olhos dele desceram para os lábios dela.
“Elliot…” Ela colocou a mão no peito dele, mas não fez nenhuma pressão para afastá-lo — e isso foi o que quebrou o último fio de controle.
Ele a puxou.
O beijo não começou suave — começou como uma colisão. Quente. Intenso. Desesperado. Os lábios dela cederam por um segundo — só um — antes de corresponderem com a mesma intensidade. O corpo dela se inclinou contra o dele, como se já soubesse o caminho, como se sempre tivesse sabido.
A mão dele subiu para o rosto dela, segurando firme, como se ela pudesse desaparecer. Ela agarrou a camisa dele, os dedos fechando no tecido, puxando-o ainda mais para perto, acabando completamente com a distância.
Ela se afastou bruscamente, o ar falhando, os lábios ainda entreabertos, os olhos confusos — e carregados de algo que doía ver.
“Elliot… não…” A voz saiu frágil, quase implorando. “Não posso.” A mão dela ainda estava na camisa dele.
A respiração dela falha. Ela leva a mão ao peito, tentando puxar ar.
“Não posso te perder, El”, ela sussurra, entre respirações curtas. “Prefiro ter você como parceiro do que te ver acordar um dia e…” Os olhos dela se enchem de lágrimas.
“Oh, Liv…” ele sussurrou, puxando-a para perto e acomodando a cabeça dela na curva do pescoço. “Está tudo bem.” Não estava.
Mas, às vezes, a gente mente por educação emocional.
Ele vai recuar. Não é justo obrigá-la a querer algo para o qual claramente não está pronta.
“Não vá…” O pedido sai abafado contra ele, atingindo-o forte, fazendo-o fechar os olhos.
Elliot passa a mão distraidamente pelos cabelos dela e se afasta para olhá-la.
“Sinto muito, Liv… não posso ficar.” Ele não desistiu deles. “Só preciso de tempo para respirar…” Ele força um meio sorriso que não chega aos olhos. Ele sabe que não existe tempo suficiente no mundo para superá-la. “Eu vou deixar o Fin de olho em você por mim. O tempo vai passar, e nós vamos ficar bem.”
“Eu juro que você nunca vai se livrar de mim.”
“Você sabe para qual departamento vai?”
Elliot enxuga a última lágrima que ainda escorria pela bochecha de Olivia, que não foi secada pela camisa dele.
“Crime organizado ou crimes de internet.”
“Você nem sabe ligar um computador”, ela diz, brincando.
Elliot levanta uma sobrancelha. “Você tem tão pouca fé em mim, Benson?”
“Estou brincando. Independente de qual for, você vai ser o melhor.”
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