Exposição de Weiss Guertena
2 Galeria Verde
Notas iniciais
A mais velha pulava alegremente, saltando de banco em banco, os pés descalços estavam um pouco doídos pelo contado com a pedra áspera, ela abriu os braços por um momento deixando que a criança a suas costas ficasse agarrada pelas próprias forças, a brincadeira de manter-se presa e a falta de equilíbrio fazia os olhos da pequena se arregalarem com medo e cheios de energia. Poucos passos atrás a cuidadora das crianças acompanhava com um sorriso vencido a brincadeira perigosa, ela segurava a mão dos outros infantes com firmeza para que não escapassem e sumissem de sua vista, já bastava sua companheira ter abandonado o grupo como se fosse apenas mais uma que necessitava de cuidado.
— Ande no centro. — aconselhou vendo-a ter dificuldade.
Chat cruzou os braços nas costas, abaixo do bumbum do bebê, tornando o apoio mais firme, então ela pulou para longe do banco, voltando as calçadas. O homem que observava curioso tomou algumas notas no caderno, seguindo o grupo com os olhos atentos. Faline suspirou balançando a cabeça em negação, nunca teria seus avisos escutados, realmente a menina lhe dava motivos para o apelido.
A risada da criança pedindo para que a brincadeira continuasse era encantadora. Estranhos as encaravam, principalmente para criticar a irresponsabilidade das adultas, como se eles tivessem qualquer direito de fazer isso. A loira desacelerou o passo para que ficasse lado a lado com o grupo, seus cabelos cheios selvagens acrescentavam um charme ingênuo que trazia borboletas para certas pessoas; sua colega possuía um pouco de uma elegância esquecida pelo tempo, mas que permaneceu em sua postura e seus cabelos castanhos minuciosamente ajeitados.
— Tia Fal, a gente pode comer uma maçã? — o menino perguntou puxando a saia dela para chamar a atenção. — A maçã doce?
Vislumbrou o lamber de lábios, foi o suficiente para que decidisse gastar um pouco do que trouxera com um aperitivo para cada um. Foi o primeiro momento desde a chegada que as crianças foram libertas e puderam correr livremente, seguidas — obviamente — pelos olhos alertas. Sentaram-se no banco, aproveitando o momento de paz. Rapazes as cumprimentaram com breves acenos, Faline tinha graça em seus gestos, mesmo que esta fosse mascarada e difusa pela presença da outra. A princípio, compararam-se como opostos e com o tempo percebeu que possuíam mais semelhanças em suas atitudes do que imaginava, sendo mais quieta, apesar de pensar pouco antes de falar.
Chat nem prestava atenção no ao redor, entretida no continuo pega-pega das crianças, estava focada — algo não tão notável, mesmo que ela permanecesse assim a maior parte do tempo. O céu era cauteloso e atencioso, cuidando dos mínimos detalhes, de cada folha lançada ao vento, os insetos que zumbiam, o breve balançar da grama, o desabrochar dos botões e os predadores escondidos nos arbustos. Mordeu os lábios fracamente enquanto se inclinava, algumas doninhas estavam por perto, apenas esperando a distração para fazer o primeiro movimento para perto da ninhada. Sua boca se torceu — um rosnado preso em sua garganta — lampejos foram trocados entre a ferina e o predador, que se afastou aos poucos até desaparecer entre a multidão.
— M'lady! — o grito fez Faline tirar os olhos das crianças e encarar distraidamente o rapaz que se aproximava com longos passos. — Chat!
Ela arregalou os olhos, como magia, os mais novos pararam a brincadeira e se aproximaram, defensivamente na frente das cuidadoras, principalmente daquela que estava sendo abordada pelo forasteiro. As duas meninas se agarraram nas pernas dela e fitavam mal-encaradas o ser que se aproximava, o menino cruzara os braços e estava ereto como um pequeno soldado, quem sabe fosse uma formiga exibida.
— Quem é você?
O homem parou há alguns passos, olhando esperançosamente para a mulher loira. Havia de ser a cidade perdida para que encontrassem tantas figuras curiosas; os olhos do rapaz estavam escondidos por trás das longas mechas, escuras como o abismo e lisas como gelo. Suas feições eram andróginas, as linhas de seu rosto eram curvas, algumas precisas e outras delicadas, em contraste a graciosidade estava seu olhar calculista afiado como uma navalha, Faline processou a gentileza, a natureza gentil e calorosa, alegre e estabanada transmitidas pelas portas de sua alma, mas como uma pena — uma lâmina — estava a ambição nas profundezas de seu ser.
— Sou amigo. Não se preocupem. — ele ergueu as mãos em rendição. — Chat?
O chamado foi escutado dessa vez, ao reconhecer o companheiro de longa data, Chat se iluminou, como se tivesse acabado de encontrar o maior dos tesouros.
— Eloi!
As crianças se surpreenderam, pulando e se entreolhando trocando mensagens em sua maneira distinta. Os olhos de Faline se arregalaram fitando o chão, subitamente os paralelepípedos pareciam uma obra de arte maculada pelo tempo, ela respirou fundo, percebendo vagamente os movimentos ao seu redor. O abraço, as risadas, os gestos exacerbados do homem de olhos negros, assim como a dança reprimida; seu peito queimou em puro desgosto e um ódio fervia, ameaçando a explodir. Quem aquele homem pensava que era?
Refreou todas as emoções, aprisionando-as no âmago de sua alma e levantou. A palavra não foi dirigida a si, nem ao mesmo fora mencionada, eram escolhidas com precisão e ditas aos poucos, Chat não tagarelava, falava o mínimo possível, passando os dedos sobre a garganta ocasionalmente.
Mas era óbvio.
Ficar tantos anos sem partilhar uma palavra, uma única e simples palavra. Sílabas sequer! Os gritos eram pulos assustados, os gestos passavam tudo o que precisava. Sempre foi assim. Por que agora não seria?
Quando se afastou, com as crianças seguindo-a a tiracolo, Faline podia ouvir o monólogo do homem cujo nome aparentava ser algo parecido com “Eloi”, um nome tão idiota, tão fraco e simples, sem brilho, os pais dele deveriam ter colocado vários papéis em uma caixa e sorteado, quem em sã consciência daria tal nome a um bebê?
Passou direta sem devios, chegando ao rio em poucos minutos. Seus adorados riram e desceram a colina, escorregando na grama e gritando quando colocaram os pés na água gelada.
— Fiquem na margem. — ordenou se aproximando, tirou os sapatos apertados e largou-os. — De que vocês querem brincar?
Estava mascarando, mas já tinha sido revelada. Henri sabia como ela lidava com a raiva, nada menos esperado do que seu irmão caçula.
Incrivelmente, ele sugeriu a brincadeira mais simplória, uma pequena batalha na água, que fez as vestimentas de todos os jovens se molharem; tardiamente os bocejos e os olhos pesados eram notáveis, eles se enroscaram uns nos outros na grama e ficaram em silêncio observando as nuvens.
— Fal... — Henri chamou. — Eu vi uma abelha no outro dia, ela estava zunindo indo de flor em flor, parecia uma pintura. — contou. — Você estava dentro de casa cuidando da Coral e da Liz, mas tinham abelhas e borboletas voando no jardim. Tinham algumas joaninhas também, uma delas bateu as asas bem devagar e pousou na minha mão. Era vermelha igual aos tomates que você coloca na salada, mas ela tinha as bolinhas pretas. Será que é uma coisa boa?
— Por que está perguntando isso, querido? — ouviu um pequeno resmungo que a fez revirar os olhos. — Acho que sim, afinal joaninhas e abelhas são sinais sorte.
— Assim como os gatinhos pretos, não é?
Ela suspirou, vencida e incomodada.
O gato preto trouxe sorte, sempre trazia, tinham aqueles que falavam que era o puro azar. Por que, então, os navegadores insistiam para ter um bichano negro a bordo?
Foi graças ao felino que encontrou, foi graças a ele que descobriu mais algumas características próprias, graças a ele ela se apaixonou.
— Assim como os gatos pretos. — afirmou com um sorriso irônico. — Quais foram os outros insetos que você caçou semana passada?
— Ah... Mais alguns, eu ainda tenho que aumentar a coleção. Eu vou viajar o mundo inteiro e achar vários e vários insetos! Vai ser bem divertido. — a animação entre os irmãos, apesar de não ser rara, não tinha tanta liberdade. — Faline, o que você vê nas nuvens?
O ressonar das meninas deitadas em seu peito e o diálogo casual com seu irmãozinho, o céu sorria, com vários animais fofos flutuando movendo-se com o vento longínquo. As histórias fantásticas criadas por sonhadores; talvez não fosse mais possível que seus olhos retornassem a vê-las. Henri apoiou a cabeça no ombro da irmã e fechou os olhos, se preparando para uma soneca. A distância ainda podia escutar os sons felinos de Chat, alertando-a de sua presença.
Faline olhou para cima e viu que a amiga estava arisca, os olhos estreitos e os músculos tensos; Eloi estava olhando para o mesmo ponto franzindo as sobrancelhas, tentando formular palavras, e rapidamente ele olhou colina a baixo e disse uma punica palavra.
“Sai. ”
Fingindo que estava distraída ainda, sentou-se e acariciou a cabeça das crianças a fim de acordá-las, Coral estava sonolenta ainda, por isso pegou-a no colo; Liz esfregou os olhos e Henri se espreguiçou. Alerta, tentou pegar os sapatos sem direcionar sua atenção para o que acontecia no topo da colina. Girou ficando apoiada nos joelhos em uma das mãos, enquanto a outra mantinha a bebê firme em seu peito. Abusando do equilíbrio desenvolvido nas aulas de dança, jogou o peso para a ponta dos pés e arriscou levantar-se sem usar outros apoios. Começou seguindo o curso do rio, lentamente se afastando do que parecia ser uma corrida armada.
— Ma petit rose! — um segundo homem gritou, correndo para chegar ao seu lado, trombou em si, com um movimento preciso e arriscado ele segurou seu queixo e beijou no canto de seus lábios.
Não podia dar um tapa porque tinha um bebê no colo, dar um chute seria inviável porque seus pequenos estavam agarrados em sua saia.
O que estava acontecendo com os homens hoje?
Será que eles decidiram mostrar sua estupidez para criar um monstro raivoso dentro de si? Se este fosse o objetivo, realmente estava funcionando, a viagem que planejara por horas, dias ou até mesmo semanas estava sendo arruinada como uma demolição precisa, cada golpe levava uma parte da parede.
Que horrível comparação.
— Perdoe o atraso, alguns insetos chegaram em mim e tentaram me roubar, e eu tive que pegar uma rota diferente para não encontrar sua amada sogra, ela ainda me persegue, sabia?
Os dedos apertando seu braço estavam criando uma corrente de pavor, medo, ansiedade e desgosto.
— Como as nuvens no céu tive de esgueirar-me; como os peixes no rio fugi para longe dos estranhos. Sabe o que é curioso? Eu nunca tinha pensado em como a vida podia ser bela? Personifique em uma rosa, apesar, ela murcha e se desfaz. Será que isso quer dizer que morremos no inverno? Será? — a firmeza de seus movimentos, principalmente quando passou do braço para sua cintura era assustadora. — Como as estrelas no céu ontem, você as viu? Brilhantes e coloridas, eram encantadoras. Pareciam doces, não pareciam, Jean? Oh, mas o que lerás nesta tarde ensolarada? Talvez algumas palavras façam seu cérebro trabalhar de maneira mais eficiente, senão o que leríamos? Símbolos? Ah, não fique constrangida, petite. Estou aqui para assegurar que ficará tão louca quanto eu.
Louco é uma excelente palavra para descrevê-lo. Nunca escutou tanta bobagem saindo de uma só boca.
— Venha comigo, você tem que me ajudar a escolher as cores para o quadro da minha irmante, lembra-se? Foi uma promessa. Mesmo que eu saiba as cores quentes que colorem o quadro de rosas e sangue não é necessário....
O que raios Chat estava fazendo que não vinha se intrometer? O homem não parecia ter a intenção de terminar o monólogo tão cedo, por isso partiu os lábios pronta para interrompê-lo.
— Senhor, será que você... — ele colocou o dedo em seus lábios silenciando-a, os olhos amendoados eram sérios por debaixo da máscara da loucura.
— Como Shakespeare colocou uma fez, existe método em certas loucuras. Se fizer o favor, você vai me seguir. — o sussurro e um lampejo de um sorriso imperioso. — Crianças, vocês querem me ajudar com os desenhos? Eu estava me perguntando no outro dia que cor eu pintaria uma cobra, o que vocês acham? Será que existe uma diferença entre cobras e serpentes, meus dóceis infantes?
— Uma cobra branca?
— Oh! Que ideia maravilhosa, pequeno Jean, nós faremos uma cobra das neves! Uma cobra albina! Será que ela sobrevive ao inverno?
Liz choramingou quando começaram a subir a colina de volta à cidade.
— Como o coelho branco?
— Sim, sim, minha cara Alice, sabia que teria ideias incríveis. Se me recordo a música diz que os coelhos têm pelos branquinhos e olhos vermelhos, não é? Quem sabe transformando fundindo uma serpente e um coelho branco nós conseguimos tirar o rótulo de que os répteis são animais traiçoeiros e nada fofos? Será que nós conseguiremos criar algo digno de admiração?
Ela queria xingá-lo por ter se intrometido, queria gritar, mas isso assustaria as crianças, e tecnicamente não estava fazendo nada de ruim ainda. Só lhe restava aguardar e esperar o resultado de suas ações, aonde seriam levados?
— Meu primeiro quadro foi feito por causa de aulas de piano, sabia? Poucas pessoas percebem o quanto as mães podem ser rígidas ou o quanto professores e professoras são insistentes e realmente querem que você aprenda o que eles estão ensinando. É claro que você fica assustado, é óbvio que você se desespera, mas o que fazer por de via que apesar do... — ele riu nervosamente, gradativamente conforme se aproximavam da multidão os risos cresciam e ela o sentia chocalhando, os sons nervosos se metamorfoseando em sons de sanidade precária, a gargalhada repentina fez as crianças e ela pularem assustados.
Os olhos foram atraídos para eles, como uma onda, todos bufaram. Retornando as atividades.
Mas que raios...
Faline ajeitou Coral para ficar o mais afastada possível do lado direito, onde o desconhecido, Henri e Liz estavam encolhidos desse mesmo lado, segurando o início da saia, com a ponta dos dedos. A mão dele sumiu de sua cintura e segurou seu ombro esquerdo, puxando-a para perto, ao menos um pouco. A gargalhada fez cócegas conforme ele apoiou o queixo em seu ombro, inclinando a cabeça de modo que ela sentiu o cabelo dele roçar em sua mandíbula.
— Me mate.
Seus olhos se arregalaram e tanto que ela realmente pensou que eles pudessem pular ao chão. O que foi esse sussurro? Faline fechou os olhos por um momento, respirando fundo, sem motivo algum, lágrimas tinham vindo aos seus olhos — fora o choque?
Seu braço tremeu, ele deve ter sentido isso, pois se afastou, andando de maneira mais casual ao seu lado. Definitivamente ele era apenas mais um louco que pouco deveria se importar com o que pensavam dele, contudo... sua aura estava mais... melancólica.
— Chegou em segurança, petite, tome cuidado.
Antes que pudesse fazer quaisquer perguntas, ele desapareceu.
Ela estava na frente do hotel em que estavam hospedados, como ele sabia? Não tinha ideia.
— Oh, senhorita... — a desajeitada recepcionista parecia nervosa. — Que bom vê-la! Teve um bom passeio?
— Sim... — respondeu vagamente, subindo para o quarto antes que começasse a questionar os motivos para que o bom humor tivesse desaparecido quando entrou.
Liz correu para o banheiro, Henri foi procurar roupas novas para trocar; Faline apoiou Coral em uma das camas, deixando a bebê em seu sono pesado. O cheiro amadeirado antigo era reconfortante, a mais velha sentou-se acariciando a cabeça da pequena, tentando digerir o que acontecera.
— Henri, pode cuidar da Liz?
O garotinho no auge dos seus seis anos sorriu compreensivo, entendendo que a irmã precisava descansar.
Ela fechou os olhos, exaurida. O dia não saiu como planejara. Até comerem a maçã do amor, tudo estava indo bem, o plano de se libertar daria certo com as pequenas ações auxiliares e o contato próximo. Foi como o vento no outono, ele veio de súbito e arrancou todas as folhas de sua árvore. O gato preto se afastou com pulos na direção da lagoa, abandonando. Não percebeu quando aconteceu, como dormiu, mas despertou quando Chat entrou no quarto.
— O que aconteceu? — perguntou drenada.
Chat estava pronta para responder, mas sua boca tremeu e ela acabou fechando, deixando o silêncio reinar.
Idiota. Ela não falou com você nesses seis anos, por que falaria agora? Nem mesmo com as crianças ela fala!
— Não precisa responder. Eu busco pelas respostas eu mesma. — a inveja retornando. — Cuide das crianças por mim, eu não sei que horas vou voltar.
Realmente não sabia, apenas pegou o xale e desceu as escadas com passos fortes, descontando sua raiva nos degraus velhos. Enrolou o tecido em seus ombros, deixando por uma vez de todas os sentimentos escaparem, as recepcionistas trocavam apenas lhe dirigiram o olhar e paralisaram, Faline ergueu o queixo, altiva e com desconfiança as examinou, dando as costas com um bufar irritado. As ruas estavam silenciosas, avermelhadas, o pôr do sol criando sombras e casais. Lembrava uma vista nas montanhas.
Seus pés a guiaram para a feira que ainda corria, ela ouviu os murmúrios e algumas pessoas apontando para si, estava pensando em perambular pelo centro da cidadela, mas algo, não, alguém a parou. O homem de antes, os cabelos alourados caindo ao redor do rosto, a luz criando a ilusão de um acobreado, talvez fossem castanhos claros, mas podia ser uma cor falsa também.
Ao redor dele tinham vários materiais de pintura, alguns quadros menores, com paisagens, pratos com desenhos de olhos, umas esculturas pequenas. Ele estava distraído, apoiando-se na perna enquanto usava a faca para afiar o lápis de madeira, seus dedos estavam sujos de diversos materiais. Os olhos tinham uma coloração estranha, talvez fosse a impressão, mas eles pareciam incolores ou conter todas as cores, tinham ainda a mesma seriedade de quando falou com ela naquele curto segundo em que a repreendeu.
Resmungou algo deu alguns passos e sentou-se ao lado dele. Encolhendo as pernas e escondendo-as sob a saia, suas costas tocando na parede de tijolos, um pouco atrás, mas próxima o suficiente para que se esticasse acabaria tocando nas costas dele.
Ficou assim por um longo tempo até ele se virar e com uma mensagem muda assegurar que ela podia falar que seria escutada.
— Grupos de dois dão sorte, mas quando um terceiro aparece tudo desaba, já percebeu? — ela começou. — Queria muito gritar com ela, mas... eu engoli tudo e fiquei quieta, na minha. Remoendo tudo o que aconteceu, eu me senti inválida. Sabe a sensação? Dar tudo de si e ser descartada? Ela mostrou um lado meu que eu não conhecia, um lado escuro que nunca procuraria por vontade própria, não é cruel ela arrancar dessa maneira? Só pelo meu tom quando eu saí eu já sei que acabei de me amaldiçoar. Por que eu acertei o nome dela? — Faline apoiou a cabeça nos joelhos. — Eu sou terrível. Devia ter lidado com tudo e mantido o sorriso.
— Aí você explodiria mais tarde e o espírito da serpente seria liberto. — o louco se pronunciou. — Com todas as cores, a mágoa, raiva e inveja. Você poderia machucar alguém desse jeito. Como a joaninha e a abelha que te seguravam tão confiantes de que você era a segurança, ou aquela formiga que se colocou na frente, ele quase me matou com o olhar, você não deve ter percebido, mas ele é um garotinho bem forte. Não quer machucar as crianças, não é, petite?
Ela sentiu o coração acalmar.
— Não. — afirmou. — Eles são meus tesouros.
— Isso é bom. Cuidar daqueles que ama. Talvez você consiga retroceder os sentimentos desenfreados para algo mais brando.
— Obrigado. — agradeceu, franzindo as sobrancelhas. — Senhor...
— Weiss.
— Weiss. — repetiu, o som saindo de seus lábios era engraçado. — Muito, muito obrigado.
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