Expletis Omnibus

1 Capítulo 1 - Após o Fim


AMÉLIA.



...Cinzas...

A única coisa com a qual Amélia pode se distrair antes de dormir. Deitada no canto do que já fora o saguão principal de um museu, com a cabeça recostada sobre sua bolsa e com alguns trapos improvisando uma cama sobre o que resta do piso de madeira, ela segura aquele que considera o único tesouro do mundo, a foto da sua mãe. Luta contra o vento gélido que entra pelo que resta dos corredores, escombros formam uma espécie de barricada entre ela e o exterior, motivo pelo qual Amélia escolheu este local para passar a noite . Olha para o céu, através de um buraco aberto no teto, onde um dia brilharam várias estrelas, estrelas para quais sempre olha na busca de algo. Ela ainda se lembra de quando sua mãe era viva e contava para ela que além daqueles pontos brilhantes haviam planetas e muito além destes, deuses que olhavam pelas pessoas, cuidando e protegendo cada uma delas -onde vocês estão?- pergunta a si mesma. Um baque Amélia se assusta, não deve baixar a guarda, geralmente nas noites menos cinzentas os saqueadores saem de seus esconderijos para caçar. Este não é mais o mundo em que ela nasceu, precisa se convencer disso, sua mãe não vai lhe contar histórias, e ela dificilmente voltará a ver as estrelas.

Amélia nasceu em uma cidade qualquer de um estado qualquer de um país qualquer, os nomes já não importam mais, ela era muito nova quando tudo aconteceu para se lembrar de territórios e seus nomes. Até mesmo, por esses territórios terem sido o motivo de tudo.

A história do antes, e do marco zero é repassada de pessoa para pessoa de forma diferente, muitos dos contadores já não estão em sua plena consciência, cegos e a beira da demência como vários sobreviventes, eles já não conseguem raciocinar bem. Mas a maioria das versões tem pontos comuns. A mais ouvida é que há alguns anos, as nações se viraram umas contra as outras, pessoas se matavam apenas porque os seus líderes tinham opiniões opostas, as coisas foram piorando, cidades começaram a ser devastadas por bombas, tanques, navios e por soldados. O mundo começou a se consumir na que foi chamada de guerra dos povos. Então veio o marco zero, o dia em que a primeira bomba possuindo substâncias capazes de alterar toda a vida na terra foi atirada matando milhões de pessoas instantaneamente, desfigurando milhares em horas. Logo após veio a segunda, e por fim a terceira.A substância química presente nas bombas se propagou através da atmosfera terrestre, aumentando a cada metro o seu poder de destruição, deixando para trás apenas uma grande nuvem cinzenta que se tornaria então, o novo céu para os sobreviventes. Após o marco zero, os sobreviventes esperaram por ajuda, de outros países, de qualquer lugar, mas tudo tinha acabado, não havia ajuda.O único sentido desde então, tornou-se o de sobreviver, ter uma subvida vagando por cidades devastadas, como fantasmas de um passado distante. Não havia líderes para cobrar, não havia mais territórios para disputar e ninguem a quem recorrer.

Amélia morde um pedaço de um rato que encontrou em uma viela mais cedo, para essa noite é um verdadeiro banquete.

Os sobreviventes mais velhos contam, que no antes, as pessoas viajavam por diversão, pagavam caro para conhecer locais diferentes, hoje elas vagam quilômetros apenas para sobreviver, alimentando–se de animais mortos que sobreviveram a contaminação e bebendo um lodo que vagamente lembra a água, contam que tudo era verde, as flores cheiravam bem, ao invés de serem ácidas, havia sorrisos, músicas, crianças brincavam, disso Amélia se lembra bastante, já que adorava brincar e girar. Mais um baque e um grito, hoje é uma das noites em que não se deve dormir. Eles estão à solta.

Muitos sobreviventes viajam em bandos, para proteger uns aos outros, para dividir a pouca comida e água que resta. Amélia viaja só, aprendeu a não confiar em ninguém desde nova, sempre atenta aprendeu a se defender muito bem. Carrega consigo as marcas da confiança.

O céu vai ficando mais claro, é a indicação de que mais uma noite foi superada e mais um dia se aproxima. Amélia se levanta, guarda os seus pertences na bolsa que sempre carrega, olha novamente e em seguida guarda a foto de sua mãe na bolsa, uma bela foto, protegida por um fino quadro de vidro com fundo preto.

Antes de sair do museu,um óculos velho para enxergar melhor nas cinzas, papeis, as sobras do rato e um relógio parado que pertenceu ao seu pai, deste ela não tem memórias. Algo lhe chama atenção, os ossos de um animal grande caídos pelo chão, abaixo deles uma placa diz “Tiranossauro Rex– Carnívoro”, -Não devia ser muito durão-diz enquanto sai..

A história de Amélia não é tão interessante quanto à do marco zero, mas para ela, lembrar de sua história faz com que ela ainda seja mais humana que a maioria dos sobreviventes. E deve isso às memorias que tem de sua mãe.

Ruas desertas, isso é bom, Amélia não terá problemas caso ache algo valioso. Isto se tornou cada vez mais difícil, já que os sobreviventes vasculham todos os locais, várias vezes. Amélia deu sorte em outra cidade, mas nesta pelo que parece não há nada para se aproveitar, andando há três dias, mudou de direção quilômetros atrás por ter encontrado rastros de saqueadores que iam para norte, nunca é bom seguir esses rastros. Agora está no que sobrou de uma antiga cidade litorânea. Nada demais. Prédios caídos, alguns barcos destruídos pelas ruas, carros sucateados, e como na maioria das demais cidades, o cheiro de podridão ainda é forte. Não houve como socorrer ninguém nos escombros, e nem tempo de enterrar os entes, quem sobreviveu só estava preocupado consigo e com o que restou.

Mesmo destruída, a cidade ainda mantém certo charme,provavelmente esta era uma cidade onde Amélia gostaria de visitar para apenas se divertir. Ao fechar os olhos Amélia consegue ouvir as pessoas sorrindo enquanto ouvem músicas alegres e saboreiam comidas exóticas. Amélia sente dor, está andando há muito tempo, e sua cicatriz começa a incomodar.

Passa com cuidado por uma ponte e avista um antigo supermercado, não espera encontrar muita coisa nele, nos dias que seguiram após o marco zero, os sobreviventes se ocuparam em roubar tudo de todos os locais que continham alimentos e roupas, o que matou vários devido à contaminação na carne.Os únicos alimentos que não matavam eram os que estavam em latas.

Parada em frente ao supermercado, sabe que deve tomar cuidado ao entrar os saqueadores às vezes se escondem nesses locais para encurralar vítimas e se alimentar, mas não sem antes causar dor. Ela conhece bem essa dor.

Os saqueadores são sobreviventes que não possuíam nenhuma moral antes do marco zero e que hoje tentavam ser o poder vigente no novo e sombrio mundo.Presos, ladrões, assassinos que após tudo acontecer, com a escassez de alimento, começaram a perceber que podiam sobreviver mais facilmente se alimentando da única carne em abundância...

Notas finais
Fique a vontade para definir na sua cabeça onde a história ocorre o ano e a idade dos envolvidos!