Notas iniciais
Nesse capítulo o pesadelo é iniciado e as emoções são muito mais pesadas do que parecem.

9h27. Estou na última porta de madeira, última que me divide do pesadelo às duas décadas normais. Não, não ouço mais gritos, nenhum. Sim, os grunhidos eu ouço, além da chave destrancando aquela última porta, movendo todas as engrenagens da fechadura. Saí. O ambiente era a minha rua, mas tomado por uma atmosfera que dificulta até a respiração. Em direção à esquerda, vejo a árvore na frente da casa da vizinha, os grunhidos continuam, cada vez mais altos. Aquela casa tem uma grade bem segura, pela toda frente dela, grades brancas, com uma portinha bem no meio. Entreaberta. Essa cena. Ao olhar dentro do local, perto das máquinas de costura que ela e seu marido trabalhavam, vejo-o. O marido. Um velhinho de uns 70 anos, baixo. Com sua mulher nos braços. Arrancando-lhe uma costela da direita do corpo, com as mandíbulas. Cara, essa cena. Assistindo esses seriados você pensa que é horrível, mas que se você tivesse lá você sobreviveria, mataria todos os errantes sem hesitação, sem medo. Eu também poderia me acostumar com essa ideia, entretanto...

Olhos com vasos sanguíneos totalmente dilatados, e mais. Sua pupila não parecia ter estabilidade, girava para todas as direções e tremia a cada giro. É, acho que meu vizinho tinha fortes direcionamentos para a comunidade ateia. Não que eu esteja criticando ateus nem nada. Agora imagine. Sua expressão facial, sabe o que eu vi? Um sorriso. Um sorriso nefasto. De demônio mesmo. Ao se afogar em sangue, com sua pele aos pedaços. Seu sorriso era tão imponente que com sua pele rasgada, seus músculos faciais eram expostos. Naquele momento, paralização de temor. Aquele ser me notou. Seus olhos centralizados à minha direção, mas ainda tremendo. Levantou-se. Eu não conseguia me mover, parecia que eu estava caindo de um precipício com a mesma paisagem à minha frente. A porta estava da casa entreaberta, o ser veio com certa velocidade e chocou-se com a grade, bem na minha frente. Seus olhos entraram nos meus, um olhar penetrante daquele globo ocular surreal. Foi aí então que eu sofri uma transcendência interna, dentro da minha alma. Meu ouvido só ouvia aquele fino e agudo som como se algo explodisse bem pertinho de você. Tudo ficara muito claro, como se um raio tivesse caído ali na sua frente. Mas minhas pernas pararam de cair. Conseguia me mover, mesmo com o ser bem na minha frente. Ao olhar novamente para ele, percebi algo diferente. Não conseguia passar da grade, mas dentro dele e às suas costas, havia uma aura totalmente negra, formando um certo tipo de asa caída e destruída, formada de chamas negras. Após esse flash de informações, corri cambaleando sem saber o que acontecera de verdade. Voltando para casa, me segurando nas paredes para não cair de atordoamento, vira mais auras correndo em direção a mim, da ladeira da parte direita da minha rua. Consegui entrar em casa, mas minha vista escura não me deixava raciocinar. Conseguira fechar as portas, mas a porta de temor que a situação abrira no meu coração ainda não tinha fechado. Apaguei no sofá.

10h47. No sofá, pedia que aquilo tudo tivesse sido um sonho. Um Pesadelo. Olhei no celular, com 73% de bateria, mensagens de tudo. Pelo visto aquilo tudo tinha acontecido. O medo tomou conta de mim mais uma vez. A única coisa que eu queria no momento era não existir mais. Como seria uma forma não-dolorosa de morrer? Monóxido de carbono. Ah sim, morrer dormindo. Mas minha mente clareou outra vez. Eu tenho pessoas. Pessoas que eu preciso que não sofram, que eu preciso proteger. Meus pais, meus amigos e aquela pessoa que me fez derramar lágrimas de pura angústia naquele momento, a garota que eu amo. Porquê derramei muitas lágrimas cara? Advinha só. Ela mora em outro estado. Cara, 280km pra a ver. O que eu faço agora?

Tentei contactar-la pela internet, infelizmente a energia já não mais funcionara. Desespero. Ainda tinha crédito, era esperança. O sinal de internet não funcionava. Botei a opção de 2G como última esperança e... funcionou. Consegui mandar mensagens, ela recebia no seu celular, apareciam os Vzinhos sabe? Mas sem resposta. 11h00. Recebi uma resposta. Contara que estava bem, mano... meu coração esvaziou uma parte pesada. Minha pressão conseguiu voltar ao normal.

—Eu vou, com toda certeza, te buscar onde você estiver, você sabe disso. (vv, interprete como os Vzinhos do bate papo)

Pedi a ela para trancar toda estrutura que estava no quarto que ela estava, sozinha, dentro de uma universidade rodeada por Mata Atlântica. É nesses momentos de superação do primeiro contato com essa realidade que aqueles vídeos sobre sobrevivencialismo em apocalipse zumbi ajudam. Pedi que armazenasse todos os alimentos e muita água. O máximo que conseguisse. Pedi a ela que tentasse ficar calma e me esperasse, não fizesse nenhum tipo de barulho, só me esperasse... e rezasse.

69%. 11h30. Tentei pegar todo material possível para escapar. Não conseguia mais contactar amigo algum. Mas tinha um que eu tinha que achar. Ah sim, meus pais. Eu tinha que achar-los de qualquer forma. Tentei ligar, mandar mensagem. Em vão. Iria procurar antes de partir. Mas primeiro tinha que sair daquele local. Na minha mochila azul com laranja, botei três garrafas de água. Alguns biscoitos e preparei uns sanduíches bem mal-feitos. Comprara duas facas, do tipo Karambit, para defesa pessoal. Adorava. Uma seria presente para ela. Botei nos bolsos da calça jeans que vestira. Tênis bem amarrados. Estava calor, porém o sol estava iluminando sombriamente a atmosfera. Mesmo assim vesti um casaco, tudo que me ajudara a ter mais proteção possível contra os seres. E agora para sair dali? Mano, tinha que pensar bem. E pensei. Na teoria, zumbis são atraídos por som. Sabe minha caixinha de som? Então...

Subi no meu muro, para saber como estava a situação por ali. Infelizmente havia grunhidos e batidas bem na minha porta. Tinha atraído três seres. Um deles era o vizinho e um outro da frente, uma pessoa muito boa, mas que demonstrara ser mordido no pescoço. Na sua casa, na parte da frente tinha sua moto. E a chave? Estava em cima do murinho da casa. (Slipknot – Before I Forget). Joguei minha caixinha amarrada em isopor para não quebrar o mais longe possível. Deu certo? Mais ou menos. Agora dava pra ver mais nitidamente suas costas cobertas por asas demasiadas negras, enquanto iam em direção à caixa. A porta já estava destrancada. Desci e corri em direção à moto e peguei a chave. Se você pensar um pouco, era uma má ideia enfrentar isso tudo no primeiro dia do apocalipse. Os corpos ainda tem muita energia, eles tem mais facilidade em chegar até você. E chegaram. Dois. Tranquei a pequena grade em ferrolho que nos separava a moto dos seres. Liguei-a. E para sair? Eles pulam grades mano, WTF. E agora o que faria? Fui empurrado para o portão da garagem. Peguei a minha Karambit e cortei os punhos desse primeiro. Ele me largou, mas ainda tinha uma pequena grande mandíbula, que desviei e o empurrei. Em seguida o outro quase me mordeu. Na mão esquerda puxei a outra. Cara todos aqueles seres com um sorriso desgraçado no rosto, minhas mãos não paravam de tremer. Consegui empunhar a lâmina em direção à cabeça. Consegui derrotar um. O outro vinha com os braços para cima de mim, com punhos caídos. Perfurei seu crânio com as duas lâminas, uma em cada mão. Suas feições não foram apagadas. A aura negra era pesada. Me transcendia ódio. Aquele ódio que eu sentia quando vira pessoas fazendo atrocidades umas com as outras. Peguei a moto, liguei-a e fui em direção ao trabalho de minha mãe. Tudo parecia tranquilo até ser perseguido por crianças consumidas. Parecia somente eu em um ambiente de gritos e devastação, mas ainda tinha necessidade de proteger as pessoas. Cheguei ao local, não muito longe dali. Era grande, precisava ultrapassar um estacionamento para ter acesso. Abandonado, não via ser algum, seja humano ou não. Abrira a porta corrediça, corpos no chão. Segui sem olhar para trás. Cheguei à sala. Minha mãe, estava no chão. Com pernas agarradas aos braços. Nas suas costas uma aura branca. Estava aliviado. Cheguei até ela, peguei em suas mãos. Pedi que olhasse para mim e levantasse a cabeça. Olhei nos seus olhos. A aura branca estava sendo consumida por uma negra, cara... E seus olhos...

Estremeceram diante de mim.

12h49.

61%.