Notas iniciais
Esse capítulo mostra as tentativas de fuga dos dois sobreviventes e o que a esperança trás consigo.

53%. 14h13.

A melhor forma de sair dali seria, inicialmente, afastar os mais próximos à porta. Com as lâminas, alguns dedos foram cortados, que seguravam a porta de alumínio. Como havia cerca de pelo menos quatro ali, abrir a porta e empurra-la contra eles para caírem, já que era uma escadinha, seria uma boa ideia. Entretanto, aquela porta abre para dentro. E aí?

Decidimos atrair. Abrir a porta para alguns entrarem, já que o murinho ainda separava alguns. Foi feito. Ele abriu a porta e corremos para dentro. Ele ficou dentro do seu quarto enquanto eu os atraia para o quintal. Por que essa ideia maluca? Simples. No quintal havia um quarto e um banheiro, onde, o banheiro era do lado do quarto e continha duas portas, uma com acesso ao quintal e a outra ao quarto, enquanto o quarto tinha acesso ao quintal e ao banheiro. Atraí diretamente para o banheiro, enquanto me locomovia, ele fechava a porta do banheiro e eu corria em direção à porta do quarto com acesso ao quintal e fechava alguns lá dentro. Infelizmente, mais do que nós esperávamos entraram. Vi o momento de hesitação dele quando viu o ser do seu vizinho de toda vida bem na sua frente, com um sorriso estampado no rosto esbanjando desespero. Ao contrário de mim, ele perdera muitos motivos de sobreviver, eu ainda tinha ambições. Mas, ele seguiu em frente e apunhalou-o na cabeça. Corremos logo em direção à saída. Mais entraram. Em uma casa apertada, seria difícil fazer algo ali. Empurramos o sofá contra eles, o mais forte possível e corremos para fora. Pulamos logo o murinho e felizmente poucos conseguiram nos perseguir. Corremos em direção a uma rua bem estreita, desviando de alguns, e nos amedrontando com crianças com sangue humano em suas bocas sorridentes. Um veículo seria necessário. Ainda achava estranho essa epidemia sobrenatural acontecer de tal maneira em que não havia muitos vagantes. Muitos locais encontravam-se vazios. Vimos um carro com portas abertas. As chaves estavam bem ali. Onde? Na mão de um sujeito não mais vivo, entretanto, sem chamas negras. Peguei a chave e mandei meu amigo entrar. Liguei o carro e ao passar a primeira marcha um grunhido suave adentrava meus ouvidos, uma criança tomada pela maldição. Saímos imediatamente do carro, abri a porta de trás. Por volta de uns sete anos de idade. Não consegui fazer nada com aquela. Ela correu para mim, como se fosse abraçar-me. Ao chegar muito próximo a mim, seus olhos penetraram nos meus. Eu lembrei que aquilo não era mais o que parecia. Joguei-o para o lado com o impulso que pegara correndo até mim. Entramos no carro e saí sem olhar novamente.

Fomos em direção à cidade dela. A viagem duraria cerca de 2 horas à maior cidade antes da dela e após isso, mais 1 hora. 51%. 14h29.

Imaginei o carro ser uma má ideia pelo seu tamanho, onde as rodovias iriam estar completamente desestruturadas, mas não foi bem assim. Ao seguir viagem, felizmente aquele carro tinha acesso ao som pelo bluetooth, e conseguir aliviar as tensões com músicas que eu gostava. A música da vez é Pursuit of Happiness – Kid Cudi Feat. Steve Aoki Remix. É a música do filme Projeto X, em que eu e meu amigo assistimos e queríamos realizar algum dia o sonho dessa festa. A maior parte do caminho estava livre. Infelizmente muitos locais estavam cobertos de sangue e restos... Restos...

Teve um percurso em que um aglomerado estava bem à nossa frente, mas o caminho da contra mão estava aberto, consegui desviar. Chegamos a grande cidade sem muitos problemas, entretanto havia um. A fome ia apertar e a sede também, consumimos tudo durante a viagem. Acho que nervosismo dá fome não acha? Água estava acabando e ainda, a gasolina. Durante a viagem não havia muito posto com os quais eu poderia abastecer. Mas agora era necessário. Ao chegar, a situação era totalmente diferente da minha cidade. A maldição parecia ter chegado momentos depois à minha cidade. Ainda havia pessoas fugindo dos sorrisos. Foi difícil ignorar os pedidos ensanguentados, pedindo ajuda para escapar dali. A situação era que não dava para resgatar-los, sem saber quem eram ou se estava infectados ou não, levaria tempo. E eu não tinha tempo algum.

38%. 16h32.

Já havia morado naquela cidade, conhecia alguns pontos. Passei próximo a onde eu estudava. Tinha um posto logo ali. Estava difícil. Aquele local era muito movimentado. Era do lado de uma grande universidade. A calamidade se alastrara por lá também. Percebi que o início de tudo se deu cedo da manhã, porquê haviam seres trancados dentro da universidade, e quem os trancou estava sem vida bem em frente ao portão, com a mão ainda segurando o cadeado. Se bem que, só lhe restara praticamente a mão. No posto, pedi para ele ir ver dentro da conveniência alimentos e água, afinal tínhamos um carro, agora daria para transportar mais coisas. Enchi o tanque e quando fui fechar a escotilha percebi uma multidão em nossa direção, tínhamos que sair dali o mais rápido possível. Ao mesmo tempo ouvi coisas caindo dentro da conveniência. Um dos vagantes em cima do meu companheiro, corri para ajudar o mais depressa possível. Acabei acertando-o com uma daquelas estruturas de ferro em que ficam os salgadinhos sabe? Aqueles bagulho que tem pippos. É, isso mesmo. Mandei levar as coisas pro carro e correr, porque o pior ainda não tinha passado. Eles chegaram mais rápido do que esperávamos e não tínhamos pegado muitos itens ainda. Quando entramos no carro, subiram em cima e tentaram quebrar os vidros. A janela dele estava aberta, e foi puxado para fora do carro. Sua hesitação não era mais a mesma, conseguiu desferir alguns golpes na cabeça deles, mas não havia tempo para abrir uma porta e ele entrar. Mandei ele pular na janela. Dito e feito, pulou e ainda com as pernas fora do automóvel eu acelerei o carro para longe dali. Pelo incrível que pareça nós rimos da situação. Era uma esperança sabe? Ainda tem pessoas que precisam de mim, e eu também preciso delas. Contudo eu já ouvira uma vez que... “A esperança não murcha, não cansa, não sucumbe a crença. Vão-se os sonhos nas asas da descrença, voltam os sonhos nas asas da esperança e só o fim da esperança é o começo da morte”(GRIMAL, P – Dicionário da Mitologia Grega e Romana – 1993).

16h46. 35%.