Exodus
1 Prólogo
Notas iniciais
Grace estava prendendo os cabelos em um rabo de cavalo — numa tentativa frustrada — quando Sue adentrou o cômodo escuro devido a falta de interesse de sua irmã em acender a luz após o céu tornar-se um obscuro manto negro.
Sue a observava, escondida no breu de seu quarto, tentando inutilmente tornar-se mais apreciável.
Uma forte brisa noturna invadiu o quarto pela janela entreaberta que escancarou-se devido a força do vento.
Como estava de costas para esta, o cabelo ainda não totalmente preso de Grace voou em seu rosto, revoltos, atrapalhando sua visão de si mesma no espelho.
– Droga! — gritou Grace. Ela odiava o mar, odiava a brisa, odiava o gosto salgado da água, odiava a areia, odiava as conchas, odiava os siris, odiava as ondas... Não havia nem um ponto positivo que a fizesse ter o mínimo de vontade de esticar-se numa cadeira de praia para observar o mar, com os pés na areia quente e o sol deixando suas bochechas rosadas.
Não havia nem sequer um ponto positivo que fizesse Grace gostar de passar o ano novo na casa do pai.
Sue riu da atitude da irmã, desencostou-se do batente da porta e seguiu em sua direção, parando atrás de Grace e começando a ajudá-la a amarrar os cabelos, fazendo ela bufar de raiva e cruzar os braços.
– Será que sempre vou precisar de você para tudo? — perguntou Grace sentindo-se inútil.
– Quem sabe, um dia, você seja independente... — escarneceu Sue, rindo da desgraça de sua irmã mais nova.
De fato elas eram totalmente diferentes, não só na aparência. Sue tinha um par de belos olhos castanhos claros e cabelos loiros, já sua irmã, Grace, contava com cabelos enormes e grossos pretos e olhos mais pretos ainda.
Ela não parecia com sua mãe, como sua irmã, mas era idêntica ao pai.
Se é que ela podia chamá-los de pai e mãe...
No dia anterior, Grace ouviu seu pai e sua irmã conversando na cozinha. Os sussurros seriam inaudíveis se ela continuasse dormindo em seu quarto, mas devido a falta de sono e o tédio, Grace estava ao lado, na sala de estar, quase a ponto de ligar a televisão e apartar a conversa íntima e confidencial que o senhor Bergamo e Sue estavam tendo na cozinha, entretanto, quando ouviu os murmúrios, parou imediatamente e seguiu até o batente da porta, aproximando seu ouvido para escutar tudo que ela menos gostaria de ouvir.
– A Grace... Nós a encontramos na praia.
Essa frase jamais sairia de sua mente. Era doloroso.
Ela não contou a ninguém sobre o que ouviu, depois disso, subiu correndo para o seu quarto e permaneceu lá durante todo o dia, o que não fez nem Sue nem Cristian desconfiarem de nada, pois já a conheciam bem e sabiam que praia seria a última opção de diversão para ela, mesmo estando em frente a uma.
***
O dia já estava quase no fim, mas esse não era um dia qualquer, era Réveillon, e Sue e Grace sempre pulavam as sete ondas logo que desse meia-noite. Juntas, essa tradição se estendeu até mesmo com o repúdio de Grace em relação a praia. Ela achava divertido, pois pelo menos estava junta a irmã.
Os pensamentos negativos não largavam a cabeça confusa de Grace. O rabo de cavalo apertado que sua irmã deu em seus cabelos também não estava a ajudando a se libertar daquela frase inútil que se repetia e se repetia em sua mente.
Nós a encontramos na praia...Nós a encontramos na praia...Nós a encontramos na praia...Nós a encontramos na praia...Nós a encontramos na praia...Nós a encontramos na praia...
O que será que isso significa? Que seus verdadeiros pais a largaram a praia? Com quantos anos? Com apenas meses de vida? Recém-nascida?
Ela encarou isso como sendo o motivo para o seu ódio pela praia e tentava esquecer de que seus pais, não eram verdadeiramente seus pais.
A orla da praia estava cheia. Pessoas esperavam os fogos, fazendo a contagem regressiva para a virada do ano.
Quando a contagem chegou ao número cinco, Sue e Grace começaram a correr em direção a água. Grace odiava correr na areia, ela nunca sabia como pisar para parecer graciosa como a irmã... Parecia que a verdadeira Grace¹ ali, era a Sue.
Grace sempre se sentiu excluída devido a sua irmã, da qual sempre estava acompanhada e que sempre atraia os olhares todos só para ela.
Grace se sentia inútil... sempre, para tudo, até mesmo para correr na areia ela não prestava.
Quando seus pés receberam a espuma da última onda que já havia quebrado na praia, os fogos de artifício começaram a iluminar o céu, as pessoas começaram a se abraçarem e desejarem feliz ano novo uma as outras, enquanto as irmãs Bergamo começavam seu ritual de pularem as sete ondas de mãos dadas.
Uma onda. Seis pela frente. Tudo ia normal, como sempre era, todo ano. Segunda onda. Grace cambaleou, mas conseguiu se manter em pé. Terceira onda. O vestido longo de sua irmã estava encharcado, mas mesmo assim, de vestido longo colado ao corpo, sua irmã pulava as ondas como uma ginasta e ela, quase caía a cada empurrão que a onda lhe dava.
Quarta onda. Grace sentiu algo enroscar-se em suas duas pernas. Quando foi pular, era como se não conseguisse dobrar os joelhos. Olhou para as pernas, não acreditou no que viu.
Para ela, eram apenas algas, mas não era nada disso do que se tratava. O pulo mal feito — devido a incapacibilidade de flexionar os joelhos — a fez cair para trás. Sue largou sua mão e a olhou aterrorizada. Sua irmã estava ali, atirada no chão.
Grace, por sua vez, encarou suas pernas temendo o pior. Ela as arranhou como se quisesse afastar algo delas, arrancar sua própria pele, mas quando tomou conta do que estava fazendo, percebeu que seu vislumbre de tê-las visto formando uma cauda, foi apenas uma trapaça do destino.
Ali estavam suas pernas, avermelhadas devido aos arranhões, mas ainda assim, eram suas pernas.
¹ Grace, que em inglês significa graça. Foi feito um trocadilho, dizendo que quem deveria se chamar Grace, era Sue.
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