Exchanged.
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Notas iniciais
Aproveitem!!
Eu não existia. Minha rotina se resumia em ir para a escola, ensaiar no coral e voltar para casa. Amigos? Artigo de luxo na minha vida. Namoro? Não, obrigada.
Eu não existia. Não saía de casa, não ia ao cinema. Passava os dias livres com o meu companheiro Netflix, fazendo maratonas e maratonas de filmes e séries. Comia na cama, e era pálida como um vampiro.
Eu não existia, e, ainda assim, ela ficou intrigada comigo. Enquanto tudo que eu queria era sumir, me fundir com as sombras, ela queria me colocar debaixo do sol, num lugar onde todos os holofotes pudessem me banhar com sua luz.
Eu não existia, essa é a história de como eu passei a existir depois que conheci Regina Mills.
Meu maior inimigo é o despertador. Ele toca sua musiquinha irritante e eu acordo para mais um dia desgastante fazendo nada de bom ou interessante. Meu nome? Emma Swan. Tenho 17 anos e estou no ultimo ano de colégio, inclusive tenho a certeza de que, se eu tivesse que ficar pelo menos mais um ano lá, eu não aguentaria.
Encaro o teto branco do meu quarto e cubro meu rosto com o edredon alguns segundos amtes de minha mãe entrar e avisar que eu iria me atrasar para o colégio. Me descubro e saio da cama, dando passos lentos em direção ao banheiro, pronta para tomar um banho e me arrumar para a tortura.
Lavo a cabeça e, mais uma vez, minha mãe me coloca pressa, alertando para o horário. Murmuro um foda-se baixo e continuo na minha lentidão habitual, não tinha pressa para ir à escola, principalmente por que sabia que lá não aconteceria nada que fosse me agradar.
Me enrrolo na toalha e saio do quarto, encontrando meu cachorro, Pongo, em cima da cama. Faço carinho em sua cabeça por algum tempo, mas logo estou me arrumando novamente. Escolho, como vestimenta, uma calça jeans de lavagem escura e uma camisa de flanela quadriculada nas cores preto e vermelho.
- Emma Swan, essa é a última vez que eu mando você ficar pronta. – Grita minha mãe e eu abro a porta do quarto. Ela me olha dos pés à cabeça e sorri, respetindo pelos corredores como eu não tinha jeito.
Minha mãe era maravilhosa. Minha família, em geral, era maravilhosa. Minha mãe e meu pai, Mary Margareth e David Swan, eram professores de renome na cidade inteira, que não era muito grande. Meus irmãos, Henry e Neal, de 14 e 2 anos respectivamente, também eram destaques, Henry por ser um exímio judoca e Neal por ser a criatura mais fofa do planeta.
E eu? Ah, eu tinha recorde em quem dormia por mais tempo ou quem assistia mais episódios de série por dia. Emma Swan era a ovelha negra da família, a garota calada, com notas medianas, e que não fazia nada de bom na vida a não ser cantar no coral quase esquecido da escola. E nem no coral eu me destacava.
Desço as escadas correndo e encontro meus pais conversando sobre algum assunto acadêmico, coisa que eu escolho ignorar. Vejo meu sanduíche já preparado por minha mãe na bancada da cozinha e o pego, dando uma forte mordida e me deliciando com o conteúdo.
Pão de forma sem casca, manteiga e peito de peru eram a melhor combinação do mundo.
- Emma, seja rápida, você que vai levar seu irmão ao colégio hoje. – Avisa meu pai.
- Certo. – Minha resposta sai com a boca cheia de comida e eles riem. Dou um tapinha nas costas de meu irmão mais velho, que estava sentado num banquinho alto perto ao balcão da cozinha, e, com um aceno de cabeça, indico que já estava indo.
Minha mãe nos espera na garagem, apenas para dar um beijo em cada uma de nossas bochechas e dizer os seus desejos para aquele dia.
- Eu desejo que você aprenda muitas coisas. – Diz para Henry. Quando chega a minha vez, ela diz seu desejo: — Eu desejo que você faça amigos.
Sorrio com ironia e balanço a cabeça, todos os dias minha mãe desejava as mesmas coisas para mim. E todos os dias eu decepcionava ela, pois fazer amigos não era o meu forte.
Eu tive uma amiga, Lily o nome dela. Lily era minha melhor amiga, nós fazíamos tudo juntas e eramos inseparáveis, tudo isso até o dia que ela começou a namorar e simplesmente me esqueceu. Desde então, eu não tinha feito mais amigos e era a esquisitona excluída do colégio.
Entro em meu carro e observo se meu irmão está devidamente protegido com o cinto. Ligo o som, a música de Radiohead invade nossos ouvidos e eu dou partida, tudo isso sob o olhar afetuoso de nossa mãe.
- Como você consegue ouvir isso? – provoca Henry e eu sorrio, olhando rápido para ele e lhe mostrando a língua.
- Melhor do que esses raps que só falam de mulher, sexo e drogas.
- Você acabou de listar as três melhores coisas do mundo. – Seu tom de voz é debochado. Acabo por nem responder, pois sei que seus ouvidos já estavam ocupados ouvindo as músicas estranhas que ele gostava.
Não demora muito e chegamos no colégio. Estaciono o carro e meu irmão salta, sendo cumprimentado por diversas pessoas enquanto fazia o seu caminho em direção ao prédio.
Eu estudava no maior colégio de Storybrooke, até porque ele era o único. Eram três prédios principais, o primeiro destinado ao ensino fundamental das crianças, o segundo para o ensino fundamental dos adolescentes e o terceiro para o ensino médio. Além desses blocos principais, havia também as dependências, que contavam com ginásios, salas específicas para maioria dos esportes e duas piscinas semi-olímpicas.
Meu bloco, o bloco III, era o mais bizarro de todos. Sinceramente, parecia uma selva de loucos. Meninas desfilavam seus rostos e corpos falsos, na expectativa de atrair os olhares ousados dos garotos, e o meninos inflavam os peitos, parecendo galos de briga, tudo isso para parecerem mais fortes perante às meninas.
Acompanhada de fones nos ouvidos, ando pelo pátio em direção ao meu armário. Eu gostaria de poder dizer que fazem piadinhas comigo, que me chamam de nomes ruins, mas eu sou muito insignificante para que façam isso.
Eu não existo.
Pego os livros necessários para aquela manhã e, com passos lentos, subo as escadas que me levariam à sala. Ótimo, primeiro horário era física.
Quero deixar claro que devia ser proibido por lei ter aula de física às 8:30 da manhã. Desde a primeira aula que eu tive da matéria, eu soube que nós seríamos inimigas para sempre, e estava correta. Física era a minha pior matéria, além do professor não colaborar muito para que eu gostasse daquele instrumento de tortura do satã.
Entro na sala e as pessoas se esbarram em mim, resmugando devido a pressa de entrar rapidamente e pegar o melhor lugar. Me dirijo ao fundo e sento na última cadeira, bem no canto, onde eu deveria ficar silenciosamente até que aquele horário acabasse.
As coisas passam devagar quando a gente faz o que não gosta. A maior prova disso? A escola. Os dias se passavam arrastados, os minutos pareciam durar mais do que 60 segundos, e aquilo me irritava profundamente. O último horário acaba e eu sou a úlftima a sair da sala, ouvindo um “Nem sabia que você estava aí.” do professor de química. Sorrio, ironicamente, e saio da sala para achar Henry e irmos para casa.
Encontro meu irmão e, assim que entramos no carro, minha mãe liga.
- Oi, mãe. – Atendo. Conecto o telefone ao bluetooth do carro, de forma que posso conversar com ela enquanto dirijo.
- Já está vindo? – pergunta com sua voz fina.
- Estamos. – É a vez de Henry responder.
- Ah, passem no mercado e comprem umas coisinhas para comer, vamos ter uma surpresa aqui em casa hoje. – Anuncia, animada. Eu e meu irmão nos entreolhamos, coisa boa não poderia vir daquilo.
- Mas...
- Comprem essas comidas aí que vocês gostam, essas coisas cheias de sal e gordura. – Seu tom de voz é de nojo e eu dou risada. – Quando chegarem aqui eu pago.
- Certo, mãe. – Meu irmão diz, enquanto eu mudo o nosso roteiro, adequando-o ao caminho do mercado.
- Beijos, amo vocês. – Ela fala. – Comprem com carinho.
Sorrio com aquele pedido.
- Beijos, mãe. Te amamos. – Respondemos em uníssono e ela desliga.
O mercado é como uma segunda casa para mim. Já tenho em minha cabeça uma lista de coisas que devemos comprar e Henry me segue, opinando de vez em quando sobre algum alimento. Acabamos levando biscoitos doces e salgados, batatas fritas, alguns salgadinhos aleatórios e muitas latinhas de refrigerante.
Saudade ser saudável.
Voltamos para o carro abarrotados de compras e em pouco tempo estamos em casa. Estávamos ambos ansiosos e curiosos para saber qual seria a surpresa, meu palpite era uma nova gravidez, e Henry achava que era uma mudança de casa. Fosse qual fosse a surpresa, com certeza não seria algo que nos agradasse.
Estaciono o carro em minha vaga e buzino, de forma que meu pai em poucos instantes está na porta para nos recepcionar. Ele ajuda a carregar as compras para dentro de casa, reclamando a todo momento que nós iríamos morrer com 30 anos se continuássemos comendo daquele jeito.
Nota sobre mim: Eu comia como se estivesse fazendo estoque para a guerra. Eu comia muito, e, ainda assim, era magra feito um palito. Não tinha peitos nem bunda proeminentes, nada de quadris, coxas ou gordurinhas. Nunca entendi o motivo disso, mas também nunca reclamei, gostava do meu corpo assim.
- Qual é a surpresa, hein? – Já entro em casa perguntando. Deixo as chaves no local de sempre, sigo meu pai em direção à cozinha e tomo um copo de água.
- Calma. – responde, se deliciando com minha curiosidade.- Você vai gostar dela.
- Dela? Me diz que a gente vai adotar uma cadelinha, por favor.
David ri alto. Eu coloco as mãos entre a cabeça.
- Ninguém vai adotar cachorro nenhum. – Aparece minha mãe. – Já não basta Pongo, que vocês insistiram para que a gente adotasse, prometeram que iam cuidar, limpar xixi, limpar cocô, dar comida, levar para passear e quem faz tudo isso? – Ela não espera resposta de nós, respondendo sua própria pergunta. – Isso mesmo, Mary Margareth aqui.
- Que pessoa exagerada. — Argumenta Henry. Nós quatro rimos, mas a risadaria não dura muito tempo.
- Vocês dois, subam para tomar banho pois a gente vai sair daqui a meia hora. – Comunica meu pai. – E, quem não estiver pronto, fica. – Mais palavras não são necessárias, eu e meu irmão subimos para os nossos quartos, ansiosos para qual seria a surpresa.
Em pouco tempo eu estava pronta. Visto uma calça jeans com regata e uma jaqueta de couro vermelho por cima, me considerando arrumada com aqueça roupa. Completo com uma bota marrom e desço as escadas, encontrando com a minha família lá embaixo.
Neal? Confere.
Mary? Confere.
David? Confere.
Henry? Provavelmente se besuntando de perfume em seu quarto. Era impressionante que ele conseguia levar mais tempo para se arrumar do que eu. Dez, vinte, trinta minutos. O tempo estipulado por meus pais tinha chegado a seu limite, estávamos oficialmente atrasados.
- Vamos, Henry. – Grita meu pai. – Você vai ficar, viu.
Meu irmão desce as escadas e nossas bocas se abrem em um “O”. Ele estava parecendo que ia para alguma festa ou algo do tipo, seus cabelos estavam perfeitamente penteados para o lado, usava calças jeans, um sobretudo preto e, para finalizar a roupa, cachecol vermelho com listras cinzas adornava o seu pescoço.
- O que foi, gente? – pergunta e passa por nós, andando para a porta. – Vamos?
Eu e meus pais nos entreolhamos e seguramos o riso, seguindo-o em direção aos carros.
A coisa começou a ficar estranha quando, ao invés de irmos no carro de meu pai, vamos no carro de minha mãe. Meu pai dirigia um prius, o carro que geralmente usávamos quando íamos passear. Minha mãe dirigia uma SUV típica de mães do subúrbio, um carro prata, grande e sem graça.
Carro diferente.
Mais comida.
Surpresa?
Eu começo a desconfiar que vinha alguém para a nossa casa, era a única resposta aceitável.
Durante todo o percurso nós conversamos e fazemos piadas uns com os outros. O bebê Neal vez ou outra soltava uma gargalhada aleatória, o que fazia com que nós déssemos risadas também.
Adentramos o aeroporto e eu e Henry nos empertigamos no banco de trás, trocando um olhar cúmplice.
- Emma, Henry, e até você, Neal. – Começa a minha mãe, se virando no banco da frente para olhar para nós. – Eu quero que vocês sejam educados e pacientes com a surpresa que vem aí.
- Ai meu Deus... – Diz Henry de forma engraçada. – É alguma tia chata que está vindo? Pois eu não acredito que a senhora está fazendo isso com a gente, mamãe. Eu e Emma já prometemos que vamos parar de brigar e até estamos fazendo coisas juntos.
Eu concordo com a cabeça e nossos pais riem.
- Não tem nada de tia chata, Henry. – explica. – O nome dela é Regina, e ela é uma aluna de intercâmbio que vai passar um ano lá em casa.
- O QUÊ? – Arregalamos nossos olhos, fazendo aquela pergunta em uníssono.
- A senhora só pode estar mentindo.
- É absurdo que ela não falou com a gente.
- Uma falta de respeito.
Agora a conversa era entre nós dois. Meu pai estaciona e os dois se viram para a gente.
- Emma, Henry, apenas sejam educados, ok? – diz David na maior calma do mundo. – Tudo o que vocês precisam saber é que ela é brasileira, tem 16 anos e está vindo para aprender a nossa língua.
- Agora vamos, o voo dela já deve estar chegando.
Como uma família feliz, nós descemos do carro. Mary pega um cartaz no fundo do carro com o nome da menina que estava vindo e tudo o que eu mais quero é que o chão se abra para que eu possa entrar.
Andamos para a área de desembarque, meus pais soltam um xingamento baixo e eu contenho a risada. O voo já tinha chegado.
Mary levanta o cartaz, não demora muito e uma adolescente de cabelos curtos, vestindo calça jeans, camiseta e um casaco folgado, se aproxima. Ela sorri largamente e eu me pego admirando seu sorriso.
- Eu sou Regina. – Diz, num inglês não muito bom. – Vocês devem ser Mary, David, Emma, Henry e Neal. – Depois que diz isso, abraça cada um de nós, e ficamos parados por não estarmos acostumados a receber abraços de desconhecidos.
- Bem vinda, Regina. – É a vez de minha mãe falar. – Eu espero que você aproveite muito esse ano com a gente.
- Eu também. – Responde ela, afetuosamente. – Eu também.
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