Olhei para o espelho mais uma vez, esperando ver uma pessoa confiante e segura. Aquele era o único jeito que eu não estava e, se quer saber, nem havia como estar. Ao fundo, eu podia ouvir a voz de uma pessoa animada fazendo o público rir. Como se saia tão bem? Parecia impossível a mim. Daqui a pouco seria eu ali em cima do palco, me apresentando para o colégio inteiro! O único pensamento que rondava minha mente era que aquele seria o maior mico da minha vida.

As apresentaçãos eram um tipo de tradição no colégio. Ao fim do percurso escolar, no terceiro colegial, os alunos tinham que se apresentar para todo o colégio. Cada um escolheria aquilo em que saia – ou pensava se sair – melhor. Lembro-me do dia em que avisaram isso para minha turma. Uma segunda-feira tediosa onde todos estavam praticamente dormindo, sem escutar uma palavra sequer do pobre professor de História. Então, a porta se abriu devagar e de lá entrou nosso zelador, tão magro e branco que mais se parecia um fantasma. Sem dizer nada, colou uma folha cheia de escritos atrás da porta e saiu. Foi o tempo de tocar o sinal para a troca de professores e todos os alunos estavam em pé, empurrando uns aos outros para poder ler o que a folha dizia.

Quando todos enfim souberam do que se tratava, tiveram múltiplas reações. Aquelas meninas que adoravam se mostrar soltavam gritos histéricos e já combinavam ensaios, roupa e maquiagem. Os meninos não se mostraram nada animados e já imaginavam um modo de zoar ao outro. E quanto a mim, bem... Estava mais perdida que cega em tiroteio. Que diabos de talento eu tinha? Ao menos que alimentar meu gato, o velho rabugento Pink, fosse um talento, eu não tinha nenhum! E foi assim que aquela segunda-feira chata virou um conjunto de pensamentos sobre o que eu poderia fazer como encerramento do colégio.

— Senhoras e senhores, vamos dar a vocês quinze minutinhos para repor o lanche e ir ao banheiro, em breve voltaremos com as apresentaçãos dos alunos. — A voz do apresentador ecoou por todo o ginásio, tirando-me de meus desvaneios.

Já estava chegando a minha hora de me apresentar e eu refazia uma contagem regressiva em minha mente, respirando fundo e novamente tentando ficar calma. Talvez para passar o tempo mais devagar ou quem sabe para me distrair, apoiei-me numa cadeira que estava próxima de mim e voltei para a lembrança daquela segunda-feira do começo de novembro.

Naquele dia, sai da escola ainda com o pensamento nas apresentações – acabei esquecendo um livro no colégio, tendo que voltar lá mais tarde para buscar, mas isso não vem ao caso. Depois de almoçar e constatar que meu pai não estava em casa, o que já era normal, me joguei no sofá com as pernas para cima e me pus a pensar em algo.

Contar piadas? Não, provavelmente eu até ouviria o som de grilos depois que acabasse com meu estoque de piadas sem graças. Fazer malabarismo? Eu nem levava jeito para essas coisas circenses! Nesse momento, sabe-se lá porque, eu virei a cabeça para a direita com o olhar desanimado e meu suspiro mais profundo. Foi então que meu olhar recaiu sobre meu velho violão. Aquele que eu tocava quando tinha sete ou oito anos e que meu avô havia me ensinado a tocar... E que eu tinha parado de usar pela separação dos meus pais. Andei até o violão, pegando-o e passando o dedo pelas cordas devagar apenas para ouvir um curto som ecoar. Eu já tinha tocado várias vezes, talvez eu me lembrasse de algo... Sentei-me no braço do sofá com ele e fechando os olhos, comecei a repassar a introdução de uma música.

Uma música que eu conhecia muito bem. Era a música que eu havia feito com meu avô. Pigarreando, comecei a cantar alguns trechos acompanhando o ritmo. Quando acabei a música, abri os olhos e abaixei o olhar para o violão. Era aquilo que eu faria então, cantaria e tocaria. Com um pouco de ensaio, talvez eu me saísse bem. O que quero dizer é: Minha voz não é tão ruim e eu ainda sei tocar um pouco. É, o que custava tentar?

Desde aquele dia, eu havia ensaiado duro e dado o meu melhor. Agora, eu estava ali, nervosa e nada confiante. As pessoas já haviam voltado do seu intervalo e as apresentações continuavam em seu ritmo normal. Mordi meu lábio imaginando o público. Devia estar lotado, pela quantidade de palmas que eu estava ouvindo. Eles aplaudiriam a mim? Segurei uma gargalhada, mas é claro que não Juliet, porque eles aplaudiriam? Por uma canção desconhecida? Provavelmente não...

Ouvi risos baixos e me virei, tentando detectar quem eram os donos daqueles risos, ou melhor, as donas. Com certeza alguma menina encrenqueira tentando me botar em uma pior. Andei nas pontas dos pés até o local de onde eles tinham vindo e quando já ia puxar a cortina e dar um “flagra” em quem quer que fosse, a voz do apresentador me fez pular e recuar.

– Apresentamos agora, uma jovem belíssima. Ela tocará e cantará uma canção de sua própria autoria. Com vocês, Juliet Moore!

Só tive tempo de pegar meu violão na pressa e fui empurrada para frente das cortinas. Agora era tarde demais e eu não podia fazer mais nada a não ser me apresentar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.