Ex-machina
1 ex-machina
“Eu sonho com a minha própria morte.
O tempo inteiro.
E os meus sonhos não são como esse mundo. Não. Eles são diferentes. Nos meus sonhos, as coisas são diferentes e turvas e escuras. Nos meus sonhos, eu morro. Todas as vezes. Não é como aqui. Nos meus sonhos, as coisas são diferentes e turvas e escuras e as cores são outras. Não são como esse mundo. As cores são dessaturadas e opacas e se parecem com algo que cresce na terra. Umas coisas que eu nunca vi. Eles são diferentes. Nos meus sonhos, eu morro. Nos meus sonhos, não é como aqui. As coisas são diferentes e turvas e uma coisa se curva à outra. Nos meus…
—Kenny.
Há muitas coisas das quais eu não me lembro. Coisas que se parecem com sonhos, mas são memórias, ou que se parecem com memórias, mas são sonhos, e muitas delas, eu não me lembro. A música fica mais alta. É dançante, alegre, rosa com azul, lilás, uma música lilás. Nem do meu nome, eu me lembro. Não importa, porque a música aumenta, a música que faz o pé da gente bater no chão, o quadril mexer pra lá, um dois três, mexer pra cá, quatro cinco seis, eu nem me lembro da última vez que morri.
—Acorde.
A única coisa da qual eu não me esqueço…
A música para.
A única coisa da qual eu não me esqueço é do rosto de Kyle Broflovski.”
* * *
A multidão era exaltada, como todas as multidões são. Desde antes de Cristo, desde a Idade Média, dos torneios de cavalaria aos jogos de futebol, em qualquer lugar do espaço-tempo, quando um grande número de pessoas se reúne por um propósito coletivo, há insensatez. Era assim com as guerras, com as revoluções, com os esportes, com os shows, a energia humana acumulada sempre causa exaltação. Sempre causará. Kyle empurrava os homens e mulheres do seu caminho, colocando-se na ponta dos pés para melhor enxergar, tentando se aproximar da grade entre as arquibancadas e a pista. Ele podia sentir a ardência nos olhos e por dentro do nariz ao respirar a poeira que se levantava com os pneus das motos passando a toda velocidade, deixando rastros de neon em todas as cores. O som parecia ter sua própria corrente elétrica. Havia algo de fascinante nisso. Ao se aproximar o bastante, Kyle pôs as mãos na barreira de vidro que separava os espectadores da pista, um pequeno muro que batia na altura do umbigo de Kyle.
E quem é Kyle, você se pergunta?
Comecemos por sua aparência. É um rapaz de vinte e poucos anos (vinte e quatro, vinte e cinco, isso importa?), cabelos crespos e vermelhos, mas a cabeça é raspada na lateral acima da orelha direita. O nariz tem a protuberante estrutura óssea de um povo que já se perdeu, como todos os povos, pois etnia é uma coisa esquecida. Os olhos de Kyle são verdes, não como esmeraldas, mas como o mar em um dia de ressaca e céu nublado. Mar verde. Isso são os olhos de Kyle. Ele é tatuado nas costas, nas mãos, nos braços, no abdômen, tintas coloridas fazem parte de sua pele pálida.
E, se é para falar de coisas físicas, o coração de Kyle bate com força, acelerado dentro da jaula das costelas, excitado, pois a corrida é algo ilegal. E Kyle gosta de coisas ilegais. Coisas que lhe foram proibidas, coisas que continuam acontecendo, independente de uma aprovação maior e externa.
As condições da corrida são precárias. Elas se dão no meio do deserto que cerca a cidade, não afastadas o suficiente para que os altos edifícios iluminados desaparecessem do campo de visão. O céu roxo sobre suas cabeças parecia infinito, já revelando estrelas em pleno dia; e quanto mais longe se olhasse no horizonte, mais rosa tudo ficava.
Os competidores eram seis, todos usando os capacetes de vidro espelhado que refletia as luzes em torno, todos debruçados sobre as imensas motos que giravam em um círculo gigantesco, todos inebriados pelos gritos. Passavam, um atrás do outro, dando tantas voltas que perdia-se a noção de quem estava ganhando de quem. E eram apenas números, aqueles competidores, pois suas identidades não importavam. O telão imenso, uma das únicas máquinas a funcionar naquela estação de corrida abandonada (de uma época em que a competição era vista como um glorioso esporte) marcava, em diferentes cores, quantas voltas cada um havia dado. O número 3 dera cinco voltas a mais do que o número 5. Mas o número 6 quase o alcançava no número de voltas. Podiam ser homens ou mulheres, velhos ou adolescentes, nada disso importava. Os nomes escritos em cores escandalosas nas costas das jaquetas, no entanto, eram divertidos. “Thunder bitch”. “Wild Wind”. “Golden god”. Céus, que bobagem, ele pensava.
Fosse bem honesto, Kyle não dava a mínima para aqueles números. Gostava da coisa em si, das luzes das motos que passavam, das curvas impossíveis que faziam, do som dos motores ecoando pelo espaço aberto do deserto. E, no fundo, gostava também de saber que, logo, a corrida seria inevitavelmente interrompida pelas sirenes policiais. Por isso, pouco importavam os resultados. Elas raramente chegavam ao final.
As luzes vermelhas vinham antes do barulho insuportável das sirenes. Kyle se colocou nas pontas dos pés, dando uma última boa olhada enquanto as motos freavam com violência, a multidão exasperada buscando um caminho para dispersar, pulando os limites da barreira de vidro, invadindo a pista. Kyle sorriu antes de transpassar a barreira também, parado em meio aos corpos que corriam, as motos que tentavam desviar das pessoas, toda essa magnífica dança acontecendo quase que em câmera lenta enquanto os homens da lei invadiam a pista, descendo de seus carros. Eram máquinas, é claro, máquinas eficientes com olhos robóticos feitos para escanear os responsáveis, os mais perigosos, os praticantes. Eram metálicos, carecas e ágeis, nada parecidos com seres de carne como Kyle. O crânio dos policiais tinha um formato quase como o crânio dos bebês, embora não houvesse cérebro a ser protegido em seu interior. Não de forma literal.
Kyle começou a correr quando lançaram as primeiras bombas de gás. Era um espaço aberto o bastante para que ele não sentisse mais do que uma leve irritação nos olhos e na garganta, uma tosse à toa, mas as lágrimas que nasciam em seus olhos deixaram a visão turva. Ele esbarrou em uma mulher primeiro, e virou-se para pedir desculpas de forma tola, como se estivesse em uma situação social cotidiana. Essa distração fez com que uma sombra crescesse sobre ele, um som estridente cortando pelo ar, mas a fumaça o impediu de entender por completo o que aquela silhueta grande significava.
Ah. Era uma moto.
Uma moto grande, a turbina ainda ligada, roncando, as luzes acesas atravessando o gás de maneira fantasmagórica. O piloto ainda usava o capacete, que não revelava absolutamente nada do rosto que havia por baixo, e cegava com a luz neon azulada que percorria o contorno do vidro espelhado. Kyle piscou algumas vezes, atordoado demais para se mover, pois a moto era de uma magnitude assustadora assim, de perto.
Os policiais começavam a sacar suas armas carregadas de tranquilizantes. Uma voz mecânica soava por todo o alcance da pista, embalada por uma dançante música sintética:
“Evacuar o perímetro. Repito: evacuar o perímetro. A área deve ser evacuada de maneira ordenada e pacífica. Medidas extremas poderão ser tomadas frente a...”
Houve um estrondo e Kyle não pôde ouvir o resto. A voz mecânica e a música ainda preenchiam todo o espaço enquanto o piloto buzinava para Kyle, fazendo sinal com a cabeça para que ele subisse na garupa. Os policiais começaram a atirar rojões para o alto, filetes iluminados que subiam ao céu e desciam tão explosivo quanto fogos de artifício. Isso bastou para Kyle tomar uma decisão.
Agarrou-se ao piloto por trás, abaixando a cabeça e fechando os olhos quando a moto passou a ganhar velocidade e adentrar a areia vermelha do deserto, que levantava impiedosamente com a pressão das rodas. Era como cortar através do vento, Kyle pensou, a pele gelada, o rosto escondido nas costas do desconhecido. Teve tempo o suficiente para ver as palavras “Golden god” ali escritas em rosa escuro.
A velocidade diminuiu apenas ao adentrarem a cidade. Kyle ergueu a cabeça para enxergar os familiares arranha-céus cercando os dois lados da avenida pela qual atravessavam, cortando caminho entre os outros carros. Havia telões holográficos por todas as partes, projetando felizes propagandas de refrigerantes e marcas de sapatos, com animais felpudos e logos brilhantes. As luzes da cidade, que jamais se apagavam, fosse dia ou noite, refletiam no asfalto por onde corria o tráfego. O piloto fez uma brusca curva por um estreito beco entre um Pet shop e uma joalheria, bem em frente a um outdoor que passava diversas imagens de produtos perfeitamente desejáveis, que tornariam melhor a vida de qualquer um. Como viver sem sua própria máquina de sorvete, afinal de contas?
O homem – ou pelo menos Kyle acreditava que fosse um homem, pela musculatura que podia sentir ao se segurar nele – deslizou com a moto pelo beco escuro até pará-la completamente, apoiando um dos pés no chão. Kyle desceu primeiro, imaginando que seria esse o momento da despedida. Conhecia bem a Avenida Karl Marx, e a estação de metrô Cinza não era longe. Chegaria são e salvo em casa.
Parou um instante para agradecer ao piloto, mas segurou as palavras em sua boca ao que o outro pôs as mãos no capacete para retirá-lo.
Não era o rosto que Kyle esperava. Bem, talvez ele não esperasse rosto algum, pois era tão fácil se esquecer que, por baixo dos capacetes, havia pessoas reais, pessoas com mães e medos e obrigações como todo mundo. De qualquer forma, o rosto era mais jovem do que Kyle imaginaria. Um rapaz de olhos tremendamente azuis, um sorriso fácil na boca, dentes tortos e um nariz que parecia mal curado de alguma fratura. Os cabelos eram de um loiro escuro, mais claro nas pontas, longos o bastante para cobrir suas orelhas e nada além disso. A pele parecia levemente manchada pelo sol, mas havia algo de fresco em seu semblante, algo… Diferente.
—Oi. — O rapaz falou, tão simples, tão pequeno. Kyle sorriu.
—Oi. — Respondeu em uma voz mais mansa do que pretendia, envolvido por aquela imagem.
Por alguns segundos, nenhum deles disse nada. Um gato preto pulou da calha para a pilha de caixas contra a parede de reboco, emitindo um barulho que os dois ignoraram. O rapaz desligou a moto e apoiou o capacete na própria coxa, mexendo nos cabelos antes de prosseguir.
—Como é o seu nome?
—Kyle.
—Kyle. — Ele ergueu as sobrancelhas claras, assentindo devagar com a cabeça. E, apontando para si mesmo com o polegar. — Kenny.
Houve dois longos segundos de silêncio desconfortável, Kyle balançando a cabeça antes de saber o que dizer em seguida.
—Obrigado por me tirar de lá.
—Não foi nada. A gente sempre tenta tirar alguém, é uma merda ficar no gás muito tempo. — Ele encolheu os ombros. — Eu posso te deixar em casa.
—Ah. Não, não precisa.
—De onde você é? — Kenny perguntou, inclinando-se um pouco para frente, um interesse peculiar brilhando em seus olhos.
—Do Distrito B. Meio fora de caminho.
—Do B, é? — Ele perguntou com um tom entretido que fez Kyle franzir o cenho. — Que engraçado. Eu achei que a galera do B não frequentasse as corridas.
—E por quê?
—Sei lá. É um povo bem de vida. Mas acho que os meninos ricos gostam de descer pra brincar com a gente de vez em quando. — Por alguma razão, Kyle não identificou zombaria na voz do outro. Era um comentário quase orgulhoso. — Ficam curiosos.
—E de onde você é?
—Do F. Você não conheceria.
O Distrito F era o último, à margem leste na saída da cidade. Um espaço remoto de prédios muito altos, uma arquitetura desigual, caindo aos pedaços. Quando Kyle ia almoçar com seus pais na Torre da Matriz, um restaurante renomado do Distrito B que ficava no último andar de um prédio de cem andares, cercado por janelões de vidro com uma das melhores vistas da cidade, Kyle lembrava-se de ficar sempre atordoado com aquela região ao longe, como se os prédios do Distrito F fossem diversas caixas de papelão empilhadas, prestes a cair. Não foi sempre assim. Houve uma época em que o Distrito F era apenas uma humilde área residencial para os trabalhadores da fábrica de eletrônicos, uma das maiores fontes econômicas da cidade, mas a fábrica faliu vinte anos atrás com o advento da C.I.A (Centro de Inteligência Artificial), deixando milhares de desempregados. Agora, o Distrito F era um lugar abandonado. O único comércio que chegava lá eram pequenas lojas de tabaco e lanhouses. As vitrines de antigas lojas estavam todas quebradas, e muitos dos espaços do antigo comércio eram usados para a organização de atividades ilegais, formação de gangue, clubes de luta, venda de drogas, corridas de motocicleta.
Kyle não estava surpreso, mas conhecera pouquíssimas pessoas do F em sua vida. Via muitas delas nas corridas, certamente, mas não conversava com aquelas pessoas (com quaisquer pessoas, para ser honesto). E jamais colocara os pés lá de verdade. Mas algo na afirmação daquele completo estranho, “você não conheceria”, despertou uma dorzinha no orgulho de Kyle. Quem era aquele moleque loiro de dentes tortos para presumir coisas sobre ele?
—Eu sempre quis conhecer o F. Dizem por aí que vocês é que sabem como se divertir.
—Dizem isso, é? — O garoto respondeu com um sorriso, erguendo o traseiro da moto para alcançar o maço de cigarros no bolso esquerdo da calça, puxando um com os lábios. Só depois de acendê-lo com o isqueiro é que se lembrou de perguntar. — Que grosseria a minha, você quer?
Kyle negou com a cabeça, encontrando dificuldade em afastar os olhos daquele rapaz. Não havia nada de particularmente especial sobre ele, esses homens e mulheres que usavam o cabelo bagunçado, fumavam e se tatuavam, respirando um ar de contra-cultura, todos eram muito iguais. Mas havia um certo nível de fascinação em Kyle a respeito desse aqui, um piloto de olhos gentis, que sorria um desses sorrisos charmosos, imprestáveis, com alguma camada de timidez por baixo daquela farsa. Não parecia o tipo de pessoa que Kyle imaginaria sob o capacete do piloto de uma moto.
—Pra onde você vai agora? — Kyle perguntou com genuína curiosidade, permitindo-se dar um passo à frente.
Kenny não respondeu de imediato. Brincava com o isqueiro entre os dedos, o outro braço apoiado sobre o capacete, deixando brotar um sorriso no canto dos lábios enquanto tragava. Tirou o cigarro da boca e soltou a fumaça para o lado oposto ao rosto de Kyle. Havia algo tão despretensioso a respeito dele, um adjetivo que não cabia a quase ninguém com que Kyle esbarrava nas corridas. Talvez por isso, não se sentia intimidado.
—Você tá caçando problema, é?
—A polícia chegou cedo. Não tô afim de ir pra casa agora.
—É, isso é verdade. E pensar que eu tava quase passando o filho da puta do número 9.
Kyle soltou uma gargalhada honesta, e foi o primeiro momento em que Kenny se deu conta de que havia sardas no rosto dele, quase sutis demais para serem vistas.
—Você não ia ganhar.
—Claro que ia! Mais meio minuto e aquele safado tava comendo a minha poeira.
—Pelo menos você é otimista.
Kenny apenas riu junto com ele, sacudindo a cabeça e segurando o cigarro próximo aos lábios. O riso se tornou nada mais que um sorriso vago enquanto os dois estranhos trocavam um olhar que durou um ou dois segundos a mais do que seria apropriado. Por fim, Kenny pigarreou, dando uma última tragada.
—Bom. Se você quer mesmo conhecer o F, eu não consigo pensar em um guia melhor do que eu.
—É? Como eu sei que você não vai me sequestrar e vender meus órgãos?
O loiro encolheu os ombros.
—Você não sabe.
Kyle umedeceu os lábios, tentando evitar o sorriso fácil, desviando o olhar para a parede de reboco por um momento. O gato preto continuava ali, tentando furar um saco de lixo com as garras. Kyle suspirou.
—Viver é arriscar, não é mesmo?
* * *
“Por exemplo:
Em um dos meus sonhos, eu estou em cima da minha moto atravessando a cidade como se eu fosse o próprio vento e ninguém conseguisse me enxergar. Eu deixo esse rastro de luz rosa, um feixe que me segue onde quer que eu vá, e a velocidade só aumenta, porque eu não preciso ter medo de nada. É só um sonho, não? E eu sempre sonho com a minha própria morte. Eu me inclino na moto, o vento cortando a minha cara porque não estou usando capacete, e a cidade é como um labirinto, aqueles prédios imensos com curvas estreitas, mas eu viro tão rápido e penetro bem no meio, bem entre um edifício e outro, e o barulho fica cada vez mais alto, eu vou cada vez mais rápido. Eu não tenho medo de nada.
—Kenny? Fale comigo.
O meu coração dói muito nesse sonho. E eu não consigo respirar direito. Escorrem lágrimas dos meus olhos, mas é por causa do vento, a ardência de atravessar o ar a mil quilômetros por hora. Eu aperto o guidão, cada vez mais forte, e é como se eu devesse fugir de alguma coisa, alguma coisa grande, mas não me lembro do quê.
—Ele está irresponsivo.
Eu sei o que vai me encontrar na próxima curva. Sei que o impacto com aquele carro vai destruir os meus ossos, destruir minha moto, quebrar o meu crânio, fazer com que não sobre nada de mim. E mesmo assim, eu acelero. Eu sei o que vai me encontrar ali. Logo ali. Sei que o barulho será ensurdecedor, que vai assustar tudo que é vivo ao redor, e me lançar tão longe, até que a minha cara arraste no asfalto e eu fique irreconhecível. Eu acelero. E encontro com o meu destino, a única coisa realmente capaz de me parar.
Puta merda, Kyle.
—Ligue para o andar de cima.”
* * *
Os rumores acerca do Distrito F não faziam jus ao que ele realmente era, como funcionava com a maioria dos rumores. O lugar conseguia ser, simultaneamente, muito pior e muito melhor do que Kyle havia imaginado. Apesar do aspecto de abandono, havia pessoas. Muitas pessoas. O Distrito F era um lugar marrom, avermelhado, sépia, bege, todos os tons possíveis que lembrassem a terra e o deserto. E seus habitantes se vestiam de forma violentamente colorida, tingiam seus cabelos e deixavam muita pele à mostra. Todas essas coisas também poderiam ser ditas sobre os outros Distritos, sobre o Centro em si, mas havia algo de diferente ali. Kyle não sabia apontar o quê, exatamente. Enquanto Kenny diminuía a velocidade da moto, passavam por bancas de rua vendendo peixes, bijuterias e jornais. Havia um homem de maquiagem trabalhando ao lado de uma placa eletrônica que dizia: “APLICO PIERCINGS POR 8 DÓLARES”. Não era muito higiênico. Sua cliente estava sentada em uma cadeira de praia tendo o nariz perfurado.
Passaram, também, por crianças de bicicleta e alguns cães de rua. O sol brilhava entre os prédios do F, tão alaranjado que podia cegar, deitando-se no horizonte e anunciando a chegada da noite.
Todos os muros eram pichados. Os outdoors que ali houve um dia, agora foram reduzidos a rasgos e telas quebradas, manchadas de tinta rosa de (provavelmente) algum punk anticapitalista. E as vitrines, de fato, estavam estilhaçadas. Eram ruas imundas, com cheiro de mijo de gato, latas de lixo reviradas, postes e placas quebrados no meio da rua, mas ninguém parecia se importar.
Kyle podia ouvir música no ar. Uma estranha mescla entre música eletrônica antiga e música tropical, algo extremamente dançante. Kenny estacionou em frente a uma enorme cerca de madeira, ao lado de uma série de outras motos, e desligou o motor. Kyle desceu primeiro. A música se fazia mais alta agora, e ele podia identificar uma voz cantando em alguma língua que não era a sua. Não parecia uma voz humana, mas sim robótica. Kyle observou enquanto Kenny descia da moto e tirava o capacete para prendê-lo no banco de trás, dando uma boa olhada na jaqueta de jeans escuro que ele usava, grande demais para o seu corpo, e a forma como a calça abraçava suas pernas magras. Kenny o percebeu encarando, mas ofereceu apenas um riso fraco, sinalizando com a cabeça em direção a um portão de ferro. Do lado de fora, havia um homem negro de braços cruzados, vestido de roxo dos pés à cabeça.
—Então. — Kyle disse, seguindo Kenny pela calçada. — Onde exatamente você me trouxe?
—Eu te trouxe no Buraco.
Kenny se virou para enxergar a expressão no rosto de Kyle, deixando escapar uma gargalhada imediata pela forma expressiva com que o outro franziu o cenho, quase caricato. Kenny se virou por completo para ele, andando de costas, deixando que os outros passantes desviassem dele.
—Você disse que queria se divertir, não disse? — Perguntou.
—Eu nunca disse isso.
—Mas ficou implícito, Sr. Kyle…?
—Broflovski.
—Ah. Chique. — Kenny disse com um sorriso malicioso antes de voltar a olhar para frente, cumprimentando o homem ao lado do portão com a cabeça. — Ei cara, o Tucker tá aí hoje?
—Acho que sim. — O homem respondeu, encolhendo os ombros. Deu uma boa olhada em Kyle sem sorrir.
—Valeu. — Kenny tocou o ombro dele em um gesto carinhoso antes de empurrar o portão para entrar, olhando para trás apenas para se certificar de que continuava sendo seguido. Nesse momento, deixou que Kyle passasse à sua frente, tocando de leve a sua lombar. Aproximou-se o bastante para falar em seu ouvido, devido à música estrondosamente alta. — Bem-vindo ao meu playground.
Não era um espaço fechado, como as boates da Região Central, com isolamento acústico e controle de temperatura. Em vez disso, Kyle se deparou com um espaço a céu aberto, e muitos corpos, centenas, talvez milhares deles, encharcados de suor, pouco tecido cobrindo suas partes, alguns não usando qualquer tipo de roupa. Não havia constrangimento nisso, como não havia desconforto na maneira como aquelas pessoas se tocavam, esbarrando e roçando-se em completos estranhos, pois não era possível que todos esses corpos estivessem familiarizados uns com os outros. E ninguém parecia se importar, todos imersos em algum tipo de dança-transe, intoxicados demais para saberem os próprios nomes. Havia canhões de luzes vermelhas, rosas, roxas, verdes, mudando de direção de forma tão lenta quanto subia uma espécie de fumaça com o cheiro mais agradável que Kyle já sentira.
Kenny esperou que ele se familiarizasse com o ambiente antes de conduzi-lo para a área do outro lado; não havia uma clara distinção entre pista de dança e qualquer outra área, mas era um espaço amplo o bastante para circular sem necessariamente cruzar pelo meio dos corpos. O chão era feito de grama seca e barro, devido à interminável quantidade de pés que passavam por ali. Aproximaram-se de um edifício destruído, com uma escada na lateral e um letreiro em neon apontando para cima, escrito “BAR”.
—Eu tenho que achar um amigo meu. — Kenny gritou no ouvido de Kyle. Estavam muito perto de uma caixa de som. — Eu já volto. É rápido. — Ele fez menção de se afastar, mas logo, aproximou os lábios do ouvido do outro novamente, repousando a mão em seu ombro. — Pede algo pra beber se você quiser.
—Tá bom. — Kyle gritou de volta, imaginando que ele nem pudesse ouvir. Mesmo que se perdessem um do outro, não conhecia aquele homem o suficiente para se importar. Estava intoxicado pelos efeitos ao redor, as luzes, o cheiro, as pessoas. Era muito diferente das festas que conhecia, dos lugares que frequentava.
Havia pessoas de outros Distritos ali, certamente. Era gente demais. Kyle começou a subir a escada de concreto, mas deu uma boa olhada na imagem, agora de cima, dos corpos dançando sob a luz do sol poente, o céu cada vez mais roxo, e aquelas luzes se misturavam aos feixes artificiais dos canhões, uma mistura psicodélica, perturbadora, atraente. Kyle sorriu antes de subir.
No andar de cima, o bar se localizava em uma sala de reboco fechada, sem janelas, com luzes verdes sobre o balcão, abafado, horrível de quente. Havia um aglomerado de pessoas, não exatamente em fila; Kyle parou logo atrás de um homem sem camisa com cabelos negros, crespos como o seu, mas arrumados em um topete alto. Ele virou a cabeça para olhar por cima do ombro, e Kyle percebeu que ele usava lápis preto embaixo dos olhos grandes, um rosto comprido, nariz protuberante. Havia um bode tatuado em seu braço, e para Kyle, aquilo se assemelhava a algum símbolo antigo e pagão. Era uma bonita tatuagem. O homem se escorou no balcão, os cotovelos apoiados, segurando um copo de vidro.
—O que você quer, Michael? — A mulher atrás do balcão perguntou.
—Eu quero aquele… — Ele apontou com o indicador para nenhuma direção em especial, e Kyle notou o esmalte preto descascado em suas unhas. — Aquele licor de dragão. O azul, não o verde, o verde é uma merda. — Ele se inclinou na direção de Kyle. — O azul é coisa boa, você devia experimentar.
—É?
—Você quer?
Kyle sorriu pela maneira como os olhos negros do homem não se focavam em coisa alguma e sua boca parecia anestesiada. Era ridiculamente óbvio que estava drogado.
—Você vai me pagar uma dose?
O rapaz – Michael, era o seu nome? — virou-se de lado, boa parte do seu peso apoiada no balcão, inclinando-se para frente – céus, que homem alto – até aproximar o rosto do de Kyle. Ali dentro, o som do lado de fora era um pouco mais abafado pelas paredes de tijolo, mas ainda bastante alto.
—Depende, você vai me chupar no banheiro?
Kyle ergueu as sobrancelhas, não exatamente em surpresa, rolando os lábios por dentro da boca para segurar o desejo de rir. Enquanto isso, a moça do balcão enchia o copo de Michael até o topo. O semblante pálido daquele homem não se alterou, legitimamente sério, aguardando uma resposta prática.
—Isso custa mais do que uma dose de licor de não-sei-o-quê.
Com isso, Michael endireitou o tronco, desfazendo a cara séria para soltar a risada mais esquisita e inadequada que Kyle já ouviu. Deu um tapa leve em seu ombro e apontou para ele com a cabeça.
—Anda, Bebe, enche o copo do garoto.
A mulher que os atendia, Bebe, usava um batom vermelho borrado e tinha um volumoso cabelo loiro, crespo e emaranhado, jogado de lado de tal forma que dava a ela um visual deliciosamente barato. Ela alcançou um copo para Kyle e o serviu enquanto Michael botava duas notas amassadas sobre o balcão. Ele ergueu o próprio copo para um brinde rápido antes de piscar para Kyle e descer.
Bem, essa havia sido uma experiência satisfatória, Kyle pensou. Cheirou o líquido azul antes de entornar um primeiro gole cuidadoso, surpreendido pelo gosto agradável. Não era doce demais, cítrico como um suco de limão, com uma medida certa de ardência ao descer pela garganta. Kyle se perguntou se deveria levar um copo para Kenny também, no mínimo como forma de agradecimento, mas desistiu da ideia ao dar-se conta de que não sabia do que ele gostava.
Enquanto descia as escadas, encontrou-se com Kenny no meio do caminho. O rapaz loiro estava parado no segundo degrau, sorridente, mexendo a cabeça no ritmo de uma batida diferente agora, menos eletrônica e mais orgânica, do tipo que ressoa nos ossos. As pessoas cantavam alto um tipo de funk soul dançante. Kyle desceu a escada rapidamente, parando no terceiro degrau para mostrar o copo cheio.
—Eu ganhei licor de dragão. — Ele gritou sob a música alta.
—O quê? — Kenny gritou de volta, inclinando-se para aproximar o ouvido da boca de Kyle.
—Eu ganhei. — Ele repetiu, erguendo o copo no campo de visão de Kenny, que sorriu com um tom de desconfiança antes de puxá-lo pelo braço para que descessem.
Seguiu aquele homem desconhecido pelo fluxo de corpos suados, sentindo os dedos de Kenny firmemente enroscados em seu pulso. Aproximaram-se da outra extremidade da cerca, e Kenny o conduziu por uma estreita passagem entre a construção e a cerca de madeira, afastando-os um pouco do som. Havia um homem urinando ali, mas nenhum dos dois se importou com isso.
Kyle deu um gole longo em sua bebida. Desejou ter trazido algo para o outro, sentindo-se idiota de repente, mas ofereceu do próprio copo e Kenny aceitou de bom grado. Fez uma careta ao experimentar, encolhendo o nariz. Kyle soltou uma gargalhada.
—O que você teve que fazer pra ganhar isso? — Kenny perguntou ao devolver o copo, agora falando em um volume mais baixo, pois a música era abafada nos fundos da construção de reboco.
Kyle encolheu os ombros.
—Talvez o cara só tenha me achado bonitinho.
—Ah, é? — Um sorriso provocador pincelou seus lábios. Mas logo, Kenny enfiou a mão no bolso da calça. — Eu também tenho um presente.
Kyle encarou o que havia na palma da mão dele; duas pequenas cápsulas de um tom rosa bebê inofensivo. Estreitou os olhos. Sabia reconhecer drogas recreativas quando as via, embora não usasse com muita frequência. Consumia-se outro tipo de coisa nas destas do Distrito B. Atreveu-se a perguntar:
—O que é isso?
—É a pílula da felicidade. — O loiro colocou uma na língua e engoliu. — Meu amigo vende. É mais barato do que encher a cara. Sabe, como eu não tenho uns caras que me pagam bebida porque me acham bonitinho. — Ele fez uma pausa, encarando aqueles olhos tremendamente verdes. — Tudo bem se você não quiser. É só pra dar um…
Bem antes que ele concluísse o pensamento, Kyle abriu a boca. Kenny soltou um riso fraco, quase tímido, antes de posicionar a pílula bem no centro da língua rosada dele. Kyle tomou um gole do licor azul para que a coisa descesse.
Ele não se lembraria exatamente do que houve em seguida. Apenas relances, momentos de lucidez entre um apagão e outro. Não era, no entanto, uma sensação desagradável. Lembrava-se da música, uma inconfundível batida tropicana misturada a soul antigo e uma voz de forte sotaque que Kyle não saberia reconhecer. Era dançante, sabia apenas disso. Lembrava-se do momento em que começou a chover, e ergueu as mãos ao alto com o mais largo sorriso, deixando a chuva morna lavá-lo por inteiro, tomado pela sensação deliciosa do calor daquela gente, da música que ressonava nos pulmões e da leveza flutuante proporcionada pela pílula. Era o tipo de alegria sintética que fazia cócegas até nos dedos dos pés. Kyle esbarrava em estranhos, estranhos esbarravam nele, mas tudo parecia parte da dança e nada importava. Os sapatos estavam cada vez mais imundos pela lama.
Em outro momento, lembrava-se de uma música mais calma e melódica, cantando nostalgicamente sobre um país distante onde o sol nunca deixava de brilhar sobre o oceano, o tipo de música que se pode apenas balançar para lá e para cá. Viu o rosto do rapaz loiro que o acompanhava – ah, Kenny, era esse o seu nome – movendo os lábios de forma dessincronizada com a música, mas sussurrava a letra com uma expressão tão charmosamente tranquila, os olhos pequenos e contentes, um sorriso malicioso no rosto. Não estava tão próximo agora, pois a chuva parecia ter dispersado a massa de corpos na pista de dança, mas já parara de chover e podiam-se ver estrelas no céu. Kyle piscou devagar, incerto de quando havia anoitecido. Ao olhar para Kenny novamente, desejou que ele estivesse próximo o bastante para sentir o calor de sua pele úmida. Os cabelos molhados dele pareciam ainda mais sujos agora. Isso fez Kyle rir. E, sem perguntar o motivo, Kenny riu também.
Kyle não sabia dizer se a música ficara mais lenta ou se o seu cérebro dava essa impressão. Não soube dizer, também, se havia se passado cinco segundos ou duas horas entre aquela gargalhada e o que houve em seguida. Jamais recuperaria essas memórias, mas céus, não importava. Tudo o que soube é que, ao abrir os olhos da próxima vez, Kenny tinha as mãos grandes e quentes em seu rosto, a testa encostada na sua, os olhos azuis bem abertos. Não sorria agora. Kyle estremeceu, avançando primeiro, tocando os braços do homem com suas mãos confusas. Lembraria para sempre da sensação da língua de Kenny preenchendo sua boca pela primeira vez, morna e lenta, os lábios se encaixando com tanta facilidade que nem foi preciso tentar. Parecia certo, tão certo que ardia por dentro. E a chama cresceu quando os braços de Kenny envolveram seu corpo, levantando-o do chão por um ou dois segundos, as mãos ligeiras adentrando suas roupas sem pedir licença, tocando-lhe as costas quentes com os dedos gentis, firmes.
Beijar nunca significou muita coisa para Kyle. Era fácil, simples, insignificante. Nem sempre agradável, mas quase sempre. E no entanto, naquele momento, sentiu seu corpo inteiro derreter e as pernas parando de funcionar. Durante o reflexo de um instante, pensou em como seria delicioso poder se sentir dessa maneira com mais frequência, que todos os beijos o fizessem parar de respirar. Culparia a droga por tais pensamentos quando acordasse na manhã seguinte.
Mas continuava ali, vivo, de olhos fechados e consciente, atravessado por um calor que não cabia em nenhuma palavra humana. Abraçou o pescoço daquele homem desconhecido para mantê-lo mais próximo, o quanto fosse possível, e sentiu o sorriso dele contra os seus lábios. Aproveitou para lambê-los, respirando pesado contra o rosto dele, os lábios desencaixados e apenas as línguas continuavam dançando sem qualquer pressa, explorando, conhecendo, familiarizando-se uma à outra. Kenny tinha gosto de menta. Kyle também se lembraria disso.
Estavam em um quarto com todas as luzes apagadas, mas uma enorme janela aberta que permitia a entrada de todas as constantes luzes da cidade, brancas e distantes, como os sons pulsantes da vida noturna, mas qualquer ruído humano fora daquele quarto não interessava. Kyle se encontrava deitado de barriga para cima, coberto de suor, a cabeça jogada para trás, a boca entreaberta, arfando pelo ar quente que havia entre os dois. E Kenny, tão fundo dentro dele, erguia o tronco para melhor enxergá-lo, sorrindo no escuro, sempre sorrindo, sempre com aquela cara idiota. Gemeu baixo, mordendo o lábio por algum motivo, fechando os olhos por um instante, movimentando o quadril de maneira dolorosamente lenta para sentir-se deslizando por dentro de Kyle, para dentro e para fora, até apenas a glande permanecer em seu interior. Kyle queria dizer algo, articular como se sentia, mas não foi capaz de exprimir qualquer palavra. Apenas franziu o nariz, gemeu um gemido quase choroso, enterrando as unhas nas costas daquele homem que o fazia se sentir tão bem, céus, tão bem. Tudo era quente demais, molhado demais, lento o bastante para que Kyle sentisse cada milímetro de pele que encontrava a pele, carne que encontrava a carne, e quando seus olhos se cruzavam, extasiados, sabia que Kenny sentia-se tão bem quanto ele.
Não sabia onde estava. Em alguns momentos, mal sabia quem era. Mordia o ombro de Kenny para não gritar, mas às vezes se esquecia disso, deixando que saíssem todos os sons que quisesse. Apertava o homem entre suas pernas, deixando-se tomar por ele, alimentando-se do seu corpo, sentindo na palma das mãos os músculos das costas magras, a carne firme que o revestia. Pela maneira como aquela boca devorava seu pescoço, e o pau enterrado tão fundo dentro dele, Kyle pensou, por um momento, que não fosse aguentar. Que era tudo forte demais.
E tudo isso se deu em uma eternidade. O sol já raiva lá fora quando Kenny o tomou de lado, a ponta gelada do seu nariz percorrendo a curva do pescoço suado de Kyle enquanto ele gozava, sabe-se lá se pela terceira ou quarta vez naquela noite, e então, Kyle apagou.
Acordou horas mais tarde, em um quarto escuro, pequeno e abafado de paredes amarelas. As cortinas bloqueavam a luz ardente do sol da manhã. Deitado ali, de olhos fechados, não podia ver os móveis de madeira branca caindo aos pedaços, a escrivaninha repleta de objetos inúteis; Miniaturas de super-heróis, um ET vermelho com pescoço de mola que nada tinha a ver com alienígenas de verdade, uma caixa quase vazia de lenços de papel, dois recipientes coloridos cheios de cinzas (de cigarro ou qualquer outro fumo), uma réplica funcional de um antigo objeto chamado “máquina de escrever”, mas que nunca seria usada para escrever. Tais coisas deixaram de existir há muito tempo. Kenny a havia encontrado no lixo e a achou bonita, assim como a colorida pintura pendurada acima de sua cama, sem moldura, retratando um pai e uma criança em um campo de girassóis. Assemelhava-se a uma pintura de Van Gogh. Kenny não saberia disso, nem mesmo sabia quem era Van Gogh.
A cama não era grande o suficiente para duas pessoas, mas isso não era problema, pois Kyle se encontrava sozinho sobre ela. O colchão era fino e duro. O ruivo se espreguiçou, ainda semi-inconsciente, não se importando muito com onde havia dormido. Não era incomum a ele acordar em lugares desconhecidos, acompanhado de pessoas estranhas. Logo, com o aroma daquele lençol invadindo suas narinas, Kyle se lembrou. Abriu os olhos.
Esfregou o olho direito antes de se sentar. Estava nu, e não havia qualquer constrangimento nisso, pelo menos até enxergar o homem loiro sentado sobre a escrivaninha cheia de coisas, os pés apoiados em uma cadeira com uma pilha de roupas amassadas, tentando acender um cigarro. O membro flácido estava ali exposto entre suas pernas, sem nada para cobri-lo. Kyle o olhou de relance antes de sorrir. Kenny assoprava a ponta do cigarro por algum motivo antes de usar o isqueiro verde. Ergueu as sobrancelhas para Kyle de brincadeira, sem sorrir. Parecia mais bonito naquela manhã do que parecera na noite anterior.
—Bom dia. — Disse.
Kyle grunhiu e esfregou o rosto com ambas as mãos. Esperava uma dor de cabeça terrível, mas por alguma razão, não aconteceu. Sentiu medo de perguntar que horas eram. Não foi preciso, pois o relógio projetava os luminosos números azuis na mesa de cabeceira. 11h46.
—Minha mãe vai surtar. — Kyle resmungou, arrastando-se para se sentar à beirada da cama, procurando por suas roupas no chão.
Kenny o observou com curiosidade, estreitando um pouco os olhos, emitindo apenas um “hm” interessado enquanto acendia o cigarro. O ponto alaranjado iluminou seu rosto.
—Então você nasceu, é?
Aquela parecia uma pergunta estranha, tanto que Kyle demorou para reagir a ela. Foi feita com tamanha naturalidade que o ruivo sentiu como se devesse saber a que ele se referia. Riu um riso sem jeito.
—Nasci, ué. Você não? — Kyle perguntou de brincadeira, e Kenny pôde ver em seus olhos que ele não falava sério, mas encolheu os ombros e negou com a cabeça, dando uma tragada longa.
—Não. Eu fui feito.
—“Feito”?
—É. Feito.
Kenny observou enquanto Kyle pensava em silêncio, o rosto tomado por uma realização repentina e desconfiada. O ruivo riu, parecendo nervoso de repente, mas diante da serenidade de Kenny, entendeu que o homem falava sério. Separou um pouco os lábios, quase arregalando aqueles bonitos olhos verdes.
—Não… — Foi tudo o que disse, quase forçando um sorriso para disfarçar o desconforto repentino. — É sério?
—Seríssimo.
—Nossa. Eu nunca… Nunca conheci um de vocês.
—Claro que conheceu. — Kenny soltou a fumaça pela boca em direção à parede. — Deve ter conhecido vários. O motorista do seu ônibus, a moça que limpa a privada da sua casa, o cara que te vende sorvete, a gente só não fica expondo pra todo mundo. Não é como se você se apresentasse pras pessoas dizendo “Oi, meu nome é Kyle e eu sou um humano”. Muitos de nós passam a vida inteira sem contar pra ninguém. — Um sorriso malicioso apareceu de repente. — E vocês nem percebem.
Kyle apoiou os cotovelos sobre as coxas e abaixou a cabeça para esconder o rosto nas mãos, sentindo-se quente. Não sabia a razão daquela estranheza no peito. Sabia que androides existiam, especialmente nos distritos marginais, realizando trabalhos que os ricos não queriam fazer. Mas sempre acreditou que, caso encontrasse algum, fosse perceber a diferença. Não eram vivos, afinal de contas. Eram? Kyle piscou algumas vezes, lembrando-se da noite anterior. Da língua daquele homem sobre a sua pele, quente e úmida, da respiração de Kenny em sua nuca, do gozo dele, do gosto de suor e de… De gente. De pessoa, carne viva e pulsante, de alguém. Kenny era alguém. Estava ali, tragando um cigarro com os pulmões perfeitamente funcionais, os olhos azuis vivos e brilhantes, exatamente como se tivesse pai e mãe.
—Isso te incomoda. — Kenny constatou em voz alta. Não parecia ofendido.
—Não. Não é isso, eu só… Eu nunca saberia se você não tivesse… Desculpa. — De repente, desejou que não estivesse nu. Fechou um pouco mais as pernas. — Você é um androide, então. — Repetiu, sentindo-se idiota. Mas precisava dizer em voz alta.
Kenny saltou da escrivaninha com o cigarro preso entre os lábios e abriu a cortina, deixando que a cegante luz do sol invadisse o quarto. Kyle estendeu a mão para proteger os olhos. A janela imensa abria caminho para uma cor dourada tomar conta do ambiente, do sol que ainda se erguia no céu rosado, pincelando a paisagem industrial e acinzentada do Distrito D. Kyle observou a silhueta do homem fumando em frente à janela, as costas nuas com pintinhas espalhadas aqui e ali, uma pele que, céus, parecia tão humana. Ele era como uma pintura sob o sol; a luz fazia com que seus cabelos loiros reluzissem como uma coisa preciosa. Kenny o olhou por cima do ombro e sorriu, tirando o cigarro da boca. Sorriu o sorriso mais sem vergonha que Kyle já conhecera.
—Como é seu nome mesmo? — Kenny perguntou.
* * *
O Experimento abriu seus grandes olhos azuis como um pedaço do céu e tomou fôlego bruscamente, como alguém que emerge do fundo do oceano e respira o ar pela primeira vez. As pupilas se moviam incessantemente para todos os lados possíveis, absorvendo a imagem do frio teto de metal, cego pelas luzes brancas ligadas diretamente sobre seu rosto. Alguém com luvas azuis de borracha segurou seu rosto. O Experimento viu um rosto desconhecido de um homem de meia idade projetando sua sombra sobre ele.
—Kenny? Pode me ouvir? Acho que ele está acordando.
—Caralho, finalmente.
Estava assustado demais para encontrar palavras. Não sabia onde estava. Tinha a terrível sensação de que dormira durante muito, muito tempo. Apenas fez que sim com a cabeça, arregalando mais os olhos ao perceber que estava deitado sobre uma maca fria. Não usava roupas. A nuca doía como nunca doera antes na vida.
—Deve ter havido um mal funcionamento. — Veio outra voz do canto da sala. O Experimento ouvia o som de alguém digitando em um teclado, dedos ágeis e firmes. Tentou virar o rosto para enxergar o restante da sala, mas o homem segurou sua cabeça no lugar e sacou uma caneta luminosa para estudar diretamente os olhos do Experimento. O homem loiro apertou os olhos, sentindo-se violado pela luz.
—Deixe-me examiná-lo. Ninguém vai machucar você. Estava todo destruído quando chegou aqui. — O homem o informou em uma voz ansiosa, mas não havia qualquer compaixão ali. Kenny sentiu-se hiperventilando.
—Kyle. — Murmurou, fazendo outra menção de se levantar. — Kyle! — Gritou.
—Fique quieto. — O homem disse. Vestia uma máscara e uma touca azul que o faziam parecer um médico, mas usava um avental de açougueiro. Segurou o Experimento contra a maca e voltou sua atenção à outra pessoa na sala. — Isso é estranho. Você não apagou esse setor do cérebro dele?
—Claro que apaguei, você acha que eu sou incompetente?! Ele deve ter se infectado com alguma coisa.
—Um vírus?
—Talvez.
—O que aconteceu?! — O Experimento perguntou sob a respiração eufórica, imóvel, apenas os olhos inquietos. — O Kyle… Kyle… — Sentia-se estranho. Havia um rosto do qual ele devia se lembrar. Sabia que precisava descobrir onde Kyle estava, o que houve com ele, e havia algo importante… Algo primordial, mas o Experimento era incapaz de se lembrar do quê. O nome ressoava dentro dele. Não sabia o que perguntar. Sabia, apenas, que precisava perguntar algo. Fechou os olhos exaustos e pensou que fosse chorar. — Onde é que eu tô?
Não sentiu que o homem desconhecido havia injetado algo em seu ombro.
—Fique calmo, Kenny.
—Kyle… — Ele gemia de olhos fechados, grunhindo baixo, entregando-se.
—Kyle não está mais aqui. — O homem mexia em alguma bandeja ao seu lado. O Experimento tombou a cabeça e viu, em formas borradas, instrumentos e luzes piscantes, diversas telas, uma vitrine que dava para um corredor. — Você precisa me ouvir, ok?
* * *
—As I reach for a peach, slide a rind down behind the sofa in San Tropez…
Kenny cantava, mas não se podia ouvi-lo sob o estardalhaço do vento contra o qual cortavam a toda velocidade em sua moto. Kyle o abraçava com força por trás, não porque sentia medo, mas porque gostava de abraçá-lo. O céu estava especialmente delicioso naquele fim de tarde, lilás e rosado, com o incandescente círculo laranja do sol ardendo através da chegada da noite, e assim o faria até quase dez horas, mantendo o céu nesse inebriante estado entre a luz e a escuridão. Era a melhor época para atravessar as areias douradas do deserto na motocicleta, levantando uma névoa com os grãos finos que se sacudiam sob os pneus.
Subiram uma íngreme ondulação nas dunas em tamanha velocidade que o estômago queria sair pela boca, e havia um sabor delicioso na adrenalina de sentir-se levantando da moto em pleno ar. Kenny assobiava quando diminuiu a velocidade para estacioná-la no topo da duna que dava uma vista impecável de toda a extensão do deserto, os rígidos montes de rocha ao longe e cactos de um verde intenso, alguns grandes como prédios. Kenny desceu da moto primeiro, tirando o capacete e colocando-o debaixo do braço, usando o outro para envolver a cintura de Kyle e beijá-lo antes que ele pudesse descer, esperando há horas por isso. Kyle ria, com o próprio capacete preto no colo, os cabelos vermelhos atiçados pelo vento, pela areia e por terem sido comprimidos no capacete durante todo o caminho. Passou os braços em torno do pescoço de Kenny e mordiscou seu pescoço.
No céu – que estava especialmente lilás naquele dia — ardia a imensa bola vermelha do sol em contraste com o amarelo suave e laranja das dunas. Sentaram-se no topo do mundo, sobre um manto azul que lhes protegia da areia. Kenny envolveu Kyle em seu braço direito e o puxou para perto, deixando que o ruivo repousasse a cabeça sobre seu ombro.
—Qual é a sua primeira lembrança? — Kyle perguntou de repente.
—Hm?
—Depois de ter sido feito. Você se lembra do quê?
—Ah. — Ele coçou a parte de trás da cabeça do jeito charmosamente despretensioso que sempre fazia quando pensava com força demais. Kyle sorriu, sentindo vontade de beijar sua bochecha corada pelo sol, onde sardas muito sutis apareciam. Era preciso olhar de perto para encontrá-las. Antes que pudesse se inclinar, Kenny respondeu. — Uma compota de pepino.
—Quê?
—A primeira coisa que eu lembro é de uma compota de pepino que eu precisava muito abrir, mas não tinha força. Nem sei se essa lembrança é de verdade. — Ele voltou o rosto a Kyle e soltou uma gargalhada curta. — Você esperava uma coisa mais poética.
Kyle abriu um sorriso constrangido.
—Não… Não sei. Talvez. Eu só queria entender como funcionam as suas lembranças.
—Você sabe como funcionam as suas lembranças?
—Mais ou menos.
—Bom, eu acho que é mais ou menos a mesma coisa. Quer dizer… Eu também sou feito de carne, sabe, e eu também vou envelhecer. A diferença tá mais no começo da vida do que no final. Dizem que eles criam a gente imerso num líquido até a gente virar adulto, e todas as lembranças antes disso são implantadas. Eu lembro dessa compota de pepino numa casa que provavelmente nem existe, de uma infância que eu nem tive, mas parece… Parece real. Então eu não sei. Eu lembro de uma casa muito grande cheia de crianças que eram como eu, que não tinham nascido de ninguém. Lembro das enfermeiras, até do cheiro dos girassóis no quintal, mas… Sei lá. Talvez seja tudo mentira. Talvez não. Eu nem acho que isso importe.
Ao terminar de falar, Kenny desviou os olhos dos montes de areia de cor coral sob o sol e voltou o rosto a Kyle, encarando aqueles olhos de esmeralda carregados de afeição. Sentiu algo curioso dentro do peito, entre o estômago e os pulmões, algo diferente de todas as sensações que seu corpo artificial já vivenciara. Sorriu. Kyle estendeu a mão para acariciar seus cabelos loiros atrás da orelha.
—Acho que tô apaixonado por você. — Kyle murmurou.
Kenny fechou os olhos, deixando-se ser tocado pelas pontas leves daqueles dedos.
* * *
—Eu preciso encontrá-lo. — O Experimento dizia. Empurrou o homem com avental de açougueiro para se levantar bruscamente da maca, arrancando todos os fios que eram atados à sua pele. Um som de alarme começou a ecoar pelo ambiente. Apesar da tontura, da dificuldade de respirar, do veneno que corria em suas veias e alterava seus sentidos, o Experimento se ergueu feito um touro. — Eu me lembro dele! Eu me lembro… Eu preciso encontrá-lo.
O homem de máscara e avental tentou segurá-lo para que se deitasse novamente, mas Kenny o empurrou com força o bastante, dessa vez, para derrubá-lo sobre a mesa de equipamentos. Tudo de uma bandeja metálica caiu no chão, produzindo um barulho insignificante sob o alarme desesperador que ressoava, emitindo uma luz vermelha que girava e girava e girava. Kenny viu o outro homem agora, e era incapaz de reconhecê-lo, mas enxergava nos olhos do rapaz que o assustava profundamente. E isso parecia bom.
O outro, atirado ao chão, tentava se recuperar da pancada na cabeça ao cair. Esfregava a própria nuca e erguia o tronco com os cotovelos, e seguia falando com ele em sua voz nociva:
—Você precisa se acalmar. Algo terrível vai lhe acontecer se você não…
—Ele surtou, cara! — O outro gritava.
Mas o Experimento não ouvia. Não ouvia nada do que aquelas pessoas diziam. Completamente nu, caminhava pela sala, atordoado com as luzes, os monitores, a enorme vitrine que dava para algum tipo de arquibancada onde diversos olhos lhe observavam. Não parou para questionar. Cortou os pés em algum dos objetos metálicos espalhados pelo chão gelado enquanto procurava uma saída, uma porta, um túnel, qualquer coisa.
—Kenny! — O homem jogado ao chão gritava, agora quase de pé.
A porta dupla verde explodiu em um estrondo de homens e mulheres vestidos de maneira idêntica, cinco ou seis deles, todos caminhando para cima do Experimento.
—Tentem não feri-lo. — Alguém dizia, mas Kenny não sabia quem, pois era segurado e lançado ao chão com as mãos presas para trás. E gritava, gritava aquele nome, como se o nome pudesse salvá-lo. Como se ele pudesse salvar o nome.
Uma agulha imensa perfurou sua pele na região da lombar e tudo começou a escurecer. Os membros ficaram moles, seu corpo parou de responder ao desejo arrebatador de se libertar. Mas até seu último segundo de consciência, Kenny chamava:
—Kyle…
Ninguém o escutava.
* * *
“Mas às vezes eu sonho com outras coisas. Com músicas bonitas, por exemplo. Bonitas e tristes. E as músicas vêm acompanhadas de noites quentes e cenários deslumbrantes, vêm acompanhadas de um corpo que completa o meu. E nessas noites, chega a parecer que eu sou feliz. Que eu era feliz. Às vezes, eu sonho com o calor contra o meu rosto, uma respiração tranquila e um sorriso que me faz acreditar que tudo fica bem na manhã seguinte. Mesmo quando dói. E dói. Dói demais.
Às vezes, eu sonho com esse quarto escuro e familiar, aconchegante, quente ao ponto de me sufocar. Esse sonho vem sempre com uma terrível dor na garganta.
A música começa. Uma voz profunda diz coisas poéticas sob um som de piano, tudo parece tocar em uma vitrola. É o rádio.
—Eu preciso ir.
Não é uma voz profunda que diz isso. É a voz aveludada que me fazia acreditar que eu era feliz. É ela que me diz isso. Eu nunca posso enxergar os olhos, mas sei que são verdes, sei que estão úmidos, sei que ele não quer dizer essas coisas. Mas é isso que ele diz nos meus sonhos, toda vez, essa figura cujo nome… Cujo nome um dia eu soube. Eu vejo seu rosto, apesar de não ver os olhos, vejo seu rosto ruborizado e quente, tão longe do meu. As silhuetas dele no escuro me perturbam.
—Para onde? — Eu pergunto toda vez, mesmo já sabendo a resposta.
—Embora.
Embora.
Nada que é bom dura muito comigo.”
* * *
A brisa marinha sopra delicadamente, balançando as mechas de cabelo e os tecidos das roupas. Kenny abre os olhos. Enxerga, primeiro, o mar alaranjado pelo fim de tarde ou pelo amanhecer, não importa. Não faz ideia de onde está. Nunca antes em sua vida Kenny McCormick tinha visto o mar. É tão belo que, por um instante, esquece-se da angústia que corrói o peito, uma angústia que ele não sabe nomear. Está sobre as tábuas de madeira vermelha de um cais no porto. As gaivotas sobrevoam sua cabeça, pequenas como formigas no céu rosado.
Por algum motivo, ele sabe. Sabe que encontrará o rosto de Kyle quando olhar à sua esquerda. Seca o nariz úmido e se vira lentamente, sem ansiedade. E ali ele está. Os cabelos mais vermelhos do que nunca, o rosto pálido e triste, os olhos de esmeralda, um colar em torno do pescoço com uma pedra da lua que Kenny lhe deu em algum natal que passaram juntos. E isso parece fazer tanto tempo que a imagem da pedra machuca os olhos de Kenny, lembrando-o de coisas nas quais ele não quer – não pode – pensar.
E então, sente o pingo de algo quente escorrendo de sua mão até a tábua de madeira do chão. Ao olhar para baixo, dá-se conta de que está ferido. Ferido em todos os lugares. Sangue escorre do seu braço direito, mancha suas roupas rasgadas, besunta seus cabelos. A pele está cortada em tantos lugares que ele não saberia contar, mas não sente qualquer dor.
Pode ouvir o som do mar. A água lambe as pedras e a areia em algum lugar distante. Não consegue enxergar o fim da praia, como se o horizonte fosse difuso demais para ser visto. Tudo fora daquele cais de porto parece fazer parte de uma outra realidade.
—O que você foi fazer, Kenny? — Kyle pergunta com dor na voz. Kenny sente como se o tivesse decepcionado, embora não se lembre da razão. Mas algo dentro dele associa essa pergunta a um rancor, um rancor amargo que cresce e se enraíza no peito, na garganta, e tudo machuca muito mais do que os cortes que o cobrem por inteiro.
Ao tocar o próprio rosto, Kenny se dá conta de que consegue enxergar apenas pelo olho direito. Não sabe o que houve com o esquerdo. Não sabe se ele existe mais.
—O que aconteceu comigo? — Pergunta baixinho, embora já saiba a resposta.
Foi Kyle. Kyle aconteceu com ele.
—Eu sempre tive tanto medo toda vez que você subia naquela maldita moto… Mas você era tão bom nisso. Depois de um tempo, entendi que algo só te aconteceria se você quisesse.
—Eu quis isso?
Não. Não foi assim que aconteceu. Isso não é tudo. Ele sabe que não é.
Lembra-se da conversa no quarto escuro. Não sabe o que foi dito, não faz ideia, mas as palavras não são sempre necessárias. Lembra-se da boca de Kyle se movendo, dos olhos carregados de remorso, da expressão de quem dizia algo que não desejava estar dizendo. Lembrava-se da certeza de que voltaria a ficar sozinho quando Kyle passasse por aquela porta. Lembrava-se da vontade de desaparecer, de não existir mais, de não continuar respirando.
—Você foi embora. — Kenny murmura. Há tantas imagens, tantas imagens preenchendo seu cérebro, como se todas quisessem passar pela pequena porta da consciência de uma vez só. Como sua cabeça dói. Céus. Ele aperta as próprias têmporas, confuso, sentindo a respiração se alterar. Há um choro que quer nascer dentro dele. Não precisa da confirmação de Kyle para saber que é verdade. As lágrimas começam a nascer em seu único olho.
Kyle se aproxima, suave como uma sombra. E Kenny sabe que ele não está aqui de verdade. Que nada disso está realmente acontecendo. Mas pode sentir o cheiro do mar, o cheiro de Kyle, e tudo parece tão concreto…
—Você é real? — Kenny pergunta, com medo de tocá-lo. Com medo de olhar para ele. — Você foi real?
Kyle sorri um sorriso pequeno, sem mostrar os dentes. Como sorria nas manhãs preguiçosas na cama de Kenny. Como sorria ao encontrá-lo depois de algum tempo separados, como sorria quando Kenny vencia uma corrida. Estende a mão e toca a nuca de Kenny. E o toque é tão quente, tão verdadeiro, que o coração de Kenny se permite acalmar por um segundo. Atreve-se a olhá-lo. E ainda é o rosto de Kyle, tal qual ele se lembra.
—Eu inventei você? — Kenny pergunta, a voz tão tímida quanto a de uma criança.
Kyle segura seu rosto machucado com as duas mãos, tão suaves quanto a brisa, quanto a uma carícia de mãe que Kenny nunca conheceu. Sua testa toca a dele. Kenny se permite fechar os olhos, apertando com as pálpebras as lágrimas acumuladas no olho direito. E elas deslizam pela sua bochecha, quentes, solitárias. Kyle passa o polegar suavemente sobre a sua pele para secá-las.
Puxando o rosto de Kenny contra o seu, Kyle o beija. Não importam o sangue e as lágrimas. Envolve os braços em torno do pescoço de Kenny, exatamente como fazia em outros tempos, os tempos melhores. E o gosto é tão familiar, tão real, que Kenny não se importa mais. Não sabe mais o que acontece dentro ou fora de sua cabeça, mas Kyle está aqui, depois de cruelmente acreditar que ele nunca mais estaria. Kenny espreme cada momento que pode ter enxergando esses olhos verdes.
* * *
O cheiro de peixe frito era a parte mais difícil. Kenny não se importava com a sujeira, com o óleo no cabelo e com o processo grotesco de descamar os peixes, tirar as vísceras e espinhas, mas o cheiro era realmente desagradável. Com as luvas de látex ensanguentadas e os cabelos loiros presos na rede, ele carregava a caixa plástica cheia de restos para jogá-los no latão de lixo logo atrás da tenda, mais uma dentre centenas outras que ficavam na orla, próximas ao cais. Era onde havia a maior passagem de turistas famintos por iscas de peixe fresquinhas, bebidas gaseificadas e frutas exóticas com chocolate. Kenny arrancou a rede pra secar o suor da testa com um pano sujo. Suas roupas brancas estavam terrivelmente amareladas e com manchas de mostarda na camisa.
Ao dar a volta na tenda, Kenny procurou a caneta no bolso da camisa para escrever o especial do dia no quadrinho pendurado com os anúncios de preços em rosa neon.
—As I reach for a peach, dlide a rind down behind the sofa in San Tropez… Breakin' a stick
with a brick on the sand, ridin' a wave in the wake of an old sedan…
Ele cantava despretensiosamente a canção sem se lembrar de onde a conhecia. Devia ter escutado inúmeras vezes nas caminhadas pelas ruas daquela cidade paradisíaca. Ao seu redor, turistas grandes passavam com suas roupas extravagantes de cores intensas, vermelho, amarelo, rosa e laranja, todas muito calorosas. Mulheres usavam chapéus maiores do que a própria tenda de frutos do mar na qual Kenny trabalhava naquele verão. O mar estava de um azul esverdeado tão clarinho naquele dia. O vento soprava suave.
Não conseguia se lembrar do restante da letra, e por um segundo, essa ideia o perturbou. Mas a perturbação foi facilmente ignorada por um assobio agradável. Ainda se lembrava da melodia e isso bastava.
Arrumando os girassóis que enfeitavam a bancada da tenda, Kenny pulou por cima dela para passar para o lado de dentro, onde a pequena cozinha exigia uma bela esfregação. O rapaz coçou a cabeça, pensando no que fazer em seguida, quando sentiu uma presença se aproximar da tenda. Virou por cima do ombro para encontrar um rapaz peculiar aguardando. Não se parecia com os nativos de pele dourada e cabelos escuros; tinha um nariz protuberante e rosto comprido, uma pele pálida como se nunca tivesse encontrado sol na vida, olhos verdes como joias reluzindo no fundo de uma caverna. O mais peculiar, de fato, era a cor intensa dos cabelos vermelhos refletindo mechas douradas sob o sol. Crespo, longo, raspado nas laterais.
Kenny sorriu para ele, como fora instruído a fazer com todos os clientes.
—Oi.
—Oi. — O rapaz respondeu com a insinuação de um sorriso no canto dos lábios, mas seus olhos pareciam tristes, tristes demais para pertencer àquele lugar. O lugar mais bonito da terra, onde as ondas lambiam as pedras e as gaivotas sobrevoavam os céus, cocos cresciam em árvores altas e vistosas, a água era cristalina e as pessoas todas eram felizes.
—O que vai querer? — Kenny perguntou, apoiando-se à bancada, o paninho jogado sobre o ombro. Lembrou-se, então, da rede de cabelos. Desamassou-a do bolso e a colocou sobre a cabeça.
Mas o rapaz não respondeu. Kenny franziu a testa ao sentir que ele o observava por tempo demais. Mostrou os dentes em um sorriso desconfortável, quase tímido.
—Você entende o que eu falo? Tá perdido?
—Não… Não, eu só quero uma água, por favor.
—Tem certeza? Eu acabei de fritar a isca de peixe, tá uma delicinha. Eu sei que o cheiro desencoraja, mas…
—Só água, por favor.
Kenny encolheu os ombros, abriu a geladeira atrás de si sem precisar se mover muito (tudo era perto demais naquela tenda) e entregou a garrafa ao garoto. Por alguns instantes, ele não se moveu. E então, estendeu a mão fechada para deixar uma nota enrolada sobre o balcão. Anuiu com a cabeça e deu dois passos para trás sem se virar, os olhos ainda fixos em Kenny, antes de desaparecer em meio ao vai e vem de pessoas curiosas que visitavam a feira. Como se nunca tivesse existido.
—Hmm. — Kenny murmurou para si mesmo, sacudindo a cabeça para voltar à realidade. Por um instante, foi como um daqueles sonhos esquisitos novamente.
Tomou o dinheiro da bancada para guardá-lo na gaveta do caixa, mas ao desenrolar a nota, percebeu um papel branco amassado dentro dela. Cuidadosamente, desenrolou-o e esboçou um sorriso doce ao deitar os olhos na tinta do papel.
“Golden god”
Seus olhos azuis reluziram em vislumbre de um sonho frequente, o sonho em que ele percorria a costa ensolarada em uma imensa moto com o calor de alguém em suas costas, andando cada vez mais rápido, cada vez mais longe para lugar nenhum. Deixavam um raio luminoso cor de rosa neon por onde a moto passasse. Quase podia saborear a areia e o mar, sentir o couro nas mãos, o moto vibrando entre as coxas, o vento, céus, o vento.
Correu o polegar sobre a última palavra. Seu coração doeu. Com um pequeno riso melancólico, Kenny amassou o papel para guardá-lo em seu bolso. Nem sequer sabia andar de moto. Era bobagem pensar em tais coisas. Havia muitos peixes para se fritar.
—And you're leading me down to the place by the sea, I hear your soft voice calling to me, making a date for later by phone and if you're alone, I'll come home...
Fale com o autor