Observo incrédula o ser se movimentando em espasmos sem sair do lugar. Aposto que neste exato momento meu queixo está pendendo e minha expressão não deve ser das melhores. A figura translúcida estava no canto mais distante e isolado no restaurante, longe de outros olhares, gozando apenas de minha ilustre atenção.

—Júlia?

Saio de meu transe, não muito surpresa, sabia que mais tardar chamaria minha atenção. Olhares de outras mesas se dirigiam a nós. Olho para ele a minha frente e dou um sorriso, afinal, hoje é um dia especial.

— Estava fazendo aquilo de novo – A repreensão e preocupação era notável em sua voz, mas seus carinhosos olhos castanhos estavam neutros.

— Estava apenas pensando, meu amor. Não se preocupe.

Olho de relance para aquele mesmo lugar e... Desapareceu, a criatura desapareceu por completo, sem vestígio algum. Pego a taça finíssima de Champagne com o maior cuidado que poderia ter e levo-a aos lábios, disfarçando meu desapontamento.

Olho para minha mão, o prateado do anel em contraste com minha pele morena, nunca havia me visto como “mulher para casar”, mas algumas coisas mudam quando conhecemos certas pessoas. E hoje estou oficialmente noiva de Alê, meu amor da adolescência, o rapaz de cavanhaque, cabelos e olhos castanhos que me faz a garota mais feliz. Cresce-me um aperto no peito de ainda não ter contado sobre esse “dom” a ele depois de tanto tempo juntos, mas em proporcionalidade estou aliviada de ter mantido esse segredo de todos a tanto tempo.

Respostas? Não creio que há, 21 anos observando essas sombras sem corpos se esgueirando sem medo de serem vistos, nada fora do normal para mim. Fantasmas, almas, aparições, demônios, anjos. Nomes diferentes para o posicionamento de cada doutrina, seja filosófica, científica ou religiosa. A última vez que contei a alguém sobre essas aparições fui obrigada a manter acompanhamento psiquiátrico por alguns meses, suficientemente traumatizante e humilhante para nunca mais dizer coisa alguma sobre. Com ninguém mais.

A noite foi maravilhosa, como num conto de fadas, perfeita em todos os detalhes. Alexandre deixa-me em meu apartamento com seu Chery QQ preto, após nos despedirmos destranco a estreita porta de madeira macia pintada em verde ocre.

— Eu te amo, minha rainha. Não hesite em me chamar caso aconteça algo.

— Também te amo — Digo com uma risada baixa — Pode deixar, você também.

Aceno uma última vez e fecho a porta novamente. Revisto a caixa de correio com o número 01 pintado em vermelho. Nada. Olho para a escadaria a minha frente, iluminada apenas pela alaranjada luz dos postes de iluminação da rua que entrava por uma fresta retangular acima da porta. Deslizo o interruptor diversas vezes na tentativa vã de que por algum milagre as luzes no final da escadaria se acendessem, jogo minha cabeça para trás e fecho os olhos.

“Ok, é como todos os dias, apenas um lance de escada”

Com a mão esquerda no corrimão e a direita segurando a bolsa em meu ombro começo a subir. Nunca desejei tanto que o Alexandre não fosse tão devoto a ponto de não podermos dormir na mesma cama. No fim da escadaria e da luz, pego minhas chaves e meu celular na bolsa e ligo a lanterna, o piso rachado com partes em cimento à mostra, as paredes descascadas, teias de aranha, outra escadaria para o próximo andar à minha direita e seu corrimão enferrujado e, finalmente, a minha frente uma velha porta branca azulada, com o número 01 pintado em vermelho, assim como na caixa de correio. Um luxo. Destranco a porta e a abro totalmente, fazendo um ruído agudo. Tateio a parede até acertar o interruptor com um tapa, iluminando a sala e cozinha. Não é um apartamento grande, realmente, mas é de certa forma aconchegante. Jogo as chaves num pote perto da porta após trancá-la e me dirijo ao banheiro. Olho para meu reflexo e me surpreendo como estou muito bonita hoje. Meus cabelos curtos e enrolados estão ligeiramente bagunçados, meu vestido de paetê cinza e preto marcando bem as singelas curvas do meu corpo e uma maquiagem discreta, combinados com minha pele morena e olhos quase tão negros quanto duas bolas de gude. Não me arrumo tanto no dia-a-dia, já que passo a maior parte do tempo no trabalho ou na faculdade.

“O trabalho...”

Sim... Hoje foi dia do pagamento, saí tão apressada para o encontro que ainda não abri o envelope com o meu salário! Lá estava, em cima da minha cama caprichosamente arrumada, retiro seu lacre e retiro as finas notas de dinheiro. Um mil e duzentos reais, suspiro pesarosamente, posso pagar o aluguel e a mensalidade da faculdade desse mês, mas pouco sobrará para que eu possa passar o mês. Faculdade, aluguel, despesas... E nada sobrará para gastar comigo mesma. De novo.

—x-

Abro as pesadas portas de ferro do último andar, uma laje completamente vazia. Tremo com o vento e arrasto-me em meus chinelos até o sol da manhã, me aperto mais em meu fino cardigã bege. A vista é uma das poucas coisas boas deste prédio, posso ver os campos e as casas de arquitetura colonial, meu amado Ouro Preto está preguiçoso nessa manhã de sábado. Não pude evitar franzir um pouco a testa, respirei fundo e assoprei, pequenas nuvens brancas saiam de minha boca, não estava tão frio até pouco tempo atrás. Um arrepio me percorre a espinha, viro repentinamente, tenho a estranha sensação de estar sendo observada.

— Alguém?

A porta está encostada da forma que a deixei, com certeza ouviria caso alguém a abrisse. Estreito meus olhos ao outro lado da comprida laje, está lá pendendo no ar aquela coisa disforme, semelhante a diversas outras que já havia visto. Não posso evitar de tremer levemente, é sem dúvida assustador. Ele só fica lá me olhando com sua massa vazia, mas sinto uma força irresistível de ir investiga-lo. Me aproximo lentamente sem tirar os olhos dele, estendo a mão para toca-lo.

— O que é você...?

— Sou como você, só que menos viva.

Puxo minha mão, espantada e com os olhos quase saltando das órbitas. Aquela massa translúcida começa a crescer, não penso duas vezes antes de correr em direção a porta e descer a escadaria aos tropeços, adentrando meu apartamento e trancando a porta.

— Sinto muito, isso não funciona comigo.

Viro-me rapidamente, está lá, dessa vez em uma forma similar a humana. Parecia instável, se distorcendo às vezes.

— Não fuja novamente, por favor.

Era uma voz feminina, parecia calma.

— Quem ou o que é você?

Ela olhou para baixo, depois novamente para mim, como se estivesse relutante em dizer.

— Eu morava aqui neste apartamento antes de você, o número 01.

Ela começou a caminhar e passar as mãos pelas paredes, lentamente comecei a andar pela direção oposta.

— Você me vê, isso é bom – sorriu – Estamos procurando alguém como você há muito tempo.

— O que quer dizer com “alguém como eu”?

— São poucos os que conseguem nos ver, e muito menos os que escutam o que temos a dizer – Ela parou e olhou para mim – Geralmente fogem, nos ignoram ou... Nos endeusam. Ewi, precisamos da sua ajuda, volte para Seelanden, Weise precisa falar com você.

— Ewi? Weise? Seelanden? – Digo num tom quase alterado – O que afinal você quer dizer com tudo isso??

— Você ainda não se lembra... – O espírito pareceu desapontado – Me chamo Freun, Seelanden é a nossa casa, onde todos nós vivemos, de onde viemos e para onde vamos quando morremos. Seu nome é Ewi, seu nome de verdade, não o que você recebeu aqui. Weise é o mais velho e sábio de todos nós.

Freun suspirou quando minha expressão de confusão continuou em meu rosto.

— Almas, somos almas – Ela me olha como se fosse óbvio — Não posso te dizer muito, Weise quer conversar pessoalmente com você sobre isso.

— Olha, não sei se entendi bem o que você quer, mas eu não vou me matar, nem pretendo ir a lugar algum com vários... – Aponto para ela, franzindo a testa — Vários de você.

— Eu sei que está confusa, mas você tem que se lembrar. Precisa nos ajudar. Você não precisa morrer, precisamos de você viva.

—x-

Deito vagarosamente na cama, afundando minha cabeça no travesseiro. A noite está silenciosa como sempre. Alê já havia me mandado mensagem que iria dormir também. É a hora.

— Você tem certeza? Só dormir?

Não estou levando muita fé, no que Freun diz, não parece ser possível.

— Sim, concentre-se e deixe sua alma sair de seu corpo, então te levarei até Seelanden. Não se preocupe, seu corpo continuará vivo, ele continuará dormindo até que retorne a ele. Não se esqueça de dizer as palavras.

“Sim, sim, as palavras...”

Fecho meus olhos, não acredito que vá funcionar. Sequer acredito que estou dando ouvidos a um fantasma. Relaxo e me concentro, até sentir minha consciência ir sumindo, entrando em inconsciência. Então repito mentalmente

“Volo ire in domum suam”

Maravilha, está tudo igual.

— Não sei o que você esperava que acontecesse, mas...

Fico sem ar. Estou em pé ao lado de meu corpo. E... Que forma é esta?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.