Exílio

1 O Príncipe


Conforme seus passos eram tragados pelo lodo, o Príncipe arfava; afogado no próprio suor; os músculos flácidos já prestes a ceder; a garganta em brasa, o estômago à procura de algo; as narinas maltratadas pelo odor que exalava ao caminhar, mal camuflado pelos perfumes aplicados com rigor; a seda de suas vestes caras, adquirida em um dos mais nobres estabelecimentos da Cidade-Sol, agora maculada e desprovida de brilho; os olhos, de um azul celestial cada vez mais nublado, falhando em encontrar qualquer vestígio da rota que decidira voltar a trilhar.

"Tarde demais pra comprar um mapa" rindo por um momento consigo mesmo, riso melancólico e deformado, fraqueja e escorrega, salvando sua face alva da imundície graças à companhia de um arbusto espinheiro que (não tão) convenientemente andava por ali. Aqueles Que Foram Perdidos, estivessem ali presentes, teriam zombado do grito e das maldições inflamadas, dignas do inocente condenado à forca, que deixa escapar ao ter sua mão direita atravessada completamente pelos espinhos.

Mais tempo do que necessário perde confrontando enojado a situação em que se encontrava, até que enfim cede ao que resta de sua dignidade, abandona por um instante os lamentos e permite que a ira conduza a mão livre até o machucado. Salva a outra, mas acompanhado por parte daquilo que o prendia, e tudo ao custo de seu sangue e da volta de seus lamentos.

Em momentos como esse, talvez devesse o Príncipe se sentir aliviado por estar só no Exílio. Não era o caso, mais uma vez, noivo de sua punição, se lembrava, preso na luta para encontrar um algo limpo em suas vestes com que vencer a ferida.

Nada da Estrada ou de uma solução à vista. O corpo, feito leve pela fome, pesa. A visão anseia por se encerrar. Rende-se ao lodo, convidado pelos ossos que sob ele encontraram repouso. Poupado é apenas de ceder sua voz instável de moleque, que sem querer incomodar, chama baixinho por alguém disposto a ouví-la se encerrando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.