Evite
4 Milner
13 de dezembro, 14° pós-Revral
– Querida, virou a noite de novo?
– Desculpa, mãe. É que isso aqui tá me dando um trabalho enorme! – ela grita escada acima e volta para a sua escrivaninha. O protótipo ainda não se movia, mas ela tinha certeza que fez os cálculos direitinho! Fez uma pá de simulações no PC, aí chega na mesa de trabalho e tudo vai pelos ares.
– Loraatra, ou você sobe agora ou eu desço – a Milner-mãe grita novamente. Agora parece falar sério.
A mulher sai às pressas até a escada, tropeçando nos próprios cadarços encardidos, mas antes de alcançar o primeiro degrau, ouve alguém bater na porta e congela com um pé no ar. Eles vieram de novo, mas ainda é tão cedo! A mãe também estava em silêncio, então presumiu que também tenha chegado a mesma conclusão.
Silenciosamente coloca os dois pés no chão e desliza até a cozinha – aquela madeira velha do piso rangia com a menor pressão. O pai não voltou do lixão noite passada, apenas pode imaginar onde o velho teria se metido numa hora dessas.
Outras três batidas: mais fortes, mais ameaçadoras.
Lora já havia pego a espingarda escondida atrás da cristaleira, engatinhado até a janela e agora vê duas pessoas, sem poder distinguir o sexo delas. Malditos ággelos. Sobe na cadeira e tenta mirar, mas precisa de um posicionamento melhor e, ao fazê-lo, a madeira barata cede com o peso, uma das pernas fica presa no buraco formado e os cobradores são retirados do seu campo de visão, mas com certeza alerta os dois.
Lora olha para as escadas, com esperanças que a mãe fique em segurança lá em cima. Tira os cachos rosados da cara e tenta alcançar a arma, que caiu no chão, mas ao pegar a espingarda ouve outras três batidas.
Uma: Ela checa a munição da espingarda.
Duas: Ela se apressa para posicionar a mira na porta.
Três: A explosão da porta joga Loraatra contra a parede.
Ela atira nos ággelos, sem sucesso. Um deles se move rapidamente, chuta a arma do pai dela para longe e a imobiliza contra a mesa de centro. O outro coloca um formulário e uma caneta a sua frente.
– Favor assinar esta ordem de despejo, senhorita Milner – A voz andrógina comandou enquanto o outro pressionava a cabeça dela contra a madeira barata.
– Favor criar um pinto e foder o seu colega aqui – Ela responde, e então geme de dor quando a coisa em cima dela gira seu braço para trás das costas e além.
– Favor assinar esta ordem de despejo, senhorita Milner.
O ággelos força novamente o braço dela, ainda mais longe, e Lora não consegue conter o grito. O urro acaba quando o som de um tiro toma o seu lugar, a moça sente o braço livre finalmente. O mensageiro agora está caído no chão, com um enorme buraco na cabeça, o único jeito de matar os ággelos de Ânis.
O outro consegue pular do primeiro andar até o topo da escada. A mãe tenta atirar nele, mas ele joga a mulher do parapeito da escada, deixando-a suspensa no ar pelo cachecol enrolado no pescoço. Ela não morre na hora, pelo contrário, Joana fica chutando o ar e tentando inutilmente desfazer o laço no pescoço com seus dedos trêmulos.
Lora se apressa para pegar a arma caída, mas o cobrador pega a espingarda da mãe e atira a poucos centímetros da mão dela.
– Por favor, não resista.
Ela pega, enfim, a arma e acerta a coisa no meio dos olhos, fazendo o corpo rolar escada abaixo, seguido de um tiro no tecido que mantém a senhora Milner presa. Ela cai com força no chão, e lá permanece imóvel.
– Mãe! – Ela corre até a mulher e se joga aos pés dela – Mãe, fala comigo. Acorda! – Sacode e estapeia Joana Milnet, catadora de lixo de 356-9, no Norte, até que percebeu certo movimento nas pálpebras.
Os cabelos quebradiços e grisalhos de estresse cobriam a cara da mulher, vermelha pela falta de oxigênio. Não se moveu além das pálpebras, Lora determina que apenas precisa de um pouco de descanso para respirar.
Na primeira hora: Lora carrega com esforço a mãe até o sofá há muito destruído, guarda as armas de seus bisavôs e começa a limpar a sala de estar. Nem pode imaginar o que o pai dirá se vir a casa naquele estado.
Na segunda hora: ativa seus Distorcedores de Realidades – É sua mais amada invenção, ou falsificação, dependendo do ponto de vista, criam hologramas em fluidos de densidade baixíssima, inclusive o próprio ar – para consertar a porta destruída e o papel de parede, queimado durante a explosão no início do conflito, jogou a cadeira fora e pegou uma reserva no depósito para a substituição.
Na terceira hora: enquanto coloca o jantar no forno e põe a mesa – três pratos, copos e par de talheres como sempre -, ouve a campainha tocar. Lora abre a “porta” e sorri ao ver o homem que a espera do outro lado.
– Loraatra, o que fez com a sua porta? – Seu amigo diz, atravessando a porta falsa com a mão – Um dos seus brinquedos não saiu como planejado?
– Seria mais fácil de explicar para o papai – ela riu e foi até a cozinha para pegar mais um prato – Os cobradores vieram de novo, deixaram esse lugar de pernas para o ar. Consegui matar os dois, mas a mamãe não está nada bem.
– Posso dar uma visita? Não seria muito educado passar na casa da Joe sem dar um “oi”.
– Coloquei minha mãe lá em cima. Um dos ággelos enforcou ela com o próprio cachecol, nem sei por quanto tempo ela ficou pendurada – Voltou, colocou o prato e talheres sobre a mesa e sentou-se no sofá, ao lado do convidado.
Al passa a mão pelo pescoço como se lembrasse da sensação, Lora julga pela cara dele. Ele depois se levanta, sorri e estala um beijo na testa da jovem. A diferença de idade poderia ser grande – a menina tinha 15 anos enquanto o homem, muitos mais -, mas isso não impediu que o sangue subisse para as bochechas.
– Primeira porta à direita, mas ela não vai acordar só porque você é educado, Al. Ela desmaiou legal.
Ele ri, responde um simples "tentarei" e vai escada acima. Quando o cheiro do jantar alcança a sala, Lora se levanta, checa às horas e vai à cozinha.
É uma cozinheira medíocre, espera que sua comida melhore a tempo de se casar com Al – nada oficial, e Al ainda não está totalmente a par do casório – e que saiam finalmente daquele lixão. Mas os pombos que acabaram de sair do forno estão com um cheiro ótimo, e Lora tem certeza que todos vão gostar.
Coloca as aves à mesa, senta no sofá e liga a televisão caseira — seus amigos da escola tinham, então construiu um para a família — balançando as pernas que falham em alcançar o chão.
Bons minutos se passaram quando Lora ouve as escadas rangerem com o peso de Al — só rangiam com ele. Ela pula do sofá, animada para conduzir o homem até a mesa, mas quando vê a cara dele, toda sua alegria vai embora.
22 de maio, 26° pós-Revral
O Sul é tão estranho. É difícil se nortear nas ruas e cidades. Como raios uma Bartolomeu desce num Tiziu? Não faz sentido. Lora está perdida, tentando se deslocar pelo lugar. Além disso, Al não responde aos chamados.
"É a casa verde enorme, não há como errar" ela se lembra do que o amigo disse pouco antes de pegar um carro — não, aqui chamam de MAD — direto para Cruzada — embora não tivesse visto cruz alguma naquela cidade-Estado.
Loraatra confia no amigo, e Al com certeza confia na capacidade da tekkai*, senão não teria trazido a mulher para o Sul. Mas deixar Lora perdida no meio da cidade é sacanagem.
Andando por Therit — Foi como Al chamou o lugar — finalmente consegue chegar num lugar mais aberto, sem tantos sulistas e seus sotaques forçados. O Palácio não está longe, ela pode sentir. Coloca a mão dentro da bolsa que carregava e se alivia ao saber que a carta de Ak ainda está lá dentro. "Entregue nas mãos dele, Lora" disse ele, naquele tom que a moça tanto gosta, e entregou a carta para ela, sem lhe dar permissão para que lesse.
O fim da sua missão logo chegaria, e então poderia voltar para o Norte e nunca mais olhar para a cara desse povo de olhos piscantes.
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