Evite
1 Ametyr
05 de Julho, 25º pós-Revral
O sol do meio dia rebaixava todos sob ele ao título de sevandijas, e todos dispostos a encará-lo no norte de Tellus reuniam-se ao redor do cristalino palco coberto. Não via-se um daqueles ao vivo comumente, então por que perder uma oportunidade daquelas?
Pessoas vão ao zoológico para ver animais. Pessoas agrupam-se ao redor de palcos cerimoniais pelo mesmo motivo. Atração do dia: um Ethel. Apesar de não ser um espécime tão ilustre quanto um adulto, a larva conseguia atrair seu público.
Que seja. Um Ethel continua sendo um Ethel.
No momento, a larva era condecorada.
O Governante deu um aperto de mãos e uma medalha que simbolizava o quão agradecida sua preciosa Tellus estava e essas coisas. Era uma peça unicamente de ouro branco que tomava a forma do brasão de armas da região: o Olho-da-tempestade, nome do símbolo da família de Eleak, inscrito em baixo-relevo a um pentágono regular de pontas arredondadas.
Jonathan fincou a peça no próprio peito, ao lado de outras duas idênticas, conquistadas naquele mesmo mês. Quando o rapaz olhou seu público, percebeu que a visão divertia-o profundamente. Olhares de devoção, respeito e, em número considerável, medo.
Não dele, obviamente. Era apenas uma criança. Os olhares eram direcionados ao brasão que Jonathan exibia orgulhosamente em seus ombros, um ouroboros tão dourado quanto os olhos daqueles que carregavam o sobrenome Ethel.
Apesar da atenção ser mais que bem vinda, as câmeras que dividiam espaço com as pessoas tratavam-se de peixes maiores, então Jonathan ignorava a carne e sorria à máquina. A plateia formou uma salva de palmas quando aquele entediante ritual avançou à fase do discurso do honrado. Jonathan Ethel aproximou-se da borda do altar, de encontro ao microfone, e libertou suas palavras, ensaiadas tão cautelosamente para ser o mais impactante possível, e...
... Quer saber? Pulemos esta etapa. O falatório tomaria o lugar de cousas mais importantes. Ademais, tenho um limite de páginas.
Foi interrompido por outra salva de palmas, esperançosos que seu desesperado pedido para que ele calasse a boca fosse atendido. Mal o ruído das palmas acabou, outro, de murmúrios, começou com o início de certa movimentação. Os moradores de Tellus abriam espaço para uma criatura, pequena o suficiente para que não pudesse ver, no mesmo altar que o honrado e o Governante dividiam.
Andava com passos curtos e rápidos até Jonathan. Nem mesmo a Guarda Oficial tentou impedir seu avanço, a autoridade deles era nula, comparada a dela. A garotinha subiu as escadas que levavam ao altar e roubou o Ethel mais velho.
– Mil perdões, tio Eleak – Ela começou, fazendo uma rápida reverência -, mas ele foi chamado na Central, a Governante disse que era não pode esperar muito.
E então saiu puxando o nobre de cabelos alvos para longe do altar. Os passos começaram rápidos e apenas foram acelerando, até perceberem que, apesar das roupas cerimoniais, corriam como numa maratona elevavam ao chão qualquer alma que não tivesse o pudor de se afastar do caminho deles. A porta do carro encontrava-se aberta, e Lilium não deu-se o trabalho de ver as pessoas jogadas ao gramado antes de empurrar o irmão no banco traseiro. Assim que sentou-se ao lado dele, fez um estrondo ao fechar a porta e trancando-a. A pequena abraçou o irmão como se tentasse impedir as Noíres* de arrancarem-no do carro e para longe dela.
– O que aconteceu? – Jonathan aninhou a criança assustada num abraço protetor que só um irmão mais velho poderia oferecer – Você dormiu de novo, não foi?
A menina acenou com a cabeça e passou a saia do vestido nos olhos ao perceber que estavam prestes a lacrimejar.
– Uma raposa-falcão saiu dos laboratórios, um ataque foi planejado, me parece – Seu tom não era de troça. Nunca era, ao contar os próprios sonhos. Estes, de forma quase fantástica, deixavam a fortuna à mostra; a concretização deles, contudo, seria apenas feita ao serem compartilhados com àqueles de olhos comuns, longe da linhagem Ethel – Sua cabeça voava tão alto que os deuses a viam dos céus. Aconteceria assim que a cerimônia acabasse. Tão pior que a fahur* do último sonho. Me desculpe, Johnny.
Do lado de fora do carro, o altar já encontrava-se em cacos de vidro e metal esmagados pelo chão. As partes que mantiveram-se firmes ganharam arranhões profundos, originados das garras do emaote*. As cadeiras reviradas explicitavam o quão repentino fora sua visita, enquanto o pequeno número de corpos alegava que não tratava-se de uma caça a alimento, e sim um alvo específico. Tais emaotes eram bem conhecidos por não desperdiçar o que o cadáver vinha a oferecer. No fim de um ataque deles, apenas restam ossos triturados de forma que se igualavam ao pó.
Não havia sinal do Governante.
– Está tudo bem – Sorriu e afagou os cabelos negros da irmã, tão diferentes dos dele – Fez tudo numa excelente cronometragem, como sempre. Se melhorar, poderá me ajudar na Evite! Só precisamos arrumar um jeito para que não precise dormir para ter suas visões.
– Certo! – O rosto se iluminou em alegria – Vou melhorar.
Parecia tão feliz ao imaginar-se sendo útil ao irmão...
Na janela ouviu-se batidas que congelaram o sangue azul da flor. Ao abri-lo, um homem que exibia o mesmo ouroboros que Jonathan, pareceu aliviado ao ver os dois em boas condições. Colou o punho fechado ao coração e uma pequena reverência foi feita para o moe hir*. Para a irmã, um respeitoso aceno de cabeça. Apesar de usar o símbolo da família, os olhos comuns denunciavam que não tratava-se de um Ethel, e sim de um empregado da família.
O funcionário tinha um corte perto do olho que prolongava-se até o queixo, cujo sangue escorria por todo o uniforme. Teria que removê-lo, uma pena fazer aquilo com tão belos olhos violetas.
– Já cuidamos do local – informou, com a voz quase nula – O emaote está sendo devolvido ao laboratório. Não há com o que se preocupar.
– Alguém te deu a impressão que eu estaria preocupado? – indagou o nobrezinho – Não é nada além do dever de vocês nos proteger. Bem sabe que, se não fosse capaz, estaria igualmente em apuros.
E como o coração do homem disparou! Muitos rumores eram espalhados pela Central e pelo entorno sobre as coisas que faziam com descartáveis, mas a maioria logo esquecia. Sabiam que era um trabalho maldito, mas ganhavam mais que qualquer outro emprego, com liberdade de ir e vir. Ademais, são apenas rumores.
– Qual o seu nome? – Lilium enfiou a cabeça janela afora – Também serve sua ID, caso não se lembre.
– 9-1-0-5-2-2 – O homem respondeu com receio de uma possível difamação. Do jeito que Jonathan parecia importar-se com a irmã, uma palavra maldita e eu entraria em ação.
– Não fique tão apreensivo quando Johnny falar algo assim. É só um menino rabugento – Olhou um irmão a tempo de vê-lo revirar os olhos e gargalhou. Não era a primeira vez que prejudicava sua imagem perante um funcionário, e certamente não seria a última. Uma tela projetou-se na visão da jovem, graças ao chip que constantemente piscava em seu olho. Ela digitou o registro do homem e sua ficha apareceu na tela que apenas ela via – Mesmo que não queira demonstrar, meu irmão e eu estamos muito agradecidos pelo seu serviço, Lierth. Pronunciei corretamente?
– Sim... Pronunciou... – Respondeu aos gaguejos e esboçou um sorriso. Há tempos não ouvia o próprio nome vindo de outra pessoa, então aquele foi um momento agraciado na vida do descartável. Lierth afastou-se do veículo pouco antes da garota desativar a tela do chip de interface e levantar o vidro.
Ah, sim. O chip de interface...
Ao andar pelas ruas sulistas, é possível perceber que a cidade nunca está alheia à escuridão. Uma das pupilas emite uma fraca luz que não finda em piscar. Este é o Chip de Interface. Com ele é possível interagir com o Grão-Continente como um todo: veículos, elevadores, internet, semáforos... Mesmo edifícios inteiros podem ser controlados pelo chip, de acordo com as configurações do cidadão. Aqueles que não o possuem são privados do acesso à tecnologia do Sul, invisíveis, inexistentes. Então desde o nascimento é implantado na retina e retirado do momento do óbito.
A pequena placa também carrega os dados pessoais, tais coo registros médicos ou o Cadastro Pessoal (ou Número de Registro, no caso da Evite). O recurso foi adicionado recentemente, pelo avanço em técnicas de alteração física, então DNA ou digitais passaram a ser obsoletas na região do Grão-Continente Sul.
Agora voltando aos acontecimentos...
O sorriso de Lilium desapareceu com o descartável, pois não havia mais uma razão em fingi-lo, agora que eram apenas ela e o irmão. Ela tomou o seu lugar de volta e arrumou suas presilhas em forma de penas, localizadas acima de cada orelha.
– Acho que poderia tirar essa política, irmão – ela falou baixo como num segredo, esfregando as mãos ainda suadas pelo susto – Os... Descartáveis... Não gostam de ser chamados como tal, nem de serem apenas um número de registro. Lembra o que aconteceu com o Hallan?
Fez um gesto com a mão para o volante, e o carro começou a andar.
– 29, lembro bem. Não precisa encher a minha cabeça com isso – Cruzou os braços como o moe hir que era – Ele não soube se portar como um descartável, e só. Se usarem nomes entre si, será um problema. Quando se dá um nome, se cria um vínculo – “E o descartável pode pensar que sua existência importa” era como terminaria sua fala, mas não era muito apropriado dizer tal coisa à irmãzinha querida – O desempenho poderia diminuir. Era assim como o Pai fez, e é assim que faço.
A vidente bufou em decepção. A cabeça do irmão era difícil de ser manipulada, por mais que os rumores apontassem-na como maior influenciadora do dono da Evite. Tais rumores estavam incorretos, apesar de ter uma pequena participação nas decisões da companhia da família, graças ao seu dom.
– MAD, pode nos levar à Mãe? Vamos visita-la hoje.
A pequena olhou a câmera acoplada no MAD e sorriu, mesmo que não houvesse ninguém para sorrir de volta, no banco da frente. A maioria dos Modelos Automáticos de Direção não tinham, mas alguns insistiam em dirigir: a única causa de acidentes, atualmente.
Jonathan olhou sua flor e tampou a câmera rapidamente.
– Não posso visitar nossa mãe – ele disse – A Governante está me chamando na Central.
– Eleak não nos deixaria ir se eu dissesse que tive uma visão. E ela se realizaria, com certeza! E mais, Demis não acha que a Sede seja o melhor lugar para se entrar agora.
– Você contou para ele? – Levantou um pouco o tom de voz, mas não o suficiente para assustar a pequena de olhos dourados. Costumava ser bem cauteloso em sua presença, ao menos tentava ser – Como pôde?
– Demis continua sendo do nosso sangue, com nome ou sem nome. A regra também o inclui, goste você ou não.
Silêncio, e então um suspiro de Jonathan, que se dera por vendido naquela pequena discussão. Tirou a mão da câmera do MAD.
– Que seja. Leve-nos logo para Dissae.
Toda a viagem sucedeu-se por um silêncio absoluto e reconfortante. Lilium admirando as poucas colinas que restavam no Grão-Continente e que formavam uma paisagem difícil de não ser apreciada pela menina, já o irmão apenas autoflagelava-se – na própria cabeça, infelizmente – numa falha tentativa de preparar-se para o pesadelo que viria a seguir. Não que desgostasse da senhora Ethel, é só que...
... Esqueça, isso é para depois. A cidade.
Dissae é uma área voltada ao estilo de vida campestre. As pessoas que lá moram são fazendeiros ricos, velhos, crianças muito novas para estudar, gente que não agrada-se com o ritmo das regiões urbanas sulistas. Qualquer um desses casos adaptar-se-iam surpreendentemente bem, já que apenas via-se o vivo verde de Dissae.
Quando MAD parou em frente a um casarão esquecido pelo tempo, a região ficou apenas mais bela.
A garota saltitou pelo calçadão de pedra e bateu na porta de madeira. O chip não tinha tanta utilidade naquela parte do Sul, então as pessoas abriam portas por objetos magníficos chamados maçanetas. A resposta tardou em aparecer, tal como o usual, e ambos tinham certeza que ela encontrava-se em casa. A matriarca permanecia todos os dias dentro da propriedade, usando os empregados da família para interagir com o mundo exterior.
Depois de algum tempo do lado de fora, uma jovem atendeu a porta. Parecia não ter mais ciclos armazenados que o nobre, talvez pela pele pálida e cabelos negros presos num coque, se bem que o natural cenho franzido davam-lhe alguma idade a mais. A moça olhou o par de irmãos, suavizou a expressão com um sorriso e abriu espaço para que os dois adentrassem na casa.
– Minha senhora se alegra com vossa visita – as paredes falaram, por ela não poder – Devo vos acompanhar ao cômodo da senhora?
– A gente sabe onde fica, Gwen – Lilium equilibrou-se na ponta dos pés e beijou o rosto da doméstica – Apareça na Central para que te faça um jantar novamente, será divertido.
A empregada acenou com a cabeça, enquanto as paredes emitiam som algum. Os dois seguiram seu caminho por corredores curtos e amistosos, a pequena comentava sobre sua visão enquanto o mais velho escutava com atenção, mas todas as funções congelaram-se ao chegar na porta da mãe, com a mão tentando alcançar a maçaneta inutilmente.
Lilium olhou-o, analisou-o e segurou a mão parada no ar. Era sempre a mesma coisa quando o bom filho a casa tornava. Abriu a porta ela mesma, devagar e constante, para dar tempo às funções motoras do irmão para voltarem ao normal.
Ao adentrar o quarto, viram a matriarca assistindo à cerimônia, daquela mesma manhã. As mãos suaves contrastavam o que os cabelos inteiramente alvos e quebradiços denunciavam, e o rosto coberto atiçava a curiosidade dos lecturos*. Quilynn falava com as paredes, baixo tal que um segredo.
– ... Meu Jonathan... Tão valente quanto o pai.
– Não acho que alguém como ele possa ser chamado de ‘valente’. Algum outro adjetivo seria mais apropriado, mas não com você por perto – O primogênito anunciou sua chegada e cedeu espaço para a caçula passar – Lilium achou bom fazermos uma visita.
– Por causa de uma visão, sei bem – Quilynn abraçou a pequena e afastou-se para ela sentar-se ao seu lado – Não se machucaram, certo? Pense só. Um emaote liberto na multidão!
– Estamos mais que bem, saímos a tempo – Lilium garantiu-lhe com um sorriso e afastou as franjas de seda negras que cobriam o rosto da mãe.
Qualquer um sem um cérebro preparado sairia de imediato. Enquanto aqueles que são saíssem a tempo sentiriam as últimas refeições subirem esôfago acima. Por baixo das franjas, as queloides de Quilynn apossavam-se de seu rosto tais quais raízes de árvores embaixo da pele avermelhada.
A aparência dela, no entanto, não comparava-se àqueles que não sobreviveram ao ataque do Ladrão de Rostos.
O nome excêntrico foi uma batalha perdida com a mídia, que decidiram que algo assim refletia bem como ele tratava suas vítimas. Vai saber o que se passa dentro dessas organizações...
O Ladrão apareceu dias após a posse dos novos governantes. Eleak e os outros Grandes, como vitalícios, não preparavam tais cerimônias em suas respectivas regiões.
03 de janeiro, 23º pós-Revral
As televisões mostravam festa nas ruas de todo o Sul com gritos e berros, para comemorar a Revral*, que tirara o Rei do poder. Evite, é claro, emitia sua própria versão, que basicamente consistia na prestigiosa família Ethel colaborando no festival à sua maneira – acenando, sorrindo e gastando um dinheiro que parecia não acabar.
Uma semana com criminosos em potencial andando soltos pelas ruas.
Os funcionários inferiores guardavam o desfile de Revral. Em grupos de três, se dividiam no topo de prédios ou entre o público para manter a ordem durante o evento. A quatro prédios de distância da família, observava a multidão e enviada níveis 5 para conter possíveis atos de violência.
– Demetri, estás ridículo.
– O Rei era ridículo. Só estou dentro do personagem – O ruivo respondeu, tirando a coroa que insistia em cair nos olhos de diferentes tons de dourados. Certamente, não era um Ethel puro – Onde está sua fantasia, Ametyr?
– Não comemorarei algo que significa nada para mim – Respondi, impedindo-o de colocar a peça de plástico barato na minha cabeça. Mesmo sendo uma brincadeira, era desrespeitoso a ambas as culturas – Já passou-se duas décadas, não entediaram-se da mesmo evento todo ciclo?
– Nah, é divertido saber como aqueles caras saíram do poder.
Apesar de tudo, mal conseguia ouvi-lo, por conta dos gritos. Ele continuou tagarelando algo contendo as palavras “feriado”, “revolução”, “serra-elétrica” e “jantar”. Ao chegar a hora de responder-lhe, a explosão tomou conta de minha fala e a fumaça, de minha visão.
Corri para ver o estado da família, que encontravam-se no olho de todo o incômodo que a explosão proporcionou. Estavam seguros, cobertos pela Noir encarregada – diferente de outros milhares, suponho, não tão afortunados.
24 ciclos e ainda haviam apoiadores de uma monarquia.
05 de julho, 25º pós-Revral
Desde então, os noticiários apenas informaram sobre pessoas que eram encontradas mortas com rostos tão retalhados que cediam com o mais leve toque. Demorou meses até que conseguíssemos tirá-lo dos holofotes da mídia, sem sucesso em captura-lo.
A senhora Ethel quase foi uma das vítimas. O monstro tomou-a ao invadir a mansão, outrora dada como vazia. Alvo fácil. Parecia estranhamente interessado nos negócios do marido, desaparecido há meses. Entretanto, os deuses decidiram que a cena não era de seu agrado, modificando o desenlace ao lançar a cunhada no ato.
Ambas não conseguiram explicar o fechamento da história com exatidão, poderiam jurar que o bastardo desapareceu nas sombras, mas era certamente impossível. Mys quase não reconheceu a esposa do irmão, decerto fizera um ótimo trabalho fazendo do rosto da matriarca retalhos.
Nossos médicos tiveram grande trabalho reconstruindo a face, mas ainda hoje era possível ver o rosto deformando-se ao falar cousas tal que:
– Passarão o dia aqui? – Quilynn sentou-se na cama, virando-se para o par de filhos.
– É o que parece. Acho que não é boa ideia ficar em Heir. Um emaote fugiu dos laboratórios públicos, pode não ter sido o único.
– Assisti à celebração, meu filho, e sei que está aqui apenas por Lilium, senão estaria em sua preciosa Evite agora mesmo, como seu pai. O gosto pelo trabalho é hereditário, pelo o que vejo.
– Por favor, não me compare a ele – Uma dose de agressividade brotou na voz do nobre – Não sou como ele, e adoraria se a senhora pensasse de acordo pois não pretendo ser alguém que deixa minha esposa para ser torturada por um monstro – Jonathan tampou a boca com ambas as mãos ao perceber que tocara naquele assunto – Desculpe, mãe.
– Tudo bem, Johnny – Ela suspirou e juntou as mãos pacientemente – Acho melhor você ir para a Sede, está muito nervoso – O terrível sorriso desaparecera, deixando-a menos deformada – Você sabe como o trabalho te acalma.
Ele tentou argumentar, mas sabia que não haveria um enredo onde ele sairia vencedor, então simplesmente foi embora, deixando Lilium e Quilynn sozinhas. “Tudo bem”, pensava, “MAD volta para buscá-la depois”. A irmã era, decerto, a única coisa que importa para ele. O resto é descartável, até mesmo a matriarca.
– MAD, Heir – Disse após entrar no veículo.
Ao contrário da grande e poderosa Tellus, Dissae era uma das poucas regiões do Sul onde o verde predominava e animais pecuários poderiam ser vistos nas fazendas dos pobres – apesar da tecnologia ser uma sofisticação impressionante, ainda era preciso cousas como fazendas e lixões, Dissae gozava de maior parte do verde no Sul – e foi apenas isso o que viu pelas próximas horas, até que chegasse à capital sulista.
Há algum tempo – milênios antes da Revral – uma cidade grande e moderna era apelidada de selva de pedra. Hoje – em Heir, ao menos – a pedra não é mais encontrada nas ruas, tendo o metal usurpado o seu lugar. Em todo o lugar. E o monumento de metal mais impressionante na capital não é algo pertencente ao Estado, mas algo construído com o dinheiro dos Ethel. A sede da Evite roubava todo o brilho da região, caso observada por muito tempo.
Um grande edifício que mais parecia uma caixa torácica com suas costelas abertas, abraçando o símbolo da empresa que graças a inúmeras placas magnéticas mantinha-se estável no ar. No chão, nenhuma grade ou guarda para a proteção da propriedade. Desnecessário. Quem atrever-se-ia a vandalizar aquele prédio? Todos conheciam a família a qual pertencia, e que tipo de gente trabalha lá. Eu, como humilde exemplo, que esperava calmamente pela chegada do pirralho à Sede. Credes em mim, a expressão que ele carregava no rosto era impagável, não pude conter o riso.
– Cale-se, mulher – O insolente ordenou – Suas malditas coisas sabem muito bem o que aconteceu, não ouse perguntar – adentrou o edifício e eu, naturalmente, segui meu nobre chefe – Quero todos os relatórios dos laboratórios de Tellus, Rhavos e Gran Steam. Quero saber de onde aquele emaote saiu.
– Rhavos também? – Estranhei, aquela região possuía o menor dos laboratórios do Sul, com um investimento quase nulo – Nada a ver-se, francamente. Toda a pesquisa de lá é derivada da Evite. Sabem nada que não saibamos.
– Cala a sua boca – apontou o dedo para o meio dos meus óculos e foi em direção ao elevador – a menos que tenha algo a dizer que eu ache importante.
Não demoniza-me ao chamá-lo de pirralho.
– Recebeste outra daquelas caixas – Fechei os olhos e tirei meus óculos para limpar as lentes negras. Os deuses guiaram-me para não perder-me do nobre e, antes que retrucasse-me, adicionei – Não foi um descartável, desta vez.
Coloquei os óculos a tempo de vê-lo distorcer o rosto em interesse, e que ao mesmo tempo ordenava-me a contar mais.
– Achou-se um broche de nível 3 com a vítima. A caixa já foi mandada à Rhyivai.
Ele acelerou o passo, portanto não era necessária, por ora, então fui na direção oposta. Apenas imagino o que estaria acontecendo na cabeça do rapaz.
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